Edição 355 | 28 Março 2011

A onipotência da ciência e da técnica: um sonho irrealizável

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Márcia Junges | Tradução Benno Dischinger

Falso “sol do prometeísmo” deve ceder espaço à razoabilidade e a um freio nas “pretensões ilimitadas do homo tecnologicus”, aponta o filósofo italiano Mario Signore. Pouco sabemos sobre as forças ocultas da natureza e, enquanto humanos, continuaremos a ter medo

De acordo com o filósofo italiano Mario Signore, “o medo ou temor e a incerteza continuam conotando o homem precisamente porque não pode pensar em ser ‘pós’ a si mesmo”. Em seu ponto de vista, “continuaremos a ter medo, a sermos inseguros e isto nos torna irremediavelmente humanos. O resto é exercício literário ou experimentação sem resultado”. Signore aponta o terremoto e tsunami ocorridos no Japão em 11-03-2011 como uma “grande lição sobre os limites da ação humana. É uma das tantas ocasiões nas quais o protagonismo do homem é golpeado em suas pretensões de domínio sobre a terra. A lição é clara: a onipotência da ciência e da técnica é somente um sonho não realizável. O que sabemos da natureza e de suas forças ocultas é somente uma pequena parte, e isso torna arriscada, se não impossível, qualquer pretensão de ‘previsão’ total do perigo. Vivemos, enquanto homens, numa época, num tempo de precariedade: a verdadeira grandeza do ser humano está no saber navegar no mar em tempestade”. As declarações fazem parte da entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line.

Professor de Filosofia Moral na Faculdade de Ciência da Formação na Universidade de Lecce, na Itália, Mario Signore é professor associado de Filosofia Teorética na mesma universidade. Diretor do Instituto de Filosofia de 1978 a 1980, é fundador do Departamento de Filosofia, do qual foi diretor de 1990 a 1996, dedicando uma atenção particular para as disciplinas socioeconômicas, pedagógicas, e filosófico-políticas. Faz parte do Comitê Científico da revista Fenomenologia e Società desde sua fundação. É membro da Fundação Centro de Estudos Filosóficos de Gallarate, com sede social em Padova. É vice-presidente da Sociedade Italiana de Estudos Kantianos, com sede em Roma. É diretor da Idée, revista do Departamento de Filosofia e Ciência Social. Entre seus trabalhos publicados, citamos Questioni di etica e filosofia pratica (Milella: Lecce 1995).

Confira a entrevista.


IHU On-Line - A ilusão de que se domina completamente a técnica dá prerrogativas ao ser humano para que acredite que pode controlar a natureza? Nesse aspecto, a energia nuclear seria uma criação fora de controle
do seu criador?

Mario Signore -
A exigência do homem de “controlar” a natureza é uma necessidade constitutiva que conota sua relação com a realidade, para a qual, desde sempre e enquanto homem, sentiu-se empenhado numa doação de sentido da qual é o único portador. Cada relação com a natureza é um ato de doação de significado que não deixa inalterada a própria natureza e que também se torna dinâmica graças a esta relação. Nesta relação dinâmica o controle das forças da natureza constitui um imperativo vital para o homem. Também a energia nuclear que o homem consegue aprisionar e usar para suas finalidades, pacíficas ou de destruição, não se subtrai ao destino do controle inteligente, embora o homem mantenha os sentidos do limite e a consciência do risco que deve convocá-lo sempre ao princípio de precaução .


IHU On-Line - Nesse sentido, podemos falar duma ontologização da técnica?

Mario Signore -
A técnica não pode ser definida como um dado ontológico porque se trata da atitude humana manipulando as “coisas”, mantendo-as em sua plena disponibilidade. É o ente que se entrega à plena disponibilidade do homem (e, portanto, à sua manipulabilidade) e a técnica é apenas seu instrumento. Ontologizar a técnica significaria fazer dela um “destino”, subtraído ao poder de decisão do homem e, desta vez sim, incontrolável.


IHU On-Line - Qual é o espaço para o respeito da alteridade e da ética numa sociedade na qual a técnica ganha cada vez mais espaço e preponderância?

Mario Signore -
A medida e o espaço da responsabilidade são comensurados ao grau de abertura ao outro que nossa cultura seja capaz de exercitar. Se formos conscientes que cada gesto humano é um movimento relacional, incluindo o gesto técnico, torna-se mais convincente o fato de que, quanto mais nossa ação puser em riso a relação, tanto menos será dado espaço à ética, isto é, às regras morais.


IHU On-Line - O sociólogo alemão Ulrich Beck fala que vivemos em uma sociedade do risco cimentada pelas incertezas fabricadas, em grande medida, pelas rápidas mudanças tecnológicas. Qual é o papel das usinas nucleares dentro desse contexto?

Mario Signore -
Mais que a aceleração e a rapidez dos progressos tecnológicos, o que torna ainda mais arriscado ou pleno de riscos o desenvolvimento é a capacidade de cumulação dos efeitos. Daqui decorrem o sentido do risco e o estado de insegurança que deve sugerir decisões orientadas à “dúvida” e, portanto, à “precaução”.


IHU On-Line - Na era do homem pós-humano, como pode-se compreender o medo e a incerteza, característicos da sociedade do risco em que vivemos?

Mario Signore -
Também a assim chamada era do pós-humano, que é uma era ainda não descortinada em nosso horizonte, será gerida pelo homem que não cessará de ser chamado à responsabilidade “enquanto homem”. O medo ou temor e a incerteza continuam conotando o homem precisamente porque não pode pensar em ser “pós” a si mesmo. Paradoxalmente, o pós-humano não teria mais nenhum sentimento de medo e de insegurança. Nós continuaremos a ter medo, a sermos inseguros e isto nos torna irremediavelmente humanos. O resto é exercício literário ou experimentação sem resultado.


IHU On-Line - Em que medida o episódio japonês do terremoto e tsunami significa não o fim do mundo, mas o fim de um mundo de certezas e axiomas obstinadamente cultivados?

Mario Signore -
A catástrofe japonesa não é o fim do mundo. O Japão é uma grande lição sobre os limites da ação humana. É uma das tantas ocasiões nas quais o protagonismo do homem é golpeado em suas pretensões de domínio sobre a terra. A lição é clara: a onipotência da ciência e da técnica é somente um sonho não realizável. O que sabemos da natureza e de suas forças ocultas é somente uma pequena parte, e isso torna arriscada, se não impossível, qualquer pretensão de “previsão” total do perigo. Vivemos, enquanto homens, numa época, num tempo de precariedade: a verdadeira grandeza do ser humano está no saber navegar no mar em tempestade, usando a astúcia de Ulisses  e conscientes de que a razão contém também a disposição à “prudência” e o sentimento do “limite”.


IHU On-Line - Ao lado do risco e do medo, convive uma certa atitude de soberba por parte do ser humano, ou do pós-humano autopoiético. Esse poder criador e transformador internalizado e praticado pelas pessoas está cegando-as para os riscos que correm? Por quê?

Mario Signore -
Também o mito de Prometeu  recorda-nos quão ancestral seja a pretensão do homem de possuir o saber “total”. O pecado de Adão tem a ver com a arrogância diabólica de tornar-se sicut Dei [como deuses]. Comer o fruto da árvore do conhecimento, aparentemente doce e suculento, mas depois, a longo prazo, amargo pelas responsabilidades que traz consigo, tem o significado da ruptura de uma relação (a amizade com Deus) e da assunção pessoal da vida e da sobrevivência sobe a terra e sobre tudo o que ela contém. Vivemos ainda os efeitos daquela dramática contraposição que nos viu precipitar-nos para o “nada” (Nietzsche). Mas, não fomos deixados a sós. Temos os instrumentos para subir à montanha, abandonando toda pretensão autopoiética (a poiesis é relação!). Se alguns de nós continuam a ser obcecados pelo falso sol do prometeísmo, muitos, ao contrário, apelam à razoabilidade e impõem um freio a pretensões ilimitadas do homo tecnologicus. As democracias, capazes de recolher e confrontar as vozes de todos, são hoje o verdadeiro instrumento para valorar, sem laivos individualistas, as escolhas que dizem respeito ao nosso presente, mas ainda mais ao nosso futuro, assumindo as decisões mais sustentáveis.


Leia mais...

>> Mario Signore já concedeu outra entrevista à IHU On-Line. O material está disponível no sítio do IHU (www.ihu.unisinos.br).

O sonho da hidridação homem-máquina. Entrevista publicada na IHU On-Line número 200, de 16-10-2006

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