Edição 282 | 17 Novembro 2008

Um poeta revolucionário nas distorções das regras da gramática e da sintaxe

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André Dick

Além do aspecto musical de seus poemas, Hopkins, para a professora Aurora Fornoni Bernardini, realiza uma obra difícil, mas que não tem o aspecto programático das vanguardas

Visto pela professora, tradutora e crítica literária Aurora Fornoni Bernardini como o precursor da literatura inglesa moderna, Hopkins se destaca sobretudo pelo aspecto difícil de sua obra. Dessa dificuldade, Aurora, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, não surge “uma poesia retórica, baseada em normas ou modas, mas é revelado o viço que existe no fundo das coisas”. Esse elemento é destacado sobretudo porque Hopkins nunca deixa de mexer com a sintaxe, embora sua experimentação não tenha como objetivo o programa das vanguardas revolucionárias. No sentido religioso, que nutre a obra do poeta inglês, Aurora diz: “Para Dante, Deus é o Amor ‘che muove il mondo e l’altre stelle’, mas também é quem determina leis com as quais ele, Dante, não concorda: obedece; para Hopkins, Cristo é amor, mas Deus é lei e ira”.

Aurora Fornoni Bernardini possui, pela Universidade de São Paulo (USP), graduação em Letras — Língua e Literatura Inglesa, mestrado em Letras — Língua e Literatura Italiana, doutorado em Literatura Brasileira e livre-docência em Literatura Russa. Atualmente, é professora da USP. Tem experiência na área de Letras, com ênfase em Teoria Literária, atuando principalmente nos seguintes temas: literatura comparada, literatura russa, literatura italiana, teoria literária, teoria da narrativa e tradução literária. Traduziu, com Haroldo de Campos, poemas de Giuseppe Ungaretti em Daquela estrela à outra (São Paulo: Ateliê, 2003) e de Marina Tsvetáeiva em Indícios flutuantes (São Paulo: Martins Fontes, 2006).

IHU On-Line – Qual é a sua percepção sobre a poesia de Hopkins?

Aurora Fornoni Bernardini - A poesia de Hopkins não é nada fácil. Ele usa termos antigos da língua, de antes de Chaucer, e é obrigatória uma compreensão perfeita de cada termo empregado para depois se pensar na tradução (eventualmente criativa) e na interpretação. Ocorreu-me dar como trabalho de pós-graduação em literatura comparada a tradução e análise de um poema de Seamus Heaney — um dos poetas que sofreu o impacto de  Hopkins (não se diga a influência — este termo não cabe). Pois bem, foi uma pena. A intérprete (da qual não lembro o nome) mobilizou todos os recursos mais requintados de análise para um poema do qual não havia entendido o sentido. Entender: palavra-chave muitas vezes esquecida e, no entanto, a primeira em necessidade.

Na tradução, a questão da prosódia é fundamental. Não há apenas  um ritmo, mas dois, no dizer do próprio Hopkins, no prefácio a seus poemas (não os da primeira juventude, que ele destruiu depois de ter-se tornado religioso, mas dos quais foram, em parte, encontradas as cópias):

“But the reversal of the first foot and of some middle foot after a strong pause is a thing so natural that our poets have generally done it, from Chaucer down, without remark and it is commonly passed unnoticed and cannot be said to amount to a formal change of rhythm, but rather is that irregularity which all natural  growths and motions shews. If however the reversal is repeted in two feet running, especially so as to include the sensitive second  foot, it must be due either to great want of ear or else is a calculated effect, the superinducing or mounting of a new rhythm upon the old”.

Ou seja, nada mais, nada menos que o efeito do contraponto na música! Portanto, cuidado.

Precursor da poesia inglesa moderna

Hopkins simplesmente foi, junto com o jovem John Donne (1572-1631), precursor da poesia inglesa moderna. Embora sendo um mestre da métrica e de seus procedimentos, que conservou e que, no meu entender, são fundamentais na poesia, ele introduziu inovações revolucionárias numa série de procedimentos tais como, por exemplo, na rima: vejamos, no soneto “No worst, there is none...”, aquele “ling-ering”!:

My cries heave, herds-long; huddle in a main, a chief / Woe, wórld-sorrow; on an áge-old anvil wince and sing — / Then lull, then leave off. Fury had shrieked “No ling- / ering! Let me be fell: force I must be brief”

No léxico, inclusive com a introdução de neologismos. Veja-se, na estrofe 22 do poema “The wreck of the Deutschland” (“O naufrágio do Deutschland”), o termo “cinquefoil”:

But he scores it in scarlet himself on his own bespoken, / Before-time-taken, dearest prizèd and priced – / Stigma, signal, cinquefoil token / For lettering of the lamb’s fleece, ruddying of the rose-flake

No ritmo, com o uso do sprung rhytm, que é o ritmo da língua coloquial, falada, que às vezes reverte o acento de um pé para outro, na palavra. A métrica inglesa, igual à russa, à alemã, à latina e à grega, não se baseia na sílaba , mas no “pé”.
Aparece nas canções de ninar, nos cantos dos semeadores e tem a grande regularidade das bylinas russas, daí ter impressionado Jakobson. Hopkins também foi revolucionário nas distorções das regras da gramática e da sintaxe.

IHU On-Line - Em termos de ritmos e imagens, procurando um ritmo distinto para o verso, existe uma aproximação de Hopkins com os movimentos de vanguarda do início do século XX?

Aurora Fornoni Bernardini - Não propriamente nas vanguardas, uma vez que as transgressões de Hopkins eram funcionais (ad hoc) não programáticas.
Quem dele hauriu: W. H. Auden, Seamus Heaney, Robert Lowell, Sylvia Plath, Dylan Thomas, Elizabeth Bishop — esses, reconhecidamente. Outros? Até Benedetto Croce, que o traduziu para o italiano.

IHU On-Line - Qual seria a aproximação, no âmbito da religião, de Hopkins com Dante Alighieri, outro poeta de seus estudos. O que Deus significa em cada um deles? A poesia necessita, como afirma Octavio Paz, se aproximar do sagrado?

Aurora Fornoni Bernardini - Hopkins pode ser comparado com Milton, jamais com Dante. Hopkins é um mundo, Dante um universo. A pergunta sobre o que Deus significa para cada um deles só pode ser respondida após longo estudo e meditação das doutrinas filosóficas e religiosas que subjazem a ambos. Apenas a título de exemplo ligeiro: para Dante, Deus é o Amor “che muove il mondo e l’altre stelle”, mas também é quem determina leis com as quais ele, Dante, não concorda: obedece; para Hopkins, Cristo é amor, mas Deus é lei e ira.
O sagrado é o mito (Jung, Strauss, Eliade etc.) ou — conforme Ionesco — o próprio real. Cabe falar-se em religiosidade, não necessariamente em religião.

Visões terríveis do além

Ao mesmo tempo, Hopkins era um grande estudioso, religioso — primeiro anglicano e depois católico, tendo ingressado na Companhia de Jesus — e, ainda por cima, grande conhecedor da obra de Duns Scotus, o franciscano escocês do século XII que o impressionou por suas doutrinas da não demonstrabilidade das verdades sobrenaturais e da “individualidade das coisas” (Haecceitas), daí a idéia de “inscape” ou “gosto da realidade”.

Isso significa que os conceitos que se depreendem de sua poesia não são ingênuos ou gratuitos, mas baseados em profundas escavações.

A partir disso tudo: o milagre! Não resulta uma poesia retórica, baseada em normas ou modas, mas é revelado o viço que existe no fundo das coisas. Através, obviamente, das palavras das quais arrancava o máximo de efeito in actu, sem deixar-se constranger pelas regras da gramática, da sintaxe e do uso comum. Há poemas, além do “The wreck of the Deutschland” que se salientam: entre os poemas de 1877: “Spring”, “God’s grandeur”, “The windhover”; em 1880: “Spring and fall”, “Felix Randal”; os sonetos de 1887 etc. Cada um pelas razões já aduzidas, mas em alguns poemas, como “Sybil’s Leaves”, há visões (terríveis) do além.

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