Edição 406 | 29 Outubro 2012

Enfrentamento das desigualdades socioambientais, a perspectiva da oficina de indicadores

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Thamiris Magalhães

Nossa oficina promove uma abordagem da questão dos determinantes socioambientais e desigualdades em saúde, com o objetivo de identificar as políticas públicas prioritárias de enfrentamento conjunto dessas desigualdades, analisa Marla Kuhn

“Na oficina, pretendo chamar atenção para construção necessária de indicadores representativos da situação que desejamos trabalhar, numa lógica de análise que leva em conta as diversas determinações socioambientais presentes nos processos e a multidimensionalidade dos fenômenos existentes, uma crítica do modelo de desenvolvimento que busca sustentabilidade dos negócios muito mais do que da vida saudável no planeta”, conta a professora do curso de Serviço Social da Unisinos, Marla Kuhn, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. Para ela, a viabilização de espaços de troca de experiências é um exercício necessário para ampliar análises locais sobre os problemas socioambientais. “Exercitar a construção de indicadores integrados é operacionalizar a interdisciplinaridade”. E completa: “O efeito multiplicador é o objetivo dessa oficina!”  

Marla Kuhn estará no IHU no dia 31-10-2012, durante a Oficina sobre a construção de indicadores de saúde e ambiente, das 14h às 17h, na Sala Ignácio Ellacuría e Companheiros, no IHU. Mais informações em: http://migre.me/blIp0. 

Marla Kuhn é assistente social, especialista em saúde pública e mestre em geografia/análise ambiental pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS. Trabalha na Vigilância em Saúde pela prefeitura municipal de Porto Alegre. É membro do grupo de trabalho Saúde Ambiente, da Associação Brasileira de Saúde Coletiva – Abrasco. É, ainda, professora do curso de Serviço Social da Unisinos e pesquisadora em Saúde Ambiental e Serviço Social.

Confira a entrevista. 

IHU On-Line – Quais serão os pontos principais a serem abordados na oficina sobre a construção de indicadores de saúde e ambiente?

Marla Kuhn – Quando pensamos na relação saúde/ambiente, considero muito importante investigarmos a existência de populações expostas ou potencialmente expostas ao ambiente degradado ou poluído. Essa perspectiva, esse olhar para a realidade, têm chances, em minha opinião, de realmente referir-se ao real se puder contar com a percepção das próprias populações que impactam ou são impactadas por atividades que se instalam nos diversos espaços sociais. Na oficina, pretendo chamar atenção para construção necessária de indicadores representativos da situação que desejamos trabalhar, numa lógica de análise que leva em conta as diversas determinações socioambientais presentes nos processos e a multidimensionalidade dos fenômenos existentes, uma crítica do modelo de desenvolvimento que busca sustentabilidade dos negócios muito mais do que da vida saudável no planeta. Nesse sentido, o conhecimento das condições ambientais locais ou regionais e das atividades socioeconômicas é de extrema relevância para o estabelecimento de medidas de prevenção aos agravos e eliminação dos riscos potenciais e existentes.

IHU On-Line – Em que sentido a capacitação para a construção de indicadores da realidade das ações nos cenários sociais e, em especial, em relação à saúde, ambiente e aos cenários de gestão em rede se faz urgente na região do Vale dos Sinos? 

Marla Kuhn – Acredito que é sempre muito bom avaliar, com as pessoas que vivem nas cidades, as políticas públicas vigentes no sentido de garantir sua representatividade e efetividade junto dos movimentos sociais. O reconhecimento da importância das questões socioambientais como determinantes da saúde tem sido demonstrado quando, por exemplo, examinamos doenças específicas, como as diarreicas e de infecções das vias respiratórias inferiores relacionadas ao meio ambiente, que são maiores nos países em desenvolvimento do que nos países desenvolvidos. Percebemos que no nível nacional – e mesmo local – essas desigualdades se reproduzem apresentando diferenças marcantes em seus territórios. Identificar essas diferenças possibilita aos gestores e população a construção de ações em rede de enfrentamento dos efeitos das diversas formas de poluição nas localidades. Nossa oficina promove uma abordagem da questão dos determinantes socioambientais e desigualdades em saúde, com o objetivo de identificar as políticas públicas prioritárias de enfrentamento conjunto dessas desigualdades socioambientais.

IHU On-Line – Quais são os principais desafios da construção de indicadores de saúde e ambiente? 

Marla Kuhn – O maior desafio é realizar abordagens integradas. Os indicadores a serem definidos devem ser de uso comum e geral. O trabalho intersetorial e interinstitucional deve ser empreendido baseado na integração do setor saúde com diversas instituições. Os dados e informações produzidos pelas áreas do setor saúde, os do meio ambiente, da agricultura, por exemplo, devem ser utilizados na obtenção geral do entendimento e na compreensão das relações de saúde e do meio ambiente. A falta de dados em nível local, ou os dados disponíveis sobre condições do meio ambiente e saúde, podem estar disponíveis em diferentes níveis de resolução, tornando difícil a criação de vínculos entre as condições ambientais e as condições de saúde, ou ainda a identificação de grupos de risco. 

IHU On-Line – De que maneira a oficina poderá auxiliar a construção e/ou aperfeiçoamento de indicadores de saúde e ambiente? 

Marla Kuhn – Na oficina, vamos trabalhar a Matriz De Corvalan utilizada pela Organização Mundial de Saúde – OMS e amplamente divulgada como ferramenta metodológica na construção de indicadores de saúde e ambiente. Trata-se de construir, por meio da reflexão sobre questões socioambientais, locais relevantes, uma hierarquia de indicadores que revelem dimensões determinantes gerais que chamamos de forças motrizes, descritores de pressão, estado, exposição, efeitos e respectivas ações para enfrentamento dessas questões. No processo de reflexão, os presentes podem construir redes sociotécnicas articulando forças e representações, bem como alianças locais. A definição dos indicadores deve levar em consideração o problema ou a questão a ser abordada, a partir do uso do indicador e do interesse do usuário. Aspectos como o risco ambiental específico, o local onde acorre a exposição humana (uma casa, uma fábrica, uma cidade), o resultado específico de saúde ou uma ação específica ou política setorial pública devem ser considerados.

IHU On-Line – Quais as perspectivas e possibilidades que serão encontradas após a oficina? 

Marla Kuhn – A viabilização de espaços de troca de experiências é um exercício necessário para ampliar análises locais sobre os problemas socioambientais. Exercitar a construção de indicadores integrados é operacionalizar a interdisciplinaridade. Acredito que irá nos oportunizar introduzir novas formas de olhar para os problemas urbanos, que têm se tornado cada vez mais complexos e abrangentes, nos levando assim a uma nova reflexão e necessidade de informações melhoradas que deem suporte a uma nova forma de pensar e abordar os problemas. O efeito multiplicador é o objetivo dessa oficina!

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