Edição 260 | 02 Junho 2008

O desafio dos ciborgues: Multidimensionalizar o próprio humano

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Patricia Fachin e Moisés Sbardelotto

Quando o humano passa a ser apenas um ingrediente para a construção de outras formas de vida, estamos nos encaminhamos para uma sociedade pós-humana. Essa é a afirmação do doutor em Cosmologia Luiz Alberto Oliveira.

Nesta entrevista concedida por telefone à IHU On-Line, Oliveira salienta que o humano não terá, necessariamente, que deixar de existir, mas, ao contrário, será diversificado, multiplicado, pluralizado. “Acréscimos serão feitos àquilo que até agora chamamos de humano”, afirma. Comparando esse avanço com a passagem da infância para a maturidade, o cosmólogo explica que a sociedade está passando para um outro patamar, no qual a capacidade técnica é capaz de estender os limites do que era reconhecido como humano.
Com o avanço das nanotecnologias e do domínio de escalas bilionesimais, o pesquisador do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas explica que se poderá também modificar as bases de cada organismo. “Isso significa que o que conhecíamos e o que estamos habituados a lidar, a fazer, a reproduzir, começa a ficar relativizado”, destaca. Daí advém o grande temor que essas inovações produzem na sociedade. Segundo Oliveira, a principal causa desse medo é concreta, pois já estaríamos assistindo as nossas próprias ações a se rebater sobre nós mesmos. “Estamos sendo não apenas os usuários, mas estamos também sendo usados pelos objetos técnicos”, analisa. “Isso significa que a forma humana está em vias de ser redesenhada para alguma coisa que nunca experimentamos. Esse temor do inédito, me parece, é a marca que faz com que todos se interroguem, com grande dúvida e incerteza, acerca das novas tecnologias e das potencialidades enormes que elas estão abrindo para nós”, resume.
Luiz Alberto Oliveira é formado em Física, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e possui mestrado pela mesma área, pelo Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), onde também obteve o título de doutorado em Cosmologia. Atualmente, é pesquisador do CBPF, no Rio de Janeiro, onde também atua como professor de História e Filosofia da Ciência.

Na semana passada, mais precisamente no dia 28 de maio, quarta-feira, ele proferiu a conferência “CiberCentauros (a possível hibridização entre homens e máquinas” no Simpósio Internacional Uma sociedade pós-humana? Possibilidades e limites das nanotecnologias. Sobre o tema, confira a revista IHU On-Line número 259, intitulada Nanotecnologias: possibilidades incríveis e riscos altíssimos.

IHU On-Line – Como podemos pensar as sociedades futuras, a partir da Teoria do Caos e da tecnociência?
Luiz Alberto Oliveira
- A tecnociência é a associação entre o conhecimento da natureza e o desenvolvimento de meios de transformá-la, de extensões das nossas habilidades e de nossas capacidades para fazer com que qualquer atividade humana transforme a natureza e transforme a si própria. Desde a Revolução Industrial, há aproximadamente 150, 200 anos, ela se tornou o principal motor da atividade econômica. A economia se tornou cada vez mais vinculada e associada à potencialização técnica dos meios de produção. À medida que avanços científicos e do conhecimento básico da natureza se convertem em desenvolvimentos técnicos, ou seja, em desenvolvimento de objetos, de meios, de instrumentos, ferramentas, utensílios pelos quais o trabalho humano é potencializado, a economia foi se tornando cada vez mais tecnocientífica. Então, os avanços da ciência passaram a repercutir cada vez mais e a serem as diretrizes pelas quais os entendimentos econômicos começaram a se guiar e a operar. Nos últimos 50 anos, um dos principais avanços, tanto de conhecimento básico sobre processos naturais quanto de um grande número de aplicações, foram as chamadas teorias do caos. Essas teorias nos dizem, basicamente, que a grande maioria dos sistemas de natureza não é suscetível de ser controlada, pelo fato de que pequenas causas, pequenas variações nas condições iniciais de um sistema, podem resultar em grandes efeitos. O controle que se exerce sobre o ponto de partida do comportamento do sistema não é suficiente para garantir que esse comportamento seja o previsto ao longo do desenvolvimento do próprio sistema. Então, essas tecnologias permitem prever uma sociedade fundada não em uma previsibilidade absoluta, mas, ao contrário, em uma indeterminação, que equivale a uma abertura. É como se cada vez mais fosse possível acumular, no presente, muitas linhas de futuro, muitas linhas de abertura para o inédito e o inovador. Essa é uma situação revolucionária. Só que não é mais uma revolução que sucede num momento de crise, num momento de espasmo. Ao contrário, é uma revolução que se tornou constante. Essa é a nossa crise atual, a crise de uma mutação.

IHU On-Line – O senhor fala em três grandes promessas com a inovação tecnológica: a robótica, a biotecnologia e a nanotecnologia. Como o ser humano será transformado a partir dessas inovações?
Luiz Alberto Oliveira
- O que esses três grandes domínios de avanço têm em comum é o fato de todos eles operarem a partir das escalas fundamentais de estruturação dos objetos materiais. Ou seja, operar com escalas bilionesimais, com o domínio do bilionésimo do metro, do trilionésimo do segundo, que são as escalas nas quais sucedem os fenômenos fundamentais de organização e estruturação dos sistemas materiais, vivos e cognitivos. Se estamos sendo, hoje, capazes de engendrar artefatos, de infundir idéias e diagramas em substratos tanto materiais quanto biológicos, cognitivos e neurológicos, por exemplo, então estamos sendo capazes de engendrar formas, dispositivos e sistemas, de fato entidades nas quais essas capacidades da matéria, da vida e do pensamento estão começando a ser administradas e pré-engendradas. Esses três ramos implicam que tudo aquilo que entendíamos que era o mundo, a vida, a sociedade e o indivíduo começa a entrar em uma rota de indeterminação. Ou seja, nós agora somos capazes de intervir nas próprias bases que nos definem enquanto seres materiais, seres vivos e seres cognitivos.

IHU On-Line – Com as possibilidades previstas por esses três ramos, os conhecimentos que até então tínhamos do que e como funciona a natureza e o homem serão desprezados?
Luiz Alberto Oliveira
- Ao contrário. Nosso problema é a enorme valorização do conhecimento da natureza. Esse conhecimento é que está nos permitindo operar nessas dimensões com esses modos inéditos. Ao contrário de uma impossibilidade e uma incapacidade, nós temos uma compreensão acerca desses modos de funcionamento que nós não dispúnhamos anteriormente. Foi só o desenvolvimento de avanços matemáticos muito significativos e dos computadores que nos permitiu lidar com sistemas que têm esse comportamento imprevisível e indeterminado. É indeterminado e imprevisível, mas possui padrões, e podemos reconhecê-los e operar sobre eles. Hoje, podemos intervir lá no nível molecular básico, no qual todos os sistemas materiais, vivos ou não-vivos, cognitivos ou não-cognitivos, se estruturam. As formas até agora engendradas pelos processos ditos naturais serão suplementadas por outros processos materiais. Essa artificialização profunda dos sistemas do mundo é a grande inovação do começo do século XXI.

IHU On-Line – Em outra entrevista à IHU On-Line, o senhor diz que estamos a caminho de poder redesenhar a forma humana e as formas de vida. Como isso acontecerá? Que mudanças teremos a partir da hibridação de células e chips?
Luiz Alberto Oliveira
- Surge aí algo que irá possuir o que nós chamamos de humano como um componente, mas que não é mais determinado exclusivamente por essas características do humano. Ou seja, é como se estivéssemos começando a explorar potencialidades de sistemas nos quais o humano – células humanas, DNA humano, tecidos humanos, comportamentos humanos, padrões de pensamento humanos – entram como ingredientes, como um componente, mas são como que extensões do humano. Nesse sentido é que me parece legítimo falar que nos encaminhamos para uma sociedade pós-humana. Não que o humano terá deixado de existir, mas, ao contrário, será diversificado, multiplicado, pluralizado. Acréscimos serão feitos a isso que até agora chamávamos de humano. É como se tivéssemos, da mesma maneira de quando há a passagem de um bebê para uma criança – o bebê engatinhava, a criança começa a andar –, ou quando passamos da criança para o adulto – o adulto é quem reproduz e tem capacidades que, na criança, estavam apenas em gérmen, passando para uma sociedade na qual nossa capacidade técnica agora é capaz de estender os limites do que era reconhecido como humano.

IHU On-Line – Se não há diferença entre moléculas biológicas e inorgânicas, naturais ou artificiais, por que o ser humano tem tanto medo da hibridação entre homens e máquinas ou pelo menos trata do tempo com cautela?
Luiz Alberto Oliveira
- Porque nunca houve nada parecido com isso. Todas as vezes em que intervimos sobre o mundo natural foi sempre de fora. Quando queremos mais lã, promovemos o cruzamento de exemplares de uma certa espécie de ovelha de modo a que tenha, cumulativamente, geração após geração, essa característica de mais lã e lã de qualidade. Mas estamos operando de fora, sobre o organismo. Agora, vamos operar de dentro, sobre as bases de cada organismo, sob a regra pela qual cada organismo é um organismo e é aquele organismo. Isso significa que o que conhecíamos, com que estávamos habituados a lidar, a fazer, a reproduzir – e já transformamos bastante a natureza e temos um imenso poder de transformação –, começa a ficar relativizado. E, na verdade, o grande temor é porque estamos vendo que as nossas ações estão começando a se rebater sobre nós próprios e que não somos mais apenas os gerenciadores dos objetos técnicos. Estamos sendo não apenas os usuários, mas estamos também sendo usados pelos objetos técnicos. A técnica agora é capaz de operar sobre nós. Somos matéria-prima dessa ação técnica. Isso significa que a forma humana está em vias de ser redesenhada para alguma coisa que nunca experimentamos. Esse temor do inédito, me parece, é a marca que faz com que todo o mundo se interrogue, com grande dúvida e incerteza, acerca das novas tecnologias e das potencialidades enormes que elas estão abrindo para nós.

IHU On-Line – Alguns estudiosos dizem que já somos ciborgues. O senhor concorda?
Luiz Alberto Oliveira
- Eu acho que somos pré-ciborgues. Me parece que somos plataformas adequadas para um engendramento de ciborgues. Por um lado, desde que existe a obturação de dentes, já somos ciborgues. Estou fazendo essa pequena caricatura para dizer que o uso de extensões das capacidades do corpo e a mescla de componentes têm uma longa tradição. Na verdade, toda a técnica já é alguma coisa “ciborguizante”. À medida que se passa a operar com objetos técnicos, começamos a conviver com extensões materiais, mecânicas e técnicas do corpo. O fato de agora haver uma mescla desses componentes e domínios é alguma coisa que sempre esteve latente, e agora nós temos os meios de realizar. Até, agora, podemos fundir células humanas com células animais ou fundir células humanas com componentes eletrônicos, nanotécnicos. Isso significa essa abertura, essa extensão dos limites do que era o humano.

IHU On-Line – O senhor diz que vamos nos converter em dinossauros mamíferos, irremediavelmente obsoletos, aguardando a extinção autoproduzida. Poderia nos explicar melhor essa teoria? Se assim for, não deveríamos combater as nanotecnologias para evitarmos a nossa autodestruição?
Luiz Alberto Oliveira
- Eu estava me referindo à seguinte possibilidade: vamos imaginar que desenvolvamos um sistema robótico, e esse sistema ganha autonomia. Ou seja, que ele seja capaz de se reparar, de manter a sua composição, a sua estrutura, as suas capacidades, e de tomar decisões frente às circunstâncias inovadoras, como nós fazemos. Um dispositivo como esse, uma fábrica auto-regulada, pode ser indispensável para se empreender a colonização de Marte, por exemplo. Então, se lança essa fábrica em Marte, ela faz outras fábricas, e o resultado da ação delas será, por exemplo, mudar a atmosfera de Marte, uma Terra-formação de Marte – em nível de especulação. Uma entidade como essas, num certo sentido, reproduz nossas capacidades e as amplia. Então, é como se o ideal do capitalismo de produção absolutamente ilimitada e de conversão de toda a ação em produção viesse a ser realizado, mas dispensando a presença humana. Foi nesse sentido que falei que o desenvolvimento de sistemas robóticos autônomos como esse teria como figura, no horizonte, nos converter em dinossauros mamíferos. Ou seja, entidades cujas capacidades técnicas, cognitivas, produtivas, são superadas por sistemas que nós mesmos engendramos.

IHU On-Line – Mas, se assim for, não deveríamos combater as nanotecnologias para evitar a nossa autodestruição?
Luiz Alberto
Oliveira - Eu entendo o contrário. Não se trata de autodestruição, mas sim de transformação. Essa transformação tem ocorrido desde que nós nos tornamos humanos. E, no momento, o que está sucedendo é uma aceleração disso que já é uma inerência nossa. Já nos estendemos e nos ampliamos cada vez que fazemos cultura, literatura, arte, ciência, filosofia. Em cada um desses momentos, já estendemos a natureza, inovamos algo que não estava presente na natureza. Então, da mesma maneira, essa suplementação técnica do nosso corpo, na nossa forma de reproduzir, de viver, é algo que expressa a nossa natureza. Entendo que seria contrário até a nós mesmos tentar restringir esse desenvolvimento que sempre foi nosso. A diferença é que agora também somos parte da matéria-prima da pintura, também somos parte da nota da música. Mas se trata, da mesma maneira, de uma invenção.

IHU On-Line – O senhor fala que os ciborgues poderão substituir as grandes jornadas de trabalho humano. Entretanto, com a criação desses seres, não estaria o homem e o grande capital utilizando do seu poder para explorar o próximo? Até que ponto isso pode ser visto como algo positivo?
Luiz Alberto Oliveira
- De fato, uma série de problemas vai surgir na medida em que o desenvolvimento desses novos sistemas autônomos, replicativos, auto-mantenedores e principalmente cognitivos for surgindo. Vamos imaginar que tenhamos alcançado o desenvolvimento de uma inteligência artificial tal que sejamos obrigados a reconhecê-la como outro, ou seja, como outra espécie inteligente, como um alien, como um extraterrestre, que, em vez de descer do disco voador, nós produzimos e fabricamos. Precisaremos conceder a essa entidade o mesmo estatuto de ser “sentiente” e consciente, como fazemos a nós mesmos. Vamos precisar reconhecê-lo como tendo um patamar de igualdade, um outro ramo de humanidade, ao mesmo tempo em que teremos de lhe conferir alma, sensibilidade, razão, que irão diferir das nossas. E o nosso problema é como vamos lidar com essa “outra idade”, com essa alteridade. O que pretenderemos fazer com esses dispositivos? Se for simplesmente escravizá-los, ou seja, reproduzir o que fizemos conosco mesmos durante milênios, não me parece viável que isso possa persistir, pelo simples fato de que essa mescla de humano com não-humano contém germens de capacidades que mal estamos começando a suspeitar. A cada vez que procurarmos, simplesmente, transpor, transportar ou rebater sobre o futuro as histórias e as memórias que temos do passado, é como se tentássemos aprisionar as expectativas, restringir as possibilidades. E muitas vezes não seremos capazes de fazer isso. Não sei se uma “revolta dos escravos” é algo previsível no horizonte, mas talvez simplesmente o modelo escravista não seja o melhor para se aplicar nessa situação. Na verdade, se tomarmos como exemplo o planeta Terra hoje, gerenciado por nós, humanos, homo sapiens, sem qualquer ciborguização acentuada, apenas no caminho da ciborguização, vemos que não temos feito um serviço tão bom assim. Possivelmente, esses nossos filhos espirituais, esses nossos primos, os ciborgues, reconhecerão que alguma coisa precisa ser feita no sentido de horizontalizar a produção, a distribuição, solidarizar, coletivizar, ao invés de privilegiar esse indivíduo empreendedor e consumidor que cada um de nós passou a ser obrigatoriamente. Ou seja, “multidimensionalizar” o próprio humano. E identificar que esse modelo predatório do capital, especialmente do capital financeiro, não é horizonte, não é sustentável, nem para nós, acredito eu, nem para os ciborgues.

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