Edição 355 | 28 Março 2011

“Não existe o risco zero”

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Márcia Junges | Tradução Luciana Cavalheiro

Para a geógrafa francesa Yvette Veyret, vivemos numa sociedade de riscos, que não são fatalidades de cunho divino, mas podem ser, na maioria dos casos, previstos e evitados. Conscientização da sociedade para essa realidade é fundamental, analisa

A vulnerabilidade social é um componente maior do risco. “Cabe a nós tornarmos a sociedade menos vulnerável, mais consciente dos perigos, mais pronta para se proteger”, pondera a geógrafa francesa Yvette Veyret na entrevista exclusiva que concedeu por e-mail à IHU On-Line. “Devemos ser atores responsáveis na gestão dos riscos”. A pesquisadora pondera que os acontecimentos do Japão em 11-03-2011 fazem parte da dinâmica normal da terra, mas possuem maior impacto quando atingem locais de intenso povoamento, como foi nesse caso. Some-se a isso a cobertura em tempo instantâneo do que acontece. Analisando a questão da sociedade do risco e incerteza, a geógrafa pontua que a incerteza permeia tudo, e que não existe risco zero. Geralmente, alfineta, um mundo de certezas acabadas e sem riscos é fruto da “mídia simplificadora”. Contudo, acrescenta Veyret, “a esperança está bem presente, pois se tem uma possibilidade de se prevenir contra os riscos que não são fatalidades enviadas por Deus ou pelo Diabo. O risco é previsível, ao menos em parte”.

Yvette Veyret é geógrafa, especialista em meio ambiente, considerada uma das maiores autoridades mundiais sobre o tema dos riscos. Leciona na Universidade de Paris X – Nanterre, na França. É presidente do Comitê Nacional Francês de Geografia. De sua produção bibliográfica, destacamos Os Riscos - o Homem Como Agressor e Vítima do Meio Ambiente (São Paulo: Contexto, 2007), por ela organizada. Escreveu Géographie des risques naturels en France (Paris: Hatier, 2004) e Géo environnement (Paris: Sédès, 1999).

Confira a entrevista.


IHU On-Line - Por que os riscos são uma construção social?

Ivette Veyret -
Os riscos têm origens variadas: naturais (terremotos, inundações, vulcanismos...), tecnológicos (riscos afetando as usinas químicas, por exemplo...), econômicas (as grandes crises econômicas...). Mas, nesta noção de risco é preciso distinguir o perigo, que é o processo desencadeador (terremoto, tsunami...) e o risco propriamente dito, que é o perigo percebido, vivido pela sociedades. Sem os homens não há risco. O perigo vem, então, do processo natural em nosso caso; faz parte da dinâmica terrestre. Jean Jacques Rousseau , o filósofo, mostrava bem em 1755, que um terremoto em um deserto não teria efeitos graves uma vez que ninguém o sofreria. Em algumas sociedades, o risco não é percebido como tal, aceita-se em nome de Deus o processo que os atinge. Era o caso na França até o século XIX, onde se fazia procissão quando o Sena transbordava, rezando-se à Santa Genoveva para que ela fizesse-o retornar ao seu leito... mas não se comprendia ainda que era possível agir, proteger-se... Submetia-se. É ainda o caso em alguns países ou grupos sociais.

Há então uma forte dimensão social no risco, que é agravado pela vulnerabilidade das populações e das transformações. Assim, as cidades estão mais vulneráveis que o campo aos perigos, em razão da própria densidade da população. É preciso acrescentar que são seguidamente os mais pobres que são os mais vulneráveis, pois eles são instalados em setores perigosos (inundáveis, próximo de usinas perigosas), onde o preço do terreno é mais baixo, ou porque estas pessoas são instaladas nestes locais sem autorização. Estas populações pobres estão mal-informadas dos perigos, pois elas são pouco ou mal escolarizadas. Elas não têm meios de partir se uma crise chega. É esta a vulnerabilidade e ela é social. É um componente maior do risco.


IHU On-Line - Quais eram os grandes riscos do passado e quais são os atuais?

Ivette Veyret -
Na Europa os grandes riscos e as grandes crises do passado eram as epidemias (principalmente a peste que levou no século XV uma parte considerável da população europeia). Era também os efeitos dos períodos frios ou quentes demais, muito úmidos ou muito secos que tinham consequências na produção agrícola e produziam a fome. Certamente, em 1755 Lisboa foi destruída por um terremoto e um tsunami, mas isso foi muito localizado. E não existia a mídia! Em um mundo sobretudo rural, com populações menos densas que hoje em dia, um acontecimento natural tinha somente os efeitos locais e mesmo reduzidos, mesmo se há textos antigos que mostram as inundações de Paris, por exemplo.


IHU On-Line - Nesse sentido, qual é o nexo que une globalização, risco e medo?

Ivette Veyret -
Hoje um acontecimento de forte intensidade que faz parte necessariamente da dinâmica normal da terra (não é anormal ter tremores de terra, episódios vulcânicos, períodos frios ou muito quentes) ganha outros contornos. Na verdade, tudo isso faz parte da dinâmica terrestre normal. Reitero que o que é novo é a globalização do acontecimento pela mídia, pela internet. Então, vê-se isto ao vivo, mesmo se isso acontece no Japão, o que pode efetivamente conduzir as populações a interrogarem-se sobre os riscos que elas correm no Brasil, na França ou em outros lugares. Mas é preciso ser racional e saber que no Brasil e na França os riscos sísmicos são reduzidos. O perigo de tsunami pode ainda existir, mas provavelmente não da mesma maneira que no Japão.
Os riscos em alguns países são mais precisamente políticos, ou ligados a uma má gestão e à pobreza que implicam nas epidemias, nas doenças ligadas às águas sujas. A natureza não é responsável por tudo. E porque os homens estão instalados perto demais do litoral, em habitats pouco sólidos é que os efeitos destes processos naturais são devastadores. A sociedade, por suas práticas, por sua vulnerabilidade, por sua falta de conhecimento dos acontecimentos naturais ou tecnológicos alimenta o perigo de certos processos e explica até mesmo o número de vítimas.


IHU On-Line - Por que o Japão é considerado, por excelência, o país dos riscos?

Ivette Veyret -
O Japão, em nossa análise francesa, é o país dos riscos por excelência, aquele que concentra todos os perigos naturais violentos: terremotos, tsunamis, vulcões, deslisamentos, inundações, ciclones no sul. É o país também percebido no Ocidente como bem preparado para uma gestão de riscos, embora os acontecimentos recentes nos mostram que esta preparação continua sendo insuficiente. O próprio terremoto de Kobé, em 1995, tinha mostrado a mesma coisa, quando houve 6 mil mortes. Mas, em um outro país pobre, a mesma intensidade do terremoto teria feito milhares de mortos, como no Haiti no ano passado, pois imóveis teriam desmoronado. No Japão há uma boa construção antissísmica. O que não pôde ser suficientemente antecipado foi o tsunami. Ainda há o que fazer neste contexto e, primeiramente, pensar nos lugares de construção das mudanças. É preciso construir na praia? Ou construir mais no interior? É preciso construir em madeira sistematicamente também? Ou de forma mais resistente?

O Japão é o país dos riscos por excelência, aquele em que o conhecimento dos processos perigosos é o melhor, aquele em que as populações estão preparadas para as catástrofes em cadeia. Porém, há catástrofes em cadeia das quais a amplitute não tinha sido suficientemente antecipada pelo país. Ou seja, as centrais já antigas estavam mal situadas em relação ao tsunami. Será que não se tinha na memória um tsunami tão violento?


IHU On-Line - A partir do desastre nuclear no Japão, os outros países devem rever seus programas nucleares e mitigar o risco desse tipo de acidente?

Ivette Veyret -
Certamente é preciso rever a confiabilidade de nossas instalações, isso é certo. Agora, se é preciso parar os programas, isto ultrapassa a análise de um pesquisador e remete a uma escolha nacional e política. A questão dos dejetos nucleares é fundamental, a periculosidade das centrais é uma realidade, e ela é diferente da periculosidade igualmente considerável das usinas químicas, por exemplo.


IHU On-Line - Em que medida o episódio japonês significa não o fim do mundo, mas o fim de um mundo de certezas e axiomas obstinadamente cultivados?

Ivette Veyret -
Vejo aqui um falso debate. Há muito tempo que os cientistas sabem que a dúvida é a primeira qualidade do cientista, que nada é totalmente certo em matéria científica. É geralmente a mídia muito simplificadora que faz pensar que vivemos em um mundo de certezas, no qual o risco zero deve ser a realidade. O simples fato de viver faz saber que se vai morrer, que não há risco zero. A incerteza está em tudo, quanto à data de nossa morte inclusive. A ciência do século XIX pode fazer acreditar para alguns que se poderia vencer algumas crises, ou até mesmo alguns riscos. Há muito tempo que se sabe que isso não é verdade. Viver significa arriscar-se.


IHU On-Line - Em que medida esse episódio japonês sedimenta traumas nesse país já marcado anteriormente pela energia nuclear?

Ivette Veyret -
Os acontecimentos japoneses só podem questionar a população que conheceu as bombas nucleares. Estes acontecimentos conduzirão os políticos a reverem seu programa e sua confiabilidade. É claro que as centrais não haviam sido concebidas para ondas de tsunami que, em alguns locais, atingiram até 20m de altura. Pode-se lamentá-lo quando se sabe o quanto os japonêses conhecem a amplitude dos riscos que o ameaçam. Construíram muros antitsunami. Talvez não fossem suficientemente altos...


IHU On-Line - Ao lado do risco e do medo, convive uma certa atitude de soberba por parte do ser humano, que alguns autores já chamam de pós-humano e autopoiético... Qual é o seu ponto de vista?

Ivette Veyret -
Esta análise não entra na minha abordagem do risco que não tem, talvez, uma visão filosófica. Penso que a sociedade, nossas sociedades, devem continuar evoluindo em direção a uma maior equidade, em direção a um maior bem-estar para todos. Mas, também, em direção a um uso mais controlado da natureza e de seus recursos, sabendo-se que haverá sempre perigos e catástrofes. Cabe a nós tornarmos a sociedade menos vulnerável, mais consciente dos perigos, mais pronta para se proteger.


IHU On-Line - A ilusão de que se domina completamente a técnica dá prerrogativas ao ser humano para que acredite que pode controlar e dominar a natureza?

Ivette Veyret -
A técnica permitiu e permitirá ainda muitas evoluções benéficas para os homens, sua saúde, seu contexto de vida. Para mim o progresso, a ciência e a técnica são fundamentais. É claro, eles podem ser responsáveis pelas disfunções, mas uma sociedade democrática deve permitir uma supervisão permanente, formas de “contrapoderes” para definir bem os riscos e afrontá-los. O ser humano não tem nenhuma razão de imaginar que ele domina tudo. A natureza continua com forças que são mobilizadas sem medida comum com o que o homem pode mobilizar. Esquece-se às vezes disso. É preciso lembrar, todavia, que a natureza (o mar, os vulcões, os ciclones) se caracteriza por forças que nos ultrapassam muito. É preciso, então, reduzir a vulnerabilidade das sociedades e das instalações. Isto significa planejar-se a fim de se instalar mais longe do mar, ser mais vigilantes quanto às escolhas técnicas, tecnológicas, e o que comemos. Mas a ciência e o progresso continuam sendo aspectos fundamentais para a humanidade do futuro.


IHU On-Line - Nesse aspecto, a energia nuclear seria um Frankenstein fora de controle do seu criador?

Ivette Veyret -
Naturalmente a energia nuclear é complexa e apresenta riscos evidentes. Se ela é utilizada, é preciso saber o tamanho dos riscos e conhecer as interações entre os perigos naturais (terremotos, tsunami, vulcão... ciclones) e as centrais nucleares. É preciso projetar o tipo de centrais. Nem todas funcionam da mesma maneira e têm uma sensibilidade diferente em relação aos grandes acontecimentos naturais. Coloca-se também a questão do tratamento dos dejetos nucleares. Evidentemente o nuclear assusta. É preciso suprimi-lo? É fácil quando se pensa nas dificuldades de desmantelar as centrais? É uma escolha política difícil em um país como a França, no qual a questão da energia é central e onde o nuclear produz uma parte importante da energia utilizada.


IHU On-Line - Qual é o lugar da esperança e da oportunidade numa sociedade do risco e do medo?

Ivette Veyret -
Para mim, a esperança está bem presente, pois se tem uma possibilidade de se prevenir contra os riscos que não são fatalidades enviadas por Deus ou pelo Diabo. O risco é previsível, ao menos em parte. É preciso prever de não se instalar em zona inundável. Estes espaços são bem conhecidos na França, em setores submetidos a possíveis tsunamis. É preciso estar-se bem informado sobre o risco corrido para se tomar suas próprias disposições. Devemos ser atores responsáveis na gestão dos riscos, reduzindo o perigo, algo que é de responsabilidade política. O perigo deve ser mostrado às populações, implementando-se políticas de reestruturação do território adaptado, e que devem contribuir para preparar os planos de antecipação em caso de crise maior.

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