Edição 244 | 19 Novembro 2007

Conversando com Vieira

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IHU Online

Marcus Alexandre Motta é professor no Departamento de Língua Portuguesa, Literatura Portuguesa e Filologia da UERJ. No artigo que segue, ele fala da atualidade da pregação de Antônio Vieira, a partir da visão de mundo do jesuíta cujo fundamento estava na profunda certeza na presença de Deus em tudo e em todos, ou, em suas próprias palavras, o jesuíta era alguém que apreendeu na própria vida mundana o valor absoluto da fé.



Graduado em História pela Universidade Santa Úrsula, do Rio de Janeiro, Marcus Motta é mestre em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, com a dissertação O imaginário da conversão: retórica, missão e fé nas cartas de José de Anchieta, e doutor em História, pela UFRJ, com a tese Essa nova e nunca ouvida história: escrita e história na História do Futuro de Antônio Vieira. É também pós-doutor, pela Universidade de Lusíada, Portugal. Motta é autor de Anchieta - Dívida de papel (Rio de Janeiro: Editora FGV, 2000); Antônio Vieira - Infalível naufrágio (Rio de Janeiro: Editora FGV, 2001); e Desempenho da leitura - Sete ensaios de Literatura Portuguesa (Rio de Janeiro: Sete Letras, 2004). Durante o Seminário Internacional A Globalização e os Jesuítas, que aconteceu na Unisinos de 25 a 28 de setembro de 2006, o professor Marcus Alexandre Motta foi responsável pela palestra “Antônio Vieira: um jesuíta milenarista”. Na ocasião, concedeu uma entrevista para a IHU On-Line, falando sobre Antônio Vieira, publicada na 196ª edição, de 18 de setembro de 2006. O texto de sua conferência foi publicado no primeiro volume dos Anais do Seminário Internacional A Globalização e os Jesuítas – origens, história e impactos, organizado por Maria Clara Bingemer, Inácio Neutzling e João Mac Dowell, e publicado, neste ano, pelas Edições Loyola, de São Paulo. 

Se sabes de algo, cala. Calo, pois, de mim para mim. Calando, anoto tudo neste papel enquanto me sinto algo suspeito, já que pretendo dar a conhecer o encontro que tive com o Padre Antônio Vieira, da Companhia de Jesus. Se alguém colocar dúvidas sobre o encontro, digo que não tenho como gerar provas contundentes. Por não tê-las, exercito-me como alguém que limpa a verdade com um estranho lenço de letras, gostando de ver luzente a face daquela feminina teimosia; isso, de algum modo, faz-me suavemente recordar que sou mortal.

Estava sozinho no escritório, tendo diante de mim toda a extensão do recinto. Lia, pouco interessado, um romance português contemporâneo. Senti-me afetado por um suspiro de ar. A lufada não vinha da janela, do lado esquerdo. Chegava contrário. Tirei os olhos do livro. Erguendo a cabeça, olhei.

Ali estava, instalado numa cadeira de espaldar alto que antes não estava. Roupeta negra desgastada e de face e olhos afeiçoados pela eternidade. A barba encorpada e alva, tendo nas pontas pequenos cristais de tempo. Em uma das mãos uns alfarrábios gastos, de uma escrita perdida que foi estar com ele depois da morte. Na outra, peças arranjadas por penas de aves, semelhante àquelas dos seus índios do Maranhão. Falava um português extremamente melodioso, que na sua voz arranhada ganhava, por entonações ácidas, uma gravidade de som soprado em concha.

Quem és? - perguntei apressado. Respondeu-me a voz calma, vagarosa.

- Sou aquele com quem esteve durante anos, nos seus estudos de doutoramento.

Antônio Vieira tinha as linhas da alma atlântica há muito esquecida. Era ainda corpulento. As pálpebras tinham desaparecido. Senti-me suficientemente acolhido. Não tardei a supor a possibilidade de conversa. Olhava para mim, insinuando que estava ali para isso - mas nada dizia; pacientemente aguarda.

Sem intermediações, perguntei: do lugar que observa este nosso mundo, não lhe parece que a globalização cumpre, pelo avesso, os anseios do seu Quinto Império?

- Não é assim tão fácil fazer uma ligação, mesmo pelo avesso. O mundo globalizado atende à totalidade da Criação que os descobrimentos portugueses colocaram à vista da cultura cristã. É nela que nasce o anseio da paz universal, sob o jugo de uma única coroa. Mas o sentido da história e do mundo para um cristão não pode estar impresso na evidência de um fato como esse. Ele só deve ser pensado como símbolo de uma contingência pretérita que antecipa um futuro sem erro. Enquanto isso não se esclarece, devo ainda dizer (escrevi algo assim no meu Livro Anteprimeiro da História do futuro), que o mundo, seja este de agora ou de qualquer outro, é um teatro; os homens, tão ciosos de seus poderes ou desgraças, as figuras que nele representam. E a história verdadeira de seus sucessos, uma comédia de Deus, traçada e disposta maravilhosamente pelas idades de sua Providência. E como o primor e a sutileza da arte cômica consistem, principalmente, naquela suspensão do entendimento sobre o que está acontecendo, o enredo da Comédia vai-nos levando pendentes sempre de um sucesso ou desgraça a outro sucesso ou desgraça de nossas compreensões e estada no mundo. Encobre, por determinação divina, o fim da história, sem que se possa saber ao certo onde o mesmo mundo irá parar. Só adquirimos alguma idéia quando se vai chegando próximo ao desentendimento total, que me parece ser o que hoje acontece, e, nessa aproximação quase absurda, se descobre, subitamente, entre a expectação e o aplauso, Deus, soberano Autor e Governador do Mundo e perfeitíssimo Exemplar de toda a natureza e arte.

Fez uma pausa, tocando com as pontas dos dedos a textura dos papéis sob o seu braço direito. Assentou-se melhor na cadeira, dando a impressão que iria levantar. Falou.

— Os enganos expressos na compreensão da globalização, pelo menos para um cristão, é não perceber que Deus, para maior manifestação de sua glória e admiração, de tal maneira nos encobre as coisas futuras (mesmo quando mande sinal profético inclinado nos fatos humanos) que não nos deixa compreender nem alcançar os segredos dos seus intentos, senão quando já têm chegado ou vão chegando os fins deles; para nos ter sempre suspensos na expectação e pendentes de sua Providência. E é esta a regra, e não há outra para um cristão (com pouquíssimas exceções), tão comum em Deus e seus decretos que, ainda que os sinais sejam muitos claros, atravessam entre eles e os nossos olhos certas nuvens, com que suas clarezas se nos faz escura - é essa a nossa condição humana!

Fiquei sem entender. Esperava uma resposta que se assemelhasse com qualquer uma que eu pudesse imaginar. Havia esquecido que tipo de jesuíta e artista era ele. Ainda levei um tempo para me dirigir novamente a ele. Ficou olhando para chuva que caía, suspirando profundamente e entrelaçando os dedos. Tive uma sensação estranha. E, portanto, resolvi argumentar.

- Mas Padre! Como posso admitir a sua compreensão? Alguns séculos se passaram e alguns instrumentos de análise foram inventados. Não posso simplesmente acreditar na Providência como espetáculo que nos fará entender o desenlace da Comédia de Deus. Para tanto, deveria ter fé no Juízo Final. Isso me levaria a abandonar uma intelectualidade capaz de compreender o fenômeno da globalização e, se isso acontecesse, deixaria de me horrorizar com as dores e as mazelas humanas.
Como devo tão facilmente me pôr como cristão, sem dúvidas, para explicar o fenômeno da globalização?

Olhando para o teto, o Padre Vieira iniciou o comentário.

- Sei que é um desespero o esperar, tornando frágil a nossa esperança em Deus. Senti isso quando acreditei que atos ao lado dos poderosos pudessem produzir situações que solucionassem muitos problemas, bem parecidos com aqueles que hoje se vê. Mas, para tal coisa, fui obrigado a usar de artimanhas, jogos de poder e abusar da inteligência - seja na corte ou na própria Companhia. Devo dizer que não poderia defender essa forma de agir. E, quando falo de Providência, não quero dizer que não seja necessário tomar providências, e, me contrapondo ao seu argumento, digo que uma das providências a ser tomada é não esquecer que não há estudioso, por mais diligente investigador que seja, que não escreva por informações. E que informações há de homens que não vão envoltas em muitos erros, ou da ignorância, ou da malícia? Que estudioso haverá de tão limpo coração que não estude o fenômeno da globalização e inteiro amador da verdade que não incline só o respeito, a lisonja, a vingança, o ódio, o amor da sua, ou da alheia nação, do seu ou do estranho líder? Ora, todas as penas nasceram em carne e sangue, e todos na tinta de escrever misturam as cores de seu afeto.

Atormentado, fiquei. Vieira havia desenvolvido um argumento difícil de rebater. Tinha, agora, um sorriso jesuítico - de quem apreendeu na própria vida mundana o valor absoluto da fé. E mesmo antes de ouvir o que eu ia perguntar, como se estivesse a escutar meu pensamento, se pôs a responder.

- Não entendo a sua pergunta. Como pode querer duvidar da messiânica tarefa que só a nós, cristãos, cabe? Há muita teologia de tipo abutre que toma saberes laicos para dar adequação da fé ao mundo. Isso é um erro crasso da pretensão humana. Crendo, há de crer, se não se crê no que há de crer, messianicamente, pouco há de fé naquilo que se conhece. Claro que nossa inteligência é coexistente ao plano de Deus, mas isso não precisa gerar mais dúvidas do que o devido. É evidente que nenhuma coisa se pode prometer à natureza humana mais conforme a seu maior apetite, nem mais superior a toda a sua capacidade que a notícia dos tempos e sucessos futuros. Você sabe que não há questão sobre a globalização que não tenha como mote indelével a preocupação com o futuro da humanidade - palavra que aprendi com os séculos. Mas, como cristãos, é-nos imperativo não nos determos em escritas que falem do passado para os futuros. Nossa obrigação é escrever o futuro para o presente - já que, para todo homem de fé, todo o passado é uma recordação antecipada de futuro. É esta impossível pintura que carecemos fazer: antes dos originais retratar as cópias.

Minha alma se preencheu de vergonha e júbilo. A tarefa era muito óbvia. Se eu me digo cristão, como podia ter deixado de compreender o fenômeno da globalização sem os parâmetros da esperança. Alguma coisa havia ocorrido entre a convicção do Padre Antônio Vieira e os meus estudos. Sem demora, perguntei: e como faço para compreender, sendo cristão, o fenômeno da globalização?

Esteve alguns momentos erguido na alma, embora o corpo me parecesse ajoelhar perante um altar que em sua mente estava. Havia um descompasso, como a arquitetura jesuítica, entre a independência do seu fora e a autonomia do seu dentro. Não me parecia se importar, diretamente, com a pergunta. Certo pudor se pôs na sua face eternizada e um brilho desenhou no seu peito a silhueta do Atlântico. Tomado pela expressão da imagem, disse.

- A nossa história já descobriu novas regiões e novos habitantes, agora é necessário empreender a busca por um novo hemisfério do tempo. Este haverá de equivaler à obra de Deus, em gratuidade e amor, fazendo pasmar aos homens a descoberta deste mundo, ainda incógnito e ignorado. Nem maior nem mais justo temor deva causar aos que bem ponderarem esta obra, que a consideração dos ocultos juízos de Deus, que nesses dois milênios permitiu que aquele novo hemisfério de tempo não nos fosse revelado, muito por nossa culpa. Tão breve noite para os corpos e tão comprida noite para as almas, se não tivermos a obrigação, nesse mundo globalizado, de nos colarmos na aventura que nos falta. Mas, sós e solitariamente entramos nela, sem companheiro nem guia, sem estrela nem farol, sem exemplar nem exemplo. O mar dessa aventura é imenso, as ondas de nosso entendimento, espessas, a noite do motivo escuríssima, mas nos aventuramos na espera que o Pai dos lumes salve a nossa frágil barquinha.

Interrompi, falando coisas desconexas até dizer: isso que o senhor fala é profecia? Ele me deu atenção, buscando, em mim, sensato arrebatamento. Logo depois, continuou.

- Se houve um profeta que foi mais que profeta, por que não haverá também algumas profecias que sejam mais que profecias? Assim espero eu que sejam estas que fundam as esperanças e prometem as felicidades futuras que hão de se mostrar no presente de nossa última aventura. Agora as prometo, junto a você, com a voz, depois as mostrarão com dedo. Será o mundo passado, e este mundo presente e essa aventura, o mundo futuro, que, unidos, formarão o mundo inteiro, como correspondente à expressão Fiat Lux. Só assim, hoje, pode-se tomar o tema globalização; pois é importante saber que, para um cristão, todo esse processo acorda com um momento em que possamos, eu lá e vocês aqui, aventurar-nos numa nova e nunca ouvida história. E, se isso parece pertencer à literatura, é porque só ela ainda é capaz de fazer valer o que para mim valeu: tornar o acontecimento globalização uma esfera de esperança, na certeza de que, se Deus prometeu, ele não pode nos faltar.

Baixei os olhos. Antônio Vieira havia desaparecido e, com ele, aquela cadeira. Estive por longos minutos a meditar suas últimas palavras. Logo, a tristeza se apoderou de mim e só pude encontrar um lamento na posição que assumi sobre a mesa, escrevendo num papel avulso, um pouco inclinado: constitui sempre a onipotência fictícia de um narrador tanto a pretensão do real metamorfoseado em como se não, quanto a medida sugerida pelo sentido reforçado de aflição: oh, se isso acontecesse!
Alguém me chama.

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