Edição 211 | 12 Março 2007

Adriano Naves de Brito

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Goiano, mas com o pé no mundo. Adriano morou em diversas partes do Brasil e também na Alemanha, sempre com a família a tiracolo. Estudou Teologia na adolescência, e Pedagogia quando jovem, mas foi na filosofia que encontrou seu caminho. Hoje, casado e com dois filhos, encontrou seu lar em Porto Alegre. Tem como sua paixão a Filosofia, que leciona no PPG da Unisinos. Adriano Naves de brito publicou juntamente com seu colega, Prof. Thomas Kesselring, o caderno IHU Idéias Ética e Sentimentos Morais, de 2005, disponíveis para download no sítio do IHU – www.unisinos.br/ihu. Conheça um pouco mais desse professor na entrevista a seguir.

Origens - Sou goiano, nasci em Anápolis , mas cresci em Goiânia. Somos uma família de três irmãos, sendo que sou o do meio. Meus dois irmãos são físicos. Meu pai é do Norte, de Belém, e minha mãe é mineira.

Infância - Usávamos o quintal abundantemente. Construíamos casa nas árvores e coisas assim

Estudos - Estudei em um colégio espírita durante o primário e depois em um marista. Minha lembrança mais forte é de quando estudava no colégio marista. O Ensino Médio fiz de uma maneira curta, pois prestei vestibular na metade do terceiro ano na Universidade Federal de Ouro Preto, para o curso História, e fui aprovado. Como não tinha concluído o Ensino Médio, decidi estudar Teologia enquanto esperava o fim do ano.

Teologia - Estudei Teologia nos últimos seis meses do terceiro ano do Ensino Médio na Diocese de Goiânia, onde havia um curso para leigos. Como era muito envolvido com movimentos sociais, a Teologia era uma opção natural para mim.  Foi ali, sem dúvida, que a semente da filosofia foi plantada em mim pela primeira vez.

Movimentos Sociais - Participei na reconstrução do movimento da Juventude Estudantil Católica, a JEC, que existiu no Brasil até o fim da década de 60.  Uma vez reconstruído, ela se tornou a Pastoral Estudantil. Aliás, uma figura importante neste processo foi o Pe. Hilário Dick, que, para minha satisfação, voltei a encontrar aqui na Unisinos. Eu estava, pois, no fim dos anos 1970 e início dos anos 1980 muito envolvido com os movimentos políticos e sociais do país.

Pedagogia - As circunstâncias me levaram a não cursar História na UFOP e prestei vestibular para Pedagogia na Universidade Católica de Goiás. Eu tinha lido abundantemente Paulo Freire por conta do meu envolvimento com o movimento social e me interessei pela Pedagogia, curso que fiz muito rápido, em três anos, inclusive por ter podido aproveitar a teologia que então estudara.

Rio Grande do Sul - Concluída a Pedagogia, decidi que não queria seguir os estudos pós-graduados na área. Comecei então a Filosofia na Universidade Federal de Goiás. Ali lecionava um professor gaúcho que acabara de concluir seu Mestrado em Filosofia na Federal. Como o curso oferecia bolsas, vim para o Estado fazer o mestrado em Filosofia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Família - Conheci minha esposa durante o mestrado na UFRGS. Tenho um filho que estuda Engenharia da Computação em São Paulo e uma filha que ainda mora conosco e cursa o último ano do ensino fundamental.

Trabalho - O meu primeiro emprego foi no colégio Marista, como catequista. Mais tarde, nesta mesma instituição, fui professor de Inglês e Religião.

Alemanha - Fiz um longo mestrado: de quatro anos, como era na época, o que foi uma experiência muito boa, pois tinha vindo da Pedagogia. Entrei no mestrado para estudar Filosofia Política, mas acabei estudando Teoria do Conhecimento. Nesse tempo, fiz um intercâmbio discente com a Unicamp, o que me aguçou o interesse pela Filosofia da Linguagem. Concluído o mestrado, fui para a Alemanha dedicar-me à filosofia de orientação analítica.

Mudanças - Em minha mudança para a Alemanha, fui acompanhado pela família. Meus filhos ainda eram muito pequenos, e eu e minha esposa éramos muito jovens. Se tudo isso por um lado criou desafios maiores, por outro enriqueceu muito nossa experiência. Um dos aspectos mais notáveis foi o companheirismo que criamos com nossos filhos que, por estarmos sós, acompanhavam-nos em tudo.

Volta - Retornamos para o Brasil por Goiás, onde trabalhei na universidade federal. De lá vim para o Rio Grande do Sul, e, há três anos, moro em Porto Alegre.

Dia-a-Dia - Voltamos para o Rio Grande do Sul com os filhos crescidos, fazendo com que o aspecto familiar ganhasse outra dimensão. Aqui cada um tem as suas atividades. Minha esposa trabalha em Caxias do Sul, eu em São Leopoldo e minha filha estuda no Colégio Anchieta, além de ser bailarina. Então nos encontramos no café da manhã e à noite em casa.

Horas Livres - Eu gosto muito do que eu faço. E acho que sigo a tendência da maioria dos professores: fazer nas horas livres mais do mesmo. Leio muito, preparo algum texto e assisto filmes. Gosto muito de caminhar e nadar, mas não tenho praticado muito.

Cinema - Não dá para escolher um filme preferido, tenho um gosto muito variado. Gosto de blockbusters, de filmes cult, de ficção científica, de documentários científicos. Sempre que posso vou ao cinema ou assisto a filmes em casa.

Literatura - Acho difícil também escolher um autor em Filosofia. Nesse campo, quanto mais se ganha experiência, mais se vê o prazer que dá circular entre os diferentes autores. Aprecio autores que colocam argumentos, e que trabalham próximos à ciência. Para citar uma influência recente, ficaria com Tugendhat . O primeiro texto de filosofia que li em alemão é de autoria dele, e já ele me impressionou muito pela clareza expositiva.

Brasil - A minha formação pessoal e teórica se deu em um momento em que o Brasil estava reconquistando a democracia, obviamente. Esse momento marcou muito a minha geração. Aquelas idéias me marcaram muito. Com 16 anos me filiei ao PT de Goiânia e participei ativamente do movimento estudantil. Quando retornei ao Brasil, na época em que Fernando Henrique Cardoso assumia o poder no país, voltei a participar do movimento universitário, encontrando a minha geração nos postos de professores. Voltamos a discutir, e vimos que o Brasil tinha mudado, que era preciso ver as coisas sob outra perspectiva. Já éramos um país redemocratizado, e, no bojo do plano real, a cominho da reconstrução e redefinição do Estado. O governo do Fernando Henrique teve aí um papel decisivo. Contudo, a reconstrução das bases do país não foi acompanhada por um crescimento suficientemente forte para atender as demandas da população. O discurso do Lula capturou justamente este espírito e apostou, a meu ver, na idéia já defendida pela elite mediante a figura do Collor, de que tudo dependia apenas de vontade política. Vendeu-se novamente a idéia de que alguém poderia fazer por nós o trabalho que havia e há por ser feito. Nesse aspecto, a subida do Lula ao poder aconteceu tarde demais para os ideais petistas. É improvável, pelo que demonstrou o governo até aqui, que o PT tivesse as condições políticas e intelectuais de implementar as mudanças que a era FHC implementou, mas, à época da eleição do FHC, o Brasil estava à espera de um projeto. Ele veio e o Lula e seu partido foram perdendo o vigor ideológico e propositivo. Sobrou a determinação de conquistar o poder, mas nenhuma reavaliação de projeto foi feita. Nesse sentido, as propostas do presidente sempre estiveram aquém do momento do país. O que se espera é que o país aprenda que não há salvação fora da sociedade civil; que aprenda que o discurso salvacionista, venha ele da elite rica ou proletária, não pode fazer pelo país aquilo que somente o seu povo pode; que aprenda finalmente a dimensão da responsabilidade civil pela construção de um país.

Música - Sou muito eclético também no que tange à música. É mais fácil dizer o que eu não gosto, como rock “pauleira”, funk e rap. Fora isso, meu gosto vai da música sertaneja, passando pela MPB, música country americana até  a música clássica, sobretudo com alma  melancólica. A escolha é uma questão do momento e dos sentimentos que ele envolve.

Unisinos - Vim para a Unisinos tendo deixado uma universidade federal. Foi uma opção clara por um modelo. Trabalhei dez anos nessa universidade, tinha um engajamento forte, político e acadêmico. Cheguei mesmo a concorrer à reitoria. Mas houve um momento em que achei que aquele modelo não tinha mais perspectiva de futuro e que minha carreira pessoal estava aprisionada nas amarras que caracterizam o emprego público. Tive oportunidades de ir para outras instituições públicas, mas estava decidido a ir apostar em um outro modelo. Nesse aspecto, a Unisinos foi uma opção consciente. Estamos passando, no que tange ao sistema de ensino superior no Brasil, por um momento muito delicado com o governo Lula. Não há no horizonte um modelo novo e precisamos de um. Não obstante isso, o momento de mudança e da reestruturação do sistema virá. Acho que, em termos gerais, a Unisinos está indo na direção correta e gosto da idéia de estar participando de um processo de mudança. Não há ainda no Brasil instituições universitárias com um modelo renovado e maduro. As instituições estão precisando se reinventar (e isso não ocorre só no Brasil) e acho que a Unisinos está corajosamente tentando fazer isso.

Instituto Humanitas Unisinos - O meu contato com o Humanitas foi esporádico, com participações em eventos promovidos pelo Instituto. Acho que é um lugar importante para a vida acadêmica, pois permite o debate entre seus atores e desses com a sociedade. Ele deve estar atento, como está, em promover a discussão, em arejar o ambiente universitário, permitindo o confronto de idéias, o que é fundamental para uma vida universitária que mereça o nome. Essa função do Instituto Humanitas deve ser levada muito a sério e deve ser levada a cabo da maneira mais aberta possível às diferentes orientações sociais e ideológicas dos movimentos sociais e das correntes intelectuais que hoje coabitam no país.

 

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