Edição 355 | 28 Março 2011

A polêmica sobre o futuro das usinas brasileiras

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Anelise Zanoni e Patrícia Fachin

Francisco Rondinelli, diretor da Associação Brasileira de Energia Nuclear – ABEN, defende a manutenção de usinas nucleares no Brasil e afirma que os riscos de acidentes são muito pequenos

Favorável ao fortalecimento do Programa de Aceitação Pública – Apub, que tem como missão melhorar a percepção da sociedade sobre os benefícios da energia nuclear, o engenheiro mecânico Francisco Rondinelli faz um apoio às usinas em meio à crise vivida no Japão. E entrevista por e-mail à IHU On-Line, ele explica que os riscos de uma usina “só aparecem em uma situação de emergência que, dependendo do tipo de reator e da gravidade do acidente, podem levar à liberação de material radioativo para a atmosfera”. Para ele, os locais que hoje guardam materiais radioativos têm “níveis próximos a zero para a ocorrência de danos em uma instalação nuclear desse tipo” e reafirma a ideia de que a chance de acontecer algum acidente “não significa que isso sempre vá ocorrer”.

Diretor da Associação Brasileira de Energia Nuclear – ABEN, Francisco Rondinelli atua como professor auxiliar da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro – PUC-Rio e é perito em planejamento e avaliação da Agência Internacional de Energia Atômica – AIEA. Confira a entrevista.

IHU On-Line - Qual a periculosidade da energia nuclear?

Francisco Rondinelli - Para falar em periculosidade da energia nuclear temos que considerar diferentes aspectos. Sob a ótica das usinas nucleares, essa questão é tratada no âmbito da garantia de qualidade, que adota critérios rígidos de projeto, construção, licenciamento, operação e controle das usinas, além de um processo contínuo de aprendizado e incorporação de melhorias a todas essas fases. Dessa forma, procura-se alcançar níveis próximos a zero para a ocorrência de danos em uma instalação nuclear desse tipo. Quanto à ótica das aplicações nucleares, a questão está mais relacionada ao controle das doses submetidas aos usuários em geral, como é o caso dos radiodiagnósticos e das técnicas de radioterapia, que implicam em submeter o individuo à radiação, mas em doses controladas que não tragam danos a seu organismo. Assim sendo, a periculosidade da energia nuclear está relacionada à quantidade de radiação recebida, a chamada dose. Nos casos em que essa quantidade exceda os limites de segurança, isso pode trazer danos aos órgãos internos e ao sistema de regeneração de tecidos do corpo humano, com o comprometimento de funções vitais ou a ocorrência de neoplasias decorrentes da irradiação. Esse, todavia, é um efeito probabilístico e não determinístico, quer dizer, tem uma probabilidade de acontecer mas não significa que isso sempre vá ocorrer.

IHU On-Line - Como o senhor reagiu diante das notícias acerca da usina de Fukushima?

Francisco Rondinelli - Com muita apreensão, afinal, as proporções do cataclisma foram impensáveis e havia uma preocupação inicial muito grande com a integridade dos reatores e a segurança das usinas. Felizmente, as condições de projeto foram especificadas para situações extremas, e a engenharia nuclear aplicada àquelas usinas passou por um teste definitivo quanto à garantia de qualidade e segurança nuclear.

IHU On-Line - O senhor como engenheiro nuclear, de que maneira compreende o medo propagado no mundo depois da explosão da usina de Fukushima?

Francisco Rondinelli - O medo decorrente de uma situação como essa é esperado. Afinal, a percepção e aceitação de que a tecnologia nuclear de hoje é segura ainda vai depender de muito esclarecimento junto à opinião pública. Por exemplo, a própria expressão “explosão da usina” não é correta, uma vez que o que explodiu não foi a usina, mas sim o teto do prédio externo, que é completamente independente da estrutura de contenção da usina, onde está instalado o reator e os sistemas de operação. Mas a falta de esclarecimento provoca esse tipo de interpretação e o uso do termo “explosão da usina” tem mesmo um efeito assustador.

IHU On-Line - O Brasil tem um planejamento elaborado para o setor nuclear? Em que consiste?

Francisco Rondinelli - Considero planejamento, neste caso, um plano de emergência e, sim, o Brasil o tem. Nas localidades situadas no entorno das usinas de Angra dos Reis e nas comunidades adjacentes, em um raio de 30 quilômetros, são realizadas campanhas de comunicação, mobilização e esclarecimento, além de exercícios programados de situação de emergência que têm como objetivo orientar a população em como proceder no caso de um acidente, além de testar a infraestrutura física e operacional, caso seja necessária a evacuação da população dentro desse perímetro de segurança.

IHU On-Line - Qual deve ser a distância entre uma central nuclear e as residências para garantir a segurança no que se refere a questões de saúde?

Francisco Rondinelli - Ao longo de toda a vida da usina não há qualquer risco para a população e o meio ambiente decorrente de seu funcionamento. Nesse caso, as distâncias são mínimas, iguais a qualquer outro empreendimento industrial, em função da proteção física convencional. Apenas no caso de risco de acidente é que se faz necessária a remoção, em caráter preventivo e, dependendo do nível do acidente, a população pode retornar às suas residências tão logo a situação de risco seja controlada.

IHU On-Line - Quais os riscos de um vazamento radioativo? Quais as consequências para o meio ambiente?

Francisco Rondinelli - Esses riscos só aparecem em uma situação de emergência que, dependendo do tipo de reator e da gravidade do acidente, podem levar à liberação de material radioativo para a atmosfera. Mesmo assim, quando isso ocorre, a liberação é feita de forma controlada, a fim de possibilitar que o material radioativo se disperse gradativamente e, com isso, não haja aumento de doses acima dos limites permitidos pelas normas de saúde. É bom frisar que as usinas nucleares de Angra dos Reis possuem uma contenção construída em concreto que retém qualquer liberação de material radioativo do interior da usina para o meio ambiente.

IHU On-Line - Qual a probabilidade e os riscos de uma fusão em usinas nucleares?
Francisco Rondinelli - Com as tecnologias atuais das usinas nucleares essa probabilidade é extremamente baixa, quase incomensurável, da ordem de uma chance para 1 bilhão.
 
IHU On-Line - O que acontece com o combustível queimado nos reatores nucleares? Eles permanecem dez anos em tanques projetados para armazená-los e depois disso, o que é feito?

Francisco Rondinelli - Esses combustíveis permanecem por dez anos dentro do prédio da usina porque, mesmo depois de retirados do núcleo do reator, continuam liberando calor, só que em quantidades menores. Em dez anos essa liberação já reduziu o suficiente para permitir o manuseio e o transporte desses elementos combustíveis para depósitos definitivos, onde são encapsulados, blindados e lacrados em poços subterrâneos, onde podem permanecer por séculos, e até milênios, absolutamente isolados, sem qualquer risco de dano para o meio ambiente.

IHU On-Line - O senhor é favorável ao fortalecimento do Programa de Aceitação Pública – Apub, que tem como missão contribuir para melhorar a percepção pela sociedade dos benefícios da utilização adequada da energia nuclear. Adianta tentar conscientizar as pessoas deste modelo energético?

Francisco Rondinelli - Sem dúvida, isso é importantíssimo. Enquanto não conseguir levar ao público informações de forma esclarecedora, confiável e em tempo hábil, o setor nuclear estará sujeito a uma percepção equivocada por parte da população. Inclusive dos próprios meios de comunicação.

IHU On-Line - Por que, na sua avaliação, as pessoas têm medo da energia nuclear?

Francisco Rondinelli - Por desconhecimento técnico e científico do que é energia nuclear e como é utilizada. É claro que radiação é uma forma de energia que exige atenção e cuidados em sua utilização. Ela está no dia a dia do ser humano, seja por intermédio da radiação natural, com a qual convivemos ao longo de toda a nossa vida, seja em função de situações específicas, como por exemplo, quando fazemos um exame de raios X ou mesmo quando viajamos de avião.

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