Edição 282 | 17 Novembro 2008

Oração e confissão na poesia mística de Hopkins

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André Dick

“A obra de Hopkins é instigante porque, simultaneamente, se aproxima e se afasta da tradição” e cada ato de sua vida era “um ato consagrado”, querendo “realizar tudo na presença de Deus”, considera o doutorando Wiliam Alves Biserra

Na obra de Hopkins, segundo Wiliam Alves Biserra, “a figura de Jesus é a pedra angular de Hopkins, não como o esposo, nem como salvador, muito menos como príncipe da paz ou como fonte de misericórdia divina, mas como Rei”. Por meio de uma análise de símbolos religiosos, Biserra aponta as diferenças e semelhanças, quanto à religiosidade e aos experimentos de linguagem, entre James Joyce e Hopkins. Segundo ele, “Hopkins não louva a tecnologia por si só, como farão os futuristas, pelo contrário”. Analisando “The wreck of the Deutschland”, Biserra, na entrevista que segue, concedida por e-mail à IHU On-Line, avalia que este “poema é sobre o fracasso e a tragédia de um dos ícones da modernidade no século XIX, o navio a vapor, derrotado pela natureza”. Hopkins também não cantará a cidade, como depois fez Baudelaire, pois, “como padre nas periferias de Liverpool, ele viu bem e ficou chocado com os males e as tragédias do proletariado inglês”. Wiliam ainda enfatiza: “Hopkins busca uma modernidade cristificada, naquela gota de sangue que torna tudo vermelho, não apaga as cores originais e deixa tudo em tom de escarlate”.

Alves Biserra possui graduação em Letras — Língua Inglesa e respectiva literatura e Letras — Língua Portuguesa e respectiva literatura, pela Universidade de Brasília (2004). Na mesma universidade, realizou mestrado em literatura e representações sociais pela Universidade de Brasília. Nela, também é professor substituto de Literatura Inglesa e norte-americana e cursa doutorado, na área de literatura e religião.

IHU On-Line - Na sua opinião, qual é a importância de Hopkins dentro da literatura inglesa?

Wiliam Alves Biserra - Hopkins se liga à tradição da poesia metafísica inglesa, especialmente representada pelas obras de John Donne, Andrew Marvell e George Herbert. A sua obra é instigante porque, simultaneamente, se aproxima e se afasta da tradição. Ele monta seu projeto estético com base na poesia do inglês arcaico, especialmente “Beowulf”,  e da poesia folclórica galesa, chamada Cynghanedd. Essas ferramentas poéticas servem, entretanto, para criar uma nova forma, com um vocabulário, uma sintaxe, um ritmo e uma imagística precursores do modernismo. Hopkins é, sem dúvida, o poeta mais inovador da época vitoriana, famosa exatamente pelo tradicionalismo, tanto nos temas quanto nas formas.

Inclinações artísticas para a pintura e a música

É interessante perceber que as primeiras inclinações artísticas de Hopkins não foram para a literatura, mas para a pintura e a música, influenciado respectivamente por Ruskin  e Purcell.  Isso ajuda a entender a importância das imagens e da observação de detalhes do cotidiano, além da musicalidade e da recitação como constantes preocupações de sua poesia. Sua obra é muito visual e especialmente muito sonora: ele mesmo dizia que sua poesia só pode ser lida em voz alta. Sua preocupação com isso era tanta que ele criou uma forma própria de escrever seus poemas, com símbolos e notações semelhantes à escrita musical, uma tentativa de poema-partitura.

Ao entrar para a universidade de Oxford, Hopkins se dedica ao estudo das línguas clássicas, latim e grego, e se torna um leitor ainda mais voraz de tudo o que encontra. Ele se torna aluno de Walter Pater  e entra em contato com sua doutrina, como também o fará Oscar Wilde.  Ainda como estudante, escreve alguns ensaios influenciado pelo movimento esteticista e o pensamento de “arte pela arte”, enquanto continua escrevendo poesias e desenhando bastante. Ele conhece a obra de William Holman Hunt  e toma contato com a irmandade pré-rafaelita, de Dante Gabriel Rossetti.  Alguns críticos sugerem que nessa época ele fez parte dos uranianos, famoso grupo homoafetivo de Oxford e Cambridge freqüentado por Walter Pater e Oscar Wilde. Entretanto, o que mais teria impacto em Hopkins foi o chamado “movimento de Oxford”, que o levou à conversão ao catolicismo, ao sacerdócio e ao abandono, temporário, da poesia.

IHU On-Line – Octavio Paz afirmava que a poesia se aproxima do sagrado. Na sua visão, como Hopkins lida em sua poesia com a dimensão religiosa? Ela tem semelhança com a de outros poetas?

Wiliam Alves Biserra - Hopkins é um místico e sua poesia é, em muitos momentos, uma oração e uma confissão. Os instantes mais preciosos de sua poesia são aqueles em que percebe a presença de Deus na criação, como em “God’s grandeur”:

The world is charged with the grandeur of God / […] / Because the Holy Ghost over the bent / World broods with warm breast and with ah! bright / wings.

Hopkins percebe o mundo fatigado, mas repleto da presença de Deus, animado pelo Espírito Santo. Robert Bridges, seu amigo, lhe perguntou o que significava o termo paráclito e Hopkins, depois de fazer uma metáfora com o jogo de cricket, quando um jogador anima o outro a continuar correndo e fazer o ponto, explica:

[...] um paráclito é isso, algo que anima o espírito do homem com gestos e gritos, preocupado com se ele vai alcançar seu objetivo e seguro de que ele o fará, se quiser, chamando-o, voando em direção a ele, clamando ao seu ouvido ou seu coração. Por aqui para fazer a vontade de Deus! Para salvar sua alma! Por aqui!

Cada ato da vida de Hopkins era um ato consagrado. Ele diz isso em seus diários, que queria realizar tudo na presença de Deus. Sua poesia, portanto, não poderia ser diferente: ela é expressão de sua vida mística, parte de seu sacerdócio. Quando ele queima seus poemas e deixa de escrever por oito anos, o faz por causa de sua conversão. Do mesmo modo, é por motivos religiosos que ele volta a escrever.

O poema que marca o retorno de Hopkins à literatura é “The wreck of the  Deutschland”, considerado por muitos sua obra-prima. Aparentemente, é um poema encomiástico. O navio Deutschland havia partido da Alemanha com destino à Inglaterra e naufragou, na entrada do rio Tamisa em 6 de dezembro de 1866. Mais de 150 pessoas que estavam a bordo morreram, principalmente de frio, entre elas cinco freiras franciscanas que estavam fugindo das leis anticatólicas então em vigor na Alemanha. A notícia mexeu com a sensibilidade de Hopkins e seu diretor de estudos comentou que gostaria que alguém escrevesse um poema sobre o fato, e Hopkins decidiu fazê-lo.

O tema é transformado e, ao invés de termos um poema meramente narrativo, o que se vê é uma obra extremamente complexa, misto de reflexão teológica e existencial. A narrativa em si é cifrada e os fatos transformados em símbolos, de modo que um leitor que não conheça os eventos antecipadamente terá dificuldades para compreender o que é narrado. Tudo é percebido, sentido e expresso de modo metafísico.

A mística de Hopkins não se assemelha à mística de Santa Teresa d’Ávila ou de São João da Cruz, porque ele não busca o amor esponsal, mas sem dúvida dialoga com a grande poesia mística por buscar em tudo e na própria expressão poética um sentido espiritual. Um dos diferenciais de Hopkins é de que ele se preocupou, como poucos poetas metafísicos fizeram antes dele, com a forma utilizada, com os recursos poéticos, especialmente ritmo, vocabulário, sintaxe e imagem.

A Irlanda em Hopkins

A Irlanda para Hopkins é um lugar de profunda tristeza. É lá que ele passa seus últimos e mais tristes anos, com crises de depressão profunda, até morrer, em Dublin. Ele não gostava do nacionalismo irlandês, que considerava excessivo, em assonância com Joyce, que, além de excessivo, considerará o sentimento nacionalista irlandês incrivelmente provinciano, como se pode perceber em Um retrato do artista quando jovem e em muitas passagens do Ulysses, especialmente no capítulo II. Hopkins não concordava com a Home Rule que Gladstone  havia dado à Irlanda. Era de se esperar que ele, como sacerdote católico e místico, se sentisse melhor em Dublin do que no anglicano País de Gales, seu lugar favorito. Deu-se o oposto. Dublin era, para ele, um cemitério, intelectual, artístico, espiritual e, por fim, físico. Lá ele dificilmente conseguia aprender ou escrever e não sentia mais a presença nem o toque, o inscape e o instress, como ele dizia, de Deus. Os poucos sonetos que escreveu neste período são chamados “sonetos da desolação” e compõem a parte final de sua obra. Na tradição mística católica, alguns críticos interpretaram essa fase de Hopkins como a noite escura da alma, seu período de mais profunda aridez.

Quanto a Joyce, Dublin é para ele um eterno mistério. Joyce provavelmente nunca amou tanto odiar uma cidade ou nunca odiou tanto amar uma cidade como amou e odiou Dublin. Dedicou a ela toda sua obra e mesmo tendo se exilado voluntariamente ainda jovem, seu universo criativo é visceralmente dublinense.
 
O catolicismo em Hopkins e Joyce

O catolicismo é uma influência basilar na obra de ambos, de maneiras bem diferentes. Para Joyce, o catolicismo não fora uma opção, mas uma herança, educado em colégio de jesuítas, no seio de uma família religiosa, Joyce sente em determinado momento o desejo de ser sacerdote jesuíta. Seu drama interior e seu rompimento definitivo com a Igreja, bem como fisicamente com a Irlanda, é recriado simbolicamente na personagem Stephen Daedalus, em Um retrato do artista quando jovem. Daedalus é um jovem poeta, muito inteligente e culto, que não aceita o provincianismo político, cultural e religioso de Dublin e a abandona para estudar em Paris. Entretanto, um grande trauma o acompanha, pois sua mão morrera de câncer e, no leito de morte, pediu a Stephen que rezasse por ela, e ele não conseguiu fazê-lo. Essa lembrança traumática atormentará a mente de Stephen ao longo de todo o Ulysses, culminando com uma fantasmagórica aparição do espectro da mãe, à meia noite, em um bordel de Dublin.

Para Hopkins, o catolicismo foi uma opção: ele converteu-se, não exclusivamente, mas muito por conta da influência do movimento de retorno comandado pelo futuro cardeal John Newman, conhecido como Movimento de Oxford. Hopkins era muito severo e, mesmo antes de se tornar jesuíta, fazia longas penitências, que duravam meses. Sua conversão foi um choque tremendo em seus familiares, provocando reações exaltadas. Assim sendo, Hopkins lutou para abraçar uma fé que Joyce quis abandonar. A fé é, portanto, uma influência muito importante tanto na personalidade quanto na arte de cada um.
 
Inovações em Hopkins e Joyce

Com relação às experimentações formais, são ambos inovadores, desbravadores de novas formas expressivas. Hopkins não produziu prosa, exceto as cartas e sermões, mas nada de cunho eminentemente estético. Joyce publicou pouca poesia (Música de câmara e Pomas: um tostão cada). Os esforços inovadores de Hopkins concentraram-se na poesia, e Joyce é muito mais lembrado por sua prosa. Um ponto de muita proximidade é a maneira como ambos retorcem o significante para aumentar-lhe o significado, um experimento que Joyce aprendera com Lewis Carroll,  chamado “palavra-valise”. Hopkins não utiliza esse recurso, mas faz coisa semelhante, não com uma só palavra, mas por meio da repetição, como no verso “earliest stars, earl-stars”.  A ferramenta mais famosa de Joyce, o fluxo de consciência, não é utilizada por Hopkins, por motivos óbvios, já que é uma técnica muito ligada ao surgimento da psicanálise, posterior a Hopkins. Além do que Hopkins não aceitaria o projeto de uma escrita automática que deixasse fluir o inconsciente do poeta, simplesmente porque seus poemas eram intensamente burilados, cada palavra era pensada e planejada, cada pausa e cada sílaba tônica é fruto de um cálculo rítmico prévio.

Fascínio pela musicalidade da linguagem

Pontos de aproximação seriam a preocupação com os detalhes do cotidiano, o fascínio com a musicalidade da linguagem, a liberdade sintática e a criação de idéias estéticas que guiavam muito minuciosamente a execução de cada obra. O cotidiano é uma pedra de toque da modernidade de língua inglesa, seja com Joyce, Virginia Woolf  ou T. S. Eliot, e Hopkins antecipa isso em poesia quando examina e dá grandeza metafísica a flores ou pássaros voando, bem como um agricultor que trabalha no campo. A musicalidade é tão importante para Hopkins que chega a guiar boa parte de seu pensamento estético, tanto que ele chega a criar um novo ritmo para melhor se expressar: o sprung rythm: “Para ser breve, consiste em escandir somente baseado na força da fala, sem levar em consideração o número de sílabas, de modo que um pé pode ter uma só sílaba ou muitas fracas e uma forte” (Cartas, 14), não se podendo esquecer da aliteração e das rimas internas de que ele tanto gostava: “Now burn, new born to the world”  (“The wreck of the Deutschland”, estrofe 34). A liberdade sintática consistia no fato de que Hopkins colocava as palavras na ordem que achasse mais adequada para o poema: “[...] Why must disapointment all I endeavour end?”  (“Thou art indeed just, Lord...”). Para Joyce, o ritmo e a liberdade sintática eram importantes para o fluxo de consciência, para mais aproximar a linguagem do nível pré-verbal da psiquê. Quanto à criação de um projeto estético, para Hopkins, além do sprung rythm, ele criou também uma outra forma de soneto (o curtal sonnet) e, por influência do teólogo Duns Scoto, as idéias de inscape e instress. Inscape é aquilo imanente a cada ser que faz com que ele seja e permaneça sendo o que é, em Duns Scoto (Haeccitas), o instress é a força, stress, que o inscape gera na percepção de alguém. Assim, muitos poemas nascem do instress que o inscape do mundo, ou de Deus, gera em Hopkins, e cada poema, bem como a obra de cada criador, possui também um inscape e um instress. O que Hopkins chamava de instress pode ser comparado com a noção joyciana de epifania, ou a súbita percepção de algo.

IHU On-Line - De que modo podemos perceber a figura de Jesus na poesia de Hopkins? Ele procura uma nova visão do cristianismo por meio de seu experimentalismo verbal?

Wiliam Alves Biserra - Não sei se poderia dizer que Hopkins buscava uma nova visão do cristianismo por meio de suas experiências verbais. Ele buscava afinar sua linguagem com a experiência mística que tinha e para isso os padrões convencionais da gramática não serviam, assim como os padrões convencionais de percepção não estão em sintonia com as sensações místicas. A figura de Jesus é a pedra angular de Hopkins, não como o esposo, nem como salvador, muito menos como príncipe da paz ou como fonte de misericórdia divina, mas como Rei. A figura de Cristo que mais aparece na obra de Hopkins, não que as outras não apareçam, claro, mas a mais preponderante é a de Rei, não raro de Herói e, até, Cavaleiro: “Pride, rose, prince, hero of us, high-priest, our heart’s charity’s hearth’s fire, our thoughts’ chivalry’s throng’s Lord”  (“The wreck of the Deutschland, estrofe 35); “[…] the Master, Ipse, the only one, Christ, King, Head”  (“The wreck...”, estrofe 28) Ele achava que devia imaginar um rei humano ideal e depois aplicar a imagem a Cristo. A freira alta e majestática que fica firme e consola os outros náufragos na parte final de “The wreck of the Deutschland” é uma representação de Cristo e de como Hopkins achava que ele transforma quem o ama e, em última instância, toda a realidade:

“Imagine que Deus nos desse a visão do mundo inteiro dentro de uma gota d’água, tudo com sua cor natural, então, depois, a mesma visão em uma gota de sangue, que tornasse tudo vermelho, sem apagar as cores originais, dando-as tons de escarlate”. 

Hopkins imagina um Aleph, conforme o conto homônimo de Borges,  cristificante. Além dos simbolismos da água e do sangue, podemos perceber também a sensibilidade visual de Hopkins, preocupado com as cores e suas nuances, tudo matizado por uma postura mística e cristocêntrica diante do real.

IHU On-Line - A modernidade, por vezes, é compreendida como um afastamento da religião. De que modo interpreta isto em Hopkins, para alguns um poeta decisivamente moderno?

Wiliam Alves Biserra - Caso se interprete a modernidade como um afastamento da religião, é preciso saber de que modernidade, de que religião e do afastamento de quem se está falando. Não se deve compreender a modernidade como um bloco singular e homogêneo. Hopkins aponta para uma modernidade, dentre as muitas possíveis, e o sagrado é a espinha dorsal de sua arte, fonte importante da poesia moderna em língua inglesa. Em Hopkins, modernidade, experimentação e religião são, mais que conciliáveis, sinergéticas. Hopkins não louva a tecnologia por si só, como farão os futuristas. Pelo contrário, seu principal poema é sobre o fracasso e a tragédia de um dos ícones da modernidade no século XIX, o navio a vapor, derrotado pela natureza. Ele também não canta a cidade, como o fará Baudelaire, pois, como padre nas periferias de Liverpool, ele viu bem e ficou chocado com os males e as tragédias do proletariado inglês. Hopkins busca uma modernidade cristificada, naquela gota de sangue que torna tudo vermelho, não apaga as cores originais e deixa tudo em tom de escarlate.

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