Edição 223 | 11 Junho 2007

Freire, Fiori, a formação humanística e a filosofia

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IHU Online

“Freire é um grande filósofo da educação, da filosofia aplicada à educação, que reflete criticamente acerca da práxis educativa e visa dar-lhe suporte filosófico.” A afirmação é do Prof. Dr. Gilberto Kronbauer, docente na Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) e no PPG em Educação do Centro Universitário La Salle (Unilasalle).

Graduado em Filosofia pela Faculdade de Filosofia Nossa Senhora da Imaculada Conceição (FAFIMC), cursou mestrado em Filosofia na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) e doutorado em Educação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, com a tese Da idéia de pessoa à concepção pedagógica – o pensamento filosófico e educativo de Ernani M. Fiori. É autor de inúmeros artigos e capítulos de livros, além da obra Ernani M. Fiori - Uma Filosofia da Educação Popular (São Leopoldo: Unisinos, 2003). Confira, abaixo, a íntegra da entrevista. A edição 4 dos Cadernos IHU Idéias, intitulada Uma filosofia da educação popular é de autoria de Kronbauer.

IHU On-Line - Como o senhor relaciona o pensamento de Paulo Freire e o ensino do humanismo na universidade?
Gilberto Kronbauer -
Há relações possíveis, talvez não diretas, entre aquilo que se faz na Unisinos como formação humanística e o que Freire propôs. Quando se lê atentamente um texto de Freire, percebe-se que ele sempre apresenta traços de uma concepção antropológica como referência para as suas propostas educativas em situações concretas, isto é, também o contexto sociocultural está continuamente presente. E, justamente devido à concepção antropológica, sua forma de pensar a educação é intrinsecamente ética. Por vezes, ele explicita mais um, por vezes mais outro desses três eixos, que também são os eixos temáticos da proposta de formação humanística. Mas existe ainda uma segunda forma de relação, menos perceptível à primeira vista e, provavelmente, com maior repercussão pedagógica. Trata-se do modo de trabalhar ou do método. Aí está uma das convicções pedagógicas coincidentes: o “como fazer” é decisivo. O método tem importância fundamental. No caso da formação humanística, ele deve andar perfeitamente sintonizado com os conteúdos. E a característica central do método é a dialogicidade. Embora haja diretrizes que caracterizam cada atividade de formação, o conteúdo não pode ser visto como fim em si mesmo: ele é meio e ocasião para a busca de cada um, com-os-outros, em diálogo. Também no “método” de alfabetização, proposto por Freire, a aprendizagem da leitura e da escrita não é um fim. Tal aprendizagem é o início de um processo de qualificação contínua do ser humano e condição para que ele desenvolva algumas habilidades indispensáveis para a conquista do direito de ser o sujeito de sua destinação histórica. Direito que, segundo Freire, é negado à maioria das pessoas na situação presente. Na formação humanística, também se visa a oportunizar as condições para que cada estudante desenvolva a habilidade de pensar por conta própria e com critérios acadêmicos bem elaborados, a fim de poder posicionar-se com autonomia diante da situação cultural e socioeconômica que lhe cabe viver juntamente com os outros, e, porque não, agir para transformá-la.

IHU On-Line - Poderia apresentar algumas idéias filosóficas presentes na obra de Paulo Freire?  Gilberto Kronbauer - Freire é um humanista que se alinha com a tradição clássica, socrática, tanto em termos de concepção antropológica como na forma de procedimento pedagógico. Não se sabe ao certo se Sócrates era mesmo dialógico, mas aquilo que se entende hoje como diálogo socrático, por exemplo, na perspectiva de Gadamer , é precisamente o diálogo pedagógico proposto por Freire. Por outro lado, pode-se mapear várias apropriações e reelaborações da filosofia moderna e contemporânea, e a forma de sua aplicação à pedagogia. Iniciando por Hegel e Marx. Quem conhece a dialética do “senhor e do servo”, da Fenomenologia do espírito , de Hegel, e lê a “Justificação da Pedagogia do oprimido”, percebe imediatamente a relação direta entre ambas e a presença da reflexão do professor Fiori, esse exímio conhecedor de Hegel e colega de muitas e longas conversas – para domesticar a saudade - no exílio, mais precisamente, no Chile, onde nasceu a “Pedagogia do oprimido”, nos idos de 1967. Parece, no entanto, que a presença da referida dialética apresenta traços das leituras de Marx e teóricos da Escola de Frankfurt. Isso fica bem claro em várias passagens do referido texto. Freire afirma, por exemplo, que o que caracteriza os oprimidos, como consciência servil, em relação à consciência do senhor, é que eles quase se coisificam, transformando-se em “consciência para outro”. Nessa situação, a solidariedade para com os oprimidos consiste em lutar, com eles, para transformar a realidade objetiva que os torna “ser para outro”. Nessa passagem, mostra-se que a leitura que ele faz do texto de Hegel parte da Teoria Crítica da sociedade. Em outras passagens, ele mostra haver adotado a análise psicológica, de Erich Fromm , quando trata da relação opressor-oprimido. Por outro lado, para que a conscientização seja possível mesmo em condições desumanas de vida, Freire supõe a capacidade que a consciência humana tem de transcender as situações vividas e objetivá-las. Trata-se da concepção fenomenológica de intencionalidade da consciência, ou dessa capacidade que a consciência tem de presentificar o objeto e significá-lo. Freire usa aí a metáfora da ad-miração, da e-mersão do real, quer dizer, da capacidade de transcender e objetivar. Nesse particular penso que a influência mais direta foi a de Jean-Paul Sartre, que em seu existencialismo consegue mover-se entre a fenomenologia e a dialética marxista. Outra influência vigorosa é a do personalismo enquanto concepção antropológica e forma de compreensão do socialismo, de um socialismo personalista, como afirma Fiori em sua defesa oral diante da Comissão Plenária que o julgou e expulsou UFRGS em 1964. Penso que o grande problema filosófico em Freire é a conciliação entre a fenomenologia da consciência e a dialética de cunho marxista; entre a intencionalidade da consciência e o materialismo histórico, dificuldade que aparece na ambigüidade do significado de expressões como “realidade objetiva”, por exemplo. Trata-se da objetividade da realidade no sentido husserliano  ou da objetividade da realidade social concreta, a ser objeto da ação transformadora da práxis humana.

IHU On-Line - E quais são as principais contribuições de Freire para a Filosofia? Como dialogam a sua pedagogia crítica e a tradição filosófica? 
Gilberto Kronbauer -
Será que se pode falar de contribuições de Freire para a filosofia ou de sua forma de lidar com a filosofia? Freire lida com a filosofia ao modo de um pedagogo, cujo interesse central é a educação. O acento da filosofia está mais no “por quê” e na pedagogia de “o que fazer” e “como”. E nem poderia ser diferente. A pedagogia, enquanto tematiza a educação e a ela se volta, tem a característica do saber prático. Ela é intrinsecamente pragmática, mas precisa de uma legitimação antropológica, epistemológica e ética, que vai buscar na filosofia. Penso que, nesse sentido, Freire é também um grande filósofo da educação, da filosofia aplicada à educação, que reflete criticamente acerca da práxis educativa e visa a dar-lhe suporte filosófico. E não é nenhum demérito afirmar que Freire não contribuiu para a filosofia, de modo geral, mas contribui especificamente com a filosofia da educação, da práxis. Ele apresenta uma forma de pensar a educação que tem estofo filosófico porque parte da máxima de que toda prática educativa, além de se dar numa situação histórico-cultural concreta ou de ser datada e circunstanciada, sempre é a prática de uma concepção de ser humano e de conhecimento e, que por isso mesmo, é intrinsecamente ética. Aliás, voltando novamente à primeira questão, em termos de arquitetônica reflexiva, tem-se mais uma vez aí a relação entre o pensamento de Freire e a concepção de formação humanística das Universidades sob a inspiração da AUSJAL .

IHU On-Line - Num cenário latino-americano, como se complementam e dialogam as idéias de Fiori e Freire?
Gilberto Kronbauer -
O caso talvez não seja de complementaridade, mas de influência mútua, sendo que cada qual continua seguindo o seu próprio caminho. A parceria nasceu em torno das questões da educação e da cultura popular, no início da década de 1960. O Ministério da Educação do governo Jango  adotou o projeto de alfabetização de Freire. Viajando pelo Brasil, numa dessas vindas para Porto Alegre, Freire foi apresentado ao Prof. Fiori e, desde então houve um convívio de profunda amizade e uma influência mútua muito produtiva. Fiori, por exemplo, desde jovem interessado nas questões sociais nacionais, já desde os tempos de aluno do Pe. Werner  no Anchieta, era conhecido principalmente como professor de metafísica clássica na universidade. Mas ele vai se engajando nas questões sociais e populares. Em dezembro de 1963, participa da criação do Instituto de Cultura Popular do Rio Grande do Sul, do qual foi o primeiro e único presidente de um mandato de poucos meses, quando sobreveio a ditadura e o seu expurgo da UFRGS. Desde então, o convívio com Freire se intensifica e adensa. Ambos cassados e exilados no Chile, dedicam-se cada qual ao que melhor sabiam fazer: Fiori na academia, Freire indo mais diretamente a campo, mas ambos pensando a educação popular, a conscientização, a pedagogia do oprimido, o que implica em terem que pensar a mediação das mesmas: a cultura popular.

IHU On-Line - Teologia da Libertação e Pedagogia do Oprimido. Como interagem essa corrente da teologia católica e essa obra de Freire?
Gilberto Kronbauer -
Penso que há um fundo metodológico comum e o compartilhamento de uma causa comum, bem como uma leitura da realidade latino-americana na perspectiva do mesmo referencial teórico, que não é necessariamente o marxismo, mas a sua influência em diversas teorias sociais e políticas. Mas o fundamental é que, em ambos os casos, o ponto de partida é a realidade cotidiana do povo, entenda-se, dos pobres. Ler o texto sagrado e a tradição humanista sob essa perspectiva é o ponto em comum mais forte entre ambas.

IHU On-Line - O senhor poderia recuperar um pouco das principais idéias da Pedagogia do oprimido e o contexto em que a obra surgiu? Qual é a atualidade dessas proposições?
Gilberto Kronbauer -
Principais idéias?  Em se tratando de uma obra de Freire, isso não é tarefa fácil, à medida que ele tem um jeito de pensar, de escrever, que vai levando de roldão uma multiplicidade de questões, relacionando-as dialeticamente, retomando-as a partir de um outro patamar, que um leitor desavisado tem a sensação de repetição e, por vezes, confusão. Já se fez alusão anterior à “justificativa da pedagogia do oprimido”. Nela, aparece claramente a maneira de Freire pensar a realidade na década de 1960. A bipolaridade opressor-oprimido estrutura as tematizações da situação socioeconômica e cultural. Mas a conclusão do referido capítulo mostra que o conceito central do processo de libertação é a “comunhão”, quando afirma que “ninguém liberta ninguém, ninguém se liberta sozinho: os homens se libertam em comunhão”. A segunda parte talvez possa ser lida em torno do conceito de diálogo, pressupondo o reconhecimento da finitude e da historicidade do ser humano, ou a consciência da inconclusão. O diálogo é próprio daquele que reconhece que sua perspectiva é parcial e que ele pode aprender com os outros. Por isso, a crítica à concepção bancária de ensino, que afirma a prepotência do saber do professor, e a apresentação de uma educação problematizadora e libertadora têm sua base na dialogicidade do ser humano e, conseqüentemente, numa aposta metodológica: o diálogo pedagógico. Isso conduz Freire a retomar continuadamente a conhecida citação, que é título de um item do segundo capítulo da obra em questão: “Ninguém educa ninguém, ninguém se educa sozinho: os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo”. Na terceira parte do livro, Freire mostra o vigor metodológico do diálogo ou da “dialogicidade” como essência da educação e como prática da liberdade. Mas o que chama especial atenção ao leitor do século XXI é que, além do convívio dialógico precisar se fazer presente desde o início do processo de constituição do “círculo de cultura” para se chegar às “palavras geradoras”, ou aos temas geradores da investigação, Fiori apresenta em seu prefácio algo extremamente atual, aproximando Freire da virada lingüística em curso na filosofia. Aparece, então, a valorização da linguagem como prenúncio da virada lingüístico-pragmática em curso na filosofia. Fiori mostra que “o mundo” a ser decodificado e codificado em diálogo nos círculos de cultura é “mundo-linguagem”. A linguagem é o meio no qual os dialogantes se encontram e no qual eles tentam se entender uns com os outros sobre o que está em questão. Isso significa que a compreensão do mundo é um acontecimento que se efetiva na linguagem, porque é ela que faz com que aquilo que está em questão venha à palavra, no universo lingüístico própria aos dialogantes.  Por isso é que as palavras geradoras, escolhidas do mundo vivido dos alfabetizandos, por poucas que sejam, trazem em si toda a riqueza deste mundo, incluindo suas ambigüidades. As palavras geradoras emergem do centro da vida comum, do mundo vivido, e é por meio do todo desse mundo, com que estão em relação, que tais palavras significam algo. É como se cada palavra deixasse aparecer o todo da linguagem a qual ela pertence e fizesse vir à tona o todo da “visão de mundo que a ela subjaz”. Devido a essa concepção de linguagem, Fiori entende que as técnicas do método ‘estilizam pedagogicamente o processo no qual o ser humano se constitui historicamente. A tomada de consciência desse processo começa pelas “palavras geradoras”, que são geradoras porque trazem em si uma carga semântica ampla do mundo dos alfabetizandos. Assim, a linguagem, que é constitutiva do humano, também é mediação da tomada de consciência, porque as palavras “significam uma relação com o ‘todo do ser’ e permitem que essa relação venha à fala”. Leve-se em consideração  que a palavra é essencialmente diálogo, e o ser humano está, desde sempre, na relação com o outro, sendo intersubjetivo de origem. A tomada de consciência dessa condição de sujeito, de ser-com-os-outros, finalidade da conscientização, sempre é relativa aos outros sujeitos, em um “mundo-linguagem” comum. Esta me parece a grande novidade do método freiriano e que ainda foi pouco explorada pelos teóricos da educação.

IHU On-Line - Como é possível educar para a liberdade e para a autonomia hoje, na sociedade individualista em que vivemos?
Gilberto Kronbauer -
É quase uma contradição falar de sociedade individualista porque o individualismo extremado é o fim da sociedade. Por outro lado, porém, o individualismo não representa o fim de toda e qualquer liberdade, antes pelo contrário: o espírito gregário é que inibe a liberdade. Isso posto, prefiro falar da educação para a autonomia em qualquer contexto de convívio social, entendendo que o conceito de autonomia é inseparável do conceito de esclarecimento e, portanto, ele é tipicamente moderno. “Aufklärung” significa atingir a maioridade, pensar por si mesmo, ousar saber; significa autonomia no saber e no agir. Era precisamente esse o ideal posto em marcha na América Latina naquelas décadas de 1960 e 1970.

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