“80% do desmatamento da Amazônia se deve à pecuária”

De acordo com o pesquisador Paulo Maurício Lima de Alencastro Graça, integrante do Departamento de Ecologia, Divisão de Bioecologia, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), “a cultura da soja na Amazônia teve um impacto muito grande na floresta Amazônica, principalmente em Mato Grosso, ao longo da rodovia BR-163, no final dos anos 1990, quando ocorreu o boom da soja em conseqüência do seu preço no mercado internacional, que era bastante compensador na época. Porém, o grande vilão da floresta continua sendo a pecuária extensiva, ou seja, a conversão de florestas em pastos para gado bovino. Pode-se dizer que 80% do desmatamento da Amazônia deve-se à pecuária”.

Por: IHU Online

A entrevista foi concedida por e-mail à IHU On-Line.
Alencastro é graduado em Engenharia Florestal pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), especialista em Metodologia de Avaliação de Impactos Ambientais pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e mestre em Ciências Florestais pela Universidade de São Paulo, com a dissertação Conteúdo de carbono na biomassa florestal da Amazônia e alterações após a queima. Doutorou-se em Sensoriamento remoto pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) com a tese Monitoramento e caracterização de áreas submetidas à exploração florestal na Amazônia por técnicas de detecção de mudanças. Escreveu inúmeros artigos especializados e capítulos de livros.

IHU On-Line - Quais as conclusões a que chegou com o monitoramento e caracterização das áreas submetidas à exploração florestal da Amazônia por técnica de detecção de mudanças, objeto de sua pesquisa de doutorado?
Paulo Maurício Lima de Alencastro Graça
- O objetivo principal da minha tese foi desenvolver uma metodologia que pudesse monitorar a atividade madeireira na Amazônia, a partir de dados oriundos de imagens de satélites orbitais, de modo automatizado, inclusive que possibilitasse determinar o grau de degradação dessas florestas exploradas. Este objetivo foi alcançado com sucesso, e atualmente esta metodologia está sendo incorporada no DETEX, programa de monitoramento de atividade madeireira em áreas de concessão florestal na Amazônia, sob responsabilidade do Serviço Florestal Brasileiro/MMA. Este programa contará com a participação de várias instituições governamentais (INPE, IBAMA, SIPAM, INPA e MPEG) e também do IMAZON. É bom ressaltar que as estimativas oficiais de desmatamento do governo não consideram as áreas de desmatamento “oculto” originadas pela exploração madeireira. Um dos resultados encontrados no meu estudo, que focou uma região do pólo madeireiro de Sinop/MT, com cerca de 8 mil km2, revelou que metade da área florestal desta região já tinha sido explorada, no período analisado de 1989 a 2003. Aproximadamente metade das áreas exploradas no período de 2001 a 2003 (355 km2) foi considerada com nível de degradação alto, em decorrência do manejo predatório dos recursos florestais. Isto ressalta a importância de se desenvolver técnicas que possibilitem o monitoramento atividade madeireira na Amazônia via sensoriamento remoto.

IHU On-Line - Entre os inúmeros impactos ambientais do desmatamento, quais são os maiores?
Paulo Maurício Lima de Alencastro Graça
- Podemos destacar três grandes impactos ambientais derivados do desmatamento da Amazônia. O primeiro deles é em relação ao aquecimento global. A floresta amazônica armazena uma grande quantidade de carbono na biomassa das árvores que as constitui. Por sua vez, o corte e a queima da floresta advinda da prática agrícola para implantação de pastagens e culturas agrícolas fazem com que este carbono estocado no lenho das árvores seja liberado para atmosfera na forma de gases de efeito estufa, tais como o dióxido de carbono (CO2), metano, monóxido de carbono etc. Uma parte, cerca de 30%, é liberada prontamente via combustão da biomassa e a outra restante por um processo lento de decomposição bacteriana do material vegetal residual.

O segundo está relacionado ao ciclo hidrológico. A floresta amazônica tem papel fundamental na formação de nuvens que contribuem para as chuvas na região amazônica e até mesmo no sul e sudeste do país. Isto porque as árvores da floresta são capazes de bombear a água que está armazenada no subsolo a grande profundidade (até 18 metros) para a atmosfera, reciclando a própria água que cai na Amazônia. Estudos apontam que cerca de 50% da chuva que precipita na Amazônia é gerada pela própria floresta e os outros 50% da evaporação dos oceanos. Assim a perda de floresta poderia levar a uma redução significativa na quantidade de chuva que cai na Amazônia e na região sul/sudeste, com reflexos negativos na produção agrícola do país.

Por último, mas não menos importante, está a perda de biodiversidade. A floresta amazônica é considerada possuidora de uma das maiores diversidades de organismos vivos do planeta. Essa biodiversidade é de grande importância por armazenar informações que podem ser revertidas em grandes benefícios para a sociedade. Sabemos que a maioria dos fármacos produzidos tem princípios ativos de origem animal ou vegetal e que a indústria farmacêutica movimenta centenas de bilhões de dólares anualmente. A perda da floresta, sem que conheçamos as informações contidas nela, em conseqüência do acelerado ritmo do desmatamento, em média 20 mil km2 ao ano, poderia levar a grandes prejuízos econômicos pela falta de oportunidade de se explorar o recurso que estava disponível.

IHU On-Line - E quais são as probabilidades de que em 100 anos a temperatura da Amazônia aumente em até 8oC e haja uma conseqüente savanização desse ecossistema? Como a floresta tropical reagiria a isso?
Paulo Maurício Lima de Alencastro Graça
- As previsões de savanização da Amazônia, em geral, dão-se em cenários pessimistas, sem que haja iniciativas de mitigação. Assim, caso as tendências atuais continuem, sem que haja uma redução das emissões pelos principais países poluidores (Estados Unidos, Rússia, Japão, China, Alemanha), a probabilidade disto acontecer é muito grande. É lógico que o Brasil tem uma contribuição significativa por suas emissões originadas pelo desmatamento (o desmatamento contribui com 75% das emissões do Brasil). No entanto, quase 80% dos gases de efeito estufa provêm de emissões originadas da queima de combustíveis fósseis. Um aumento da temperatura no nível previsto (8oC), acompanhada de uma grande diminuição das chuvas, pode levar a mortalidade da floresta. Isto tanto pelo risco de incêndios florestais que podem ser tornar mais freqüentes, com o aumento da freqüência de fenômenos El Niño, como também pela mortalidade seletiva de espécies mais sensíveis ao clima mais quente e seco. Como conseqüência disto a paisagem se alteraria radicalmente, passando um tipo de vegetação próximo aos das savanas, com predomínio de gramíneas.

IHU On-Line - De acordo com o Greenpeace, quase 1,2 milhão de hectares de florestas foram convertidos em plantações de soja até 2004. Como a agricultura, e em específico a monocultura, tem contribuído para devastar a floresta amazônica?
Paulo Maurício Lima de Alencastro Graça
- A cultura da soja na Amazônia teve um impacto muito grande na floresta Amazônica, principalmente em Mato Grosso, ao longo da rodovia BR- 163, no final dos anos 1990, quando ocorreu o boom da soja em conseqüência do seu preço no mercado internacional, que era bastante compensador na época. Porém, o grande vilão da floresta continua sendo a pecuária extensiva, ou seja, a conversão de florestas em pastos para gado bovino. Pode-se dizer que 80% do desmatamento da Amazônia deve-se à pecuária.

IHU On-Line - É possível estabelecer uma relação entre a seca ocorrida na Amazônia em 2005 como o desmatamento e a monocultura? Por quê?
Paulo Maurício Lima de Alencastro Graça
- Sim, porém indiretamente. A seca ocorrida na Amazônia em 2005 pode estar relacionada com as atuais mudanças climáticas que vêm ocorrendo no planeta. O aquecimento excessivo do Atlântico Norte foi o responsável pela seca na Amazônia, reduzindo drasticamente a vazão dos afluentes da parte sul do rio Amazonas que vêm da área central do Brasil e também pelo furacão Katrina nos Estados Unidos. Assim como o desmatamento originado pelas pastagens e pela agricultura empresarial na Amazônia contribui para o aquecimento do planeta, é possível estabelecer este tipo de relação causal. É esperado que o efeito estufa torne esses eventos, tais como as grandes vazantes nos rios amazônicos, mais extremos e freqüentes.

IHU On-Line - Quanto à exploração madeireira, quais são as espécies de árvores que estão ameaçadas e o que isso representa em impactos ambientais?
Paulo Maurício Lima de Alencastro Graça
- A indústria madeireira explora poucas espécies de árvores. Atualmente são exloradas na Amazônia cerca de 350 espécies, o que ocasiona uma pressão muito grande em espécie de maior valor, tais como o mogno e a virola, que já foram consideradas pelo governo como espécies com alto risco de extinção, o que o levou a decretar a moratória dessas espécies em 1996, proibindo sua exploração até 2003. Na região de Sinop verifiquei uma grande pressão sobre o cedrinho (Erisma sp.), uma espécie de grande procura pelas serrarias para fabricação de móveis. O impacto ambiental mais evidente é a extinção dessas espécies levando a grandes perdas econômicas e, conseqüentemente, ao empobrecimento da floresta.

IHU On-Line - O governo federal tem uma política florestal específica para a Amazônia? Qual deveria ser o papel governamental frente a essa questão?
Paulo Maurício Lima de Alencastro Graça
- Creio que sim. O atual governo criou o Serviço Florestal Brasileiro com o objetivo de regulamentar a gestão de florestas em áreas públicas na Amazônia, e o Fundo Nacional de Desenvolvimento Florestal voltado para o desenvolvimento tecnológico, promoção da assistência técnica e incentivos para o desenvolvimento florestal sustentável. Além disso, temos também o Plano Amazônia Sustentável (PAS), que conta com a colaboração dos governos estaduais, numa iniciativa de desenvolver um modelo econômico sustentável baseado no uso da floresta em pé, agregando valor aos produtos da floresta (fibras, óleos, frutos etc.), a partir de avanços tecnológicos.

Penso que a Amazônia deveria ter por vocação natural o setor florestal como base da sua economia. Neste sentido, acho que um dos papéis do governo frente a essa questão seria de investir massivamente nas instituições de pesquisa para ampliar cada vez mais os conhecimentos sobre o manejo adequado da floresta com o objetivo de garantir a sustentabilidade e aumentar a lucratividade dos recursos florestais. Apenas com uma floresta valorizada economicamente, tanto por seus recursos madeireiros como pelos não-madeireiros (incluindo até mesmo os serviços ambientais prestados pela floresta), poderemos garantir a sua manutenção por longo prazo. Além disso, devem-se manter os programas de combate aos desmatamentos ilegais na Amazônia.

IHU On-Line - Quais são os maiores mitos ambientais que envolvem a Amazônia? A tão repisada questão de que esse ecossistema não faria mais parte do mapa brasileiro é um deles? Qual o fundamento dessa afirmação que circula, sobretudo, na internet?
Paulo Maurício Lima de Alencastro Graça
- Existem alguns mitos clássicos, como por exemplo, o slogan “Amazônia, o pulmão do mundo”, como fosse a floresta uma grande produtora de oxigênio para o planeta. O que é totalmente descabido, já a floresta durante a noite consome o oxigênio que produziu durante o dia pelo processo de fotossíntese. A questão da internacionalização é um assunto polêmico e que realmente causa grande desconfiança, já que a Amazônia tem motivos suficientes para ser cobiçada por outros países, uma vez que possui uma megabiodiversidade, minérios estratégicos, recursos hídricos abundantes, e possui um papel na regulação do clima mundial.  No entanto, a questão de que esse ecossistema não faria mais parte do mapa brasileiro é algo para não ser levado a sério. Isso foi parte de um spam que circulou na internet há algum tempo, com uma montagem grosseira de um mapa sem a região amazônica no país.

 

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