Edição 211 | 12 Março 2007

O Amor Homossexual

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IHU Online

Artigo de Gregory Baum, teólogo canadense

A Agência Adista, 20-01-2007, publicou o artigo de Gregory Baum, conhecido teólogo católico canadense, intitulado O Amor Homossexual.
Os Cadernos IHU Idéias, nº 32, publicaram o artigo À meia luz: a emergência de uma teologia gay. Seus dilemas e possibilidades, de André Sidnei Musskopf.

Eis o artigo de Gregory Baum.

"Há alguns decênios, a reflexão teológica sobre o amor homossexual se desenvolveu bastante. Dois fatores históricos provocaram este inesperado desenvolvimento.
Em primeiro lugar, as ciências psicológicas e antropológicas descobriram que a orientação homossexual não é nem uma doença, nem uma perversão da natureza, mas uma variante absolutamente natural que diz respeito a uma minoria de homens e mulheres.

Durante os anos sessenta e setenta, organismos profissionais, aí compreendidas associações de médicos, mudaram, por isso, seu juízo negativo com respeito ao fenômeno homossexual.
Estas declarações científicas assinalaram uma virada cultural bastante notável. As grandes tradições religiosas haviam sempre condenado o amor homossexual como uma perversão da natureza. Os pensadores religiosos estavam convencidos que a orientação heterossexual fosse universal e que os atos homossexuais fossem comportamentos anormais, que transgrediam uma lei essencial da natureza humana. É por esta razão que alguns textos bíblicos denunciam o amor homossexual. No século 19 as sociedades modernas também decidiram criminalizar o comportamento homossexual.

Somente em fins do século 19 muitos pesquisadores reconheceram que a homossexualidade é uma orientação não escolhida e estável de algumas pessoas. Reagindo a esta descoberta, os moralistas, não podendo mais reconhecer nos homossexuais pecadores que podiam converter-se, começaram a considerá-los inferiores, enfermos, caracterizados por desordens e privados de equilíbrio psíquico.
A Igreja católica ainda permaneceu ligada a este ponto em seu ensinamento oficial. Segundo uma Declaração da Congregação para a doutrina da fé, “a condição homossexual é destituída de sua finalidade essencial e indispensável e é, portanto, intrinsecamente desordenada”. Uma declaração romana mais recente nos diz que os homossexuais não devem ser ordenados padres porque não são capazes de ter relações sadias com os homens e as mulheres da sua paróquia. Estes juízos oficiais, no entanto, indiferentes aos resultados da pesquisa científica, já não têm mais nenhuma credibilidade.
Dignity, uma associação de católicos gays e lésbicas, fundada em Los Angeles em 1973, apresentou a própria confissão de fé: “Cremos que os católicos gays são membros do corpo místico de Jesus e fazem parte do povo de Deus. Temos uma dignidade intrínseca, porque Deus nos criou, porque Cristo morreu por nós e porque o Espírito Santo nos santificou com o Batismo, fazendo de nós canais pelos quais o amor de Deus se expande no mundo... Nós cremos que os gays podem expressar sua sexualidade por um modo conforme ao ensinamento de Jesus”.

Desde então, nasceram associações de gays e lésbicas em diversos países. Há coletâneas de livros e artigos nos quais estes católicos contam e analisam sua experiência religiosa e apresentam reflexões teológicas fundadas na sua leitura da Bíblia. Neste esforço de repensar sua tradição, estes católicos são acompanhados por gays protestantes, judeus e muçulmanos. Segundo eles, ter fé quer dizer aceitar a própria orientação sexual como um dom de Deus.
O Deus do universo, que criou uma maioria de pessoas “straight”, heterossexuais, decide criar uma minoria de pessoas homossexuais. Ao invés de se lamentar diante de seu criador, estes cristãos homossexuais têm orgulho da orientação sexual que Deus lhes deu e vivem o Eros do amor ao seu modo, seguindo o ensinamento de Jesus. Em suas relações amorosas querem permanecer fiéis à vida espiritual, superar seu próprio egoísmo, abrir-se ao amor altruísta pelo outro, recusar a dominação e a dependência psicológica, praticar a reciprocidade e a partilha.

Muitos teólogos reconhecem hoje que a reflexão moral sobre o amor homossexual não é autêntica se não são lidos os escritos dos cristãos gays e se não é tomada a sério o testemunho de sua fé. Todavia, estes teólogos se dão conta que a posição defendida pelos católicos gays contradiz o ensinamento oficial da Igreja católica. Os teólogos sabem, ao mesmo tempo, que a Igreja, condicionada por novas experiências religiosas, por descobertas científicas e por uma releitura dos textos bíblicos, mudou, com freqüência, seu ensinamento. Nós não cremos mais no “fora da Igreja nenhuma salvação”, doutrina enunciada pelos concílios do passado, não aceitamos mais a existência do limbo, pregada por séculos, apoiamos a liberdade religiosa e os direitos humanos, embora estas idéias tenham sido severamente condenadas pelos papas do século 19; estamos conscientes que a Igreja mudou seu ensinamento sobre a tortura e a pena de morte, e assim por diante. É, pois, absolutamente razoável pensar que num destes dias a Igreja também mude sua ética sexual."

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