Edição 355 | 28 Março 2011

Brasil investirá mais 5% em energia nuclear até 2030

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Patricia Fachin

Para o físico Aquilino Senra Martinez, prevenção e preparação são medidas fundamentais para diminuir os impactos de um acidente nuclear

As duas usinas nucleares em atividade no Brasil, Angra I e II, representam 3% da energia gerada no país e, segundo o professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ, o modelo energético deve ser ampliado para 5 ou 6% até 2030. Para ele, as tecnologias disponíveis no mercado devem diminuir os riscos no futuro e, com isso, a energia nuclear será ampliada. “Certamente teremos disponibilidade de reatores mais seguros, econômicos e que produzam menor quantidade de lixo radioativo”.

Martinez lembra, na entrevista que segue, concedida à IHU On-Line por telefone, que acidentes nucleares como o de Chernobyl fizeram o mundo repensar a segurança das usinas nucleares, substituir os projetos da segunda geração e investir em novas alternativas como reatores de terceira geração. “O resfriamento será independente dos sistemas motorizados, independente de eletricidade, ou seja, os reatores se refrigeram por condições naturais de gravidade e de processos termodinâmicos de resfriamento. Então, as novas usinas têm a capacidade de remover o próprio calor. Essa é uma vantagem comparativa muito grande”, resume, ao comparar reatores da segunda e terceira geração.

Favorável à energia nuclear, Martinez argumenta que fontes alternativas como eólica e solar não são suficientes para atender o crescimento da economia brasileira nos próximos anos. “Não se pode pôr em risco o desenvolvimento que está associado ao bem estar da sociedade por falta de eletricidade”.
Aquilino Martinez possui graduação em Física pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ, mestrado em Engenharia Nuclear e doutorado em Engenharia Nuclear pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ.

Confira a entrevista.


IHU On-Line - Como avalia os planos de emergência internos e externos das usinas de Angra I e II? Em que consistem e que aspectos devem ser revisados?

Aquilino Senra Martinez –
A minha avaliação é teórica porque não tenho acompanhado o treinamento dos planos de evacuação de Angra I e II. No Brasil, é adotado um limite de evacuação que segue um padrão internacional: até 5km. No caso de um acidente, a população deve ser removida 5km em torno do local da usina. De 5 a 15km, deve-se abrigar as pessoas dentro de casa para não ficarem expostas à radiação.
No Japão, foi feita uma remoção de 3km, depois 5 e em seguida de 10km em torno da usina. Por último, removeram as pessoas em um raio de 20km da usina. Essa medida foi mais rigorosa do que o padrão internacional vigente.
O plano de evacuação brasileiro prevê um treinamento anual com até 5% da população que mora em torno da usina, cerca de 40 mil ou 50 mil pessoas. Durante o ano, são feitas palestras e divulgações nas escolas para informar a população dos riscos e medidas tomadas após um acidente. Como disse, essa é a teoria. Se na prática essas medidas irão funcionar adequadamente em caso de acidente, não posso afirmar nem negar. De qualquer forma, o Estado brasileiro tem de estar preparado para uma emergência em Angra porque mesmo que a probabilidade de ocorrência de emergência seja baixa, ela não é zero. Então, pode acontecer e, nesta circunstância, é importante remover a população para não expor-la a radiação.


IHU On-Line - O senhor declarou recentemente que falta destinação correta para os resíduos de baixa e média radioatividade e que eles são mantidos nas usinas, desobedecendo a Lei 10.308/2001. O senhor pode explicar quais as exigências legais no que se refere ao armazenamento de lixo radioativo?

Aquilino Senra Martinez –
Compete à Comissão Nacional de Energia Nuclear projetar, construir e administrar este depósito de resíduos de baixa e média atividade. Existe uma lei; ora, cumpra-se. O que se diz que é que não são postos recursos para fazer isso no orçamento. Se a lei existe, tem de se disponibilizar os recursos porque não tem outra forma de cumprir a lei. Então, o problema é que não existe uma destinação para os resíduos como já está previsto em lei.


IHU On-Line - Alguns especialistas dizem que o Brasil deve aguardar o desenvolvimento de novas tecnologias de construção e funcionamento de usinas nucleares antes de dar continuidade ao Programa Nuclear Brasileiro. Como o senhor vê essa sugestão? É o caso de o país aguardar ou desistir desse modelo energético? Será que novas tecnologias poderão garantir a segurança das usinas?

Aquilino Senra Martinez –
O Brasil tem duas usinas nucleares, Angra I e Angra II, que representam 3% da produção de eletricidade no país. Se desligarem essas usinas, impacta em uma redução de 3%. Ocorre que o Brasil tem uma margem de segurança na geração de eletricidade que deve ser em torno de 5%, então, ela cairia para 2%. Isso é um risco. É muito fácil falar em desligar as usinas, mas quando faltar energia elétrica, a sociedade vai cobrar do Estado a falta de investimentos em eletricidade.
A usina de Angra III está sendo construída e deve ser acabada porque já passou do tempo de ser concluída. A previsão é de que fique pronta em 2016. Novas usinas só serão construídas após 2020. A maioria das 440 usinas nucleares do mundo foi construída com projetos da segunda geração. A partir do acidente de Chernobyl, o setor nuclear e todo o mundo repensaram seus projetos e já está pronto o que chamamos de reatores de terceira geração, que têm mais vantagens que os reatores de segunda geração. Uma delas é o resfriamento independente dos sistemas motorizados, independente de eletricidade. Ou seja, se refrigeram por condições naturais de gravidade e de processos termodinâmicos de resfriamento. Então, as novas usinas têm a capacidade de remover o próprio calor. Essa é uma vantagem comparativa muito grande. Se os reatores de Fukushima tivessem essa característica, certamente não teria ocorrido o acidente. Já estão, hoje, disponíveis no mercado projetos de reatores muito mais avançados do que os 440 em operação no mundo. A China, a França, os EUA e outros países já estão construindo ou licenciando reatores da terceira geração para entrarem em operação.


IHU On-Line – Então, a ideia é utilizar a tecnologia para ampliar esse modelo energético nuclear?

Aquilino Senra Martinez –
Sim. Até 2020, certamente teremos disponibilidade de reatores mais seguros, econômicos e que produzam menor quantidade de lixo radioativo.


IHU On-Line - E por que não pensar em alternativas energéticas até 2020? A partir da tecnologia disponível, poderia surgir outro modelo energético eficiente e menos arriscado?

Aquilino Senra Martinez –
Os sistemas atuais são conhecidos: as hidrelétricas, que fornecem quase 80% da geração elétrica, depois as usinas a carvão, gás natural, nuclear, energia eólica e solar. Essa é a base da matriz energética. Todas devem ser consideradas no planejamento energético feito pela Empresa de Pesquisa Energética - EPE do governo federal. A empresa prevê que quantidade de energia será necessária num horizonte de 20 anos – já tem um projeto até 2030 – e, a partir disso, verifica os modelos energéticos disponíveis no mercado para gerar essa eletricidade. É feito um plano plurianual baseado nestas duas informações e a EPE, em 2007, pontuou a possibilidade de fazer essas nucleares a partir de 2020.
Virão em 2050, outras fontes de geração de energia. Uma delas é a fusão nuclear, que é diferente da fissão nuclear, que gera o calor dentro dos reatores nucleares. Esse modelo ainda não está consolidado, pois não se provou a praticidade de realização.

Sou favorável à energia solar e eólica, mas elas sozinhas não são suficientes para atender um possível crescimento da economia brasileira nos próximos anos. A economia está crescendo em taxas compatíveis com países centrais e deverá continuar crescendo. Para haver esse crescimento, é necessária energia elétrica. Então, não se pode pôr em risco o desenvolvimento que está associado ao bem-estar da sociedade por falta de eletricidade.


IHU On-Line - Então a necessidade de o país ainda investir em energia nuclear se deve estritamente ao crescimento econômico?

Aquilino Senra Martinez –
Sim, mas também porque hoje um dos problemas que o Planeta enfrenta é o aquecimento global recorrente da emissão de gases de efeito estufa nas atividades industriais, de geração de energia, de transporte e na agricultura. Ou seja, na atividade humana. De todas as fontes, aquela que, depois da hidrelétrica, emite menos CO2 e gases de efeito estufa em todo o ciclo de vida é a nuclear. A fonte que menos emite é a hidrelétrica, depois a nuclear, a eólica, a solar, gás natural e o carvão. Por esta característica, a energia nuclear foi ressuscitada mundialmente para geração de energia elétrica.
Não tenho dúvidas de que a 10 ou 20 anos, estaremos discutindo, no contexto da matriz energética brasileira, a energia nuclear de forma diferente da que está sendo discutida hoje.


IHU On-Line – Em que sentido? Em relação à segurança?

Aquilino Senra Martinez –
Refiro-me a uma tendência maior de uso da energia nuclear. É evidente que, com os novos projetos, a questão da segurança fica, se não totalmente resolvida, muito bem encaminhada. A previsão do governo é utilizar de 5 a 6% de energia nuclear até 2030, nada além disso.


IHU On-Line – O que esses 3% de energia gerada pela usina nuclear representa, quantitativamente? Esse percentual abastece que regiões do país?

Aquilino Senra Martinez –
Esse percentual é suficiente para abastecer metade da cidade do Rio de Janeiro ao longo do ano. Isso equivale a dois mil kw, aproximadamente. Angra I e II representam cerca de 50% da energia elétrica do Rio de Janeiro.


IHU On-Line – Esse percentual é significativo considerando o tamanho do Brasil?

Aquilino Senra Martinez –
É razoável. O Rio de Janeiro é, se não me engano, o terceiro estado da federação com mais população.


IHU On-Line – Quais são os critérios para ampliação de usinas nucleares nas regiões Norte e Sul do país? Tem a ver com consumo dos estados?

Aquilino Senra Martinez –
A escolha dos locais para a instalação da usina nuclear obedece outros critérios que não o de consumo. Os critérios são estabilidade geológica, vasta densidade profissional, fácil acesso, ter água abundante para poder fazer a refrigeração. A escolha pelo Nordeste, especialmente, se deve porque lá o fornecimento de energia elétrica deve ser ampliado em função do crescimento da demanda.
Independente de a fonte estar no Sul ou no Nordeste, a energia é jogada em uma rede de transmissão e beneficia todo o país. Angra I e Angra II são capazes de atender metade do consumo de uma cidade do tamanho do Rio de Janeiro, mas isso não quer dizer que elas só abasteçam a cidade. Ela pode ser distribuída para qualquer parte do país por meio da rede de transmissão.


IHU On-Line - Como o senhor vê a discussão acerca da sustentabilidade de usinas nucleares? Vale a pena investir nesse modelo energético, considerando os danos possíveis?

Aquilino Senra Martinez –
O caso japonês se caracteriza por uma catástrofe de eventos naturais como o terremoto e o tsunami. As usinas nucleares do Japão, até o momento, causaram a contaminação de 19 pessoas que eram profissionais que trabalhavam na instalação nuclear. Agora, está aumentando o nível de radiotividade em alimentos e água. Se o governo controlar adequadamente, a população não será atingida. No pior acidente nuclear da história, o de Chernobyl, morreram 50 pessoas imediatamente após o acidente, muitas em função do incêndio e não da irradiação. Depois do acontecimento, foi realizado um estudo da Organização Mundial da Saúde, patrocinado pela ONU, o qual acompanhou os vinte anos após o acidente e estimou que a possibilidade de um aumento de quatro mil casos de câncer na população ucraniana. O desastre do Japão está longe de ser o pior acidente.


Opção pelo risco
Essa questão do risco existe e tem de ser um risco consentido como acontece com o automóvel. Eu assumo o risco quando ando de automóvel. O trânsito mata por ano, só no Brasil, 25 mil pessoas. Para me beneficiar e ir de um lugar a outro com mais conforto, mais rapidez, utilizo o automóvel.
A decisão pelo uso de energia nuclear é política e não exclusivamente técnica. Ela não envolve só os aspectos dos riscos de acidente; tem outras variáveis que merecem ser consideradas, como domínio tecnológico, estratégico, garantia de energia elétrica. Ou seja, faça chuva ou faça sol, é possível gerar a energia continuamente. Há um conjunto de variáveis muito amplo para decidir se devemos ou não continuar com essa opção. Mas a decisão é mais política do que técnica.


IHU On-Line - Que providências de segurança o Brasil deverá adotar nas usinas nucleares, depois do ocorrido no Japão? Alguns ativistas dizem que não se têm hoje pílulas de iodo à disposição da população que reside nas proximidades da central nuclear.

Aquilino Senra Martinez –
As pílulas deveriam estar disponíveis, sim, porque elas fazem parte do plano de emergência. Se há uma denúncia dessas, ela é grave e a responsabilidade é da Comissão Nacional de Energia Nuclear, que tem de responder sobre a falta de pílulas de iodo para inibir a absorção de iodo radioativo pelo organismo humano.
Quanto às lições que serão apreendidas com o acidente do Japão, o Brasil tem de seguir o mesmo procedimento adotado no acidente de Chernobyl. Verificada a sequência de eventos que levou a esse acidente, tem de se pensar que mudanças de projetos e procedimentos devem ser adotadas para que não se reproduzam nas usinas do mundo a mesma sequência de eventos que lá ocorreu. Temos de aprender com as lições alheias.
Passado o acidente, serão analisadas as causas e consequências e tiradas diversas lições, que devem ser bem implementadas nos 440 reatores que estão operando no mundo atualmente. Uma das lições pode ser o plano de evacuação da população no caso de acidentes em usinas nucleares. Assim sendo, caberia ao órgão regulador, ou seja, a Comissão Nacional de Energia Nuclear, bem como as agências envolvidas como Secretaria de Defesa Civil, Corpo de Bombeiros, Forças Armadas discutir amplamente essa possível modificação do padrão internacional. Em se confirmando a modificação do padrão internacional, ele deveria ser incorporado no plano de evacuação.


IHU On-Line - Deseja acrescentar algo?

Aquilino Senra Martinez –
Disse, na semana passada, no Senado Federal, que acidentes em usinas nucleares sempre vão ocorrer. Então, quem usa energia nuclear tem de estar preparado e por isso é importante ter um plano de emergência para a evacuação da população e, além disso, estar acompanhando o que está sendo feito em outros países para incorporar os aprimoramentos nas usinas brasileiras. Com esse balanço: prevenção mais preparação para qualquer acidente, atingem-se situações em que, mesmo tendo acidente, os impactos para o meio ambiente e a população local seriam nivelados.

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