Edição 260 | 02 Junho 2008

“Todos os brasileiros se utilizam do SUS, de modo direto ou indireto”

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Graziela Wolfart

Na opinião de Gastão Wagner, o SUS expande o atendimento, ao mesmo tempo em que deixa a desejar em qualidade e humanização

“O perfil do usuário do SUS é muito parecido com o dos brasileiros, que lidam com o processo de saúde e doença de mil modos, a depender da cultura regional, familiar, da disponibilidade de recursos etc. De qualquer modo, como tendência, em todos os segmentos sociais, predomina uma visão reduzida da saúde: ancorada no consumismo de fármacos e de procedimentos.” Essa é a visão do professor Gastão Wagner, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. Para ele, “há uma crise de crescimento do SUS que ameaça sua legitimidade”. Gastão Wagner de Sousa Campos possui graduação em Medicina, pela Universidade de Brasília (UnB), especialização em Saúde Pública e mestrado em Medicina Preventiva, pela Universidade de São Paulo (USP), e doutorado em Saúde Coletiva, pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Atualmente, é professor titular da Universidade Estadual de Campinas, e membro de corpo editorial das revistas Trabalho, Educação e Saúde e Ciência & Saúde Coletiva. Tem experiência na área de Saúde Coletiva, com ênfase em Saúde Pública.

IHU On-Line - Qual é o perfil do usuário do SUS? Em que contexto social estão as pessoas que se utilizam do Sistema Único de Saúde e como elas lidam com o processo saúde X doença?
Gastão Wagner
- Todos os brasileiros se utilizam do SUS, de modo direto ou indireto. O SUS é responsável pela Vigilância Sanitária e Ambiental, que regulamenta e fiscaliza alimentos, fármacos, estabelecimentos de saúde etc. O SUS é responsável pelo controle de epidemias e surtos, e pela vacinação. Todos são “usuários” destes programas que custam bilhões de reais a cada ano. Retirar isso é instaurar o caos sanitário, a barbárie. Os privatistas consumados, hipocritamente, quando se referem ao corte em gastos públicos, não reconhecem esta dimensão coletiva do SUS. Apenas 25% dos brasileiros têm acesso a serviços privados de saúde. 75% somente contam com o SUS para realizar atenção à saúde: da simples consulta ao transplante de órgãos. Vale ressaltar que mesmo os brasileiros de classe média, ou com trabalho regular em grandes empresas e da elite - os 25% - também se valem de serviços do SUS em várias situações: transplante, tratamento de Aids, de transtornos mentais graves, câncer, terapia intensiva, entre outras. Respondendo à sua pergunta, o perfil do usuário do SUS é muito parecido com o dos brasileiros, que lidam com o processo de saúde e doença de mil modos, a depender da cultura regional, familiar, da disponibilidade de recursos etc. De qualquer modo, como tendência, em todos os segmentos sociais, predomina uma visão reduzida da saúde, de que ela é ancorada no consumismo de fármacos e de procedimentos.
 
IHU On-Line - Qual é a sua opinião sobre o sistema de gestão e de sustentabilidade do SUS?
Gastão Wagner
- Há uma crise de crescimento do SUS, que ameaça sua legitimidade. Se por um lado, o sistema expandiu o atendimento, por outro, deixa a desejar em qualidade e humanização. Esta crise é decorrente de três fatores principais: o financiamento inadequado, um péssimo e calamitoso sistema de gestão (o SUS não ficou imune ao patrimonialismo do estado brasileiro) e a incompleta implantação do modelo de atenção típico dos outros sistemas de saúde. A Atenção Básica (Saúde da família) atende a menos da metade da população. Necessitaríamos incorporar pelo menos 75% dela. Além disso, os hospitais não estão integrados ao sistema e até hoje não se definiu uma política de pessoal para o SUS.
 
IHU On-Line - Como o senhor define a qualidade dos serviços prestados pelos profissionais do SUS? Há muitas diferenças se comparamos com o sistema privado de saúde?
Gastão Wagner
- A qualidade dos serviços oferecidos pelo SUS e pelo setor privado é heterogênea. Varia de serviço a serviço e de região a região. O SUS se destacou na oferta de alguns programas preventivos (como a Aids e a prevenção da mortalidade infantil) e fracassou com a epidemia de dengue, malária, tuberculose. O SUS tem um excelente programa de transplante; o tratamento do câncer está melhorando a olhos vistos; o atendimento a doenças crônicas, como hipertensão e diabetes, melhorou em extensão e eficácia. Entretanto, sobram deficiências em vários setores do atendimento.
 
IHU On-Line - Considerando que a sociedade brasileira não é mais a mesma da época da implantação do SUS, o que deveria fazer parte de uma reforma política e sanitária na proposta inicial do Sistema Único de Saúde?
Gastão Wagner
- Em minha opinião, não há necessidade de reformularmos a Constituição em seu capítulo sobre saúde ou mesmo a nossa lei orgânica. Os problemas que experimentamos são decorrentes de falhas na implementação dessa política. A luta entre o interesse clientelista, corporativo, empresarial e o atendimento às necessidades de saúde transferiu-se para dentro do SUS. Há uma tentativa permanente de reapropriação privada do recurso público.
 
IHU On-Line – Qual é a sua opinião sobre a integração de especialidades médicas no SUS?
Gastão Wagner
- Tenho uma série de estudos e textos sobre o tema. É um assunto complexo. Resumindo: faz-se necessário articular, em rede, o trabalho de generalistas com o dos especialistas tanto na saúde da família quanto em hospitais. O Brasil não formou generalistas, nem vem criando alternativas interessantes para quem optar por este tipo de carreira.
 
IHU On-Line - Qual é o papel do movimento da reforma sanitária na construção do SUS que temos hoje?
Gastão Wagner
- O Movimento Sanitário teve um papel positivo na reforma que resultou no SUS. Funcionou como intelectual orgânico, trazendo para o Brasil os conceitos, as diretrizes e a experiência positiva e negativa dos sistemas públicos (socializados) de saúde de vários países do mundo. Os ativistas do movimento funcionaram também como tribunos da causa popular contra a perversidade arraigada da elite brasileira, que ameaça “arrancar o revólver” toda vez que alguém menciona a distribuição de renda ou políticas de bem-estar social.
 
IHU On-Line - Qual é a contribuição da área da saúde coletiva para as práticas do SUS? Para o senhor, a saúde pública brasileira pode ser vista como um sistema integral em saúde?
Gastão Wagner
- O SUS pretende ser um sistema integral e integrado de saúde, pretende articular a saúde pública com a clínica e com toda a assistência. A Saúde Coletiva brasileira meteu-se com tudo na construção do SUS, tanto do ponto de vista político e gerencial quanto ao buscar soluções técnicas para os problemas.
 
IHU On-Line - O que significa ser médico do SUS? Quais os maiores desafios e dilemas?
Gastão Wagner
- Ser médico do SUS é padecer no paraíso - parafraseando, a sério, Gonçalves Dias.  O SUS não apresentou uma política consistente de pessoal, nem para os médicos nem para as outras profissões. O SUS nasceu junto com o auge do discurso neoliberal, que considerava uma heresia, um pecado, tratar com seriedade o tema de carreiras para o serviço público. O SUS é um serviço público, a menos que... A descentralização também colaborou para a cronificação deste problema. A integração dos médicos ao SUS, bem como de outros profissionais, depende de ações e recursos federais e estaduais. Jogar o problema para o âmbito de cada cidade é má-fé.

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