Edição 223 | 11 Junho 2007

“Paulo Freire é o mais importante educador crítico lido nos EUA”

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IHU Online

Por e-mail, com exclusividade à IHU On-Line, o pesquisador canadense naturalizado americano Peter McLaren mencionou que “o humanismo radical de Freire continua a oferecer alguns dos mais importantes desafios às mais brutais políticas e práticas que infectam o mundo hoje”. McLaren é estudioso de pedagogia crítica e leciona na Universidade da Califórnia, em Los Angeles.

Graduado na Universidade de Waterloo em Literatura Inglesa, cursou faculdade de Educação na Universidade de Toronto. É Ph.D. em Teoria Educacional pelo Ontário Institute for Studies in Education (OISE). Escreveu inúmeros livros, dentre os quais citamos A pedagogia da utopia (Santa Cruz do Sul: Universidade de Santa Cruz do Sul, 2001) e Pedagogia revolucionária na globalização (Rio de Janeiro: DPA, 2002). Para maiores informações, acesse o site http://www.gseis.ucla.edu/faculty/pages/mclaren/.

IHU On-Line - Qual é a contribuição de Paulo Freira para a Pedagogia Crítica?
Peter McLaren -
Paulo Freire é, de longe, o mais importante educador crítico lido nos EUA. Seu trabalho é consistentemente adotado por estudantes em universidades, por professores do ensino fundamental e médio, por estudantes de magistério e por membros de grupos de ação social e de novos movimentos sociais, ou seja, por grupos do setor não-formal. Seu trabalho é encontrado nas aulas, nas universidades, em estudos de alfabetização, na teologia, na pedagogia crítica, e através das ciências humanas.
 
IHU On-Line - Como atuar, a partir de Paulo Freire, frente às questões que preocupam a humanidade? 
Peter McLaren -
Antes que possamos agir, devemos nos tornar familiarizados com o trabalho de Paulo Freire e em como está situado na história dos movimentos educacionais progressivos em todo o mundo. O humanismo radical de Freire continua a oferecer alguns dos mais importantes desafios às mais brutais políticas e práticas que infectam o mundo hoje – guerra, imperialismo, globalização capitalista, repressão política, tortura, racismo, patriarcado, homofobia e triunfalismo religioso.
 
IHU On-Line - O que significa, hoje, falar de pedagogia revolucionária?
Peter McLaren -
A Pedagogia Crítica testemunhou inúmeros avanços ao longo das últimas várias décadas. Na verdade, é mais próprio falar sobre várias pedagogias críticas, do que sugerir que existem várias “mutações” de um grupo genético pedagogicamente original (localizada em algum lugar nos escritos de Paulo Freire). Mas, claramente, Freire foi e continua sendo a mais importante influência no campo da educação crítica. Eu comecei a usar uma adaptação norte-americana da pedagogia crítica, uma mistura eclética do trabalho de John Dewey, de Myles Horton , e outros pensadores da educação progressista que surgiram nos EUA nos anos 30, depois da Quebra da Bolsa de 1929 – cada um “aderiu” ao trabalho seminal do educador brasileiro Paulo Freire. Então, eu simplesmente tentei integrar pensadores norte-americanos mais contemporâneos a essa mistura – teóricos feministas e multiculturalistas, muitos deles da comunidade intelectual afro-americana e latino-americana. Comecei a incorporar Gramsci e muitos dos pensadores marxistas ocidentais (por exemplo, da Escola de Frankfurt) em meu trabalho. Claro, a tradição do pensamento indígena por todas as Américas foi – e ainda é – extremamente importante. E Freire foi sempre fundamental para o desenvolvimento de minha pedagogia crítica. Pelos últimos 15 anos, tenho abordado o desenvolvimento da pedagogia crítica a partir de um marco materialista/marxista e humanista. Quis ser mais sistemático no sentido de que quis ver como a pedagogia pode servir para ajudar no avanço do socialismo como uma visão, assim como uma realidade (cuja imanência pode ser vista nas lutas de classe do passado e do presente). Meu projeto foi “libertar” o trabalho de pensadores seminais, tais como Paulo Freire, Che Guevara , Marx, Hegel, Gramsci , Raya Dunayevskaya , José Carlos Mariátegui , e outros para os educadores norte-americanos. A pedagogia crítica é feita para prover várias linguagens de análise (sociológicas, antropológicas, filosóficas etc.) para estudantes e professores (“educandos”) para que eles possam começar a entender suas experiências e subjetividades como “construídas” pela intersecção de uma multiplicidade de forças ligadas aos modos e relações sociais de produção, a espaços e lugares de produção e circulação capitalista, a sistemas de mediação, que envolvam suas famílias, suas bagagens religiosas, suas formações de classe e raça, assim como organizações ligadas à sociedade, tanto estatal quanto civil.

IHU On-Line – Qual tipo de leitura se faz de Freire especialmente nos Estados Unidos?
Peter McLaren -
Os escritos de Paulo Freire foram internalizados como um grande negócio nos Estados Unidos. Paulo Freire é comumente tratado como a figura do Papai Noel, um velhinho gentil com barba branca, que professa o amor e o diálogo. Mas, na criação dessa imagem, a política revolucionária de Freire é geralmente perdida. Isso está acontecendo aqui nos EUA. Mas isso é tão surpreendente? Nos Estados Unidos, não se aprende sobre aspectos importantes da história dos EUA sobre os quais outras pessoas no mundo são bastante cientes. Estudantes brasileiros sabem mais sobre crimes dos governos dos EUA do passado do que os estudantes dos EUA. Os estudantes aqui são muito ingênuos a respeito de sua própria história. Muitos acreditam que os EUA estão sempre agindo pelo melhor da humanidade. Eles acreditam que isso é assim porque Deus deu aos EUA a missão especial de civilizar o mundo. A pedagogia crítica desafia essa explicação histórica simplista. E assim, não surpreendentemente, há muito ataque a educadores críticos agora, especialmente desde que o regime de Bush tolheu nossas liberdades civis e desde que o governo dos EUA, a partir de 11 de setembro de 2001, vem sendo comandado por um tipo de “leve fascismo”.
Existem muitos desafios e riscos quando se é um educador crítico. Mas educação, se não se trata de correr riscos, então não vale a pena perseguir. O risco para um professor é ser demitido de seu cargo. Em minha universidade, a UCLA (Universidade da Califórnia, em Los Angeles), um grupo de 30 professores foi nomeado e apontado por um grupo de direita. Eu fui posto no topo da lista conhecida como Os trinta sujos. O grupo ofereceu um pagamento de cem dólares a estudantes que gravassem secretamente minhas palestras, para provê-los com cópias de anotações documentando aquilo que digo em minhas aulas. Esse grupo de direita me rotulou como o professor mais perigoso na UCLA. Comecei a receber muitos e-mails de ódio. Relatórios de mídia que incluem as denúncias desses grupos contra mim, acusando-me de comunista, tentando fazer lavagem cerebral na juventude norte-americana, foram publicados pelo mundo inteiro. Suponho que haja um preço a se pagar.

Por anos, grupos de direita de todas as tendências me marcaram por meu trabalho com o falecido Paulo Freire, meus escritos sobre Che Guevara, minhas análises humanistas-marxistas da sociedade capitalista, e pelo fato de eu ligar a pedagogia crítica com a luta pelo socialismo. Mas tenho tido sorte de até agora não haver tentativas de me silenciar por parte da administração da universidade. O que deixa a situação mais periclitante é que, agora, a administração de Bush tem o poder legal de punir seus críticos e oponentes, o que outras administrações não tinham. Não, não acho que vou “desaparecer” e me encontrar numa prisão de interrogatório da CIA na Polônia (agora, se eu fosse muçulmano, isso seria outra história), mas a administração de Bush criou um clima de medo que tende a criar uma relação metonímica entre dissidentes políticos e simpatizantes do terrorismo. Existem medidas (legais) introduzidas em nove estados para suprimir a liberdade acadêmica nas universidades. Críticos de direita atacam professores como eu, que seguem o exemplo de Freire, silenciosamente e dissimuladamente “doutrinando” estudantes com propaganda esquerdista.

É importante para os professores retornar ao trabalho de um educador a quem, embora marquemos o décimo aniversário de sua morte, ainda podemos usar como baliza para nossa vida pedagógica, uma vida que não acaba quando a porta da sala de aula é fechada no final de cada dia. Freire (1994, p. 77)  sustenta que nenhuma “prática educacional existe no espaço-tempo zero” , ou seja, não existe nenhuma prática educacional neutra. Toda prática educacional crítica é diretiva, é política, e denuncia uma preferência, uma tendência. Freire (1994, p. 79) argumenta que se encontra autoritarismo tanto na direita quanto na esquerda do espectro político, e é verdade que ambos os grupos podem ser reacionários de “forma idêntica” se eles “se julgam os donos do conhecimento, o primeiro, do conhecimento revolucionário, o último, do conhecimento conservador” . Ambas as formas de autoritarismo são elitistas. Freire sublinha o fato de que não podemos “conscientizar” estudantes sem, ao mesmo tempo, sermos “conscientizados” por eles. Ensinar nunca deve ser, sob nenhuma circunstância, uma forma de imposição. Quando ensinamos criticamente, geralmente tememos que possamos estar manipulando nossos estudantes de forma que não nos damos conta. Mas a alternativa é não ensinar, não agir, manter-se pedagogicamente inativo. Ensinar criticamente é sempre um salto por uma divisão dialética que é necessária para qualquer ato de saber [que esteja] por acontecer. Saber é um tipo de dança, um movimento, mas autoconsciente. A criticidade não é uma linha esticável eternamente, mas um círculo. Em outras palavras, saber pode ser o objeto de nosso saber, pode ser auto-reflexivo, e é algo em que podemos intervir.  Herdamos a cognição enquanto espécie, mas adquirimos outras habilidades a longo do caminho, e precisamos evoluir integralmente e com coerência.

Freire nos lembra que ensinar não pode ser reduzido a uma transmissão de uma mão do objeto de conhecimento, ou uma transação de duas vias entre o professor e o estudante, mas uma forma de transformação dialética tanto do professor quanto do estudante, e isso ocorre quando um professor sabe o conteúdo do que é para ser ensinado e um estudante aprende como aprender. Ensinar acontece quando os educadores reconhecem  seus saberes nos saberes dos estudantes.

IHU On-Line - O senhor afirma que os educadores revolucionários necessitam criar um contexto para o diálogo com o outro, de modo que “os outros” possam também ser ouvidos. Além disso, o pedagogo crítico deve fazer relações com os assuntos humanos reais. O que é ser um pedagogo revolucionário? Isso ainda é uma utopia na educação atual?
Peter McLaren -
Quando Freire fala em lutar para construir uma utopia, ele fala de uma utopia concreta ao invés de uma utopia abstrata, uma utopia enraizada no presente, sempre operando “da tensão entre a denúncia de um presente que está se tornando mais e mais intolerável e o anúncio de um futuro a ser criado, construído – politicamente, esteticamente e eticamente – por nós, homens e mulheres” (Pedagogia da Esperança, 1994, p.91). Utopias estão sempre em movimento, nunca são preestabelecidas, não existem como projetos cuja única garantia é a “repetição mecânica do presente”, ao contrário, existem dentro do movimento da própria história, como oportunidade e não como determinismo. Elas nunca são garantidas. A pedagogia crítica é necessária aqui, talvez, mais do que em qualquer lugar no mundo quando se considera a história real deste país e seu potencial de desencadear mais devastação ao redor do mundo. Claro que é muito fácil pôr a culpa dos males do mundo nos Estados Unidos. Existem outros países imperialistas e subimperialistas, com certeza. A questão mais urgente, para mim, hoje, nesta conjuntura histórica muito perigosa, é avançar a luta por uma alternativa socialista ao capitalismo, por uma supressão do capitalismo, por uma descoberta de uma sociedade pós-capitalista. A luta para resistir, para descarrilar, para superar o capitalismo neoliberal, é a questão fundamental que exercita a minha atenção como um educador crítico. Quem pode me culpar? Significa então que todos os erros sociais podem ser ligados às fornalhas roncando das fábricas e aos moinhos satânicos do capitalismo? É claro que não. Mas exatamente agora o capitalismo desenfreado e o poder fanático do imperialismo, que seguem no seu despertar, têm o maior potencial para causar distúrbios violentos sobre o mundo em termos de próximas guerras imperialistas, sem mencionar a destruição ecológica do planeta inteiro. Educadores críticos revolucionários acreditam que a crise ecológica não pode ser superada porque o sistema capitalista atual não consegue impor limites ao crescimento que sustenta o atual império. Este sistema também não consegue operar fora da lógica mecanicista do império de “nós-contra-eles”. A luta para uma pedagogia crítica é talvez melhor ilustrada pelas palavras do poema de Antonio Machado  (1962): Caminante no hay camino, se hace el camino al andar (“Andarilho, não existe caminho. O caminho é criado ao andar”). Não há um caminho predeterminado, mas podemos olhar tanto para o passado, para ao futuro e para o presente para ver as possíveis direções que nossa luta pode tomar. Porque, como diz o Gato de Cheshire, em Alice no País das Maravilhas, “Se você não sabe para onde está indo, qualquer estrada vai te levar lá”. Nós não lutamos em algum lugar absoluto, lamentando nossa perda do encontro com a verdade. Nossa luta é de sangue quente e irá terminar quando a sua gestação começar: no solo fértil da luta de classes. Nós sabemos para onde estamos indo, porque é o único destino onde podemos abrir mão na nossa condição humana dos seus muitos disfarces e, mais ainda, nós precisamos nos dar conta de que podemos apenas contestar a produção ideológica da classe capitalista e não aboli-la, a menos que as relações sociais de produção gerando isto parem de existir. Eu chamo o destino para o socialismo da humanidade para o século XXI, apesar de estar feliz com outros apelos, contanto que eles se refiram à mesma coisa: a luta para uma sociedade pós-capitalista.

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