Edição 211 | 12 Março 2007

Filme da semana: Babel

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Ficha Técnica

Título Original: Babel
Gênero: Drama
Tempo de Duração: 142 minutos
Ano de Lançamento (EUA): 2006
Direção: Alejandro González-Iñárritu
Roteiro: Guillermo Arriaga, baseado em idéia de Guillermo Arriaga e Alejandro González Iñárritu
Sinopse: Um ônibus repleto de turistas atravessa uma região montanhosa do Marrocos. Entre os viajantes estão Richard (Brad Pitt) e Susan (Cate Blanchett), um casal de americanos. Ali perto os meninos Ahmed (Said Tarchani) e Youssef (Boubker At El Caid) manejam um rifle que seu pai lhes deu para proteger a pequena criação de cabras da família. Um tiro atinge o ônibus, ferindo Susan. A partir daí o filme mostra como este fato afeta a vida de pessoas em vários pontos diferentes do mundo: nos Estados Unidos, onde Richard e Susan deixaram seus filhos aos cuidados da babá mexicana; no Japão, onde um homem (Kôji Yakusho) tenta superar a morte trágica de sua mulher e ajudar a filha surda (Rinko Kinkuchi) a aceitar a perda; no México, para onde a babá (Adriana Barraza) acaba levando as crianças; e ali mesmo, no Marrocos, onde a polícia passa a procurar suspeitos de um ato terrorista.

O escritor mexicano Carlos Fuentes, em artigo publicado no jornal El País, 25-02-2007,reflete, a partir do filme Babel, sobre a incomunicação e a solidão num mundo globalizado e se pergunta pelo que nos une mais, a felicidade ou a infelicidade. O autor acredita que o cineasta mexicano Alejandro González Iñárritu desdobra na sua última película. Sua arte explora o ato humano, suas conseqüências, a fatalidade que o macula e a liberdade que o redime.

O filme Babel pode ser entendido como a terceira parte de uma trilogia, a "trilogia da morte" de Iñarritu, sendo que as partes iniciais são os filmes: Amores Brutos (2000) e 21 Gramas (2003). Em entrevista para as Notícias Diárias, dia 10-03-2007, Alfredo Gerusalinsky, psicanalista, comenta quatro filmes. Além de Babel, ele reflete sobre os filmes Borat, A Rainha e Pequena Miss Sunshine.

O comentário de Carlos Fuentes foi traduzido pelo Cepat e publicado nas Notícias Diárias no dia 5-3-2007

Babel. Ou a comunicação e a solidão em tempos globais

Vivemos num mundo global e o paradoxo é que estamos mais isolados do que nunca. A sétima arte é a mais jovem de todas e por esta razão herda toda a carga estética, visual e literária anterior e, ao mesmo tempo, quer inventar um novo imaginário. Ítalo Calvino costumava dizer que os desenhos animados eram a novidade máxima do cinema, arte da metamorfose. Arte pública, também, posto que o cinema requer uma audiência que não só vê, mas que paga para ver. Arte e indústria, esforço colaborativo que não depende, como a literatura, das artes plásticas ou da composição musical, de um só criador.

Por isso, me chamam a atenção as obras cinematográficas que atentam contra sua natureza comunicativa e de massas para tratar o tema da solidão e da ausência de comunicação. King Vidor, numa obra-prima do cinema mudo, A turba (The crowd, 1928), aproveita o silêncio do meio para comunicar o sentido moderno da solidão na multidão, hoje verdadeiro lugar comum sociológico (David Riesman, A multidão solitária, 1971). Em Vidor, a incomunicação urbana. Na obra de Michelangelo Antonioni, a solidão e a incomunicação são internas. A sociedade desaparece. Jeanne Moreau, em A noite (1961), passeia por uma Milão solitária: não vê nem é vista. A incomunicação dos casais é acentuada pela solidão da pessoa. Como disse Mônica Vitti em A noite, comunica-te e o amor desaparece. A solidão, então, seria o castigado preço do amor, paradoxo da falta de comunicação individual.

Agora, Alejandro González Iñárritu, em Babel dá o seguinte passo: a incomunicação num mundo hipercomunicado, a solidão na globalidade. As histórias separadas (mesmo que invisivelmente relacionadas) ocorrem no Marrocos, no Japão e na fronteira ferida entre o México e os Estados Unidos. Já esta simples descrição nos refere à globalidade e González Iñárritu não foge deste fato. Vivemos num mundo global, mas o paradoxo da globalização é que estamos mais isolados do que nunca.

Dois garotos pastores de cabras do Saara, de posse de um rifle que é algo mais do que um brinquedo, e um casal de turistas norte-americanos que não pode entender ou ser entendidos fora das fronteiras dos Estados Unidos. Uma babá mexicana encarregada de duas crianças de Los Angeles (Califórnia), para quem a fronteira política não conta porque o que conta é a família sem fronteiras, a de ambos os lados da linha divisória de México-Estados Unidos, e uma garota japonesa surda-muda privada fisicamente de qualquer comunicação.

Com estes elementos dramáticos, González Iñárritu cria não um filme, mas o filme da realidade globalizada. Esta, dirão vocês, está presente num grande número de filmes de aventura, de James Bond a Tom Cruise, que pulam de fronteira em fronteira. A diferença está em que para James Bond deslocar-se de Londres ao Pólo Norte não é um problema.

Para uma trabalhadora mexicana que cruza a fronteira com dois "gringuinhos" para cuidar numa festa de casamento no México, o problema é maiúsculo. O mundo globalizado se apresenta então como um deserto entrincheirado pela discriminação, pela suspeita, pela arbitrariedade e pela injustiça. Os piores prejuízos locais, aldeões, se manifestam com crueldade e indiferença parecidos. Os meninos marroquinos ignoram que um rifle disparado por acaso pode ferir um turista azarado no ônibus que vai passando. A babá mexicana ignora que cruzar a fronteira com duas crianças loiras desperta todas as suspeitas e inibições dos guardas da fronteira (de origem mexicana). A comunicação global se perde nos desertos da incomunicação local.

González Iñárritu se coloca uma dúvida rigorosa: pode haver cinema erótico com erosão do amor? É a pergunta subjacente de Babel e o autor a responde de numerosas maneiras. Uma delas é a atenção prestada às fragilidades da pessoa humana e aos matizes que, longe de debilitá-la, a fortalecem. Se as pessoas não se entendem, por que todos, de Los Angeles ao Marrocos ou a Tóquio, respiram o mesmo ar? A comunidade (tácita, discreta) sobrevoa a solidão de Babel e González Iñárritu desdobra sua arte explorando o ato humano, suas conseqüências, a fatalidade que o macula e a liberdade que o redime.

Quero dizer que este é um artista que se pergunta honestamente pelo que mais nos une, a felicidade ou a infelicidade. A resposta está nos olhos e na mente de cada espectador.
Não fujo do impacto político de Babel, uma obra do microcosmo migratório e terrorista da globalidade, minado a fundo pela ignorância e a falta de compreensão mútua. Vivemos uma dupla moral, nos diz González Iñárritu. Buscas três terroristas e matas três mil pessoas. A arte diz o que não dizem os meios de comunicação. E Babel nos permite perguntar se vivemos com as relíquias de um mundo condenado ou com os presságios de um mundo por nascer.

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