Edição 205 | 20 Novembro 2006

Um mapa da vida mental e ideológica do Brasil

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IHU Online

Considerado pela professora Angela Mendes de Almeida como um verdadeiro mapa da vida mental e ideológica do Brasil de hoje, o livro Raízes do Brasil é uma obra de grandes contribuições para o entendimento do modo de pensar e de sentir dos brasileiros.

Angela Mendes de Almeida formou-se em Ciências Sociais pela USP (1968) e doutorou-se em Ciências Políticas pela Universidade de Paris VIII-St.Dennis (1981). Foi professora universitária em Lisboa durante quatro anos e, desde 1982, trabalha na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, dedicando-se à pesquisa sobre história da família no Brasil. Publicou os livros Revolução e guerra civil na Espanha (1981) e A república de Weimar e a ascensão do nazismo (1982); organizou e contribuiu com um artigo para a coletânea Pensando na família no Brasil: da colônia à modernidade (1987). A entrevista a seguir foi concedida por e-mail

IHU On-Line – Que releitura podemos fazer do livro Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda? O que significa reler essa obra nos dias atuais?

Angela Mendes de Almeida
- Raízes do Brasil faz uso da matéria legada pela história de um modo que permite identificar as amarras que, no presente, bloqueiam o nascimento de um futuro melhor. O autor procura compreender o processo de transição sociopolítica vivido pela sociedade brasileira nos anos 1930 e depois, na década de 1940, quando o livro foi modificado e ampliado.
Considero este livro, junto com outros clássicos, como o Gilberto Freyre , de Casa-grande e senzala, e o Caio Prado Júnior , de Formação do Brasil contemporâneo, um verdadeiro mapa da vida mental e ideológica do Brasil de hoje. No famoso prefácio de Antonio Cândido ao Raízes, de 1967, ele faz referência à forte influência desses textos sobre a sua geração, como instrumento de reflexão sobre o Brasil. Ultimamente tem nuançado bastante essa afirmação, caracterizando-a como apenas a posição daquela geração. Penso que, se é verdade que, para muitos estudiosos e historiadores, tais livros estão ultrapassados, isso se dá porque essa parcela da intelectualidade faz do Brasil uma interpretação otimista, crê essencialmente na sua pujança e modernidade, modernidade essa, aliás, que se manifesta no próprio fato de que, seguindo certas tendências mundiais, desprezam as grandes narrativas e concentram-se em estudos especializados. Não é o meu caso. Embora dê muito apreço aos estudos que têm um centro definido, considero que as grandes narrativas contribuem para a melhor compreensão desses fatos isolados, para a inserção da parte no todo.

Contribuições ao modo de pensar

Assim sendo, vejo nesta obra de Buarque de Holanda, grandes contribuições para o entendimento do modo de pensar e de sentir dos brasileiros, derivado de sua formação histórica. Ao caracterizar-nos, nos capítulos II Trabalho e aventura e III Herança rural - a civilização instalada pelos portugueses no Brasil, não como uma civilização tipicamente agrícola, marcada pela presença camponesa, e sim como uma “civilização de raízes rurais”, que têm como base a grande propriedade rural comandada pelo senhor, e trabalhada pelos escravos, Buarque de Holanda faz um gancho com as duas obras acima referidas. Mas vai além: o forte dessa civilização de raízes rurais é a invasão do espaço público pelo privado, tendo a família como valor norteador, fornecendo “a idéia de poder, coesão social, obediência”(p. 50). “A mentalidade da casa-grande invadiu as cidades e conquistou todos os extratos” (p. 55). Os valores do espaço privado – família e religião – introduzem no espaço público o particularismo, contra o preceito da universalidade, o casuísmo, contra as regras da igualdade para todos, e, filho desses modos de sentir e de pensar, o favor, que Roberto Schwarz  caracterizou como “a nossa mediação quase universal”.

Ora, quem negaria a atualidade destas interpretações apenas rememorando os últimos anos da vida política no Brasil? Nepotismo, favoritismo, invasão do espaço público pelo espaço privado e os valores da família e da religião, norteando intervenções, discussão sobre a legislação e a luta política em geral. Seria impossível, neste espaço, mencionar todos os mil exemplos de cada dia que explicitam vivamente este modo de pensar e de sentir, raramente questionado.

Ultimamente esteve em moda citar, de boca cheia, o “espírito republicano” que seria exatamente o contrário desse “familismo”. Porém, o tema vem à tona sempre por parte de alguém que critica o outro pela falta de espírito republicano. Questionar esses hábitos, praticamente ninguém faz.
 
IHU On-Line – Que sociedade é descrita por Buarque de Holanda? Como ela se parece com a sociedade brasileira atual?

Angela Mendes de Almeida
- No livro, não há propriamente uma descrição da sociedade, senão a descrição sutil e perspicaz de alguns hábitos e características da sociedade brasileira, legados pela forma como se organizou a sociedade, marcada desde o início pela divisão de classes cujo emblema é a dicotomia entre senhor e escravo. Um dos conceitos mais famosos de Buarque de Holanda é o do “homem cordial” (cap. V). É impressionante como todos, inclusive estudiosos e intelectuais, insistem em não entender o sentido de “cordial”, interpretando-o, para o bem e para o mal, como homem bonzinho. Essa capacidade de desentendimento é profunda e deveria ser estudada por algum freudiano. Pois o homem cordial de Buarque de Holanda é aquele cujos sentimentos e ações vêm do fundo do coração, da sede onde está a família e o espaço privado. Cordial para amar, amar seus familiares e apaniguados. E cordial para maltratar, machucar e torturar (como aliás bem lembrou o Fado Tropical de Chico Buarque ) todos aqueles que não são de seu círculo de familiares e amigos, e sobretudo os pobres, considerados sem família. Esse conceito abre espaço para entender a violência dos poderosos contra “os outros”, outra família de poderosos rivais, mas sobretudo os “sem família”, “sem berço”. Violência que percorre o espaço histórico da escravidão à Primeira República, passando pelas nossas ditaduras, e chegando à atual violência institucional contra os pobres e contra os movimentos sociais dos pobres.

IHU On-Line – Quais os limites da obra? Quais são os que aspectos em que mais avança?

Angela Mendes de Almeida
- Como já disse antes, considero alguns dos primeiros capítulos de Raízes do Brasil fundamentais, junto com outros clássicos, como Gilberto Freyre e Caio Prado Júnior, para compreender a atualidade do Brasil, para além de uma análise economicista descarnada. Ao menos do meu ponto de vista, que acabo brevemente de explicitar acima. Já o contrário acontece com o último capítulo, o VII, Nossa revolução. Depois de fazer uma crítica bastante radical do modo de pensar e de sentir encarnados na sociedade brasileira, de sua mentalidade, tendo como pano de fundo implícito a estrutura das classes sociais gerada pelo sistema de exploração agrária instalado desde o início da colonização, no último capítulo Buarque de Holanda enche-se de euforia e otimismo na análise daquele presente dos anos 1930, hoje longínquo passado.
Atribui à Abolição, em 1888, o título de revolução, “lenta, mas segura e concertada, a única que, rigorosamente temos experimentado em toda a nossa vida nacional” (p. 126). Prosseguindo, qualifica esse passado cujas mazelas, mas ao mesmo tempo os aspectos cativantes, acaba de desenhar, de “iberismo”, que se confundiria com o “agrarismo” das nossas raízes históricas. E vê, já vivo, o antídoto para esse veneno, o “americanismo”, que, embora ainda incrustado no subterrâneo da sociedade, já é um impulso irreversível que nada deterá. “A urbanização, contínua, progressiva, avassaladora, fenômeno social de que as instituições republicanas deviam representar a forma exterior complementar, destruiu esse esteio rural, que fazia a força do regime decaído sem lograr substituí-lo, até agora, por nada de novo”(p 131).
Nesse aspecto, a meu ver, o livro desanda. É fácil hoje, diante da tragédia de nossas cidades, sobrevivendo em um apartheid social gerador de violência e medo, desprezar essa ingênua confiança no processo físico da urbanização, que, pela lógica, seria necessariamente acompanhado da industrialização. Mas penso que, enquanto os primeiros capítulos já citados, revelam a genialidade perspicaz do historiador, este último transmite o sentimento comum e difundido entre todos os intelectuais progressistas da época, desde o último quartel do século XIX, de que o progresso material geraria automaticamente cultura e educação, “socializaria” a civilização. O mundo caminhava em passo seguro para o futuro, evoluía sempre para frente e era preciso que o Brasil subisse nesse trem. Esse sentimento era também fortemente presente nos socialistas, com uma inspiração, nesse ponto, direta de Marx e Engels, seguida pela tradição social-democrata e comunista. Poucos intelectuais pressentiram, naquela época, como Walter Benjamin, que a evolução do mundo não era linear, que o progresso material estava prenhe de armadilhas, que a civilização continha elementos de barbárie. Portanto, no que concerne ao seu otimismo quanto ao futuro do Brasil, Buarque de Holanda era um homem de sua época.

 

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