Edição 223 | 11 Junho 2007

Algumas lições do mestre

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IHU Online

O artigo a seguir, de autoria do Prof. Dr. Danilo Streck, foi escrito com exclusividade para a presente edição da IHU On-Line. Nele, Streck afirma: “Talvez para alguns o nome Paulo Freire tenha virado marca, uma espécie de grife para garantir credibilidade ou legitimidade, desde nome de escolas a citações de trabalhos acadêmicos. Mas, para a grande maioria que se ocupa com seu pensamento e sua obra, Freire simboliza a possibilidade de se pensar o que ele chamava inéditos viáveis”.

Graduado em Letras pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), Danilo Streck é mestre em Educação Teológica pelo Princeton Theological Seminary e doutor em Fundamentos Filosóficos da Educação pela Universidade do Estado de Nova Jersey, Estados Unidos, com a tese John Deweys and Paulo Freire view of the educational function of education, with special emphasis on the problem of method (A visão de John Dewey e Paulo Freire da função educacional da educação, com ênfase especial no problema do método).  No momento, está desenvolvendo o projeto de pesquisa Processos participativos emancipatórios na América Latina como mediação pedagógica para a constituição do público e é professor do Programa de Pós-Graduação em Educação da Unisinos.

De sua extensa produção intelectual, destacamos as seguintes obras: Rousseau e educação (Belo Horizonte: Autêntica, 2004); Correntes pedagógicas: uma abordagem interdisciplinar (Petrópolis: Vozes, 2005) e Erziehung für einen neuen Gesellschaftsvertrag (Siegen: Athena, 2006). É um dos organizadores de Pesquisa participante: a partilha do saber (Aparecida: Idéias & Letras, 2006). No II Ciclo de Estudos sobre o Brasil, do dia 30-09-2004 Streck apresentou o livro A Pedagogia do Oprimido. Sobre a obra, publicamos um artigo de autoria de Streck 117ª edição, de 27-09-2004, intitulada Uma pedagogia do outro: convite para reler a pedagogia do oprimido. Na presente edição, Streck ofereceu importante apoio à IHU On-Line, na confecção da pauta sobre Paulo Freire.

O período de dez anos exige – assim se firmou em nossa consciência - um balanço. Afinal, os planos decenais fixam diretrizes e metas que passam a orientar boas porções da vida de cada um e cada uma. Mas que balanço fazer dos dez anos da morte de alguém? No caso, como ler aquele enorme vazio que se criou com a morte de Freire e que passou a ser preenchido com uma infinidade de palavras e vozes? Deparamo-nos hoje com múltiplos Freires e acredito que não faz sentido colocar-se como guardião do que supostamente poderia ser o verdadeiro Freire.

Primeiro, porque ele mesmo tinha plena consciência das contradições em sua vida, pelo simples fato de viver numa sociedade repleta de contradições, onde as oportunidades e condições de vida são extremamente desiguais. A coerência que pregava, sem moralismos ou fatalismos, tinha a ver com um posicionamento de denúncia dessas condições e de anúncio, na práxis (palavra-ação), de novas possibilidades de construir a existência individual e coletiva. Segundo, porque poucos como ele souberam recriar-se, na prática e na teoria, dentro dos movimentos da história. Sua pedagogia do oprimido virou pedagogia da esperança, pedagogia da autonomia, pedagogia da indignação, entre outras nominadas por ele mesmo ou por quem nele se inspirou para mostrar um outro lado ou uma outra dimensão da prática educativa voltada para o ser mais. O próprio ser mais nunca designou uma determinada forma para o ser humano ou os limites do que este poderia ser, mas apontava para a incompletude da vida como espaço de realização.

Talvez para alguns o nome Paulo Freire tenha virado marca, uma espécie de grife para garantir credibilidade ou legitimidade, desde nome de escolas a citações de trabalhos acadêmicos. Mas, para a grande maioria que se ocupa com seu pensamento e sua obra, Freire simboliza a possibilidade de se pensar o que ele chamava inéditos viáveis. Essa busca de inéditos viáveis ou do sonho possível pode acontecer no cotidiano da sala de aula, na gestão de escolas ou de sistema de ensino, no trabalho com saúde pública, em movimentos sociais e em qualquer lugar onde se aceita a premissa de que o futuro não precisa ser a repetição do presente e que a educação tem um papel em projetar e construir este outro futuro. A educação, está certo, não tem o poder da economia, o voto dos políticos ou as armas do exército. Mas, paradoxalmente, para Freire, é nesta sua fraqueza que reside sua força. A palavra, quando unida à ação, tem um poder mágico. Thiago de Mello  disse isso de uma forma muito bela em sua Canção para os fonemas da alegria :

[...] porque unindo pedaços de palavras
aos poucos vai unindo argila e orvalho,
tristeza e pão, cambão e beija-flor,

e acaba por unir a própria vida
no seu peito partida e repartida
quando afinal descobre num clarão

que o mundo é seu também...
(In: Educação como prática da liberdade)

 

Peregrino do óbvio

Parece que aquilo que aproxima uns e umas de Freire é o mesmo que afasta outros e outras. Para os primeiros, o encanto está na simplicidade das coisas que diz. Há uma obviedade inquietante em suas afirmações e que desafia a querer saber mais. Ele tinha consciência deste seu papel de peregrino do óbvio, como ele mesmo dizia. Mas esta simplicidade nada tem a ver com o fácil ou superficial. Uma vasculhada em sua biblioteca pessoal no Instituto Paulo Freire (em São Paulo) surpreende não apenas pela quantidade, diversidade e qualidade, mas também pelo número de anotações à margem das obras. Um exemplo deste óbvio é quando ele diz em Pedagogia do oprimido que nenhuma ordem autoritária sobreviveria se todos começassem a fazer esta pergunta básica: “Por quê?”. É simples, mas nada fácil. Já outros vêem nesse seu jeito de fazer pedagogia a necessária falta de rigor científico e acadêmico.

Deveria também estar fora do horizonte de fazer de Freire uma referência universalmente aceita e aplaudida. Entendo que sua obra é uma espécie de sombra de mangueira (conforme o título de um de seus livros), na qual pessoas se encontram para recarregar energias, buscar inspiração e renovar suas idéias e práticas. Mas esta sombra tem suas fronteiras e sua eventual pretensão de universalidade não está em abarcar tudo, mas em afirmar a relevância de determinado tipo de prática e de reflexão para o mundo em que vivemos. A identificação com sua obra implica determinadas opções ideológicas e metodológicas que se confrontam e dialogam com outras opções. Percebo, inclusive, que um dos problemas com as leituras de Paulo Freire é que, aos pedaços, ele é assimilado no atual grande “consenso pedagógico” forjado pelas políticas neoliberais.

Uma das sempre grandes lições de Freire está, a meu ver, no fato de ele se colocar permanentemente como testemunho do ato de conhecer, um conhecer que é também sempre um pronunciar o mundo em que se vive. O tão falado diálogo não é, para Freire, um método entre outros, mas uma postura diante do mundo, dos outros e do próprio conhecimento. Uma postura de quem sabe que sabe, mas que, ao saber, sabe que tem ainda e sempre muito a saber.

Entendo também que o papel da pesquisa é, no fundo, ajudar a dizer ou a pronunciar o mundo. Embora esta tarefa seja de todos, cabe ao pesquisador e à pesquisadora um papel especial em vista das ferramentas que aprendeu a manejar, desde conceitos para a leitura do mundo até instrumentos para análise de dados. Paulo Freire é considerado, junto com o sociólogo colombiano Orlando Fals Borda , um dos fundadores da pesquisa participante, irmã gêmea da educação popular. O levantamento do universo vocabular e dos temas geradores era desenvolvido por uma equipe interdisciplinar de especialistas com a participação das comunidades a serem alfabetizadas. Permanece a idéia de que a participação dos sujeitos envolvidos na pesquisa não é uma concessão eventual por parte do pesquisador, mas um direito de quem partilha este mesmo mundo.

Dentre as obviedades, talvez nenhuma delas seja tão óbvia como aquela que fala do papel da educação no resgate do ser gente, num processo que se dá entre a busca da decência e da boniteza, da ética e da estética, um mundo mais justo e um mundo mais bonito e alegre. Também aqui não há receitas e cada geração precisa descobrir o que significa viver na tensão entre as ameaças de desumanização e as possibilidades de humanização.

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