Edição 406 | 29 Outubro 2012

Não existe o “pós-humano”

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Márcia Junges e Graziela Wolfart | Tradução: Silvia Ferabolli

Autor do conceito de “quase realismo”, Simon Blackburn questiona o neo-humanismo e observa que a filosofia analítica está mudando. Para ele, a filosofia da lógica e da linguagem tornou-se dominante sobre e epistemologia, a filosofia da mente e a psicologia

“Os fatores não genéticos afetam o gene. É importante conhecer o ambiente social e psicológico dentro dos quais essas questões genéticas importam. Parece que, se queremos seres humanos melhores, nos já sabemos como produzi-los: com melhor educação, mais cuidados maternos, mais recursos e mais oportunidades. Então, não há ‘pós-humano’”. A declaração é do filósofo britânico Simon Blackburn, na entrevista que concedeu pessoalmente à IHU On-Line por ocasião de sua vinda a Porto Alegre, no evento Fronteiras do Pensamento, em agosto. 

Membro honorário da Academia Americana de Artes e Ciências, centro independente que conduz estudos interdisciplinares, Blackburn é também vice-presidente da Associação Humanista Britânica. Ele atuou por décadas como professor da Universidade de Cambridge e produziu obras de repercussão tais como Dicionário Oxford de Filosofia (1994), Pense – Uma Introdução à Filosofia (1999), Verdade – Um Guia para os Perplexos (2005) e A República de Platão (2006). Nesse último, dedicou-se a uma leitura do pensador grego à luz da política neoconservadora dos EUA.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – O que é o neo-humanismo? Há aproximações possíveis com o pós-humanismo? 

Simon Blackburn – Não estou muito certo do que o pós-humanismo significa, pois pode significar várias coisas. Acredito que o humanismo, em minha concepção, seja simplesmente o entendimento de que a antropologia estuda o que os seres humanos fazem ou o que eles podem ou devem fazer. Tradicionalmente, o humanismo tem sido associado com o otimismo ou um iluminismo do otimismo sobre os avanços que podemos fazer em nós mesmos devido à educação, à ciência, à tecnologia, a regimes políticos mais liberais. Eu compartilho desse otimismo. Acredito que o atual estado do mundo é melhor do que há 200, 400 anos, o que significa que, até certo ponto, acredito no progresso. Não acredito que o progresso seja inevitável, pois podemos retroceder. 

O pós-humanismo, para mim, pode não significar nada, exceto uma espécie de armadura usada em favor de seres que não são humanos e que talvez tenham nos sucedido. Isso não é nada mais do que uma fantasia. Se o pós-humanismo tiver uma expressão prática mais concreta, como a manipulação genética, então eu o considero altamente questionável devido a dois fatores: em primeiro lugar, praticamente todos os traços psicológicos interessantes nos seres humanos são apolygenic, ou seja, sabemos que não existe um “gene” para a inteligência ou para “não” entender algo corretamente. Existem muitas maneiras pelas quais as pessoas podem aprender a entender algo corretamente. E isso não está nos genes. Então temos a apoligenia e a explosão combinatória. Em segundo lugar, existe também o problema de que agora sabemos que os genes se expressam de maneiras diferentes em diferentes ambientes, sejam eles ambientes dietéticos, químicos ou sociopolíticos. Houve um experimento muito famoso no Canadá, quando um cirurgião fez experimentos com ratos e descobriu que se um rato é criado por uma boa mãe (como aquelas que lambem seus filhotes) o seu cérebro fica diferente – ele é formado de maneira diferente de um rato que é criado em um ambiente frio e sem cuidados. E o segundo tipo de rato fica estressado muito facilmente, muito nervoso e sem confiança. A lambida materna revelou-se determinante no desenvolvimento psicológico do rato. Ora, nos humanos nós já sabemos que esse é o caso: já sabemos que crianças que são bem criadas serão mais confiantes, mais alegres e mais calmas, mais relaxadas do que as crianças que não tiveram a mesma sorte, isto é, do que crianças que não tiveram cuidados maternos. Então, acredito que a ideia de pós-humano pertence a um tempo, talvez 10 a 12 anos atrás, quando as pessoas pensavam que os genes eram tudo, que os genes eram nosso destino, que mudando um gene se mudava tudo, que o genoma humano seria tudo. Todavia, não se acredita mais nisso, incluindo os cientistas. Os fatores não genéticos afetam o gene. É importante conhecer o ambiente social e psicológico dentro dos quais essas questões genéticas importam. Parece que, se queremos seres humanos melhores, nos já sabemos como produzi-los: com melhor educação, mais cuidados maternos, mais recursos e mais oportunidades. Então, não há “pós-humano”.

IHU On-Line – Há influências de David Hume  ou mesmo René Girard  e sua teoria do desejo mimético na teoria de “quase realismo” que o senhor formulou? O que podemos entender por “quase realismo”? 

Simon Blackburn – Primeiramente, devemos colocar Hume em seu lugar histórico. Acredito que ele tenha sido o primeiro filósofo a entender uma ideia muito diferente de ciências naturais, do entendimento do humano – as melhores possibilidades para o entendimento do humano. Ele foi o primeiro a articular uma visão completamente moderna disso. Pensadores anteriores podem ser localizados no grupo de ideal racionalista, como Aristóteles  nos Analíticos Posteriores, que pensava que a ciência se tornaria uma questão de localização de princípios a partir dos quais tudo poderia ser deduzido e seus princípios primeiros, que seriam uma variável para a luz natural da razão. A ideia medieval de que a Igreja vivia de acordo com a razão natural levou, no século XVII, a um tipo de ambição matemática para a ciência, ou seja, se realmente entendêssemos a natureza nos veríamos não apenas como uma coisa que segue a outra, em uma sequência de eventos, mas veríamos por que os eventos devem se suceder, por que eles devem formar os padrões e estruturas, por que Deus pode ver isso e nossa razão nos permite uma pequena imitação da mente de Deus se nós a usarmos de maneira correta. Essa é a ideia de Descartes , Spinoza  e dos iluministas, especialmente. Trata-se do princípio da razão suficiente. Existe sempre uma razão suficiente para as coisas serem do jeito que são. Quando Newton  surgiu, ele não nos disse por que as coisas “deveriam ser” como são; ele simplesmente nos disse como elas eram. Ele nos disse que a lua, o sol, as estrelas e a terra se atraem mutuamente a uma certa força proporcional inversa ao quadrado da distância entre elas. É assim que as coisas são. Ninguém pode ver porque isso “tem de ser desse jeito”, porque esse é apenas um padrão de eventos – é assim que os corpos se comportam. Apresentar isso como um paradigma do entendimento humano – “isso é o melhor que podemos fazer” – foi uma grande mudança na visão de mundo. Isso acabou por levar a um certo declínio da ambição, a um certo pessimismo. 

Paixões e medo

O próprio Hume também disse que “a mais perfeita filosofia do tipo natural apenas afasta um pouco mais a nossa ignorância”. No fim, isso significa algo como: “é assim que funciona!”; “mas por que funciona desse jeito?”; “eu não sei...”. Acredito que isso tenha levado Hume a uma desconfiança geral do poder da razão. Na esfera da ética isso significou que, em vez da razão natural, da lei natural estarem disponíveis para a razão natural isso sendo uma espécie de prova dos princípios primeiros, existiam apenas sentimentos e assim temos a famosa frase: “a razão é e só pode ser a escrava das paixões, e nunca pode pretender qualquer outro cargo do que para servir e obedecê-las”. Assim, “paixões”, ou seja, as motivações humanas, afetos humanos, passam a elevar-se acima da razão humana e se tornam a força motriz que nos faz fazer o que fazemos.

Spinoza não está longe dessa ideia também. Aplicada, a ética levanta também alguns medos, como o medo do subjetivismo e do relativismo. Suas paixões podem ser diferentes das minhas. Soa como se estivéssemos agindo, a partir daí, sem a autoridade do certo ou errado. A autoridade da objetividade, a autoridade de nosso conhecimento parece ser varrida por esta nova visão de mundo. Hume não era pessimista; para ele, não precisávamos nos preocupar, pois “a natureza humana era boa o suficiente”. Não que existisse “simpatia” suficiente, mas inteligência suficiente na natureza humana para que encontrássemos formas de cooperar. E, assim, virtudes sociais tomariam o lugar da luz natural da razão e da autoridade do conhecimento. Hume também foi um grande otimista. A cooperação pode tomar o lugar da guerra de todos contra todos, como a visão de Hobbes  sobre o mundo natural.

Existe um sentimento de empatia em relação às outras pessoas, mas há também a capacidade de construir regras, estruturas e instituições que tomam o lugar, por vezes, desse sentimento de empatia. No trânsito, por exemplo, ninguém é altruísta, mas nós não gritamos um com o outro o tempo todo e não nos batemos uns contra os outros o tempo todo (embora às vezes isso aconteça) porque existem regras de trânsito, fiscalização pela polícia, há leis, regras, convenções que permitem que o trânsito flua. Acredito que Hume percebeu que muitas sociedades se deram conta de que viver a cotoveladas é ruim e, por isso, inventaram estruturas para moderar o comportamento, para gerar soluções cooperativas. Esse é um quadro otimista e que é o melhor que podemos fazer quando a luz natural da razão e do conhecimento autoritário desaparece.

IHU On-Line – Mas por que “quase realismo”? 

Simon Blackburn – Isso não é algo que eu necessariamente goste ainda hoje, mas estou preso com esse termo agora. Então, deixe-me explicar. Na década de 1970, quando comecei a falar sobre isso, houve uma grande reação contra o que agora é chamado de “emotivismo” ou “expressivismo”. A história da filosofia não foi muito bem pensada em Oxford ou Cambridge. Existia essa percepção de que na ética nós meramente expressávamos nossas atitudes, nossas emoções. A ética era tida como mera subjetividade. Houve uma espécie de reação contra isso, mas não foi o suficiente. Algumas pessoas disseram – e o mais famoso deles foi John Mackie – que todos os pensamentos, quer sobre a subjetividade, quer sobre a possibilidade de discussão e sobre o uso da razão em todos os contextos, eram uma espécie de fantasia, que os emotivistas estavam realmente certos, e que todo o resto foi “erro”. A teoria do “erro” tornou-se bastante popular – a ideia de ficção, uma ficção de direitos, deveres e obrigações, a ideia de que vivíamos sob a sombra dessas ficções. Este é o ficcionalismo. Eu não gostei, porque não gosto das implicações que esses pensamentos sobre objetividade, conhecimento e possibilidade de raciocínio engendram: de que tudo isso são meras ficções ou simplesmente erros. Não acho que minha obrigação e de meus filhos seja uma ficção – sinto isso como uma obrigação real. Se alguém me disser: “isso é apenas um sentimento”, eu vou dizer “bem, pode ser apenas um sentimento, mas é essencial para mim, é uma parte da minha identidade”. Então, quero enfatizar a importância dos nossos sentimentos – que eles não são “meros sentimentos”, mas essenciais para a nossa identidade e nosso “ser” no mundo. Assim, o “quase realismo” veio dentro do contexto deste debate. Eu queria fazer justiça aos pensamentos que levam ao realismo e ao senso de existência de certo e errado. O “quase realismo” é, assim, um salto entre esses dois extremos: o realismo e a teoria do erro. Foi uma tentativa de conciliar a abordagem básica do pensamento de Hume com aqueles que tinham sido tão desconfiados em relação a ele (Hume).

IHU On-Line – Então você fez essa teoria? 

Simon Blackburn – Sim, eu fiz, eu dei-lhe o seu nome. Mas as razões por que eu não gosto desse termo têm basicamente a ver com a natureza escorregadia do realismo: ninguém tem certeza do que o realismo significa. Eu poderia tê-lo chamado “funcionalismo responsável não descritivo”, ou algo assim.

IHU On-Line – Qual é o futuro da filosofia analítica?

Simon Blackburn – Eu não acho que o futuro da filosofia analítica se encontre na análise! Eu acho que ela – a filosofia analítica – está mudando. O ideal analítico tornou-se proeminente com Frege , no final do século XIX, e Russell  e Moore , que avancaram a lógica moderna – e, sem dúvida, a lógica moderna é uma ferramenta natural poderosa na lógica aristotélica. A confiança gerada pelos avanços na lógica levou os filósofos a pensar que atenção suficiente para a forma lógica das sentenças/frases iria resolver todos os problemas filosóficos. Assim, a filosofia da lógica e da linguagem tornou-se dominante sobre a epistemologia, sobre a filosofia da mente, sobre a psicologia e assim por diante. Eu acho que essa confiança se perdeu. Creio que ela não está mais lá. Eu acho que a única coisa boa que deixou é a atenção para o significado – uma atenção muito cuidadosa ao significado: o que significam as palavras? Voce tem certeza de que compreende as palavras que está usando? Essa é uma pergunta sempre muito boa. É claro que é uma questão que Platão  e Sócrates  levantaram: “você tem certeza do que você quer dizer com coragem? O que você quer dizer com justiça?” Então, essa atenção para o significado das palavras sempre esteve presente na filosofia e isso é o que vai permanecer com a filosofia analítica. Penso que isso é uma coisa boa. Mas a confiança de que de alguma forma a questão “você tem certeza que entende o que quer dizer?” é a questão dominante para resolver problemas, que a questão está completa, eu creio que morreu um pouco, que a psicologia tem ganhado terreno à custa da semântica ou da teoria lógica. 

IHU On-Line – Por isso não podemos mais confiar apenas na filosofia...

Simon Blackburn – Eu acho que a filosofia tem um papel – eu espero que ela tenha um papel. Mas acho que tem que juntar esforcos com as outras ciências humanas, incluindo a psicologia. 

IHU On-Line – Com a popularização das redes sociais surgem novas maneiras de manifestação e participação política. Como essas redes impactam a filosofia e o filosofar contemporâneos? 

Simon Blackburn – A Primavera Árabe foi amplamente possível por causa da internet, e eu posso ver que os regimes particularmente repressivos temem a liberdade de expressão e a liberdade de pensamento. A China é talvez o exemplo moderno mais óbvio. Eles temem o poder das pessoas unidas que dizem que não gostam da dominação do Partido Comunista, da dominação por parte do governo. Tem-se a impressão de que o governo está em oposição ao seu próprio povo. Você tem que lutar pela liberdade de expressão, de associação e comunicação. E se o governo achar necessário matar aqueles, então acho que o governo está em oposição ao seu próprio povo. Eu sou um democrata. Acho que os governos devem derivar/extrair sua legitimidade do povo. É claro que todos os governos vão se preocupar com “alguns” discursos. O teórico Stanley Fish, nos Estados Unidos, um pós-modernista, argumentou que não há tal coisa como a liberdade de expressão, o que significa que falar é agir, falar é um tipo de ação e ninguém tem liberdade ilimitada para atuar, da mesma forma que ninguém tem liberdade ilimitada de expressão porque isso não é, obviamente, o caso: não estamos autorizados a mentir para fazer alguém comprar algo. Isso é crime. Você não está autorizado a dizer coisas sobre mim em público sem que eu tenha o direito de réplica. Portanto, há limitações. Há uma famosa frase sobre isso na lei americana: você não tem permissão para gritar “fogo” em um teatro lotado, causando pânico nas pessoas. Isso é uma coisa muito antissocial de fazer e é ilegal. Você não tem permissão para incitar o ódio racial em muitos países, inclusive na Europa e nos Estados Unidos. Portanto, há limitações à liberdade de expressão. Mas basicamente, sem a liberdade de ativismo político, associação política, trabalho político perseguido por meio pacífico, que são direitos democráticos, você não tem um governo legítimo. Portanto, se o governo chinês ou qualquer outro achar necessário censurar a internet, isso é algo muito ruim.

IHU On-Line – O debate filosófico tem conseguido extrapolar a academia e dialogar com a sociedade?

Simon Blackburn – Sim e não. Quero dizer, a filosofia não é fácil. Eu sempre pensei no meu trabalho em como trazer as pessoas para a filosofia, e não em como levar a filosofia para as pessoas. Eu não gosto do termo “popularizar”, eu não acho que eu faço “popularização” da filosofia. Tento explicar por que as perguntas são intricadas e delicadas, porque provavelmente precisam de uma compreensão histórica e eu penso que o que as pessoas chamam de “filosofia” – quer dizer, um grupo de pessoas que se reúnem na internet para discutir a “consciência” ou algo realmente difícil filosoficamente como a natureza da matemática, a natureza da lógica, a natureza do conhecimento – nao será, de fato, algo realmente interessante caso esses elementos não estejam presentes.

IHU On-Line – Então você acha que tem mais a ver com dar acesso à educação filosófica do que simplesmente “jogar” assuntos e ideias sobre as pessoas? 

Simon Blackburn – Exatamente. É claro que temos de incentivar as pessoas a ter suas próprias ideias e expressá-las, discutindo-as, e pode ser que, em circunstâncias favoráveis,  um grupo pode ser capaz de se colocar num nível muito elevado de compreensão. Creio que existem alguns casos em matemática em que os problemas matemáticos foram superados – os melhores grandes problemas matemáticos foram jogados no Google ou Wikipedia e pessoas contribuíram aqui e lá e, então, você tem milhões de contribuições e a solução emerge. Há exemplos de problemas matemáticos que foram resolvidos por esse meio. Mas eu acredito que essas contribuições só foram relevantes porque, nesses casos, matemáticos foram capazes de filtrar os contribuidores, separando aqueles que falavam coisas relevantes daqueles que não estavam dizendo nada. Em outras palavras, se um dos meus colegas em Cambridge, um grande matemático, coloca um problema sobre a Group Theory [teoria de grupo], eu não vou contribuir porque não sei nada sobre o assunto. Se alguém diz “o que é consciência” na internet eu acredito que um milhão de pessoas podem ter opiniões, mas elas não são susceptíveis de ser muito informativas e interessantes, visto ser esta uma pergunta muito difícil. Há uma tradição de pessoas que tentam dar respostas, que falham, há algumas posições já bem estabelecidas. Você realmente tem que aprender tudo sobre isso antes que você esteja em posição de contribuir com o debate.

IHU On-Line – O que é ser filósofo nos dias de hoje, numa época marcada pela secularização e pelo relativismo, mas também por um retorno paradoxal ao sagrado?

Simon Blackburn – Bem, é possível ter duas visões sobre isso. A visão mais pessimista é a de Hegel , que disse que “a coruja de Minerva só levanta voo ao anoitecer”, e ele talvez esteja certo em dizer que o filósofo não pode fazer nada além de reagir aos movimentos do tempo. A matriz sociopolítico-econômica em que vivemos informa o que filósofo diz. Deve haver alguma verdade nisso. Por outro lado, os movimentos de pensamento, da política e da sociedade precisam de palavras – eles precisam de pessoas para explicar o que eles são. Considere os movimentos feministas dos últimos 50 anos nos Estados Unidos, Europa e na América do Sul; provavelmente em todo o mundo eles precisavam de textos. Pessoas como Naomi Wolf , Elizabeth Freeman, as pessoas que escreveram sobre a opressão das mulheres, sobre os direitos, a igualdade, sobre as possibilidades que devem ser abertas para as mulheres. Todas estavam fazendo uma espécie de filosofia social, em parte ética, em parte política, que foi projetada para mudar a mantalidade das pessoas e eu não acho que seria justo dizer que aqueles escritos levantaram voo somente após o feminismo ter sido estabelecido. Eles fizeram parte do processo de criação do feminismo como um movimento. E eu acho que isso é muito comum. Pense no comunismo e em Marx. O próprio Marx desmente Hegel porque, se Marx e Engels não tivessen escrito o Manifesto Comunista , se não houvesse esses escritos sobre teoria política e econômica, o comunismo nunca teria existido como um “ismo” porque você precisa dos pensadores para articular, para conduzir as ideias. Então eu acredito que a filosofia tem esse tipo de papel. Você precisa ser sensível às necessidades das junções históricas ou até mesmo para o que acontece, aquilo que outras pessoas (não filósofos) podem não ser capaz de perceber. Por exemplo, eu comecei com Hume, que percebeu o que Newton tinha feito: um novo paradigma para as ciências naturais, diferente de Aristóteles, mas que precisava ser dito e explicado, precisava de muita defesa, articulação e escrita para que as pessoas pudessem perceber isso. Então penso que há sempre um papel para o filósofo, o que não significa apenas alguém que reflete, mas que reflete pesado e tem condições para refletir sob a luz da melhor literatura, modelos e entendimentos disponíveis.

IHU On-Line – Cada filosofia é filha de seu tempo. Em linhas gerais, como pode ser caracterizada a filosofia no século XXI?

Simon Blackburn – A ideia hegeliana de uma filosofia que é filha de seu tempo não me parece verdade pelas razões que eu disse: o feminismo, marxismo, Hume, todos eles eram casos em que os filósofos ajudaram a moldar os entendimentos da época e é isso que eu acho que nós temos que fazer. Como eu disse na conferência do Fronteiras do Pensamento, credio que os primeiros desafios do seculo XX são basicamente centrados em torno da cooperação internacional, da possibilidade de cooperação internacional em coisas como escassez de recursos, o aquecimento global, sobre a superpopulação e que vai ser muito difícil de conseguir, porque cada país tem uma “vantagem egoísta” para desertar de soluções cooperativas.

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