Edição 355 | 28 Março 2011

A falsa imunidade das usinas nucleares

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Anelise Zanoni

Membro do Greenpeace, o engenheiro Ricardo Baitelo alerta que o Brasil precisa pensar em um plano de emergência para eliminar o lixo radioativo e para evitar uma possível catástrofe nas usinas nucleares nacionais

Assim como a nuvem de radiação que se espalha pela região de Fukushima, no Japão, as reações em torno dos discursos sobre projetos de usinas nucleares se proliferam no mundo. Após o acidente ambiental causado por terremotos e por um tsunami que varreu o território japonês, o governo brasileiro prometeu rever normas de licenciamento para os locais que produzem esse tipo de energia. Como reação imediata, a organização independente Greenpeace solicitou a suspensão da permissão de operação concedida à terceira fase da planta de Angra III, no Rio de Janeiro. A ideia é evitar um futuro acidente e promover um debate mais amplo sobre o caso.

Coordenador da campanha de energias renováveis do Greenpeace, Ricardo Baitelo conversou por telefone com o IHU On-Line e justificou que “o Brasil e o mundo precisam aproveitar a crise para rever padrões de segurança das usinas, que são relativamente antigas, com cerca de 30 anos”. Além disso, acredita que o momento é o mais apropriado para se discutir questões de segurança em torno das obras, “o que inclui desde acidentes de menor grau até a interrupção de funcionamento da usina”, como diz o especialista.

Ricardo Baitelo é formado em engenharia elétrica pela Escola Politécnica da USP. Na mesma universidade, concluiu o mestrado na área de eficiência energética.

Confira a entrevista.


IHU On-Line – Por que o pedido de suspensão da construção da nova usina de Angra dos Reis foi feito pelo Greenpeace apenas após a tragédia que abalou o Japão?

Ricardo Baitelo –
O posicionamento do Greenpeace sempre foi contrário à energia nuclear e sempre estivemos atentos aos possíveis problemas que poderia causar.
No Brasil, a campanha surge porque temos argumentos ambientais e econômicos que motivam e justificam nossa posição. Acreditamos que o Brasil e o mundo precisam aproveitar a crise para rever padrões de segurança das usinas, que são relativamente antigas, com cerca de 30 anos. É necessário rever se o modelo energético vale a pena, se não seria mais positivo e benéfico investir em energias renováveis, o que reduziria o risco de acidentes e facilitaria o manejo de resíduos radioativos. Sabemos que não é possível estocar por milhares de anos e sem segurança os resíduos nucleares. Além disso, estranhamente ao contrário de outros países, o Brasil está demorando a se posicionar em relação às usinas nucleares. Há, inclusive, colisão de informações que saem nos jornais. Alguns dizem que o programa será reavaliado; outros dizem que não há problemas em construir Angra III.

Não há consenso nem do governo sobre o assunto. Na Câmara dos Deputados, o debate está apenas começando. Acredito que os parlamentares estão colhendo informações para repensar a situação.


IHU On-Line – Quais são regras que precisam ser revisadas para a instalação de outra usina no Brasil?

Ricardo Baitelo –
O Greenpeace tem uma posição extrema, quer a desativação de Angra III devido às dificuldades que existem em estocar materiais radioativos e à falta de um depósito seguro para o lixo nuclear. Não sabemos se os resíduos ficarão dez ou mil anos por lá. A situação é de um problema global. Em termos práticos, o que deveria ser feito imediatamente é um plano de emergência para uma possível catástrofe. Os responsáveis por administrar as usinas de Angra dizem que o plano é muito divulgado, mas sabemos que poucas pessoas sabem como proceder em casos de acidentes. Outro ponto fundamental é a rota de escape. A rodovia Rio-Santos seria a única possibilidade, mas está em situação precária, com buracos na pista e sinalização deficitária. O relevo e a geologia da região de Angra dos Reis também não ajudam na evacuação, e as rotas de fuga deveriam ser duplicadas, com possibilidade de escape imediato. Outra providência a ser pensada é o raio de evacução, que é de apenas cinco quilômetros, uma determinação da Comissão Nacional de Energia Nuclear e da empresa Eletronuclear. Entendemos que este raio limitado foi determinado devido à densidade populacional de Angra, mas não foi pensado, por exemplo, que, na alta temporada, o número de habitantes praticamente triplica. O raio de evacuação deveria ser de 20 quilômetros em caso de acidades. Logo, o local não é adequado para uma usina nuclear, porque é um ambiente de veraneio. O plano de segurança da usina brasileira também deveria ser revisto. Seriam necessários testes de segurança que provassem que é segura. Há registros de problemas nas usinas de Angra, o que inclui desde acidentes de menor grau até a interrupção de funcionamento da usina. Essas operações de pequena escala não são divulgadas para a população, são mantidas em segredo. Há falta de transparência, o que traz insegurança para a população – o que é uma marca do setor de usinas. No Japão, por exemplo, há casos de documentos falsos, com resultados que forjavam a boa manutenção de equipamentos e a segurança dos mesmos. As informações falsas aumentam e criam uma barreira maior, gerando desconfiança quando o assunto é energia nuclear.


IHU On-Line – Ao conceder licença para Angra III foram estabelecidas 44 exigências, entre elas a de uma "solução definitiva" para o depósito de lixo. Entretanto, essa exigência está sendo abrandada e agora se fala em colocar o lixo em ampolas de aço inoxidável, num "pombal de concreto", isolado do solo. Como você avalia o posicionamento do governo?

Ricardo Baitelo –
Acompanhei quando saiu a licença para a instalação da usina de Angra III. Sabíamos que não haveria uma resposta fácil quando o assunto fosse o lixo nuclear. Na época, poderiam existir duas possibilidades: a de não construir a usina ou a de esperar anos para encontrar uma solução para o lixo. Hoje mantemos depósitos provisórios. Como no Japão, o combustível precisa ficar em um local dentro da usina até que seja resfriado e passado para outro ambiente. No Brasil a justificativa é de que não há depósito permanente, porque as varetas que guardam componentes em Angra I precisam ser refriadas por mais tempo, até por décadas. Possivelmente, se não temos problemas para este ano ou para o próximo, as novas gerações poderão sofrer por isso. A grande questão de tudo é saber onde colocar este lixo. Nos Estados Unidos há muitas usinas e poucos Estados têm legislações que permitam fazer estoques em depósitos permanentes. É a verdadeira história: “no meu quintal, não”. Os países querem as usinas, mas não desejam seus resíduos. Até hoje são feitos estudos no Brasil para saber onde depositar esse lixo. A ideia é escolher um local menos povoado, possivelmente no centro do país.


IHU On-Line – O governo afirma que as usinas nucleares brasileiras têm mais segurança que as japonesas. Você concorda?

Ricardo Baitelo –
Os reatores não são iguais e temos projetos diferenciados, com outro ciclo de refrigeração. Em termos de segurança, é difícil de falar que no Brasil é melhor. É impossível dizer que uma usina é imune a acidentes. Concordo quando afirmam que o país é menos vulnerável a terremotos ou tsunamis, mas é bom lembrar que já tivemos três terremotos nos últimos 40 anos na região de Angra dos Reis. Mesmo que sejam mais fracos, temos dificuldade de rever a porosidade do solo, temos históricos de deslizamentos. A instalação no Rio de Janeiro pode ser mais segura que a dos japoneses, mas não sabemos se os procedimentos nacionais são melhores. O Japão deu uma boa amostra de como lidou com situação de emergência e estava preparado para isso. É ousadia acreditar que o Brasil teria um plano mais eficiente em caso de acidentes, principalmente porque Angra faz parte de um projeto dos anos 1980, um pouco defasado.


IHU On-Line – De acordo com a experiência de outros países e com os constantes fenômenos climáticos, quais seriam as alternativas seguras para energia no Brasil?

Ricardo Baitelo –
Existem questionamentos específicos sobre o Rio de Janeiro, onde estão as usinas. Mas devemos lembrar que o país tem um sistema interligado de energia. Não é necessário um aparato local e focado, porque a energia pode ser transmitida de estado para estado, de cidade para cidade. De qualquer forma, a energia renovável é mais democrática, espalha-se por todo o território. Temos potencial eólico muito forte no Nordeste, no interior de Minas Gerais, na Bahia e no Sul do país. Outras fontes também podem ser exploradas: temos índices de radiação solar ótimo, com mais incidência do que em países como a Alemanha. Em relação à biomassa, temos a cana de açúcar, além de outros materiais para gerar energia. O potencial hidrelétrico pode ser modernizado nas usinas e é preciso rever projetos para pensar em uma cominação de fontes.

No mundo há outros países preocupados, principalmente Alemanha, que tem ¼ da energia proveniente das usinas nucleares. No Brasil, a participação é de apenas de 2% e dificilmente passará para 5%. Com certeza, temos mais condições de reduzir a participação nuclear na matriz energética.


IHU On-Line – Você teme a possibilidade de o Japão viver uma situação como a de Chernobyl?

Ricardo Baitelo –
Ainda é prematuro pensar nesta possibilidade. Chernobyl não tinha contenções para o reator e, quando houve a explosão, não tinha um reator comercial, era experimental. Também não havia segurança suficiente, e uma nuvem radioativa se espalhou. No Japão, as usinas não estão funcionando, mas já há possibilidade de derretimento do núcleo. Estes reatores, porém, têm contenções melhores. Pela construção das usinas japonesas podemos ter mais vazamentos. Os índices de radiação aumentam e temos um quadro tão drástico quanto ao de Chernobyl, que foi uma surpresa para todos. Atualmente temos, no mínimo, o segundo pior acidente nuclear da história. Mas sabemos também que ainda é difícil fazer uma relação entre a radiação e a mortalidade por câncer. Acredito que precisamos observar por mais tempo para contabilizar os efeitos.


IHU On-Line – O Greenpeace conta com alguma mobilização no Japão para que o mundo mude de mentalidade em relação à geração de energia?

Ricardo Baitelo –
No Japão a população estava preparada para o terremoto, mas não contava com as consequências. A preocupação maior que temos é encontrar respostas rápidas para as equipes. Há locais em situação de emergência em que não conseguimos penetrar. É difícil deslocar pessoas para estas áreas para fazerem mobilizações. Em muitas regiões só é permitida a entrada de moradores e pessoas relacionadas às usinas. Devemos tentar entrar nas regiões o quanto antes, ainda mais porque os efeitos do terremoto devem ser prolongados.


Leia mais...

• Novos potenciais para a matriz energética. Edição número 236, intitulada Energia para quê e para quem? A matriz energética do Brasil em debate, publicada em 17-09-2007

• Redes elétricas inteligentes e a racionalização do uso de energia. Entrevista publicada em 27-02-2010 nas Notícias do Dia

Últimas edições

  • Edição 546

    Diálogo interconvicções. A multiplicidade no pano da vida

    Ver edição
  • Edição 545

    Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

    Ver edição
  • Edição 544

    Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

    Ver edição