Edição 260 | 02 Junho 2008

Maísa Beltrame Pedroso

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Patricia Fachin e Bruna Quadros

“Quando vim dar aula na Unisinos, eu era nutricionista e não professora.” Aprender a didática para atuar em sala de aula foi um dos grandes desafios profissionais para a Profa. MS Maísa Beltrame Pedroso, coordenadora do curso de Nutrição, na Unisinos, que, nesta semana, conta a sua trajetória de vida à revista IHU On-Line. Natural de Uruguaiana, no interior do Estado, ela cresceu em um âmbito muito familiar, com valores de família muito fortes, os quais ela cultiva até hoje. A escolha pelo curso de Nutrição aconteceu por acaso. Mas, hoje, sua profissão é apenas uma das suas conquistas. Muito mais do que o conteúdo a ser passado em sala de aula, é a formação dos alunos que mais lhe preocupa. Segundo ela, para desenvolver a saúde no Brasil é preciso que haja profissionais capacitados. Confira, a seguir, a entrevista:

Origens – Nasci em Uruguaiana, na fronteira. Minha mãe, Magda, é professora de educação artística e meu pai, Almir, era comerciante. Vim de Uruguaiana para Porto Alegre em 1972, quando estava com 12 anos de idade, em função do trabalho da minha mãe. No início, foi bastante difícil a adaptação, devido ao fato de ter que trocar de escola e a não conhecer ninguém. Isso mudou muito a rotina da família. Nós estávamos sempre em casa, para as refeições e, com a mudança para a capital, passamos a não nos encontrar com tanta freqüência. E meu pai permaneceu morando no interior, o que tornou ainda mais difícil a adaptação. Só depois de meio ano que ele veio morar conosco, em Porto Alegre. Da rua Protásio Alves, fomos morar na zona sul da capital. É uma zona com mais verde, cara de interior, onde eu gosto muito de morar.

Infância – Os momentos mais importantes foram quando eu passava as férias na casa da minha avó paterna. Era muito bom, porque eu tinha toda a atenção. Além disso, ainda era tempo de brincadeiras de comidinha. Minha avó era daquelas pessoas que tinha horta e jardim com flores. Então, eu também plantava.

Irmãos – Somos cinco filhos: uma irmã, mais velha do que eu, e três irmãos mais novos. Eu e meu irmão mais moço somos muito apegados. Nós brigávamos com a mais velha, que era muito chata. Eu brincava muito com o meu irmão, Almir, jogávamos bolitas e até brincávamos de carrinho. A gente se divertia muito. Eu era muito responsável por ele, a ponto de levá-lo à escola.

Família – Minha estrutura familiar é, realmente, “muito família”. Sou uma mistura de espanhol com italiano, e as reuniões familiares sempre foram muito importantes. A vida toda eu me constituí em família. Nas férias, os primos estavam todos juntos. E, aos finais de semana, nos reuníamos para almoçar na casa dos meus avós. No interior, as famílias têm este costume de se reunirem para as refeições, o que pode ter influenciado na minha escolha profissional. Meu pai era muito carinhoso. Todos os meus amigos eram amigos dele e sentiram muita falta, quando ele se foi.

Casamento - Meu marido, Paulo Ricardo Pedrozo, era meu colega de escola, na sexta série. Nos conhecemos desde os 14 anos. Estamos completando 25 anos de casados. Tenho dois filhos: o Anderson, de 24 anos, que se formou em Psicologia na Unisinos, e a Natália, que está concluindo o curso de Nutrição.

Estudos – A graduação em Nutrição foi algo inesperado. Tinha feito vestibular para Medicina, e uma colega me convidou para fazer vestibular na Unisinos. As opções em saúde eram os cursos de enfermagem ou nutrição. Optei pela Nutrição, embora não soubesse muito bem o que era. Mas o curso foi me cativando cada vez mais. Percebi que é possível trabalhar a questão da saúde, sem estar inserido no curso de Medicina. Depois disso, fiz um curso de especialização em Medicina do Esporte, na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), a convite de um dos meus professores na graduação. Logo que eu terminei a especialização, ele saiu da universidade e eu fui convidada a substituí-lo, na disciplina que ele ministrava. Foi uma responsabilidade muito grande, e, ao mesmo tempo, muito gratificante. Em 1995, fui convidada pela direção do Centro das Ciências da Saúde, para assumir a coordenação do curso de Nutrição.

Sala de aula – Quando vim dar aula na Unisinos, eu era nutricionista e não professora. As questões pedagógicas sempre me marcaram muito. Quando fui substituir uma professora, de um dia para o outro, o tema que ela indicou era sobre estatísticas vitais, ao chegar à sala de aula e iniciar a matéria os alunos me disseram que o conteúdo já tinha sido aplicado. Fiquei sem saber o que fazer, mas logo propus que eles então falassem sobre a disciplina e o que esperavam dela. Sempre tive a preocupação de como é ser professor, trabalhar com a formação dos alunos, muito mais do que somente com o conteúdo. Quando, então, a universidade já tinha os seus mestres e doutores, e tinha cancelado o investimento de professores para a graduação, resolvi fazer mestrado, em Educação, na área de Pedagogia Universitária, na Unisinos.

Rotina - Na minha profissão, estou envolvida na área de nutrição social, que abrange avaliação nutricional, educação alimentar, voltada a promoção da saúde. Hoje, além de coordenar o curso de Nutrição na Unisinos, sou doutoranda em Educação, na universidade. Também sou nutricionista concursada, pela Secretaria Estadual da Saúde.

Unisinos – A universidade passou por vários momentos. Assumi a coordenação em um momento de mudanças, da passagem de departamentos para centros, além de trocas curriculares e crises administrativas, no início de 2004. Foi um período difícil, em função das perdas de colegas e do novo jeito de administrar a universidade. Mas acho que estamos conseguindo superá-lo e continuamos buscando novas alternativas para mantermos a qualidade do curso.

Instituto Humanitas Unisinos – Não acompanho muito de perto, devido aos compromissos administrativos e de sala de aula. Nós precisaríamos ter uma aproximação maior, principalmente, com a graduação. Buscamos uma formação humana, necessária para os alunos, e acredito que o Instituto Humanitas poderia ser esta grande fonte.

Lazer – Adoro viajar com a minha família e com as minhas amigas. Mas também gosto de ficar em casa, com a minha família, fazendo um churrasquinho.

Filme – Tenho assistido a poucos filmes. Um a que assisto quase todo o semestre, quando passo para os alunos, é Patch Adams – O amor é contagioso. A obra é muito didático, na questão da mudança de paradigmas do atendimento, da relação do nutricionista com o paciente e aproveito para mostrar aos alunos que é possível um novo modelo.

Livro – O último que li foi O caçador de pipas, de Khaled Hosseini, que aborda questões de enfrentamento, de ver a vida de outra forma.

– Não sigo uma religião, mas acredito em Deus. Ele é essa força que nos faz acreditar que a vida é bela, que vale a pena o esforço que a gente faz. 

Política brasileira – Não tenho partido político definido. Acredito em idéias e que um dia teremos pessoas com ética e competência para administrar o país. Nós precisamos mudar a constituição das nossas crianças. Fazê-las acreditarem que quem faz o bem sempre ganha vantagem.

Sistema Único de Saúde – O SUS é, realmente, um projeto muito importante. Mas não temos pessoas formadas para trabalhar neste Sistema. O contexto em que ele foi instalado é muito difícil. Como em outras esferas, no Brasil, há a lei, mas não tem a base para implantar. Quem está atuando na base não tem estrutura para esta nova forma de ver a saúde, não tem capacidade para desenvolver as diretrizes do SUS. Hoje, se fala muito na humanização do SUS, mas trabalhar a formação dos profissionais é um grande embate. A grande maioria dos nutricionistas quer atuar em consultórios, mas eles não entendem que o consultório particular também é SUS. É preciso competência, conhecimento e ética para desenvolver a saúde no Brasil.

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