Edição 406 | 29 Outubro 2012

“Estamos vivendo cada vez mais numa sociedade de indivíduos”

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Graziela Wolfart e Thamiris Magalhães

Portanto, a sociedade tem que aprender a viver ou conviver com famílias diferenciadas.

Em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, Thierry Linard de Guertechin, demógrafo, acredita que a família tradicional estável e com filhos está perdendo sua hegemonia. “Pode também haver reinvindicações de constituir outros tipos de famílias. Dois fatores exercem uma razão de causa a efeito e reciprocamente: a nupcialidade e a fecundidade. Segundo o censo demográfico de 2010, das 81 milhões de pessoas de mais de 10 anos que viviam um tipo de união conjugal (metade da população de mais de 10 anos de idade), registram-se 51 milhões de pessoas casadas legalmente e 30 milhões de pessoas vivendo em ‘uniões consensuais’”, diz. E completa: “Há décadas que este efetivo não para de aumentar e tornou-se matriz dos rearranjos familiares. Por outro lado, hoje, para quatro casamentos celebrados, registra-se um divórcio no ano corrente”.

Thierry Linard de Guertechin é jesuíta, nascido na Bélgica, residente permanente no Brasil desde 1975. Sua formação básica é nas áreas de Filosofia e Teologia, com mestrado em Demografia, pela Universidade Católica de Lovaina e em Geografia na Universidade de Liège, Bélgica. Professor na PUC-Rio desde 1976 a 1996, no Departamento de Sociologia e Ciências Políticas, foi diretor regional da Fundação Fé e Alegria (1990-1997) e assistente espiritual da Ação Social Padre Anchieta – ASPA, na favela da Rocinha. Exerce atividades de assessoria ao Setor Pastoral Social da CNBB. Pesquisador e professor no Centro de Investigação e Ação Social e no Instituto Brasileiro de Desenvolvimento – CIAS/IBRADES desde 1980. Atualmente é diretor do CIAS/BRADES

Confira a entrevista.

IHU On-Line – No Brasil, a família tradicional (pai, mãe e filhos) já não é mais maioria (49,9%). O que isso significa sobre as mudanças que a família vem sofrendo atualmente?

Thierry Linard de Guertechin – Não diria que a família tradicional está sofrendo alguma coisa. Só que ela vê sua hegemonia diminuir em termos de maioria absoluta, perdendo espaço na sociedade brasileira, pois assistimos a uma multiplicação e diversificação de outros arranjos familiares. Se não me engano, do censo demográfico de 2000 a 2010, no registro de tipos de famílias, passamos de 11 a 19, sendo 18 que se distinguem, no censo de 2010, da família tradicional nuclear composta de pai, mãe e filho (s).

IHU On-Line – O que representa para a família o fato de que as mulheres já assumem a responsabilidade por muito mais lares do que há dez anos? Como o homem se posiciona e se sente nesse novo cenário?

Thierry Linard de Guertechin – O fato de famílias chefiadas por mulheres vivendo com filhos é, na verdade, uma tendência que começou nas décadas anteriores, eu diria nos anos 1960, e que está continuando a crescer. Hoje (no censo de 2010), registram-se 8,5 milhões de famílias chefiadas por mulheres, seja 15,1% do total das famílias. Elas eram da ordem de 12% há dez anos. Segundo pesquisas, são famílias de baixa renda em sua maioria, o que foi comentado com a feminilização da pobreza no Brasil. Como os homens se posicionam neste cenário que não é tão novo? Observamos uma minoria de pais com filhos, da ordem de 2,3%. Por outro lado, os homens têm mais propensão que as mulheres em realizar outra união depois da separação ou do abandono da mãe solteira.

IHU On-Line – Que tipo de sociedade pode estar se formando com famílias onde muitos netos estão morando com avós?

Thierry Linard de Guertechin – Ainda bem que têm os avós que ajudam as famílias monoparentais ou não, no mesmo domicílio ou não. O fato de a família estar constituída de três gerações é de suma importância para seu bem-estar ou até para sua sobrevivência. Em não poucos casos os avós estão contribuindo de maneira significativa à renda familiar. Pode ser um resquício da família composta do passado. Nesse caso, não seria uma novidade. Mas creio que a sua permanência ou continuidade é resposta a uma situação nova por meio de arranjo familiar antigo.

IHU On-Line – O que esperar da família chamada “mosaico” (a do meu, do seu e dos nossos filhos)?

Thierry Linard de Guertechin – A família chamada “mosaico” resulta de histórias de vida marcadas por uniões instáveis, separações e novas uniões, juntando os filhos tanto de um parceiro como do outro. Um ponto final desse processo pode resultar em famílias com padrastos e/ou madrastas tomando conta dos filhos dos antigos parceiros. Trata-se de uma reorganização familiar que alguns qualificam de desagregação, outros de rearranjo familiar pelas condições da vida. É uma solução pragmática que permite manter um lar para crianças fruto de outras uniões, solução mais desejável do que o abandono dessas crianças a sua sorte.

IHU On-Line – Podemos afirmar que as novas famílias prenunciam um século diferente? Como seria a sociedade do futuro a partir das novas constituições familiares?

Thierry Linard de Guertechin – A sociedade tem que aprender a viver ou conviver com famílias diferenciadas. A família tradicional estável e com filhos está perdendo sua hegemonia. Pode também haver reinvindicações de constituir outros tipos de famílias. Dois fatores exercem uma razão de causa a efeito e reciprocamente: a nupcialidade e a fecundidade. Segundo o censo demográfico de 2010, das 81 milhões de pessoas de mais de 10 anos que viviam um tipo de união conjugal (metade da população de mais de 10 anos de idade), registram-se 51 milhões de pessoas casadas legalmente e 30 milhões de pessoas vivendo em “uniões consensuais”. Há décadas que este efetivo não para de aumentar e tornou-se matriz dos rearranjos familiares. Por outro lado, hoje, para quatro casamentos celebrados, registra-se um divórcio no ano corrente. 

IHU On-Line – Falou-se que a família iria acabar, tal como se disse quando a mulher conquistou o direito ao voto. Entretanto, a família se adapta, se renova. Qual a importância dos laços afetivos nesse sentido?

Thierry Linard de Guertechin – Se a família tradicional não tem mais a maioria absoluta, ela fica ainda bem representativa sendo modelo dominante de referência a partir do qual se definem as novas formas de famílias. Os pesquisadores chamam a atenção sobre as novidades e adaptações em termos de arranjo familiar. De fato, apesar dos pesares, a família está formando um valor para as pessoas. Movimentos femininos de emancipação têm seu papel na transformação atual; isso gera efeitos também sobre as famílias tradicionais. Trata-se de rever o papel da mulher em família na sociedade. A família faz parte da sociedade, de uma sociedade que luta ou deveria lutar mais pela igualdade entre homens e mulheres. Interessante é a percepção, no imaginário popular, de muitas mulheres que não querem o casamento nem no papel no religioso, pois, como dizem, “casar dá azar”. Nesse caso, o casamento é visto como um vínculo que submete legalmente a mulher aos caprichos do marido. Pelo contrato de matrimônio se fixa uma situação desigual que perdura e perde a flexibilidade de união mais informal. Também é verdade que muitos homens não estão dispostos a assumir compromissos, o que é outra forma de desigualdade. Uma última forma de adaptação que evidencia a busca de laços afetivos, mas dentro de uma sociedade em que o dinheiro e o indivíduo são sobrevalorizados, é a família “DINC” . Morando ou não juntos, trata-se de uma união afetiva de “duplo ingresso nenhuma criança”. Duplo ingresso significa que cada um tem o seu rendimento e/ou trabalho com o projeto de não ter filhos.

IHU On-Line – Quais as instituições sociais que mais devem se readaptar às novas formas familiares do século XXI? Qual deve ser a postura da Igreja nesse sentido? 

Thierry Linard de Guertechin – Se o último tipo de família se torna hegemônico, a sociedade vai encontrar dificuldades para sobreviver e garantir a sobrevivência da sua própria população envelhecida. Nas evoluções da nupcialidade, da fecundidade e das famílias, não é fácil determinar se é o ovo que vem da galinha ou se é a galinha que vem do ovo. Um fato seguro é a queda da fecundidade da mulher que, no Brasil, passou de mais de 6 a menos de 2 nascidos vivos por mulher, isso em 50 anos, quer dizer em duas gerações! Por outro lado, o Código Civil já, em parte, se adaptou às outras formas de famílias que a tradicional. Reconhecem os direitos dos cônjuges. Mas sempre o direito vem depois das mudanças de costumes. Por outro lado, segmentos da sociedade não reconhecem algumas formas de arranjos familiares negando a esses o nome de “casamento” e os direitos (e deveres?) consequentes. 

Posição da Igreja

A Igreja manifesta reservas nítidas diante dessa diversidade e multiplicação de famílias de tipos diferentes da família tradicional que conhecemos no passado como hegemônica. Mas não podemos, no concreto da vida, idealizar a família tradicional, pois, segundo eminentes canonistas, o matrimônio católico sofre, em não poucos casos, de validade canônica. Abre-se aqui um campo pastoral para uma melhor compreensão da vida do casal e a celebração do sacramento do matrimônio. Para concluir, uma inquietação: estamos vivendo cada vez mais numa sociedade de indivíduos. 

Leia mais... 

>> Thierry Linard de Guertechin já concedeu outra entrevista à IHU On-Line. Confira:

* Ibrades e a formação social e política. Entrevista concedida à Revista IHU On-Line, edição 337, de 02-08-2010, disponível em http://zip.net/bkhP1z. 

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