Edição 232 | 20 Agosto 2007

Para Celso Furtado a política econômica não pode ter a estabilização como um fim em si mesmo

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IHU Online

Para Celso Furtado, “a política econômica não pode ter a estabilização como um fim em si mesmo, sendo o fim último a melhoria do bem-estar, o que se consegue com mais renda e emprego”. A afirmação é do professor e vice-reitor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Pedro Cezar Dutra da Fonseca. Para o professor, a importância da obra de Celso Furtado está em “fazer uma reflexão sobre o subdesenvolvimento da América Latina”. Ele ressalta que “Furtado é possivelmente o mais keynesiano dos cepalinos”. Fonseca deu esta e outras declarações na entrevista a seguir, concedida por e-mail para a IHU On-Line. No próximo dia 22-08-2007, Fonseca irá ministrar sobre o pensamento econômico de Celso Furtado, no III Ciclo de Estudos Repensando os Clássicos da Economia. O evento ocorre das 19h30 às 22h, na Sala 1G119.

Fonseca possui graduação e mestrado em Economia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e doutorado em Economia pela Universidade de São Paulo. É autor de BRDE: da hegemonia à crise do desenvolvimento (Porto Alegre: Editora Gráfica Metrópole S.A., 1988). Confira uma entrevista concedida pelo professor Pedro Cezar Dutra da Fonseca  à revista IHU On-Line número 183, de 05-06-2006.

IHU On-Line - Qual é a principal contribuição do pensamento econômico de Celso Furtado para as reflexões econômicas e políticas nacionais e para o desenvolvimento econômico brasileiro? Onde entra a importância de Formação Econômica do Brasil?
Pedro Cezar Dutra da Fonseca -
Celso Furtado  foi o mais importante economista brasileiro de sua geração. É o nome mais conceituado dos intelectuais desenvolvimentistas da CEPAL , talvez só superado em influência intelectual e política pelo argentino Raul Prebisch , que foi o primeiro presidente dessa instituição. A importância de sua obra está em fazer uma reflexão sobre o subdesenvolvimento da América Latina. Desde as primeiras obras, sua preocupação central era indagar as razões do atraso da América Latina, porque a miséria persistia ao longo do tempo, assim como as desigualdades regionais. Antes dele, eram comuns as teses que atribuíam os baixos indicadores sociais e econômicos a fatores naturais – geográficos, físicos e biológicos -, como o clima tropical e as raças. Com Celso Furtado, o “atraso” transformou-se em “subdesenvolvimento” e sua contribuição foi decisiva para elucidar suas razões históricas e sociais. O subdesenvolvimento não se tratava de mera etapa, como se a América Latina estivesse em uma fase atrás dos países europeus e que um dia chegaria lá, por uma linha evolutiva; se nada se fizesse, o subdesenvolvimento tenderia a se perpetuar, pois – e esta era outra tese sua - mostrava uma tendência à reprodução. Com isso, a teoria de Furtado incitava à ação, ao planejamento, à práxis, ou seja, a uma atitude consciente a ser tomada pelos governos para reverter uma situação histórica. E aqui se nota seu humanismo: a História não é uma fatalidade, nem decorre de causas naturais, mas é construída pelos homens.
 
IHU On-Line - A "sombra" e a herança de Celso Furtado podem ser percebidas na forma de conduzir e pensar a economia no Brasil hoje?
Pedro Cezar Dutra da Fonseca -
O processo de substituição de importações é um modelo que não tem retorno. Hoje, o mundo é outro e a economia brasileira já é industrializada, não fazendo mais sentido a crença de que a industrialização venceria a barreira do subdesenvolvimento. Mas a idéia de desenvolvimento como tema central continua na ordem do dia. A tese mais cara de Furtado, que acompanha toda sua obra, é a de que a reversão da miséria e da desigualdade poderia ser feita através de políticas de crescimento econômico, com geração de produção e emprego. Há algo mais atual do que isso? E, ao contrário dos marxistas, acreditava que isso poderia ocorrer dentro do sistema capitalista, como outros países haviam feito. Ao longo de sua obra, evidencia-se que nunca acreditou na tese de que o imperialismo impediria o crescimento dos países periféricos, nem que era necessário “explorar” outros países para crescer, como se a economia internacional fosse um jogo de soma zero. Países como Finlândia, Noruega e Dinamarca possuem ótimos indicadores sociais e nunca foram potências nem “imperialistas”.

IHU On-Line - Quando se fala na necessidade de um projeto de desenvolvimento nacional para o Brasil um dos primeiros nomes que vêm à tona, como inspiração, é Celso Furtado. O que faz dele um nome a ser lembrado na hora de traçar um projeto, rumos para o País? 
Pedro Cezar Dutra da Fonseca -
O nome dele sempre será lembrado porque não somente foi o pioneiro, mas o mais consistente batalhador pela causa do desenvolvimento. Junto com Mario Henrique Simonsen , Furtado é o economista brasileiro mais conhecido no exterior e sua obra é traduzida para inúmeras línguas. A área de “Economia do Desenvolvimento”, ou “Desenvolvimento Econômico”, praticamente não existia antes da obra de Furtado e de outros economistas cepalinos. Nos cursos de Economia, lecionava-se apenas Macroeconomia e Microeconomia; geralmente o estoque de capital era considerado dado na maior parte dos modelos. A partir desses estudos, o crescimento do estoque do capital passou a ser a variável por excelência, indo ao encontro do trabalho de outros economistas do primeiro mundo, como Kaldor , Myrdal , e Solow . Algumas medidas propostas por ele não fazem mais sentido, mas o objetivo maior, como já mencionei, continua em pé: a política econômica não pode ter a estabilização como um fim em si mesmo, sendo o fim último a melhoria do bem-estar, o que se consegue com mais renda e emprego. Furtado é possivelmente o mais keynesiano dos cepalinos e isto se deve, em parte, a um período em que estudou em Cambridge, na Inglaterra, ao final da década de 1950.

IHU On-Line - Considerando que o cenário brasileiro atual é bem diferente do cenário vivido por Furtado, o pensamento desenvolvimentista da Cepal teria ainda lugar na sociedade brasileira hoje? 
Pedro Cezar Dutra da Fonseca -
Há lugar para ele, uma vez que o debate entre desenvolvimentismo versus ortodoxia está na ordem no dia. Quando se pensa que está superado, reatualiza-se. Isto não é questão de opinião; é um fato. Todavia, é um mito imaginar que o pensamento desenvolvimentista brasileiro, como o de Furtado, negasse a importância da estabilidade. A maior prova é o Plano Trienal , do Governo Goulart , elaborado por ele, como ministro do Planejamento, e que entendia que com inflação crescente, déficit público fora de controle e balanço de pagamento estrangulado não poderia haver crescimento. Ele foi muito criticado à época por isso, mas sua posição era cristalina: a estabilidade era importante, mas não poderia ser o epicentro da política econômica nem um fim em si mesma. Esta era sua diferença com a ortodoxia.

IHU On-Line - Com que olhos o senhor acha que Furtado veria a atual política de juros e a política cambial de Lula?
Pedro Cezar Dutra da Fonseca -
Nos últimos anos de vida, a partir de meados da década de 1980, Furtado foi se tornando cada vez mais pessimista. O fenômeno da globalização e a hegemonia do capital financeiro internacional dificultavam a realização de muitos aspectos de seu projeto intelectual, que era, ao mesmo tempo, um projeto de vida. O retorno à ordem do dia do pensamento liberal – agora sob o rótulo de “neoliberal” – surpreendia e trazia à tona idéias que pareciam enterradas desde a década de 1930. O debate parece que retrocedera no tempo. Parte dos aliados abandonou as hostes desenvolvimentistas e passou gradualmente a defender estas idéias, como se viu no governo de Fernando Henrique e depois no de Lula. A política cambial do governo Lula é apenas um exemplo. Do ponto de vista do crescimento, nada justifica uma valorização tão grande do real; setores como o calçadista  e vestuário estão passando por inúmeras dificuldades. Esta valorização apenas causa um efeito-renda, que se traduz em maior consumo no curto prazo, aumentando a propensão a importar. A inflação já é segurada pela política fiscal (o superávit primário) e pela política monetária (taxa de juros); precisaria ainda do instrumento cambial? Há uma “overdose” anti-crescimento que se justificava no governo de Fernando Henrique, quando se precisava reverter a inflação e as expectativas inflacionárias, mas hoje não faz o menor sentido. Verifica-se o que alguns colegas economistas chamam de “novo populismo”: um populismo cambial, que sustenta o consumo de curto prazo, barateia as importações, mas joga seu custo para o futuro. A formação bruta de capital é baixíssima, o que prejudica sobremaneira o crescimento. Neste aspecto, o Brasil vai no caminho contrário ao da China. Pergunte aos chineses por que eles não valorizam sua moeda... A China tem um projeto nacional, algo que hoje no Brasil é considerado coisa do passado. Aqui se confunde, propositalmente ou por ignorância, projeto nacional com o retorno ao processo de substituição de importações. Colocado nestes termos, o desenvolvimentismo torna-se, equivocadamente, coisa do passado, um sebastianismo.

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