Edição 205 | 20 Novembro 2006

“O homem cordial morreu ou, talvez nunca tenha existido”

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

IHU Online

Edgar Salvadori de Decca, doutor em História Social pela Universidade de São Paulo, é professor titular da Universidade Estadual de Campinas, onde é Pró-Reitor de Graduação. Publicou 25 artigos em periódicos especializados e 40 trabalhos em anais de eventos. Possui 36 capítulos de livros e 9 livros publicados, entre os quais citamos O Nascimento das Fábricas. 12. ed. São Paulo: Brasiliense, 1996 e O Silêncio dos Vencidos. 7. ed. São Paulo: Brasiliense, 1997. Confira, a seguir, a entrevista que ele concedeu, por e-mail, para a revista IHU On-Line sobre a obra principal de Sérgio Buarque de Holanda. 

IHU On-Line - Qual é a atualidade da obra Raízes do Brasil para compreender nossa nação no século XXI?

Edgar de Decca
- Raízes do Brasil ainda permanece muito atual para a compreensão da sociedade brasileira, muito embora isso contrarie a própria perspectiva de Sérgio Buarque de Holanda. Segundo o autor, os elementos tradicionais da sociedade brasileira, como o paternalismo, o personalismo, a falta de delimitação da esfera privada com a esfera pública, oriundos de um passado escravista, seriam superados por uma revolução que teria iniciado com fim da escravidão. Evidentemente, precisamos reexaminar o conjunto da obra para melhor compreendê-la hoje. A melhor maneira de fazer isso não é transformá-la em algo intocável, mesmo porque a historiografia das últimas décadas contribuiu para o reexame de diversas questões apontadas por Sérgio Buarque. Há, no entanto, uma questão que é pouco discutida e que ainda hoje permanece polêmica. Em Raízes, Sérgio Buarque nos aponta os caminhos da exclusão social no Brasil e, ao mesmo tempo, as pretensões políticas daqueles que pretendem a incorporação na sociedade dos setores excluídos. Sérgio percebe claramente que esses projetos políticos de incorporação dos excluídos teriam as características dos discursos de direita e de esquerda, mas com uma marca comum: a do populismo e do personalismo. Se, por um lado, ele acertou na previsão do populismo de direita de Getúlio Vargas, ele não chegou a presenciar o que iria acontecer no futuro com o populismo de esquerda, com o lulismo. O mais irônico disso tudo é que o próprio Sérgio presenciou e assinou o documento de criação do PT, por acreditar que estava se engajando numa posição de esquerda democrática antipopulista. Apesar de não ter vivido essa experiência, Sérgio Buarque soube perceber a marca do populismo de esquerda na política dos comunistas da década de trinta.  

IHU On-Line - Que elementos dessa obra permanecem atuais em nossa sociedade?

Edgar de Decca
- Se formos nos colocar na perspectiva de uma obra que problematiza as relações do público e do privado no Brasil, então a atualidade de Raízes é acachapante. Na obra de Sérgio, há toda uma critica ao modo como no Brasil a esfera pública é utilizada em favor da esfera privada. No entanto, essa análise de Sérgio Buarque só havia sido aplicada no que se refere à atuação das elites dominantes do império e da República e no modo como o mais comum dos brasileiros aprendeu, ao exemplo das elites, a famosa lei do Gerson, de querer tirar vantagem de tudo. Mal sabia Sérgio Buarque que esse comportamento promíscuo entre a esfera pública e a esfera privada seria a marca do governo do Partido dos Trabalhadores, quando a elite do sindicalismo chegou ao governo. Essa investida de uma elite sindical no aparelho do Estado demonstra historicamente um modo inédito de apropriação privada da esfera pública, desta vez realizada por uma elite sindical. Desse modo, a obra de Sérgio nos faz pensar sobre a alternância muito rápida das elites do poder. Basta analisarmos as elites que estiveram no poder no Brasil, desde o Império até os nossos dias, para termos um diagnóstico de longo alcance. De elites aristocráticas do Império às elites sindicais do lulismo, no entanto, o comportamento é sempre o mesmo, a promiscuidade entre a esfera privada e a esfera pública. Hoje, por ironia, esse comportamento ainda vem travestido de um populismo de esquerda. A sociedade brasileira paga um alto preço político pela tardia inclusão dos excluídos na esfera pública da cidadania. Esse processo, porém, além de inevitável, é irreversível.

IHU On-Line - Como o senhor interpreta o conceito de homem cordial? Transpondo essa problemática para nossos dias, haveria um paralelo do homem cordial com o brasileiro contemporâneo?

Edgar de Decca
- Lendo atentamente, hoje em dia, Raízes do Brasil, acho que o homem cordial morreu ou, talvez, nunca tenha existido. Quem sabe seja o maior dos mitos criados por essa obra de Sérgio Buarque: de que o brasileiro age movido mais pelo coração do que pela razão. Como se a espontaneidade fosse algo internalizado em todos nós. Acho que Sérgio Buarque pretendeu apaziguar um pouco o peso da dominação e da exclusão social no Brasil, deixando margem para que nos vejamos como personalidades mais condescendentes com o racismo, com a violência, com a desigualdade, porque no final da história, ricos e pobres, brancos e negros, poderão se entender e se abraçar em volta de uma roda de samba. A cordialidade é uma máscara que ainda utilizamos para esconder as nossas formas de dominação e de exclusão. Ao contrario do que lemos em Sérgio Buarque, o brasileiro não é cordial, no sentido de que ele age segundo o seu coração e as suas emoções. A violência, a apropriação privada dos bens públicos não são movidas pela cordialidade, mas pelo interesse, por motivações racionais, mesmo que elas sejam inapreensíveis por muitos de nós. A violência urbana é um exemplo disso tudo, do mesmo modo como as elites se imiscuem nas esferas do poder, para se apropriarem de benesses da política. 

IHU On-Line - Sérgio Buarque de Holanda criticava o conceito de uma identidade nacional permanente ou fixa. Como isso se deu no período do Estado Novo?

Edgar de Decca -
Todo sistema político autoritário e ainda mais o Estado Novo, que pretendia tornar-se totalitário, pretende instituir uma identidade fixa. Isso é próprio de ideologias xenófobas e racistas. Aconteceu no Brasil, ao mesmo tempo em que o fascismo cresceu na Alemanha, na Itália, na Espanha, em Portugal e na Argentina. A identidade fixa é um outro mito criado pelo Estado Nacional. Não se sustenta, nem sob o prisma da raça, como se pretendeu na Alemanha, nem no suporte de costumes e hábitos, nem sob o prisma da língua. No caso do Estado Novo, pretendeu-se combinar os elementos da tradição e dos costumes com o da língua. O fracasso do projeto político estadonovista foi retumbante e ainda bem que foi assim. Uma sociedade é formada por múltiplas identidades e o reconhecimento do outro como diferença é um aprendizado difícil de cidadania e nem sempre caminhamos para um mundo mais harmonioso. Os dias de hoje são muito instrutivos para pensarmos a diferença e ao mesmo tempo a intolerância sob o prisma das múltiplas identidades culturais, étnicas, religiosas, sexuais. O desafio contemporâneo é justamente o de que todas essas identidades têm que conviver no conflituoso território político dos estados nacionais. Acho que a obra de Sérgio Buarque permite pensarmos essa cidadania múltipla. Mas aqui devo fazer um comentário, que vai frustrar muita gente. O livro Raízes que está fazendo 70 anos em 2006 não é o mesmo que foi publicado em 1936. Ele sofreu muitas alterações, algumas delas de ordem estilísticas, mas também alterações que modificam a apreensão das questões levantadas sobre a identidade nacional. Infelizmente, a primeira edição do livro Raízes não está disponível e apenas temos acesso a ela por algumas bibliotecas brasileiras. Na primeira edição, logo na abertura do livro, Sérgio Buarque assume a posição de um estrangeiro que, na Alemanha, no período da ascensão do nazismo, ao contrário do texto que hoje está divulgado, procura entender a questão da identidade sob o prisma do desterro, a identidade em sua mobilidade, flexibilidade e incerteza. Esse tema é central na primeira edição da obra, mas ficou perdido na edição que hoje conhecemos. Tivemos, sem dúvida, uma perda com o passar dos anos.

 

Últimas edições

  • Edição 541

    Planos de saúde e o SUS. Uma relação predatória

    Ver edição
  • Edição 540

    Hans Jonas. 40 anos de O princípio responsabilidade

    Ver edição
  • Edição 539

    Do ethos ao business em tempos de “Future-se”

    Ver edição