Edição 211 | 12 Março 2007

“O verdadeiro dono é quem ocupa”

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

IHU Online

Jorge Luis Lima é agente da Comissão Pastoral da Terra na Amazônia há oito anos, onde desenvolve trabalho com comunidades ribeirinhas. Ele concedeu a entrevista a seguir para a IHU On-Line, por telefone, de sua casa, em Tefé, estado do Amazonas, falando sobre as lutas e anseios da população que vive às margens do Rio Amazonas. Confira:

IHU On-Line - Quais as lutas dos ribeirinhos da Amazônia hoje? Quais suas principais reivindicações?
Jorge Lima
- Hoje, na nossa região, que está bem no centro do estado do Amazonas, há uma luta muito intensa da organização dos ribeirinhos pela preservação ambiental, dando especificidade na luta pela preservação dos lagos. Uma das maiores reivindicações hoje é que sejam cumpridas as leis que estabelecem as regras ambientais na nossa região.

IHU On-Line - Como os ribeirinhos se sentem vivendo na Amazônia?
Jorge Lima
- Sem dúvida nenhuma, se sentem muito felizes por estar num ambiente tão rico de biodiversidade, tão rico de vida. Eu falo como ribeirinho, porque estou numa cidade que fica na beira do rio, daqui da minha casa estou olhando para o rio. No entanto, a gente se sente muito ameaçado hoje pelo sistema, pela questão da grilagem, da biopirataria, da invasão do latifúndio que está chegando na nossa região. Há esses dois lados. O amazônico se sente muito feliz, por estar num ambiente muito tranqüilo, cheio de vida, mas também tem essa outra face, que é a questão da ameaça, do desequilíbrio total do ambiente: chove muito, faz muito sol, coisas que antigamente não existiam..

IHU On-Line - Quais têm sido os principais desafios das comunidades ribeirinhas? Como eles se relacionam com os grileiros, os pecuaristas?
Jorge Lima
– Um dos maiores desafios na nossa região é frear a invasão por parte dos grileiros e dos grandes pecuaristas. Estou falando da questão da infiltração do grande latifúndio na nossa região. Grileiros e ribeirinhos têm uma relação de conflito. Nós, no estado do Amazonas, vemos muitos conflitos, com mortes, tortura de trabalhadores, coisas desagradáveis aos nossos olhos e aos olhos de quem olha pela vida. Nós, que trabalhamos na Comissão Pastoral da Terra, tentamos contornar, temos uma sintonia muito grande com os ribeirinhos.

IHU On-Line – No que consistem as ações da CPT em relação aos ribeirinhos e às questões agrárias da Amazônia?
Jorge Lima
– A CPT aqui na nossa região trabalha apoiando as organizações ribeirinhas e as questões fundiárias, o que é a nossa diretriz, nossa linha de ação. Mas trabalhamos muito ligados às questões organizativas das associações, das comunidades ribeirinhas, porque a partir daí eles vão se fortalecendo e vão conseguindo estar mais agregados aos organismos e adquirindo uma melhor qualidade de vida. 

IHU On-Line – Os ribeirinhos têm percebido alterações na floresta amazônica, nos rios, lagos, na fauna e na flora da Amazônia ao longo dos anos? O que mais mudou nos últimos tempos?
Jorge Lima
– Aqui na nossa região é impressionante a seca assustadora, que secou os grandes rios. Percebemos que esse é um fator do desequilíbrio. Os rios, que costumavam estar cheios de água, hoje estão vazios e parte totalmente secos. Essa é uma alteração que vem preocupando a população. Uma outra coisa é a diminuição dos cardumes de peixe. O peixe é alimento básico dos moradores da região amazônica. Essa diminuição dos cardumes também se dá pelo fato da grande exploração para o comércio local e para a exportação.

IHU On-Line – Como ocorre o processo de ocupação das terras na Amazônia?
Jorge Lima
– Essa é uma outra situação conflituosa. Até duas décadas atrás não se ouvia falar em conflito agrário na nossa região, pois havia muita terra e pouca gente. Hoje esse quadro se reverteu. As terras da Amazônia estavam praticamente ocupadas por posseiros que não eram proprietários. Os verdadeiros proprietários, que têm os documentos, estão nas grandes cidades, nos grandes centros e até fora do estado. Hoje, com essa infiltração do grande latifúndio, com a chegada do agronegócio, os grandes proprietários estão despertando para isso e estão voltando para suas propriedades, causando conflitos entre proprietários e posseiros. Nós temos procurado acompanhar essa situação, para mostrar que os verdadeiros donos são aqueles que ocupam. Só que informalmente. A posse da terra na nossa região deixa muito a desejar ao trabalhador.

IHU On-Line – Como as comunidades ribeirinhas se articulam com as outras comunidades de base e com o governo? O governo Lula tem auxiliado os ribeirinhos com políticas públicas específicas?
Jorge Lima
– As comunidades ribeirinhas se relacionam com as outras comunidades que estão à margem do rio em outros municípios, cada uma lutando pela sua sobrevivência. Nós, dos movimentos, estamos tentando conciliar e agregar valores entre as partes para poder ter um reconhecimento do trabalho dos povos ribeirinhos na região. No meu ponto de vista, o governo deixa muitas coisas a desejar. Não existe nada especificamente para as populações ribeirinhas entre as políticas públicas. Aquelas desenvolvidas na região são as mesmas para todo o País. Porém, na nossa região, muito pouco aparece. Os ribeirinhos constituem uma comunidade muito adversa do restante do País. Aqui se faz de tudo. O povo é agroextrativista, o que inclui a pesca, tiragem de madeiras, agricultura familiar, coleta de castanha, dos óleos, dos cipós. Mas o ponto forte mesmo, que sustenta a maioria das pessoas, é a agricultura familiar.

Últimas edições

  • Edição 531

    Etty Hillesum - O colorido do amor no cinza da Shoá

    Ver edição
  • Edição 530

    Missões jesuíticas. Mundos que se revelam e se transformam

    Ver edição
  • Edição 529

    Nietzsche. Da moral de rebanho à reconstrução genealógica do pensar

    Ver edição