Edição 260 | 02 Junho 2008

“Ruim com SUS, pior, mas muito pior, sem ele”

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Graziela Wolfart

Para Moacyr Scliar, saúde pública depende fundamentalmente da mobilização comunitária

Ele é médico e escritor. Sabe usar as palavras para expressar o que sente e pensa. E é dessa forma que Moacyr Scliar define a saúde pública no Brasil: “O SUS ensina, sobretudo, sobre a realidade de nosso país, uma realidade cruel, mas que não raro mostra as pessoas lutando por sua saúde com uma energia admirável”. Na entrevista que concedeu por e-mail à IHU On-Line e que foi complementada por telefone, Scliar fala sobre os benefícios e os problemas do Sistema Único de Saúde. No entanto, acredita que, “no balanço final, os benefícios do SUS ultrapassam em muito, mas em muito mesmo, as suas carências”.
Moacyr Jaime Scliar é um dos mais conhecidos escritores brasileiros da atualidade. Formado em Medicina, trabalha como médico especialista em saúde pública. Em 1963, iniciou sua vida como médico, fazendo residência em clínica médica. Especializou-se no campo da saúde pública como médico sanitarista. Iniciou os trabalhos nessa área em 1969. Em 1970, freqüentou curso de pós-graduação em medicina em Israel. Posteriormente, tornou-se doutor em Ciências pela Escola Nacional de Saúde Pública. Já foi professor na Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA). Scliar publicou mais de setenta livros, entre crônicas, contos, ensaios, romances e literatura infanto-juvenil. Citamos Do mágico ao social: a trajetória da saúde pública (Porto Alegre: L&PM, 1987; São Paulo: Senac, 2002) e Cenas médicas (Porto Alegre: Editora da UFRGS, 1988/Artes & Ofícios, 2002). É o sétimo ocupante da cadeira nº 31 da Academia Brasileira de Letras.

IHU On-Line - O que sua experiência como médico do SUS mais lhe ensinou sobre a vida, a saúde e a doença humana, e em especial sobre a realidade social brasileira?
Moacyr Scliar
- Toda prática médica ensina muito sobre a vida porque, quando estão doentes, as pessoas se revelam tais como são, ou seja, as máscaras caem. Mas acho que o SUS ensina, sobretudo, sobre a realidade de nosso país, uma realidade cruel, mas que não raro mostra as pessoas lutando por sua saúde com uma energia admirável.

IHU On-Line – Qual é a sua avaliação, de modo geral, sobre o Sistema Único de Saúde Brasileiro, principalmente se comparado aos sistemas de saúde pública de outros países?
Moacyr Scliar
- É o sistema de um país pobre, portanto tem muitas carências. Mas é mais igualitário que o sistema americano, por exemplo, que usa alta tecnologia, mas deixa milhões de pessoas sem qualquer assistência. Ruim com SUS, pior, mas muito pior, sem ele.

IHU On-Line - Em que sentido a questão da solidariedade e da preocupação social aparece com mais força na trajetória da saúde pública brasileira?
Moacyr Scliar
- Saúde pública depende fundamentalmente disso, da mobilização comunitária. Como vacinar, como fazer exames preventivos, como lutar contra epidemias sem a colaboração das pessoas? Devo dizer que solidariedade é um dever moral, não é uma regra ou norma. Não há como expressar isso de uma forma prática. O que se espera é que realmente as pessoas sejam solidárias, que se ajudem mutuamente e que participem, em conjunto, nas atividades de saúde pública. O SUS tem vários princípios. Em primeiro lugar, está a universalidade, ou seja, todo mundo tem direito ao SUS, independente de classe social, lugar de residência etc. E a Constituição de 1988 garante a todos o direito à saúde. A grande questão é que saúde custa dinheiro. E hoje estamos discutindo isso. Só que esse problema não aparece apenas na área pública. O seguro privado também custa caro e o custo dele sobe constantemente. A inflação na área da saúde é maior do que a inflação da economia em geral. 

IHU On-Line - Quais são as origens e influências da concepção de saúde pública que temos no Brasil hoje?
Moacyr Scliar
- São muitas as fontes, mas eu destacaria, sobretudo, a Constituição de 1988, com seu abrangente conceito de saúde (direito de todos e dever do Estado) e as conferências nacionais de saúde. O SUS segue um modelo que não é originariamente brasileiro. Na verdade, a idéia de um sistema público e nacional de saúde surgiu na Inglaterra, no final da Segunda Guerra Mundial, quando depois do todos os sacrifícios pelos quais os ingleses passaram, depois de todos os bombardeios, o governo resolveu, de alguma forma, compensá-los, criando um sistema de saúde que atenderia todas as pessoas do berço ao túmulo. E esse sistema, que era financiado por verba federal, se baseava não em postos de saúde, mas no atendimento do médico geral. Ou seja, os médicos atendiam os pacientes, encaminhavam para os hospitais, pediam exames etc. Esse sistema funcionou muito bem. Ao longo dos anos, ele foi mais de uma vez criticado, sobretudo no governo da Margaret Thatcher, mas o fato de que está aí há mais de 60 anos mostra que ele realmente cumpre um papel importante. Outro sistema baseado no sistema inglês é o canadense, que também é muito parecido com esse e funciona muito bem, embora haja críticas igualmente. Mas quando se compara, por exemplo, o sistema de saúde canadense com o americano, é evidente que o sistema de saúde do Canadá é muito melhor. Finalmente, temos o sistema cubano. Lá é só público. Não há sistema privado, a não ser para os turistas. É um sistema que funciona bem, ainda que seja o sistema de um país muito pobre e, por isso, com muitas carências. Falta muita coisa lá em termos de exames, de medicamentos, de procedimentos. Mas um mínimo de saúde toda a população cubana tem assegurada.

IHU On-Line - Na sua opinião, em que sentido o SUS ainda precisa avançar?
Moacyr Scliar
- Basicamente ampliando a gama de serviços oferecidos, corrigindo as distorções e melhorando a gestão. Hoje em dia, administrar a saúde é uma especialidade. As pessoas precisam conhecer muito bem. Há uma técnica envolvida, portanto não bastam boas intenções. Precisamos de administradores treinados, com conhecimento das técnicas administrativas. Porque não é só fazer comício, é realmente examinar problemas e propor soluções. Quando o SUS surgiu era muito mais uma bandeira, uma causa. Mas precisamos colocar isso na realidade e aí as pessoas precisam ter experiência. O SUS tem problemas. A questão do pagamento é um deles. Os hospitais e os profissionais se queixam muito e realmente se paga muito pouco. Em parte, porque o país é pobre mesmo. Mas também é uma questão de prioridade. Existem coisas que gastam muito dinheiro e beneficiam poucas pessoas. Então, hierarquizar melhor os procedimentos também seria uma coisa boa. Mas o que eu quero dizer é que, no balanço final, os benefícios do SUS ultrapassam em muito, mas em muito mesmo, as carências.

IHU On-Line - Há diferenças regionais no Brasil em relação às práticas médicas do SUS?
Moacyr Scliar
- Certamente. Norte e Nordeste sempre foram regiões com grande carência de recursos. Mas estas diferenças estão diminuindo. No entanto, há vários tipos de diferenças. A começar pelas doenças. No Norte e no Nordeste, existem doenças que não há aqui no Rio Grande do Sul. E vice-versa. Em segundo lugar, há diferenças culturais. Aqui, no Rio Grande do Sul o nível de alfabetização é melhor, as pessoas são mais informadas e isso ajuda a saúde. Depois, temos a capacidade de instalação, o número de profissionais da saúde é muito maior no Sul e no Sudeste do que no Norte e no Nordeste. E as distâncias também são enormes. Na Amazônia, às vezes, para atender um paciente, é preciso viajar três dias de barco.

IHU On-Line - Para o senhor, qual é a principal contribuição de Sergio Arouca para a saúde pública brasileira?   
Moacyr Scliar
– Conheci pessoalmente o Arouca, que era não só um grande médico de saúde pública, mas também uma pessoa extraordinária, um lutador, um homem que tinha ideais, que se esforçava por eles e que mostrou em vários lugares a disposição de brigar por uma saúde pública melhor no Brasil. Foi particularmente importante a gestão dele na Fundação Oswaldo Cruz; ele, afinal, a ampliou enormemente. Hoje, a Fundação é um órgão importante na conjuntura de saúde do Brasil graças, em grande parte, ao trabalho do Arouca. 

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