Edição 260 | 02 Junho 2008

A poesia como distância e aproximação

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André Dick

Para a poeta Virna Teixeira, há muito barulho e, paradoxalmente, muita incomunicabilidade e solidão no mundo contemporâneo

Para a poeta e tradutora cearense Virna Teixeira, a poesia é uma forma de se distanciar e, ao mesmo tempo, de se aproximar do mundo, numa procura individual. “É preciso tempo e coragem para processar esta procura individual, o que requer um movimento interno, uma depuração deste excesso. É preciso um pouco de privacidade, de distância para compreendê-la”, diz ela.
Virna também fala, nesta entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, sobre como foi ser organizadora, ao lado do poeta Claudio Daniel, do Festival Tordesilhas, em São Paulo, em novembro de 2007. Ao mesmo tempo, comenta sobre seus livros, Visita (Rio de Janeiro: 7Letras, 2000) e Distância (Rio de Janeiro: 7Letras, 2005), sobre os autores que a influenciaram, as traduções que fez e sobre seu novo projeto, intitulado Trânsitos. Virna publicou dois livros de tradução: Na estação central (Brasília: Editora da UnB, 2006), de Edwin Morgan, e Ovelha negra – Uma antologia de poesia da Escócia do século XX (São Paulo: Lumme Editor, 2007). Ambos os livros são resultado também do período que cursou um mestrado em Medicina do Sono na Universidade de Edimburgo, na Escócia, entre 2001 e 2003. Para Virna, a tradução é feita principalmente “a partir de afinidades com a forma, a estética, a sua originalidade”, estando “em contato íntimo com outra língua e com a técnica de escrita”. As escolhas que faz, diz, têm “relação também com qualidades subjetivas, particulares em cada caso”.
Graduada em Medicina em 1994, pela Universidade Federal do Ceará, com residência em Neurologia na Universidade de São Paulo, Virna é especialista na área de Dependência Química, pela Escola Paulista de Medicina, e iniciou este ano um doutorado na Faculdade de Letras da USP, com o tema Literatura e Drogas, do qual fala na entrevista. Ainda edita na internet o blog Papel de Rascunho (http://papelderascunho.net) e participou com dois poemas na seção Invenção da revista IHU On-Line número 240, intitulada Che. Confira a entrevista.

IHU On-Line - Você traduziu poetas escoceses na antologia Ovelha negra. Como chegou a esses nomes e quais acha mais interessantes? Trata-se de uma literatura com pontos de contato específicos com outras do mundo?
Virna Teixeira
- Em 2001, ganhei uma bolsa do British Council para cursar um mestrado na Universidade de Edimburgo. Quando cheguei na Escócia, onde morei por dois anos, não conhecia praticamente nada sobre poesia escocesa. Tive contato então com a poesia de Edwin Morgan, cujo trabalho como poeta e tradutor me impressionou bastante. Depois comecei a me interessar por outros autores, freqüentei um curso de criação literária (poesia) na universidade e também algumas leituras de poesia, principalmente na Scottish Poetry Library, uma biblioteca pública de poesia. Cheguei assim a alguns nomes através desta aproximação e de um pouco de pesquisa que continua até hoje, a distância. Poderia citar: Edwin Morgan, Ian Hamilton Finlay, Norman MacCaig, Tom Leonard, George Mackay Brown, Richard Price, Dilys Rose, Jackie Kay, Ken Cockburn, Gael Turnbul, entre outros. A poesia escocesa é muito particular por algumas questões: lingüísticas (o inglês é de longe a língua oficial, mas outras duas línguas são faladas no país, Scots e Gaélico); históricas (a Escócia só obteve seu Parlamento em 1999); e também geográficas, pela localização do país, pela paisagem, pelo clima. Assim nota-se com alguma freqüência a presença de referências regionais na escrita, ou seja, de uma identidade escocesa, o que se conhece como “Scottishness”. No entanto, ao mesmo tempo, a poesia da Escócia não se restringe a estes traços e sempre esteve próxima das vanguardas – por exemplo: Ian Hamilton Finlay  correspondia-se nos anos 1960 com os poetas Robert Creeley,  Ernst Jandl,  Lorine Niedecker,  Augusto  e Haroldo de Campos,  para citar alguns. Morgan,  por sua vez, teve um contato forte com os poetas beatniks e sua atividade de tradução (de diversas línguas para o inglês e Scots, como húngaro, russo etc.) ampliou o conhecimento de outras culturas. Gael Turnbul, responsável pela Migrant Press, era um internacionalista, e assim estes pontos de contatos foram muito importantes do ponto de vista estético no trabalho de alguns autores escoceses.

IHU On-Line - A partir de que qualidades você seleciona os poetas que gosta de traduzir? Pode falar as características que mais a atraíram em alguns daqueles que traduziu?
Virna Teixeira
- Sobretudo a partir de afinidades com a forma, a estética, a sua originalidade. Traduzir é estar em contato íntimo com outra língua e com a técnica de escrita e este aprendizado é muito interessante. As escolhas têm relação também com qualidades subjetivas, particulares em cada caso. Por exemplo, gosto muito dos poemas de amor de Edwin Morgan, assim como gosto do caráter introspectivo, discreto, irônico dos poemas de Lorine Niedecker e também da grandiosidade e audácia de Delmore Schwartz.  Ou seja, as escolhas são individuais e multifacetadas. Acho interessante selecionar poetas que são de certa forma inéditos, pouco conhecidos, porque há lacunas ainda muito grandes de tradução de poesia (do inglês e outras línguas) para o português. O interesse do público, felizmente, tem crescido.

De Londres a Edimburgo

Estou esperando o momento
quando o trem cruza a fronteira
e mais de perto de casa rasteja
a setenta milhas por hora.

Descarto os quatro últimos dias
e a hospedagem estrangeira
para um passado
que a cada minuto se amplia.

O trem soa a minha urgência,
ele diz casa, casa e casa
acendo um cigarro
e na curva sorrio na cadeira.

Escócia, para você eu me apresso
para o meu futuro que
a cada minuto
decresce na dianteira.
Norman MacCaig (tradução de Virna Teixeira)

IHU On-Line - Recentemente, seu livro Distância foi traduzido para o espanhol. Qual é a importância desse intercâmbio com outros países para a poesia?
Virna Teixeira
- Sim, Distância foi publicado no México recentemente. Esse intercâmbio sempre foi importante para a poesia e hoje é da ordem do dia, creio, pois a internacionalização tende a se tornar cada vez maior com a internet e com a facilidade dos meios de comunicação. Antes, o acesso era mais lento. Creio que este diálogo seja frutífero para todos: o contato com outra língua e outra cultura tende sempre a acrescentar algo na escrita.

IHU On-Line – Ainda nessa linha de diluir fronteiras, como foi organizar, junto com o poeta Claudio Daniel,  o Festival Tordesilhas e o encontro com os poetas latino-americanos em São Paulo em novembro de 2007? Qual é a sua percepção sobre a poesia latino-americana contemporânea?
Virna Teixeira
- Foi uma experiência muito trabalhosa e interessante. Conseguimos um apoio com a Caixa Cultural, mas tivemos que organizar toda a produção, logística e divulgação de um festival com mais de 50 poetas, metade dos quais estrangeiros. Muito desgastante para um orçamento limitado e para uma equipe pequena. Felizmente, conseguimos outros apoios, como o do Instituto Cervantes e do Consulado do México, e havia um desejo muito grande de que as coisas funcionassem. O diálogo entre os poetas foi muito bom. O festival na verdade foi ibero-americano: tivemos a presença de dois poetas portugueses (Luís Serguilha e João Miguel Henriques), um poeta basco (Juan Kruz Igerabide) e outro catalão (Joan Navarro), o que enriqueceu o encontro. Minha percepção sobre a poesia latino-americana contemporânea é muito heterogênea: há diferenças e influências distintas em alguns países, apesar de algumas estéticas em comum. Creio que este é um momento em si heterogêneo na poesia, uma espécie de crise entre passado e futuro, vanguardas e pós-modernidade. Cada um dialogando neste trânsito, parado em algum momento do tempo.

IHU On-Line – Ingressando numa análise de seu trabalho, sua poesia tem como temas centrais a viagem e a solidão. De que modo percebe a viagem no mundo contemporâneo e através dela se constata a procura do indivíduo?
Virna Teixeira
- O mundo contemporâneo é povoado, excessivo. Há muita pressa. Os deslocamentos são rápidos, as aproximações são instantâneas, mas superficiais, há a pressão da mídia e da publicidade em toda parte. O espaço sonoro é cada vez mais reduzido. Há muito barulho, muito estímulo, muita competitividade e, paradoxalmente, muita incomunicabilidade e solidão. A forma utilizada para lidar com esta angústia contemporânea é a compulsão, o consumo, o imediatismo. É preciso tempo e coragem para processar esta procura individual, o que requer um movimento interno, uma depuração deste excesso. É preciso um pouco de privacidade, de distância para compreendê-la.

IHU On-Line - Quais são as transformações que você imagina ter passado, em sua poesia, de Visita a Distância, seus primeiro e segundo livros, respectivamente?
Virna Teixeira
- Visita, publicado em 2000, é um livro mais veloz: usa recursos de linguagem que facilitam este percurso, entre a impressão causada pelo que é visto e rapidamente registrado. Quando escrevi Visita, tinha começado a fazer várias viagens, estava lendo sobretudo poesia norte-americana e o livro tem esta marca. Em Distância, houve um transformação grande, surgiram outras leituras, é um livro mais pausado, escrito em mais de quatro anos e que retrata o momento em que vivi na Escócia, outras série de viagens, o retorno ao Brasil, algumas reflexões mais críticas sobre questões contemporâneas – o isolamento na segunda parte do livro, “Entre paredes”, as distâncias internas. Houve, enfim, uma mudança na forma de compreender o mundo, uma percepção mais lenta, mais demorada. Distância trata muito da questão do tempo. A epígrafe do livro poderia ser uma frase de Tennesse Williams:  “O tempo é a distância mais longa entre dois lugares”.

IHU On-Line - Existe um conceito que indica que a poesia moderna não lida com a subjetividade do autor, ou seja, também com suas “múltiplas vozes”. Como observa essa questão diante desse mundo contemporâneo em que estamos inseridos, com sua multiplicidade? Por quê?
Virna Teixeira
- Discordo deste conceito. A subjetividade pode adquirir múltiplas formas dentro da escrita, ainda que não seja óbvia. Não é possível ser linear dentro do mundo contemporâneo. Isso porque vivemos um momento muito fluido, muito descontínuo, há muitos estímulos externos, muita velocidade de informação. A contemporaneidade requer, de certa forma, um pouco de plasticidade, de flexibilidade. Acredito nas releituras, na transcendência do eu, e também na possibilidade de outros caminhos. Intuitivamente, creio que isso possa acontecer através da busca de outras temáticas, de diálogos com outras artes, com a ciência, tecnologia, com outros ramos do conhecimento humano, e também através de exploração da sintaxe. Enfim, sou otimista. 

IHU On-Line - Há um interesse especial seu pelas poetas Ana Cristina Cesar, Sylvia Plath e Hilda Hilst. Como analisa os trabalhos especificamente desses nomes?
Virna Teixeira
- Estas três autoras foram importantes na minha formação. Sylvia Plath  me impressionou pelo rigor da escrita, particularmente. Sua capacidade de abstrair e manter uma frieza narrativa. Gosto muito da poesia de Hilda Hilst  pela materialidade, sensorialidade e também por causa da sua ironia. Ana Cristina Cesar  creio que seja uma poeta mal compreendida até hoje: sua poesia trata de questões muito contemporâneas, Ana Cristina era mestre nos recursos das “múltiplas vozes”, fazia colagens muito interessantes, seus poemas são repletos de diálogos – em um momento, Ítalo Svevo,  em outro, Mário de Andrade,  mais adiante Gertrude Stein,  Katherine Mansfield,  mas há também a tensão com uma angústia interna e com o que se passava no seu ambiente imediato, uma inquietação da linguagem.

IHU On-Line – Você também é uma admiradora da obra de Caio Fernando Abreu, o qual cita na epígrafe do livro Visita. O escritor gaúcho realizou, na sua opinião, uma obra ao mesmo tempo prosaica e poética?
Virna Teixeira
- Creio que Caio Fernando Abreu  escrevia um tipo de ficção muito particular, muito original, que ficava na fronteira às vezes com a poesia, às vezes com a dramaturgia. A epígrafe faz referências sobretudo à temática do autor: a solidão, a incomunicabilidade, a sensação de estranheza, de estar deslocado, de ser estrangeiro. Em Visita, há também alguns poemas que transitam pela narrativa, como “Bienville”, “NY”, “Meio-dia”, embora não utilizem exatamente recursos prosaicos na linguagem. Costumo ler prosa com alguma frequência. Em Distância, utilizo, por exemplo, uma epígrafe de outro escritor, o norte-americano James Baldwin.

BILHETE

No envelope
se anunciava

a tua caligrafia,

em dobras de papel
amareladas

a esfereográfica íntima
das palavras

inclinadas

à margem, esquerda
da página.

(de Distância)

IHU On-Line – Como se dá especificamente a ligação entre o seu trabalho e as artes plásticas?
Virna Teixeira
– Meu contato com artes plásticas ocorreu muito cedo, assim como o contato com a poesia, por causa da minha mãe, que já foi até monitora de museu e hoje tem se dedicado de forma mais integral ao seu trabalho como artista. Quando criança, freqüentei aulas particulares de desenho, pintura, argila etc. Mais tarde, o contato com alguns amigos, como o escultor Eduardo Frota,  foi importante para ampliar o conhecimento, sobretudo de arte contemporânea. Meu interesse por poesia e pelas artes plásticas é constante, cotidiano, então é natural que ocorra um diálogo na escrita. A forma de escrever, de criar, pode se aproximar de alguns processos utilizados nas artes – o esboço do desenho, uma maquete, a pintura, o impacto visual da fotografia. Desta forma, a compreensão do trabalho de alguns artistas, como Nan Goldin, José Leonilson, Ian Hamilton Finlay, Francis Bacon e Henry Moore, para citar alguns, tem sido muito importante neste processo. 

IHU On-Line – Por meio de quais autores você realiza seu estudo de pós-graduação sobre a aproximação da literatura com um tema polêmico: as drogas? 

Virna Teixeira – Nos últimos quatro anos, tenho trabalhado como médica na área de Dependência Química. Durante este período, por causa minha atividade em paralelo como poeta, realizei algumas oficinas de poesia/ discussões em grupo em torno da questão da drogadição em uma clínica de recuperação de dependentes químicos em São Paulo (Vila Serena). O resultado foi muito interessante. Os trabalhos que abordei, brevemente, naquele contexto foram variáveis, mas de preferência escolhi poemas de alguns autores que tiveram problemas com dependência (de álcool, principalmente), como Delmore Schwartz, Paulo Leminski,  Elizabeth Bishop. Ressalto aqui que a obra destes autores está longe de se limitar ao assunto; são escolhas específicas. Fui também convidada, em outra ocasião, para falar sobre drogas e literatura, em um encontro no ABC. Meu interesse foi crescente e agora vou iniciar um doutorado sobre o tema na Faculdade de Letras da USP. O assunto é vasto e mutável ao longo da História (cada época elege a sua droga de preferência): ópio no século XIX, cocaína no início do século XX e nos anos 1980, alucinógenos nos anos 1960/70 etc. Certamente, a droga mais constante na literatura, ao longo de diversas épocas, tem sido o álcool, muito usado entre escritores. Há diversos autores que trataram mais especificamente da suas relações com uso e dependências de substância. O marco é a obra Confissões de um comedor de ópio, de Thomas De Quincey,  mas posso citar alguns outros exemplos, como o de Charles Baudelaire. 

IHU On-Line - Você tem um blog (Papel de Rascunho) desde 2003 e já escreveu sobre esse novo meio de o poeta chegar a um público mais amplo, o que Leminski, como você diz, considerava, nos anos 1980, acontecer por meio do grafite nos muros das grandes cidades. Ele tem atendido aos objetivos?
Virna Teixeira
- As tiragens de livros de poesia costumam ser pequenas e, às vezes, os títulos de autores contemporâneos não são facilmente achados. Os blogs têm facilitado este acesso e divulgação da poesia para um público mais amplo, porém interessado. Creio que o Papel de Rascunho tem atingido este objetivo, considerando não só o número de visitantes, mas também a presença e o retorno de leitores regulares. Porém, tenho constantemente refletido sobre esta questão do blog: como é expor mais diretamente o seu trabalho para o público, qual a proposta, o que publicar etc.

IHU On-Line - Poderia falar sobre o seu novo trabalho?
Virna Teixeira
- Sim. Estou finalizando meu terceiro livro, Trânsitos, que é o desdobramento dos dois trabalhos anteriores, Visita e Distância. Creio que, de certa forma, aprofunda e conclui um ciclo das questões discutidas aqui, dos percursos, da viagem contemporânea, que variam desde os deslocamentos geográficos, o universo do cinema e das artes plásticas, até questões que abordo no meu trabalho do dia-a-dia, como a drogadição. É um livro mais híbrido, mais fragmentado, que se movimenta por outros caminhos, pela busca de outras técnicas de escrita. 

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