Edição 406 | 29 Outubro 2012

Debtocracy: a crise econômica grega em destaque

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Thamiris Magalhães

O documentário retrata a construção da dívida da Grécia em 2010, resgatando um histórico de como ela foi construída desde o início do século XIX, a partir do Reino Unido – como se deu, inclusive, aqui no Brasil, aponta Anderson David Gomes dos Santos

Segundo Anderson David Gomes dos Santos, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, o documentário Debtocracy toma como base o conceito de “dívida odiosa”, muito utilizada nos Estados Unidos após invasões militares (caso recente do Iraque) para não pagar as dívidas feitas até então nos países invadidos. “A dívida é ‘odiosa’ porque a população não foi consultada sobre sua aquisição, não sabe se o dinheiro recebido foi gasto para o bem público, mas principalmente os credores sabiam das duas informações anteriores, o que indicaria problemas se entendida determinada formação política a partir de uma ‘democracia’”, analisa. E continua: “Os exemplos demonstrados de Argentina e Equador deixam clara a intenção do documentário de propor uma comissão de auditoria da dívida grega, algo defendido por especialistas ouvidos. Por mais que sejam realidades socioeconômicas diferentes, o intuito é saber o que realmente seria a dívida contraída e o que não deixa de ser apenas juros ou dívidas construídas para benefícios privados, hipótese retratada com os exemplos da Siemens e do Goldman Sachs – este presta consultoria ao governo grego para entrar na União Europeia, maquilando os números da dívida, ao mesmo tempo em que ‘jogava’ contra ele na bolsa de valores”. 

Anderson David Gomes dos Santos é mestrando no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos (bolsista Capes RH-TVD) e membro do Grupo de Pesquisa Cepos (apoiado pela Ford Foundation). 

Confira a entrevista.  

IHU On-Line – Quais são os pontos principais que o filme Debtocracy traz em sua gênese? 

Anderson David Gomes dos Santos – O Debtocracy  discute a situação atual da Grécia, com problemas econômicos difundidos diariamente pelos meios de comunicação internacionais, explicando como se chegou até este ponto a partir de uma contextualização sobre como foi “adquirida” a dívida pública, que eles irão denominar ao longo do filme com a categoria de “odiosa” pelos problemas que ela causa à população, que não tem nada a ver com a sua criação e seu aumento. Para contar isso, os autores explicam a história política grega, que seria comandada por dois partidos e três famílias após o período de ditadura, com benefícios a determinados grupos empresariais multinacionais em dados momentos.

IHU On-Line – Qual a origem da palavra debtocracy e de que maneira ela se assimila a outras palavras, como democracia, aristocracia e teocracia? 

Anderson David Gomes dos Santos – O título é uma derivação destes termos mais conhecidos, que representam diferentes formas de aplicação do poder “oficial”. Dividocracia representaria uma espécie de governo determinado por uma dívida, já que é para pagá-la, ou aos seus juros, que se cortam direitos sociais e reduzem o papel do Estado na sociedade. O berço do poder pelo povo, representado pelo conceito de “democracia”, passa longe de existir, algo comprovado com a desistência de realizar um plebiscito sobre a moratória da dívida após pressão da troika (Banco Central Europeu, União Europeia e Fundo Monetário Internacional).

IHU On-Line – De que maneira o documentário retrata a dívida grega em 2010? 

Anderson David Gomes dos Santos – O documentário retrata a construção desta dívida, resgatando um histórico de como ela foi construída desde o início do século XIX, a partir do Reino Unido – como se deu, inclusive, aqui no Brasil. A partir daí, vê-se o crescimento desta dívida ao mesmo tempo em que se há privilégios para grandes empresas multinacionais, com grande prejuízo para o Estado, e toda a armação de números para a entrada na União Europeia, após um período de entrada no capital financeiro com ações estatais que acabaram por demolir ainda mais a economia local a partir dos efeitos da “crise” econômica dos Estados Unidos. Trata-se de um acúmulo de momentos anteriores que beneficiaram basicamente entidades privadas – há o relato de que foi gasto o dobro com as Olimpíadas de Atenas em relação às edições anteriores, por exemplo. Além disso, apresenta casos em que as dívidas foram perdoadas ou foi decretada a moratória por conta de pressão popular. 

IHU On-Line – Quais são as possíveis soluções futuras que o documentário traz para solucionar o problema financeiro grego?

Anderson David Gomes dos Santos – O documentário toma como base o conceito de “dívida odiosa”, muito utilizada nos Estados Unidos após invasões militares (caso recente do Iraque) para não pagar as dívidas feitas até então nos países invadidos. A dívida é “odiosa” porque a população não foi consultada sobre sua aquisição, não sabe se o dinheiro recebido foi gasto para o bem público, mas principalmente os credores sabiam das duas informações anteriores, o que indicaria problemas se entendida determinada formação política a partir de uma “democracia”. Os exemplos demonstrados de Argentina e Equador deixam clara a intenção do documentário de propor uma comissão de auditoria da dívida grega, algo defendido por especialistas ouvidos. Por mais que sejam realidades socioeconômicas diferentes, o intuito é saber o que realmente seria a dívida contraída e o que não deixa de ser apenas juros ou dívidas construídas para benefícios privados, hipótese retratada com os exemplos da Siemens e do Goldman Sachs – este presta consultoria ao governo grego para entrar na União Europeia, maquilando os números da dívida, ao mesmo tempo em que “jogava” contra ele na bolsa de valores. Além de outros países europeus, casos da França e da Alemanha, seguirem vendendo veículos bélicos para o país, ao custo de bilhões de euros, ao mesmo tempo em que cobram uma austeridade fiscal por parte do governo grego, com corte de recursos sociais.

HU On-Line – De que maneira o documentário retrata a posição do governo grego diante desta situação? 

Anderson David Gomes dos Santos – O documentário vê que os governantes foram responsáveis por isso, principalmente pela estrutura montada, em que há pouco rodízio político e um aparente benefício ao capital privado em detrimento dos interesses da população, que praticamente não é consultada sobre as decisões a serem tomadas que influenciarão as camadas mais desfavorecidas.

IHU On-Line – De que forma Debtocracy traça paralelos entre a crise econômica argentina de 1999-2002 com a atual crise econômica na Grécia?

Anderson David Gomes dos Santos – Ele faz a comparação a partir das situações-limite, em que a Argentina recebeu forte pressão do Fundo Monetário Internacional, enquanto a Grécia recebe forte pressão do Banco Central Europeu – muito mais do que do FMI. No caso argentino, que deveria servir como modelo das práticas neoliberais na América Latina e das ações possibilitadas pelos empréstimos desse banco, foram gerados vários problemas sociais, caso de nível elevado de desemprego, que culminaram na ocupação das ruas da cidade e com uma série de demissões de presidentes da República, o que forçou uma reconfiguração política no país e a mudança das relações com o FMI, que havia gerado até então uma dívida não só “impagável” como prejudicial aos direitos sociais. Este caso é utilizado como possibilidade de ação na Grécia, que também conta com protestos e manifestações já há alguns anos, mas sem mudanças efetivas no topo do poder, responsável pelas decisões socioeconômicas. A Argentina é mostrada para se dizer que “dívidas odiosas”, que só prejudicam a população dos países, devem ser sim reanalisadas e/ou não pagas.

IHU On-Line – Gostaria de acrescentar algum aspecto não questionado?

Anderson David Gomes dos Santos – Lembrar que o documentário foi produzido com recursos de amigos dos diretores e de voluntários, visando com isso não se atrelar a interesses de quaisquer grupos empresariais de comunicação – modelo seguido no segundo documentário deles, o Catastroika, que trata das catástrofes sociais no mundo por conta das respostas e das consequências ao ciclo de “crise”. Curiosamente, apesar de estar disponível na internet para ser visto e debatido, o documentário não chegou de forma física ao Rio Grande do Sul, em parte devido a essa questão da distribuição, mas também, quem sabe, por conta do tema abordado.

Leia mais... 

Anderson David Gomes dos Santos já concedeu artigos à IHU On-Line. Confira:

O saldo da transmissão olímpica é de mais brigas para o futuro. Artigo publicado na Coluna do CEPOS da Revista IHU On-Line, edição 401, de 03-09-2012, disponível em http://migre.me/bloFn; 

Por dispositivos legais sobre a transmissão de eventos esportivos. Artigo publicado na Coluna do CEPOS da Revista IHU On-Line, edição 389, de 23-04-2012, disponível em http://migre.me/bloOi. 

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