Edição 406 | 29 Outubro 2012

Transformações na estrutura das famílias brasileiras

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Graziela Wolfart e Thamiris Magalhães

É a partir do preenchimento do quadro de moradores do questionário, onde são codificadas as relações de parentesco que existem em cada unidade doméstica, que podemos construir os distintos tipos de família. Para o censo 2010, essa relação foi bem mais extensa do que nos censos anteriores, destacam Barbara Cobo e Gilson Gonçalves de Matos

Questionados a respeito de como definir o novo modelo de família que surge no Brasil a partir dos dados do censo 2010, Barbara Cobo e Gilson Gonçalves de Matos avaliam, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, que o “modelo” não é exatamente novo, mas fruto de uma série de mudanças na organização das famílias que vem ocorrendo nos últimos anos em resposta à queda da taxa de fecundidade, à maior esperança de vida, ao papel da mulher no mercado de trabalho, ao avanço na escolaridade das mulheres, à postergação da maternidade para idades mais velhas e ao aumento do número de separações e divórcios. 

“Esse conjunto de fatores vem resultando numa maior diversificação de arranjos em direção às famílias de tamanho mais reduzido, com avós convivendo com netos, a ausência de cônjuge no domicílio e, mesmo no tipo ainda predominante ‘casal com filhos’, existem as famílias chamadas reconstituídas, onde o cônjuge já viveu união anterior e pode ou não trazer filhos para morar com o novo cônjuge”, explicam. Para eles, a inovação no censo 2010 foi melhorar o instrumento de captação dessas mudanças, aprimorando o questionário e permitindo construir uma tipologia de família mais diferenciada a partir das estatísticas coletadas junto à população brasileira.

Barbara Cobo é doutora em Economia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, e especialista em Análise de Políticas Públicas. Trabalha como técnica do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE na Gerência de Indicadores Sociais. 

Gilson Gonçalves de Matos é estatístico formado pela Universidade de Brasília – UnB e mestrando em engenharia elétrica pela PUC-Rio de Janeiro. Trabalha como técnico do IBGE na Gerência de Indicadores Sociais.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como se define o novo modelo de família que surge no Brasil a partir dos dados do censo 2010?

Barbara Cobo e Gilson Gonçalves de Matos – O “modelo” não é exatamente novo, mas fruto de uma série de mudanças na organização das famílias que vem ocorrendo nos últimos anos em resposta à queda da taxa de fecundidade, à maior esperança de vida, ao papel da mulher no mercado de trabalho, ao avanço na escolaridade das mulheres, à postergação da maternidade para idades mais velhas e ao aumento do número de separações e divórcios. Esse conjunto de fatores vem resultando numa maior diversificação de arranjos em direção às famílias de tamanho mais reduzido, com avós convivendo com netos, a ausência de cônjuge no domicílio e, mesmo no tipo ainda predominante “casal com filhos”, existem as famílias chamadas reconstituídas, onde o cônjuge já viveu união anterior e pode ou não trazer filhos para morar com o novo cônjuge. A inovação no censo 2010 foi melhorar o instrumento de captação dessas mudanças, aprimorando o questionário e permitindo construir uma tipologia de família mais diferenciada a partir das estatísticas coletadas junto à população brasileira.

IHU On-Line – Qual a importância da dimensão estatística para o conhecimento das diferentes configurações familiares existentes na sociedade brasileira? Nesse sentido, qual a principal novidade que destacam a partir dos dados do último censo em relação às famílias brasileiras?

Barbara Cobo e Gilson Gonçalves de Matos – A investigação e quantificação dos arranjos familiares nos permite traçar panoramas e entender as transformações na estrutura das famílias brasileiras, sobretudo nas últimas décadas. Como novidades, podemos destacar os conceitos de unidades domésticas e famílias adotados neste censo bem como a identificação das famílias conviventes, que não foi feita no campo, mas de forma derivada a partir de perguntas existentes no questionário do censo. É a partir do preenchimento do quadro de moradores do questionário, onde são codificadas as relações de parentesco que existem em cada unidade doméstica, que podemos construir os distintos tipos de família. Para o censo 2010 essa relação foi bem mais extensa que nos censos anteriores.

IHU On-Line – O que destacam sobre os aspectos metodológicos dos conceitos utilizados pelo censo demográfico de 2010 referentes à família?

Barbara Cobo e Gilson Gonçalves de Matos – Primeiramente, a introdução dos conceitos de unidade doméstica e famílias. 

Unidade doméstica

A unidade doméstica é a denominação que se dá ao conjunto de pessoas que vive em um domicílio particular, cuja constituição se baseia em arranjos feitos pela pessoa, individualmente ou em grupos, para garantir alimentação e outros bens essenciais para sua existência. 

Famílias

Quanto às famílias, foram consideradas como conjuntos formados por duas ou mais pessoas ligadas por laços de parentesco, consanguinidade ou adoção. Logo, os arranjos formados pelo responsável e por não parentes (agregados, pensionistas, empregados domésticos, etc.) não foram considerados famílias, a exemplo dos censos anteriores.

Identificação de famílias conviventes

Quanto à identificação das famílias conviventes, a derivação metodológica se deu a partir das relações de parentesco com o responsável, bem como dos quesitos de maternidade e conjugalidade (existência de filhos e cônjuges no domicílio e respectivas identificações). 

IHU On-Line – Como se dá o processo de concepção de unidade familiar desenvolvido pelo IBGE? Em que sentido ele se relaciona com o conceito sociológico de família?

Barbara Cobo e Gilson Gonçalves de Matos – O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE se baliza em recomendações internacionais para coleta de informações, em especial a Comissão de Estatísticas da Organização das Nações Unidas – ONU, seguindo-as sempre que possível, considerando as adequações e adaptações necessárias à realidade brasileira. E essas recomendações se baseiam nos conceitos sociológicos de família, mas limitadas às especificidades referentes à operação de campo e coleta das informações. Muitas vezes determinada informação é de difícil entendimento por parte da população, de difícil aplicabilidade ou subjetiva demais a ponto de não serem interpretadas por todos da mesma forma. Como as pesquisas domiciliares do IBGE não têm por objetivo o estudo de famílias somente, mas uma ampla gama de temas sociais, opta-se pela forma mais objetiva de captação da informação. O entrevistador primeiramente pergunta quem seria a pessoa responsável pelo domicílio (assim indicada pelos demais membros) e a partir desta identificação começa a enumerar as relações de parentesco dos demais moradores em relação a esta pessoa. Com essa identificação, a construção dos tipos é realizada de forma a retratar as principais formas de organização das famílias brasileiras.

IHU On-Line – Segundo o último censo, quais são os principais tipos de núcleo familiar? Em que se diferem do censo 2000, por exemplo?

Barbara Cobo e Gilson Gonçalves de Matos – A maior parte dos núcleos é ainda composta por casais com filhos, seguidos dos casais sem filhos e arranjos monoparentais, sobretudo os femininos. Merece destaque o crescimento da proporção de casais sem filhos entre 2000 e 2010, sendo causas possíveis para o fenômeno a maior participação da mulher no mercado de trabalho, as baixas taxas de fecundidade e o envelhecimento da população.

IHU On-Line – A partir dos dados do último censo, como a questão econômica se reflete na forma de as famílias se estruturarem?

Barbara Cobo e Gilson Gonçalves de Matos – Ainda não realizamos estudos aprofundados acerca desta questão. Mas a distribuição dos tipos de família por classes de rendimento familiar mostra que o tipo “casal com filhos” é mais comum nas famílias com maiores rendimentos (chega a 35% dos arranjos em famílias com mais de cinco salários mínimos per capita. Para as famílias com até ¼ de salário mínimo per capita, esse percentual é de 4,5%.). “Casal com filhos” é o tipo mais comum em todas as classes de renda, mas mais representativo nas classes com menor rendimento, assim como mulher sem cônjuge com filhos. Observa-se também que dentre as famílias conviventes, a maioria é sem rendimento e formada por mulher sem cônjuge com filho, o que sugere que podem ser filhas que tiveram filho e continuaram a viver com os pais.

IHU On-Line – Que políticas públicas podem ser sugeridas a partir dos resultados do censo 2010 sobre as famílias brasileiras? 

Barbara Cobo e Gilson Gonçalves de Matos – Diversas políticas públicas têm sido formuladas tendo a família como unidade beneficiária, como o próprio Bolsa Família, por exemplo. As informações devem ser cruzadas com as de rendimento, saneamento e trabalho para a formulação de políticas públicas específicas para essas áreas.

IHU On-Line – Quais os limites que devemos levar em conta ao analisarmos os dados do censo em relação à família? Quer dizer, os dados são reportados de maneira sincera ao recenseador, quando o assunto é a homossexualidade, por exemplo?

Barbara Cobo e Gilson Gonçalves de Matos – Isso não é possível afirmar. O recenseador preenche o formulário com as respostas dadas pelos entrevistados, sem interferir nas repostas (neutralidade). A pergunta sobre a existência de “cônjuge do mesmo sexo” é relativamente nova, mas as demais mostram seguir as tendências observadas em outras pesquisas amostrais do IBGE, como a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios – PNAD e a Pesquisa de Orçamentos Familiares – POF, o que confere robustez e consistência aos dados censitários. O IBGE não investigou homossexualidade no censo.

IHU On-Line – Que tipo de família já é comum na sociedade brasileira, mas que não aparece no questionário do IBGE? Como se caracterizam as famílias “novíssimas”?

Barbara Cobo e Gilson Gonçalves de Matos – Na verdade, entre os casais com filhos, foram identificados aqueles reconstituídos (com filhos de uniões anteriores), os quais não foram investigados nos censos passados, pelas próprias categorias da variável de relação de parentesco com o responsável em tais pesquisas. Os únicos arranjos familiares não identificados são os monoparentais masculinos, quando estes conviviam com um núcleo principal. Porém, este caso é pouco frequente no contexto brasileiro. Os demais tipos de famílias foram identificados a partir do questionário.

IHU On-Line – O que o Brasil pode aprender com os outros países sobre a forma de recensear sua população, principalmente em relação às novas modalidades familiares?

Barbara Cobo e Gilson Gonçalves de Matos – O IBGE segue recomendações internacionais de coleta de informações e busca apreender exemplos internacionais de sucesso para sempre melhorar as suas formas de captação. No caso do tema família, aumentamos o número de relações de parentesco possíveis a fim de permitir a constituição de tipos mais diferenciados específicos. Alguns ainda não são possíveis pelos dados, como os casais que vivem em casas separadas. Mas a ideia é que, aos poucos, possamos aprimorar nossos instrumentos de coleta e acompanhar cada vez de mais perto às mudanças em curso na sociedade.

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