Edição 406 | 29 Outubro 2012

As telenovelas acompanham as mudanças da família brasileira

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Graziela Wolfart e Thamiris Magalhães

Esther Hamburger defende que há uma diversidade de arranjos familiares nas novelas que se relaciona com a diversidade de arranjos que existe na sociedade brasileira

A vida imita a arte ou a arte inspira a vida? Para a professora Esther Hamburger, tanto a novela tem inspiração na realidade como ela é influenciadora da vida social real. “Porque a novela faz parte da realidade. Ela capta coisas, as transforma e depois expressa. Esse é o processo. Como é feita ao mesmo tempo em que vai ao ar, ela se apoia muito nessa dinâmica de captar as ansiedades que estão na sociedade e devolvê-las”, explica, em entrevista concedida por telefone para a IHU On-Line. Na visão da pesquisadora, “as novelas fazem sucesso quando provocam temas polêmicos, quando trazem à tona temas que as pessoas lidam no cotidiano. Ao trazer para o horário nobre, a novela legitima a existência do problema e o reconhece de uma forma que todo mundo assiste. Então, todos compartilham aquelas histórias e podem usá-las para discutir suas próprias opiniões e seus próprios problemas”. 

Esther Hamburger é professora da Universidade de São Paulo – USP, Ph.D em Antropologia pela Universidade de Chicago, com pós-doutorado pela Universidade do Texas, Austin. É crítica e ensaísta, autora do livro O Brasil antenado: a sociedade da novela (Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2005).

Confira a entrevista. 

IHU On-Line – Qual é o modelo de família que é vendido pelas telenovelas atuais? 

Esther Hamburger – Não há um modelo de família. Há diversos. Há uma diversidade de arranjos familiares que se relaciona com a diversidade de arranjos que existe na sociedade brasileira. Então, por exemplo, em Avenida Brasil , tinha os mais variados tipos de família. Inclusive a novela valorizou a família do Tufão, um dos personagens principais, que, no fim, tinha filhos que não eram seus filhos, mas a ideia de família permaneceu valorizada, mesmo que admitindo uma diversidade. Isso tem a ver com o sucesso da novela também.

IHU On-Line – Guardadas as devidas proporções entre ficção e vida real, o que o casamento entre o personagem Cadinho, da novela Avenida Brasil, e suas três mulheres, pode sinalizar sobre novas modalidades de família que surgem no Brasil?

Esther Hamburger – Não acho que as pessoas vão seguir esse modelo. As pessoas não imitam o que a novela mostra. A novela serve como um repertório comum entre as pessoas mais diferentes, que serve para cada um colocar seu ponto de vista: discordar, concordar, expor outras formas. Não penso que a novela vá estimular esse tipo de arranjo, mesmo porque sabemos que o problema existe. E a novela faz justamente uma valoração positiva das famílias. É importante ressaltar que as novelas fazem sucesso quando provocam temas polêmicos, quando trazem à tona temas que as pessoas lidam no seu cotidiano. Ao trazer para o horário nobre, a novela legitima a existência do problema e o reconhece de uma forma que todo mundo assiste. Então, todos compartilham aquelas histórias e podem usá-las para discutir suas próprias opiniões e seus próprios problemas. 

IHU On-Line – De forma geral, como o povo brasileiro reagiu diante de um marido com três esposas (Cadinho) e uma mulher (Suélen) com dois maridos? O que mais choca e o que mais provoca identificação e simpatia?

Esther Hamburger – A solução do Cadinho, com três mulheres, e da Suélen, com dois homens, na verdade, é um tratamento bem humorado para tensões que as pessoas enfrentam no dia a dia, pessoas dos mais variados tipos, das mais diferentes idades e gêneros. A novela reconhece que o problema existe, mas o resolve com bom humor. 

IHU On-Line – Em sua opinião, a novela tem inspiração na realidade ou é influenciadora da vida social real? 

Esther Hamburger – As duas coisas. Porque a novela faz parte da realidade. Ela capta coisas, as transforma e depois expressa. Esse é o processo. Como ela é feita ao mesmo tempo em que vai ao ar, ela se apoia muito nessa dinâmica de captar as ansiedades que estão na sociedade e devolvê-las. 

IHU On-Line – Resgatando a trajetória histórica das telenovelas brasileiras, o que mais mudou em relação ao modelo de família nos últimos anos?

Esther Hamburger – É muito interessante pensar a novela em relação aos modelos de família. Porque há uma diversificação crescente na sociedade brasileira, como os demógrafos mostram, e as novelas acompanham isso tudo, pois elas fazem parte de um processo de mudança demográfica do Brasil. O país vem mudando muito nos últimos 50 anos e são mudanças muito radicais. Tão radicais que afetam a estrutura familiar. É uma combinação de fatores que levam a isso. Não existe uma única causa. Uma coisa interessante é que, segundo o último censo, aumentou o número de pessoas que vivem sozinhas. Isso, em novela, é muito raro aparecer. Então, podemos ver que a ligação não é imediata. Há muitas mediações acontecendo. De forma geral, a novela capta as transformações que vêm ocorrendo na família brasileira. Às vezes, ela devolve reforçando alguma tendência e às vezes ela devolve com alguma solução inusitada e criativa, como foi o caso desta última.

IHU On-Line – Considerando que, segundo o último censo, tem aumentado o número de mulheres chefes de família, como aparece nas novelas a mudança do protagonismo feminino na sociedade – dentro e fora de casa? 

Esther Hamburger – No caso das famílias chefiadas por mulheres, principalmente nessa última novela, até que havia alguns casos. No caso da família do Tufão, ele era o chefe. Embora os filhos não sendo dele, ele continua se considerando o pai e é o chefe da família. Depois, tem a família da Lucinda (no núcleo do lixão), chefiada por ela. O Cadinho se tornou o chefe de uma grande família com três mulheres, ou de três famílias. A novela, ao longo dos anos, foi fortalecendo uma ideia de mulher que dá conta de muitas coisas: a mulher que trabalha, que tem desejo e direito ao prazer. A novela legitimou a separação, inclusive antes de o divórcio ser aprovado no Brasil. Sem dúvida, ela acompanha esse processo de independência da mulher, mas problematiza pouco as relações de gênero propriamente ditas no que diz respeito à distribuição do trabalho doméstico, por exemplo. Ela não necessariamente entra nessa discussão. Em geral, se favorece o modelo de supermulher, que dá conta de tudo, de ser mãe, mulher, esposa, profissional. Nesse sentido, embora as mulheres tenham, ao longo dos anos, ganhado muito espaço, problematiza-se pouco as consequências dessa multiplicidade de tarefas das quais a mulher é cobrada. 

IHU On-Line – Como a fragmentação da família e a liberalização das relações conjugais têm aparecido nas novelas da Globo nos últimos anos?

Esther Hamburger – As novelas acompanham o processo de mudança social. Às vezes elas estimulam e às vezes elas “seguram”. Não são um espelho sem distorções. Por outro lado, elas não estão fora da realidade, mas fazem parte dela. O que vimos foi essa novela mais recente (Avenida Brasil) tomando iniciativas muito inesperadas e inovadoras, o que não quer dizer que as pessoas vão seguir o modelo que a novela está oferecendo. Só quer dizer que as pessoas, dentro dos próprios problemas, verão que esses problemas não são especificamente seus, mas são compartilhados e reconhecidos por todos e podem pensar em soluções criativas para eles. De qualquer forma, a personagem da Suélen é muito interessante, talvez a mais inovadora dessa novela, pois ela tenta uma saída que envolve não só dois homens como também uma afirmação do homossexualismo. 

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