Edição 205 | 20 Novembro 2006

Um ensaio sobre a nossa história

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IHU Online

Em breve entrevista por e-mail à IHU On-Line, o professor de História, Ronaldo Vainfas, considera Raízes do Brasil um dos três principais ensaios de interpretação de nossa história publicados no século XX, juntamente com o Casa Grande e Senzala, de Gilberto Freyre, e o Formação do Brasil Contemporâneo, de Caio Prado Jr.

Vainfas possui graduação em História pela Universidade Federal Fluminense (1978), mestrado em História pela Universidade Federal Fluminense (1983) e doutorado em História Social pela Universidade de São Paulo (1988). Atualmente é professor titular da Universidade Federal Fluminense. O professor falou sobre A heresia dos índios: catolicismo e rebeldia no Brasil colonial, no dia 27 de outubro de 2005 no III Ciclo de Estudos sobre o Brasil, do IHU. Também concedeu entrevista na edição 161, de 24 de outubro de 2005, da IHU On-Line.

IHU On-Line - Como podemos fazer uma releitura do livro Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, hoje? O que significa reler essa obra nos dias atuais?

Ronaldo Vainfas
- Este é um dos três principais ensaios de interpretação de nossa história publicados no século XX, juntamente com Casa Grande e Senzala, de Gilberto Freyre, e Formação do Brasil Contemporâneo, de Caio Prado Jr. Os grandes temas de pesquisa, sobretudo quanto ao período colonial, estão nestes três livros.

IHU On-Line- Quais os limites da obra?

Ronaldo Vainfas
- Trata-se de uma coletânea de ensaios relativamente curtos e desiguais quanto à profundidade da reflexão. Dos três livros que citei, talvez Raízes seja o que menos aprofunde suas teses. Ainda assim é um ensaio de fôlego.

IHU On-Line - Em que aspectos Raízes do Brasil mais avança?

Ronaldo Vainfas
- Raízes avança principalmente ao propor contrastes entre a colonização espanhola e a portuguesa na América, mostrando o perfil mais "civilizacional" dos espanhóis, visto, por exemplo, na construção das cidades, à diferença do estilo feitorial português. Esta é uma comparação que Sérgio Buarque de Holanda aprofundaria em obras posteriores, como Visão do Paraíso. Mas há também outras comparações menos salientes, como a que faz entre a colonização portuguesa e a inglesa na América do Norte. De modo que Raízes avança muito no recurso às comparações históricas no espaço e no tempo.

IHU On-Line - Em que medida a obra ajuda a compreender o Brasil de hoje?

Ronaldo Vainfas
- Permite ver muito bem a confusão entre o público e o privado que marcou nossa formação histórica. Este é hoje um problema do Brasil que obviamente não se explica somente pelas nossas "raízes". Mas elas têm seu peso.

IHU On-Line - Que tipo de sociedade é descrita por Buarque de Holanda e o que ela tem a ver com a sociedade brasileira atual?

Ronaldo Vainfas
– Sérgio Buarque de Holanda descreve menos do que interpreta. E trata de três tempos: o colonial, com mais profundidade; o século XIX, mais rapidamente; e as primeiras décadas do século passado. A colonização portuguesa é, em Sérgio Buarque de Holanda, predatória, latifundista, escravista e o que mais o autor destaca é a não superação de vários arcaísmos, apesar da independência, da abolição da escravidão e da proclamação da República.

Sérgio Buarque de Holanda frisa sempre, em Raízes, nossas origens ibéricas, sobretudo portuguesas, e fala pouco de índios e africanos. À diferença de Gilberto Freyre, por exemplo. Aliás, o livro não está preocupado em tratar do povo ou de suas origens, mas de padrões socioculturais mais abstratos.

IHU On-Line - Como podemos retomar o conceito de "homem cordial" nos dias de hoje? Quem é o homem cordial contemporâneo? É o mesmo descrito por Buarque de Holanda?

Ronaldo Vainfas
- O homem cordial de Sérgio Buarque é, em poucas palavras, o homem infenso a protocolos, o homem passional, que age mais pelo coração do que pela razão. Não tem nada a ver com conformismo e passividade do caráter brasileiro, como já se disse. Além disso, este não me parece ser aspecto essencial do Raízes.

IHU On-Line - Buarque defende uma valorização da cultura brasileira. Como isso se aplica hoje, diante de cada vez maior diversidade cultural? E como isso acontece no caso da América Latina? Temos uma cultura latino-americana que é valorizada?

Ronaldo Vainfas
– Sérgio Buarque de Holanda lastima muito a herança cultural ibérica em vários aspectos. É um intelectual forjado no Modernismo dos anos 1920. Mas, francamente, para responder à sua pergunta completa aqui eu teria que escrever um artigo!

 

 

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