Edição 260 | 02 Junho 2008

Valcimar Rambor Aquino

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Patricia Fachin

O Perfil Popular desta semana conta a história de Valcimar Rambor Aquino. Morador da Vila Brás, de São Leopoldo, ele dedica a maior parte do seu dia-a-dia a uma atividade que já está quase em extinção, mas que ainda garante a renda da sua família: empalhar cadeiras. Em uma de nossas visitas à Vila Brás, encontramos Valcimar. Escondendo-se do sol forte, refrescado por uma pequena sombra, ele recapava uma cadeira atrás da outra, formando um mostruário bastante colorido e no mínimo diferente. Acompanhe a seguir a história de vida deste homem que há 14 anos dedica-se a essa profissão. Em conversa com nossa equipe, ele contou um pouco da sua trajetória e as dificuldades encontradas para regularizar a atividade profissional.

Antes de completar 10 anos de idade, Valcimar mudou-se com os pais e irmãos para o município de São Leopoldo. Naquela época, a região do Vale dos Sinos era sinônimo de esperança para muitas famílias que, como a dele, vinham do interior em busca de oportunidades, dinheiro e prosperidade. Acostumado com a vida interiorana de São Jerônimo, sua cidade natal, ele conta que encontrou algumas dificuldades ao chegar na região metropolitana. A mais complicada foi tentar habituar-se à rotina de uma fábrica de calçados. Para ajudar na renda da família, ainda criança, precisou antecipar suas responsabilidades. “Desde os 12 anos, comecei a trabalhar na firma. Tinha que ajudar meus pais.” Após dedicar 8 horas do seu dia ao trabalho, ele tentava assistir as aulas, mas admite que o rendimento não era mais o mesmo. “Estudei de noite até terminar a 8ª série. Depois, parei...” O abandono dos estudos, confessa, com o olhar cabisbaixo, fez bastante diferença na sua vida. “Trabalho consertando cadeira desde os 18 anos. Na verdade, não faço isso só porque gosto, mas porque é a maneira que encontrei para sobreviver e sustentar minha família”, desabafa. Casado pela segunda vez, ele tem três filhos do primeiro casamento, e dois do último, Tais Tainá e Wilian. Sua esposa, Magda Adriana Dorneles, também ajuda nas despesas da casa, trabalhando como doméstica.

Trabalho

O jardim da casa funciona como ateliê. Estruturas metálicas de cadeiras, uma furadeira, chaves de fenda, parafusos e muitas fitas compõem o cenário desta atividade que consome 15 horas de trabalho diário. Para consertar as cadeiras de praia, Valcimar conta, há um ano, com a ajuda do sócio Luciano Azevedo Martis, 33, que como ele veio do interior em busca de prosperidade, mas, devido à crise no setor calçadista, ficou desempregado.

Nas segundas e terças-feiras, eles trabalham em casa, recuperando as estruturas metálicas das cadeiras.  “A gente compra as armações no ferro velho e reforma elas. São cadeiras de praia. Primeiro, a gente lixa, depois pinta e, em seguida, fizemos o trabalho de recapar”, explica. Num dia, eles consertam mais ou menos 50 cadeiras. “Entre às 7h30min, no máximo às 8h da manhã, já estamos começando o trabalho. Parar não tem hora! Às vezes, está terminando a novela das 9h, e nós ainda estamos enrolando as fitas. Por volta das 23h, vamos dormir”.

De quarta-feira a sábado, a rotina é um pouco diferente. Nesses dias, eles se dedicam a vender os novos produtos. Valcimar, com sua Combi 77, azul e branca, dirige-se para São Leopoldo, e Luciano, no Escort 84, vai para a cidade vizinha, Novo Hamburgo. As vendas, conta Luciano, “mudam de acordo com a estação”. “No verão, vendemos bastante. Em cada ponto, chegamos a vender mais ou menos 15 cadeiras por dia, dando uma renda semanal de 200 reais. A renda não é muito grande, mas dá para sobreviver, comprar uma coisa ou outra.” No inverno, as vendas são reduzidas à metade. “Normalmente, o nosso horário é muito maior do que se estivéssemos trabalhando numa empresa. Mas eu acho a minha atividade de consertar cadeiras muito melhor do que trabalhar dentro da fábrica. Aqui, se eu tiver 70 e tiver saúde para fazer a cadeira, a gente faz. Numa firma, tu tem 35, 40 anos, e eles já começam a te excluir e tu não consegue mais trabalhar”, argumenta.

Entre as dificuldades encontradas, eles reclamam da falta de apoio das prefeituras e de serem obrigados a trabalhar na informalidade. “Temos uma queixa das prefeituras. A gente quer colocar um ponto de cadeira para vender, mas correm com a gente. Isso acontece com mais freqüência em Novo Hamburgo. Lá, enquanto a gente tá trabalhando, eles querem recolher nossas cadeiras e levar embora. Em São Leopoldo, a prefeitura ainda deixa a gente expor em alguns lugares, desde que não atrapalhe”, descreve Valcimar. E em seguida dispara: “No nosso tipo de trabalho, não podemos ficar sempre no mesmo ponto, porque daí cada vez vendemos menos. A pessoa que compra uma vez vai demorar para comprar de novo”. Mais do que arrumar as cadeiras em casa, é necessário mostrar para o público como o trabalho é feito, explicam. “Enquanto a gente faz, temos que expor as cadeiras. Se tu colocar elas nas costas e sair pra vender, ninguém sabe se tu comprou ou se tu tá vendendo”, argumenta Luciano.

Eles dizem que já procuraram as prefeituras várias vezes para tentar regularizar a profissão, mas até agora não obtiveram resultados. “A gente tentou ir nas prefeituras da região e pagar uma taxa mensal como fazem os camelôs do centro, mas elas não aceitaram nossa proposta”, reclama Valcimar. Com o sentimento de revolta surge também a expectativa de melhorar de vida. “Eu gostaria que a gente conseguisse regularizar nosso serviço. Nós sabemos fazer outras coisas além de trabalhar com o conserto de cadeiras. Mas, por não ter estudo, a gente não tem mais chance. Não adianta correr atrás de outros serviços só para perder tempo”, desabafa Luciano.

Se depender deles, a profissão não será passada para a próxima geração. “Quero apoiar meus filhos nos estudos para que eles consigam trabalhar em alguma coisa que eles queiram, desde que não seja com cadeiras”, cogita Valcimar. 
Entre os sonhos dos sócios, está o desejo de expandir a produção: “Gostaria de ter mais ferramentas para poder ampliar nosso serviço, já que nosso trabalho não é ilegal”, revela Luciano. E dispara: “Fora isso, não adianta a gente sonhar com um novo trabalho por causa do pouco estudo que nós temos. Por isso eu não me queixo da minha vida. Para mim, tá bom assim. A gente não tem ambição de conseguir mais coisas”.

Política

Desanimados com tantos impasses para regulamentar a atividade profissional, eles se dizem desiludidos com a política. “É uma robalheira!”, afirma Valcimar. “Eles dizem que é o povo que manda e decide, mas nós não podemos nem chegar perto deles. Somos atendidos por assessores. Então, tudo que eles falam é ilusão”, contesta Luciano.

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