Edição 244 | 19 Novembro 2007

Encontros de Ética

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IHU Online

Culpa: sentimento auto-excludente

“O sentimento de culpa é, no íntimo, motivo de orgulho para quem o sente”, e o sentimento de autopunição aumenta a sensação de onipotência, ou seja, o orgulho de si mesmo. A opinião é de Paulo Sergio Rosa Guedes e Julio Walz, e faz parte do novo livro deles, intitulado O sentimento de culpa (Porto Alegre: Edição do autor, 2007).

Em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, eles esclarecem que esse sentimento não é “algo que assola o indivíduo”, mas sim, “um sentimento criado, mantido e cultivado pela própria pessoa com a intenção, clara e indiscutível, de procurar algum grau de auto-valorização”.

Walz é psicólogo clínico, graduado em Psicologia, pela Unisinos, e doutor em Ciências Médicas, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Atualmente, é pesquisador do Laboratório de Psiquiatria Molecular do Hospital de Clinicas de Porto Alegre. 

Paulo Sergio Rosa Guedes é médico, graduado em Medicina, pela Fundação Faculdade Federal de Ciências Médicas de Porto Alegre, e especialista em psicanálise, pelo Instituto de Psicanálise da Sociedade Psicanalítica, de Porto Alegre. Atualmente, ele é professor convidado do curso de especialização em Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Ulbra.

Julio Walz estará participando do Encontro de Ética, no Instituto Humanitas Unisinos – IHU, nesta segunda-feira, dia 19-11-2007. O evento ocorre na sala 1G119, às 17h30min.
Entrevista com Paulo Sérgio Rosa Guedes e Julio Walz

IHU On-Line - Os senhores acabam de lançar o livro O sentimento de culpa. Que aspectos novos os senhores abordam no livro?
Paulo Sergio Rosa Guedes e Julio Walz -
Explicitamos em nosso livro o conceito de sentimento de culpa como algo bem diverso das idéias correntes sobre o mesmo. Nós pensamos, com convicção, que o sentimento de culpa não é algo que assola o indivíduo ou do qual o indivíduo se sente tomado e/ou vítima, mas, sim, consideramos o mesmo como um sentimento criado, mantido e cultivado pela própria pessoa com a intenção, clara e indiscutível, de procurar algum grau de autovalorização. Esta autovalorização, ilusória obviamente, se desenvolve através do esforço de tentar ser, e/ou sentir ser, o causador de tudo, o “centro do mundo” e com a nítida convicção de que tudo dependeu, depende e dependerá dela. Em outras palavras, o sentimento de culpa é um sentimento megalômano, um sentimento delirante de grandeza.

A abordagem do livro é justamente a de tentar mostrar que culpa e responsabilidade são sentimentos auto-excludentes. Quem se sente culpado não se sente responsável e vice-versa. Tal abordagem, tanto quanto sabemos e pesquisamos, é de certa forma inédita nos escritos sobre o tema.

IHU On-Line - O tema da palestra, no IHU, do Dr. Julio Walz terá como temática a discussão “quem sente culpa não ama”. Os sentimentos de culpa e amor estão interligados e relacionados, em nossas vidas?
Paulo Sergio Rosa Guedes e Julio Walz -
Absolutamente, não estão nem interligados e nem relacionados. A culpa e o amor são de uma incompatibilidade extraordinária: um não se mistura com o outro. São sentimentos inversamente proporcionais. Quanto maior um, menor o outro. A pessoa que se sente culpada não gosta de si mesma e, portanto, não admite ser gostada por outro, por mais contraditório que isto pareça à primeira vista. Ou ainda, como a pessoa não gosta de si mesma, ou melhor, não construiu sua vida de dentro para fora, exige que os outros gostem dela, para que se sinta tratada como se fosse o “centro do mundo”. Tal circuito, nitidamente, torna-se infinito e sem saída.

IHU On-Line - Como o sentimento de culpa influencia na autopunição ?
Paulo Sergio Rosa Guedes e Julio Walz -
Em nada. O sentimento de culpa é, no íntimo, motivo de orgulho para quem o sente, por mais incrível que isto possa parecer. E a chamada autopunição só aumenta a sensação de onipotência, ou seja, o orgulho de si mesmo.

Um exemplo pode ajudar nesta questão: uma criança está em casa brincando. O pai chega irritado e, de repente, bate na criança que sadiamente brincava. A criança, por ser indefesa e desproporcionalmente inferior, inverte seu sentimento de raiva e a transforma em culpa. Ou seja, ao invés de considerar seu pai um louco, prefere sentir e pensar que ela de fato fez algo de muito errado. Sente-se a causadora total do descontrole do pai, chegando ao ponto, inclusive, de dar-lhe razão pela agressão sofrida. Ao fazer isto, ela se autovaloriza, sente-se causadora de tudo e, por fim, protege-se da solidão e passa a aceitar naturalmente um pai violento. Ou melhor, prefere sentir-se a causadora da sua dor do que viver sem pai.

IHU On-Line - Se não curado, de que maneira o sentimento de culpa pode interferir negativamente na vida social e amorosa das pessoas?
Paulo Sergio Rosa Guedes e Julio Walz -
Através da presença constante de verdades absolutas, de conceitos como certo e errado, de parâmetros que supostamente devem ser mantidos na vida etc. Em outras palavras, faz da vida social e amorosa das pessoas uma disputa e não um convívio. A pergunta poderia ser feita de maneira mais provocativa. É possível querer largar o sentimento de poder? Um sentimento que delirantemente nos faz acreditar que nos aproximamos da vida, nos torna o centro do mundo, causadores de tudo além da falsa impressão de que tudo depende de nós? Quem é o “louco” que iria querer largar isto?

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