Edição 223 | 11 Junho 2007

Caparaó, de Flávio Frederico

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IHU Online

Os filmes comentados nesta editoria estão em exibição em Porto Alegre e foram vistos por algum/a colega do IHU.

Ficha Técnica:
Nome: Caparaó
Nome original: Caparaó
Cor filmagem: Colorida
Origem: Brasil
Ano produção: 2006
Duração: 77min
Gênero: Documentário
Classificação: livre
Diretor: Flávio Frederico
 

Sinopse:
Em 1966, um grupo de ex-militares, cassados por militância política, organizam a primeira tentativa de luta armada no Brasil. O local é a Serra do Caparaó, na divisa entre Minas Gerais e Espírito Santo. No começo, são apoiados por Leonel Brizola, exilado no Uruguai, e recebem dinheiro de Fidel Castro. Mas a situação muda e eles ficam isolados.

Nós que amávamos tanto a revolução

Luiz Carlos Merten
comenta o documentário no jornal O Estado de São Paulo do dia 07-06-2007, destacando como o diretor traz a guerrilha na Serra de Caparão para a geração que a desconhece.

Flávio Frederico gosta de dizer que escolhe seus projetos de ficção, mas é escolhido pelos documentários. Eles caem em sua vida e terminam por se tornar tão necessários que não há como abandoná-los. Foi o que ocorreu com Caparaó. Flávio é jovem. Tem 38 anos. Como a maioria das pessoas de sua geração, sabia, vagamente, da existência da guerrilha na Serra do Caparaó, na divisa de Minas e do Espírito Santo, mas nunca imaginou que poderia ser o tema de um trabalho seu. “Foi a montanha que me levou a Caparaó”, ele diz. Em 2003, sua paixão pela montanha o levou a filmar Serras. Em busca de imagens, foi a Caparaó. Foi lá que ouviu os primeiros relatos sobre os jovens, não mais de 20 homens, que fizeram a primeira guerrilha contra a ditadura militar, em 1966, apenas dois anos depois do golpe. Ele começou a achar que aquilo dava filme. Deu um belo documentário que venceu o Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade.

Foi uma vitória que surpreendeu o próprio Flávio Frederico. Ele sabe, por experiência própria, que o festival valoriza as pesquisas de linguagem. É um inovador, mas desta vez ele sentiu a necessidade de se apagar, como cineasta, digamos, experimental, para dar plenos poderes ao Flávio Frederico documentarista, interessado em contar sua história. Caparaó virou uma obsessão que o levou, em busca de informações, ao historiador Paulo Canabrava, que o fez descobrir um dos personagens daquela história extraordinária. Extraordinária? Ao fazer, na internet, a primeira pesquisa sobre a guerrilha do Caparaó, ele encontrou um texto chamado O incrível exército de Brizaleone, numa óbvia associação à comédia O incrível exército de Brancaleone, de Mario Monicelli. A guerrilha do Caparaó teria sido simplesmente um Exército de errados e atrapalhados.

Não foi isso que Flávio Frederico percebeu ao entrevistar o primeiro daqueles guerrilheiros, Araken, ao qual foi apresentado por Paulo Canabrava. Por intermédio dele chegou também a José Caldas da Costa, que já vinha fazendo um trabalho de formiguinha, colhendo depoimentos para uma reportagem investigativa sobre o episódio. José Caldas foi generoso, diz Flávio Frederico. Abriu suas fontes e permitiu que Flávio colhesse os depoimentos dos envolvidos. Os dois projetos, o do livro e do filme, estão vindo a público simultaneamente. Com apoio da Petrobrás, Caparaó, o filme, terá um lançamento pequeno, mas muito interessante, integralmente em exibição digital. Serão 11 cidades, incluindo São Paulo, Rio, Santos, Curitiba, Salvador, Recife e Porto Alegre, mais duas em que o filme será apresentado em vídeo. O livro, Caparaó - A primeira guerrilha contra a ditadura, com prefácio de Carlos Heitor Cony, também está chegando às livrarias, lançado pela Editora Boitempo.

Na abertura do livro, José Caldas da Costa lembra que era apenas um menino de 7 anos, no interior de Minas, quando, seguro à mão da mãe, viu passarem dezenas de caminhões do Exército, lotados de soldados e que haviam sido despachados para combater os bandidos da Serra do Caparaó. Era um tempo em que se falava de comunistas que roubavam as mulheres dos maridos e comiam criancinhas. A imagem fixou-se na lembrança de José Caldas e o levou a perseguir aquela história. Os personagens não eram bandidos, mas ex-militares de baixa patente, marinheiros e sargentos, que tentaram estabelecer um foco de resistência ao regime militar na Serra do Caparaó. Imaginavam que poderiam incendiar o Brasil. Foram derrotados pela paisagem inóspita, pela falta de apoio. Derrotados? O mais belo de Caparaó é ver os antigos guerrilheiros, na atualidade. Não são intelectuais, não entraram para a política. Permanecem pessoas humildes, simples, que não renegam seu sonho de juventude. Os olhos brilham quando eles falam de Caparaó.

Nós que amávamos tanto a revolução, muito mais que O incrível exército de Brizaleone. Essa definição vem do fato de que Leonel Brizola, conspirando no exílio uruguaio, fazia a ponte entre Caparaó e Cuba, de onde deveria vir o ouro de Moscou. Tudo isso é relatado pelos próprios participantes. Apenas dois depoimentos são de pessoas de fora da guerrilha do Caparaó - Flávio Tavares  e José Caldas. Flávio Frederico assumiu o risco de fazer um filme baseado na força dos depoimentos. No recente Hércules 56, de Sílvio Da-Rin, outro filme sobre a guerrilha no Brasil da ditadura, o cineasta - cujo rigor Flávio admira - também usa depoimentos, mas os dois filmes exibem uma diferença de método fundamental. Da-Rin reuniu seus ex-guerrilheiros para uma conversa em torno de uma mesa. Flávio Frederico retardou, o máximo que pôde, o reencontro. Queria estruturar o filme na oposição/confirmação dos depoimentos. E queria que seu filme tivesse ritmo. A montagem foi um longo processo que lhe tomou um ano e meio de trabalho.

O resultado está chegando ao público. É o momento delicado. A guerrilha do Caparaó interessará às pessoas? Flávio Frederico espera que sim. Ele se apaixonou por esses personagens, por sua luta, por sua integridade. Acha que será falha sua se os espectadores não compartilharem seu interesse histórico e humano por eles. Uma coisa é certa. Caparaó poderá ter desdobramentos na obra do diretor. Ele tem um projeto sobre a Boca do Lixo e outro sobre a guerrilheira Iara, lendária companheira de Lamarca  e tia de sua mulher, a roteirista Mariana Pamplona. Mariana e Flávio planejam uma ficção e um documentário sobre Iara. Ele admitiu que chegou a pensar em fazer uma ficção sobre Caparaó. Achou que um documentário seria melhor, dando voz a esses personagens esquecidos pela história oficial, mas que viveram uma aventura extraordinária. Pequenas vidas colhidas no turbilhão revolucionário. Se fosse para fazer uma ficção, ninguém menos que um David Lean seria necessário para contar essa história.

 

Aspecto humano supera a questão política e militar
 

Luiz Zanin Oricchio, em comentário publicado no jornal o Estado de São Paulo, de 07-06-2007, também comenta o documentário Caparaó.

No jargão da esquerda, Caparaó ficou conhecida como “a guerrilha do Brizola”.  Mas o dinheiro era de Cuba para esse movimento armado, encravado na serra de Caparaó, divisa entre os Estados de Minas Gerais e Espírito Santo. Formada principalmente por ex-militares, expurgados das Forças Armadas depois do golpe de 1964, a guerrilha seguia como bíblia a teoria do foco, de Guevara. Formação de um grupo guerrilheiro rural, que contaria com adesão da população explorada e iria crescendo, até descer para a cidade e tomar o poder como acontecera com os barbudos da Sierra Maestra.

Um filme assim funciona na base de depoimentos e Caparaó se ampara nas falas de oito dos ex-guerrilheiros. Ouve também três PMs que os prenderam, e um dirigente do MRN (Movimento Revolucionário Nacional), que comandava a guerrilha com dinheiro de Havana, passado via Brizola. Há outras fontes, embora mais raras: imagens supostamente inéditas das operações em Caparaó, encontradas no arquivo da extinta TV Tupi. Juntam-se a documentos provenientes dos antigos arquivos do Dops em São Paulo e no Rio de Janeiro, fotos e reportagens de jornais paulistas e cariocas.

O que se pode dizer desse material colhido e organizado em forma de filme pelo diretor Flávio Frederico? A primeira impressão que salta à vista é a ingenuidade do projeto de guerrilha, que sonhava reverter uma situação militar estabilizada não contando com mais de 17 militantes, em seu apogeu. Parte desse quixotismo se deve à impressão (até hoje vigente em certos meios) de que a vitória do golpe se devia à completa passividade de quem deveria sustentar o governo Goulart. Darcy Ribeiro falava muito nisso e Leonel Brizola, idem. Jango não quis resistir. Entregou os pontos e exilou-se no Uruguai. Portanto, havia uma convicção, em parte da esquerda, sobre a fragilidade do governo militar, diagnóstico que se revelou equivocado, para dizer o mínimo. Esse é o aspecto político-militar da coisa.

Mas existe também o lado humano e este talvez seja mais relevante que o primeiro, pelo menos neste momento da nossa história. E em que consiste esse 'fator humano'? Na pergunta que somos obrigados a fazer: por que motivo um grupo de pessoas sobe uma serra, com poucos mantimentos e poucas armas, na doce ilusão de enfrentar sozinho um exército organizado? Um dos ex-guerrilheiros responde: 'Tínhamos de fazê-lo, para estar à altura do nosso tempo.'

Era isso, porque por mais idealismo ou falta de cálculo que houvesse (e havia), era impossível a certa altura desconhecer que eles estavam colocando a própria pele em risco. Mais ainda: que tinham escassas possibilidades de sair daquela aventura com vida. O que leva seres humanos a esse tipo de afrontamento, a uma luta que se sabe, depois de algum tempo, não conduzirá à vitória, mas, à prisão, no melhor dos casos, e mais provavelmente, à cova? Um imperativo histórico, ético, político?

São perguntas implícitas não apenas em Caparaó, mas em todos os filmes sobre a luta armada que estão aparecendo por aí. O de Flávio Frederico figura, ao lado de Hércules 56, de Silvio Da-Rin, como ponto alto na história cinematográfica da guerrilha. Ao lado deles, há as ficções, como Cabra cega, Nunca fomos tão felizes, Araguaia, Quase dois irmãos  e aqueles ficcionais, mas baseados em personagens reais como Lamarca, O que é isso, companheiro?, Zuzu Angel, Batismo de sangue. Filmes que, com seus problemas e/ou tendências ideológicas nos colocam uma situação estranha em época de passividade política: como foi possível existir um tempo em que determinadas pessoas, com todos os equívocos que pudessem ter, colocavam a vida em risco em nome de suas idéias?

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