Edição 232 | 20 Agosto 2007

A contribuição da mídia para a formulação de uma política de memória

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

IHU Online

A jornalista e professora do Programa de Pós-graduação em Comunicação da Unisinos Christa Berger concedeu a entrevista que segue, por e-mail, à IHU On-Line, falando sobre o tema Cultura da memória no Brasil - o passado retorna pela mídia, que ela conduzirá na próxima edição do evento Encontros de Ética, promovido pelo IHU no dia 27 de agosto, das 17h30min às 19h na Sala 1G119.

Pós-doutora pela Universidade Autônoma de Barcelona (UAB), Espanha, e doutora em Ciências da Comunicação pela USP, com a tese Campos em confronto: jornalismo e movimentos sociais – As relações entre o Movimento Sem Terra e a Zero Hora, Christa é mestre em Ciência Política, pela Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM). É também autora de Campos em confronto: a terra e o texto (Porto Alegre: Editora da Universidade - UFRGS, 1998) e uma das organizadoras do livro O jornalismo no Cinema (Porto Alegre: Editora da Universidade - UFRGS, 2001). Confira as entrevistas concedidas por Christa Berger na 172ª edição da revista IHU On-Line, de 20 de março de 2006, sob o tema Há vida fora da Terra? As contribuições da exobiologia e na 202ª edição, de 30 de outubro de 2006, intitulada Mídia e Política.

IHU On-Line - Como se caracteriza a cultura da memória no Brasil?
Christa Berger -
Penso que a questão de fundo da memória não tem especificidades nacionais. Ela se engancha nos indivíduos como necessidade humana, se articula entre a necessidade de lembrar e de esquecer, é estruturante da nossa subjetividade. Cito Alfredo Bosi , que enfatiza o lugar da linguagem para pensar a memória. “A memória articula-se formalmente e duradouramente na vida social mediante a linguagem. Pela memória, as pessoas que se ausentaram fazem-se presentes. Com o passar das gerações e das estações, esse processo cai no inconsciente lingüístico, reaflorando sempre que se faz uso da palavra que evoca e invoca. É a linguagem que permite conservar e reavivar a imagem que cada geração tem das anteriores. Memória e palavra, no fundo inseparáveis, são a condição de possibilidade do tempo reversível. Eu me lembro do que não vi porque me contaram. Ao lembrar, reatualizo o passado, vejo, historio o que outros viram e me testemunharam... O diálogo com o passado torna-o presente. O pretérito passa a existir, de novo.”

Mas sua pergunta é sobre a cultura da memória. Esta sim tem a cara do País: lembrar dos traumas históricos para culpar, punir, regenerar, reparar, anistiar. O retorno do passado enquadrado na cultura de massa é um fenômeno contemporâneo e percorre os diferentes países - com mais intensidade naqueles que têm traumas para elaborar, - adquirindo características locais. No Brasil, onde a cultura tem se manifestado de forma midiática, portanto, espetacular e mercadológica, o nosso passado traumático – a ditadura militar com suas conseqüências políticas - retorna marcado pelo seu potencial de consumo.

A ascensão da memória, como manifestação cultural, política e midiática, carrega uma ambigüidade. É compromisso histórico, mas é, também, uma manifestação cultural com potencial mercadológico. E estes sentidos são muito disputados – lembrar porque não nos é permitido esquecer (compromisso da rememoração para aprender com o passado) ou lembrar para esquecer – “a amnésia feliz” como afirma Felinto , identificando-a com o discurso programático da pós-modernidade.

IHU On-Line – Qual é a importância da mídia e do jornalismo para a memória dos fatos que envolvem um país?
Christa Berger -
É muito importante, porque retorna aos traumas através dos testemunhos, dá forma às lembranças e contribui com a formulação de uma política de memória, que todo país deve ter. O trabalho de memória, diz Todorov , evocando uma imagem renascentista, se submete a duas exigências: fidelidade para com o passado e utilidade no presente. E é por este ângulo que ele examina exemplos da literatura de testemunho das duas experiências de totalitarismo que marcaram o século XX: o nazismo e o stalinismo.

Para o autor, há três estágios de relação entre passado e presente, mediados por um narrador: no primeiro a relação é de testemunho, o sujeito conta o que viveu; no segundo, os narradores são os historiadores que contam o que aconteceu; no terceiro, são os comemoradores, que propõem a celebração do passado. Os dois primeiros são clássicos e já bastante compreendidos, o terceiro é fenômeno da cultura de massa e pode ser observado na monumentalização, espetacularização e museologização do passado. Acrescento um quarto estágio, que se confunde com o terceiro, pois também pertence à lógica da cultura de massa, mas dele deve ser distinguido que corresponde à narrativa dos atualizadores do passado que são os jornalistas e que encontram na imprensa seu lugar de existência.

A cultura da memória destaca o indivíduo que lembra, que pode testemunhar aquilo que viveu. O cinema e o museu exemplificam a tendência à rememoração na cultura visual e o jornalismo acompanha a cultura visual, divulgando e comentando o filme e a exposição e trazendo o testemunho (dos sobreviventes) como fonte da informação. Neste sentido, a cultura da memória se vincula ao passado através de relatos orais e ao presente pelas narrativas que se apresentam em diferentes gêneros e suportes técnicos provenientes de diversas matrizes.

Cultura de massa e memória

É na cultura de massa que o trabalho de memória acrescenta novas questões e interrogações sobre a função do passado. O método da produção jornalística garante fidelidade ao passado? Qual pode ser a utilidade da memória quando enunciada pela Indústria Cultural? Será ela comercial, política, pedagógica, ilustrada? Ou virá para ajudar a historicizar tudo, e, assim, diluí-la na vala comum das lembranças. Seguramente, estas funções se confundem e se mesclam. Zygmunt Bauman  observa que os filmes produzidos pela indústria do Holocausto tiraram o tema das salas de arte e os trouxeram para os shoppings centers e, agora, os espectadores podem assistir estórias deste tema sob “uma forma saneada, esterilizada e assim, em última análise, desmobilizante e consoladora”, sem prejudicar o lanche de pipoca e refrigerante.

IHU On-Line - O que caracteriza a forma como a mídia transporta e transmite a memória pública?
Christa Berger -
O jornalismo não transporta a memória pública, histórica ou coletiva de maneira inocente, mas, no enlace com um novo acontecimento, a condiciona e acomoda na sua própria estrutura e forma. Portanto, o passado, ao retornar ao presente da imprensa, é trabalho de memória, e algumas perguntas são: que memória é ativada; a que interpretação histórica corresponde; qual sua utilidade no presente; o que revelam os fatos acontecidos no passado e qual o sentido que eles adquirem quando atualizados pelo jornalismo?

Trago um exemplo da rede de sentidos que constituem o trabalho de memória e como estão em disputa a contribuição que a mídia dá para o não esquecimento e a versão conveniente que ela apresenta.

O texto promocional do DVD Anos Rebeldes, a série exibida em 1992 que contava a história de jovens que lutaram contra a ditadura militar, é exemplar da versão conveniente da Rede Globo. 1992 foi também o ano do impeachment de Collor, e muitos associaram na ocasião o engajamento dos jovens com a exibição da série.

A Globo Vídeo traz o seguinte texto no lançamento em 2003, da versão compacta da minissérie:

“E se o golpe militar não tivesse acontecido? E se a revolução sexual não estourasse? E se não existisse o Cinema Novo, a era dos Festivais e o teatro Opinião? E se não houvesse um mundo dividido entre direita e esquerda? E se rótulos como alienado, engajado, revolucionário e reacionário jamais tivessem tido peso? E se os hippies não começassem a usar calça jeans? E se a individualista Maria Lúcia jamais se apaixonasse pelo idealista João? E se a doce burguesa Heloísa não partisse para a luta armada? E se uma certa minissérie não fosse exibida em 1992, no momento em que os estudantes pintavam a cara para pedir pelo impeachment do presidente Fernando Collor?”.

Diz Bucci  que duas associações merecem reparos: o lado que a Globo se coloca neste texto promocional não é o mesmo lado que estiveram seus telejornais; por outro, a associação direta de influência entre a série e o movimento dos jovens contra Collor não é tão decisivo como o texto insinua. Ou seja, narrar o passado tem implicações que só o estudo regular dá conta de observar e entender.

Últimas edições

  • Edição 542

    Vilém Flusser. A possibilidade de novos humanismos

    Ver edição
  • Edição 541

    Planos de saúde e o SUS. Uma relação predatória

    Ver edição
  • Edição 540

    Hans Jonas. 40 anos de O princípio responsabilidade

    Ver edição