Edição 205 | 20 Novembro 2006

“Toda releitura se dá em razão da vivência, dos desafios e dos problemas atuais”

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De acordo com a professora da Universidade Estadual de Londrina, Maria José de Rezende, a releitura da obra Raízes do Brasil deve ser feita seguindo uma indicação dada por Sérgio Buarque de Holanda em uma entrevista publicada em 28 de janeiro de 1976 (Veja, n.386).

“Parafraseando Benedetto Croce, ele afirma que toda história é história contemporânea´. O que isso tem a ver com as releituras possíveis de sua obra? Tem a ver com o fato de que toda releitura se dá em razão da vivência, dos desafios e dos problemas atuais”.

Maria José de Rezende possui mestrado em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1991) e doutorado em Sociologia pela Universidade de São Paulo (1996). Escreveu: A ditadura militar no Brasil: repressão e pretensão de legitimidade - Reimpressão em 2003. Londrina: Eduel - Editora da Universidade Estadual de Londrina, 2001 e A transição como forma de dominação política. Londrina: EDUEL, 1996

IHU On-Line - Como podemos fazer uma releitura do livro Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, hoje? O que significa reler essa obra nos dias atuais?

Maria José de Rezende
- A releitura da obra Raízes do Brasil deve ser feita seguindo uma indicação dada por Sérgio Buarque de Holanda em uma entrevista publicada em 28 de janeiro de 1976 (Veja, n.386). Parafraseando Benedetto Croce , ele afirmava que “toda história é história contemporânea”. O que isso tem a ver com as releituras possíveis de sua obra? Tem a ver com o fato de que toda releitura se dá em razão da vivência, dos desafios, dos problemas atuais. O modo como vivenciamos os nossos problemas políticos hoje poderá ser, então, o guia da releitura que poderá privilegiar, na obra, determinados aspectos, determinados traços em vista da conjuntura atual. Nesse caso, a leitura do livro Raízes do Brasil, nos dias atuais, estará sempre atravessada pelos desafios de nosso tempo. É por isso que o livro constitui um texto clássico, ao qual precisamos voltar sempre para compreender, por exemplo, as dificuldades da democracia no País, a persistência das práticas oligárquicas, dos figurantes mudos, do poder pessoal e dos conchavos. Assim, pode-se afirmar que os dois últimos capítulos intitulados Novos tempos e Nossa revolução são os mais instigantes por colocarem elementos que nos ajudam a compreender o Brasil pós-transição, ou seja, pós-1988. Nestes dois capítulos, Sérgio Buarque de Holanda coloca no centro do debate a questão democrática. É uma abordagem dotada de enorme atualidade porque se situa numa constante tensão: a dificuldade de efetivação de práticas e de procedimentos democráticos e a esperança de que o País se transforme politicamente. A análise feita, então, na década de 1930 contém uma substancialidade crítica do presente, tanto em relação à época em que o texto foi escrito quanto ao momento atual. A idéia básica de que nunca houve democracia no Brasil, já que ela implicaria na participação, de fato, dos setores populares, ainda é válida, sem sombras de dúvida.
  
IHU On-Line - Quais os limites da obra? E quais as suas principais polêmicas?

Maria José de Rezende
- Sérgio Buarque de Holanda recusou-se a reescrever essa obra. Ele próprio apontava alguns limites dela. Ele dizia que se tratava de um texto datado. Um outro limite apontado por ele e por outros estudiosos do pensamento brasileiro é o caráter expressivamente ensaísta de algumas partes. Segundo ele, o capítulo sobre o ladrilhador e o semeador seria “ensaísta demais”. Esta observação remete a uma outra crítica que o próprio autor levanta na entrevista publicada na revista Veja em 28 de janeiro de 1976: o ensaio geralmente não conta com uma pesquisa rigorosa e exaustiva. Sérgio B. de Holanda, conquanto não fosse contrário a essa modalidade de texto, afirma que preferia aqueles seus livros que foram orientados por pesquisas absolutamente rigorosas. Numa entrevista de 2 de junho de 1981 (republicada no Caderno Mais da Folha de S. Paulo em 08 de agosto de 2004), ele ressalta que lhe havia sido proposto, por uma editora estrangeira, a publicação de uma reedição modificada de Raízes do Brasil; no entanto, ele havia recusado essa tarefa, já que isso lhe parecia uma tarefa titânica. Nessa ocasião, ele fez críticas a algumas discussões iniciais do livro em que se discutem o personalismo, o individualismo e os tipos sociais por ele criados como o semeador e o ladrilhador. Fica evidente, porém, na fala dele de 1981, que a parte vigorosa do livro era a parte final, ou seja, os últimos capítulos, isso porque o contexto político no qual foi escrito era muito difícil no que tange à implementação de uma nação democrática. Tais dificuldades, em dimensões diferentes e com outras implicações conjunturais, estariam também presentes hoje.
Entre as inúmeras polêmicas em torno do livro, há uma que merece destaque: aquela que se refere ao tipo social denominado por ele homem cordial. A polêmica que se iniciou imediatamente após a publicação da primeira edição, em 1936, não cessou até os dias atuais. Há uma confusão em torno do próprio termo “cordial”. O pensador Cassiano Ricardo foi o primeiro a confundir o “homem cordial” com o “homem bom”. Sérgio Buarque de Holanda tanto na entrevista de 1976 quanto na de 1981 referiu-se a esta confusão. A cordialidade, diz ele, nada tem a ver com bondade ou com não-violência. Não há positividade alguma em ser o brasileiro um tipo social cordial, já que a cordialidade alimenta práticas e procedimentos políticos conciliadores, clientelistas, populistas e oligárquicos. A cordialidade opõe-se à democracia em razão de negar a necessidade da transparência e da publicização das relações sociais que forma atores sociais capazes de balizar a ação dos dirigentes.

IHU On-Line - A senhora pode falar sobre a crítica ao processo elitista de formação da nacionalidade que aparece em Raízes do Brasil?

Maria José de Rezende
- Sérgio Buarque de Holanda demonstra principalmente nos capítulos finais da obra em questão, que as massas populares sempre estiveram ausentes no jogo político nacional. Este é o fundamento de nossa formação elitista que tem levado uma camada muito pequena a tudo decidir em favor de seus próprios interesses pessoais. Foi assim na Colônia, foi assim no Império e continuou sendo assim a partir de 1889. Se as mudanças foram executadas por um grupo que nunca teve qualquer projeto nacional – o qual somente poderia existir se houvesse uma participação, de fato, da população na arena política – temos uma nacionalidade cindida. As elites dirigentes decidem em proveito próprio, sempre em favor de seus interesses, sejam eles econômicos ou políticos. Nessa entrevista de 1976, ele afirma que, até aquele momento, todas as mudanças no País teriam sido mudanças operadas por elites civis ou militares que contornaram as divergências entre os seus diversos segmentos e seguiram obstinados na manutenção de um processo altamente excludente. A democracia, nessas condições, continua, sem dúvida alguma, quase impossível de se efetivar.

IHU On-Line - Sérgio Buarque de Holanda criticava o conceito de uma identidade nacional permanente ou fixa. Como isso se deu no período do Estado Novo?

Maria José de Rezende
- A identidade nacional fixa ou permanente acaba por alimentar uma interpretação do País essencialmente presa a uma idealização ou a uma condenação do passado. Tanto a idéia de Gilberto Freyre expressa nas obras Casa grande & senzala, Sobrados e mucambos e Ordem e progresso de otimização do passado, quanto à de Oliveira Vianna assentada na descrença em qualquer possibilidade de ação política acertada, da maioria dos brasileiros, em vista de um passado colonial nefasto, acabaram por construir uma identidade nacional fixa. Ou o brasileiro era visto como dado a toda forma de violência e de desmando, conforme Viana, ou era dado a todo tipo de equilíbrio de antagonismo e de conciliação, conforme queria Freyre. No período do Estado Novo, idéias como as de Oliveira Viana, eram aceitas pelos dirigentes, por defenderem o empoderamento do Executivo como a única forma de controlar os hábitos, instintos, costumes e mentalidades avessas ao fortalecimento do poder público. Não eram aceitas, porém, as idéias de Freyre que defendiam que os brasileiros, de modo geral, eram contra o autoritarismo, mas não avessos à autoridade. É visível que a discussão empreendida por Sérgio Buarque de Holanda situava-se criticamente nestas duas visões fatalistas que advogavam que éramos um país fatalmente condenado ao autoritarismo ou fatalmente condenado à conciliação. Esses dois fatalismos tinham um caráter conservador, visto que toda e qualquer mudança com vistas a superar um passado violento, autoritário, oligárquico, patriarcal e personalista passava por ações sociais capazes de reinventar o País.
  
IHU On-Line - Que tipo de sociedade é descrita por Buarque de Holanda e o que ela tem a ver com a sociedade brasileira atual?

Maria José de Rezende
- A resposta a esta pergunta transcende a obra Raízes do Brasil. É uma pergunta que somente pode ser respondida se for levado em consideração o conjunto da obra de Sérgio Buarque de Holanda. Há, segundo ele, um abismo entre as elites dirigentes e as massas populares. É uma sociedade que potencializa a eternização de um sistema de domínio que impede a emergência de caminhos indicadores do surgimento de uma forma social não-excludente. Pode-se dizer que isso está ainda muito presente na atualidade, ou seja, esta dificuldade de aparecerem caminhos capazes de vencer, paulatinamente, os processos de exclusões petrificados na sociedade brasileira. O eixo central para compreender a relação entre política e sociedade era a marginalização a que muitos estavam submetidos, na década de 1930 quando foi escrito o livro Raízes do Brasil. Tal marginalização do processo decisório imposta à maioria alimentava, afirmava ele, o poder pessoal, a farsa do sistema representativo e o esvaziamento dos partidos políticos. Tais processos estão muito presentes na sociedade brasileira, hoje. A ausência de procedimentos transparentes por parte dos dirigentes e a dificuldade de os setores dirigentes, dominantes e médios situarem suas práticas no âmbito da democracia e do Estado de direito, as quais foram muito trabalhadas por Sérgio Buarque de Holanda, estão também presentes na atualidade de forma arrasadora para a nação. A máxima de Nabuco de Araújo, senador do Império, de que “a liberdade existe para nós, homens de gravata lavada, e não para o povo” continua, afirma Holanda na entrevista de 1976, atualíssima.

 

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