Edição 328 | 10 Maio 2010

O biologismo radical de Nietzsche não pode ser minimizado

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Márcia Junges

A vida não é distinguida entre bios e zoe pelo filósofo alemão, reduzindo o ser humano à pura zoologia, analisa Ernildo Stein. Heidegger mostra que o biologismo nietzscheano não é apenas uma veleidade, mas pretende atingir o princípio ou axioma da não-contradição

“Heidegger mostra que o biologismo nietzscheano não é apenas uma veleidade, mas pretende atingir o princípio ou axioma da não-contradição pela qual o ser humano se orienta em todas as manifestações. Se esse axioma é biológico, então, todo o manifestar-se do ser humano é apenas biológico. Nietzsche atingiu assim o coração mesmo da essência da razão, reduzindo-a a uma simples função da vida”. A constatação é do filósofo Ernildo Stein, em entrevista exclusiva, concedida, por e-mail, à IHU On-Line. De acordo com ele, Nietzsche não distingue a vida entre bios e zoe, já que pretende é “reduzir o ser humano à pura zoologia, através da eliminação da diferença que é garantida na definição aristotélica do zoón lógon echón. Justamente o lógos só é possível mediante o axioma da não-contradição, que já foi biologizado em Nietzsche, melhor diríamos, zoologizado”. As ideias serão debatidas na conferência A crítica de Heidegger ao biologismo de Nietzsche e a questão da biopolítica, parte integrante do Ciclo de Estudos Filosofias da diferença - Pré-evento do XI Simpósio Internacional IHU: O (des)governo biopolítico da vida humana. Stein aponta o biologismo radical de Nietzsche, que não deve ser minimizado. Ao analisar os conceitos grande saúde, de Nietzsche, e biopoder, de Foucault, afirma que não devemos esperar “demais de uma aplicação desses dois conceitos no mundo contemporâneo nas áreas da psicologia, pedagogia, ou mesmo, da crítica do poder. Eles são panoramas muito amplos, um, tendo por base a realidade, e o outro, fazendo da literatura o pedestal para um grande sonho”.

Stein é graduado em Filosofia e Direito pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Cursou doutorado na mesma universidade, em Filosofia e pós-doutorado na Universität Erlangen-Nürnberg, Alemanha. Atualmente, é docente da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) e membro do corpo editorial das publicações Reflexão, Problemata, Natureza Humana e Ágora. Publicou dezenas de livros, entre eles Seminário sobre a verdade: lições introdutórias para a leitura do parágrafo 44 de Ser e Tempo (Petrópolis: Vozes, 1993); A caminho de uma fundamentação pós-metafísica (Porto Alegre: EDIPUCRS, 1997); Diferença e metafísica (Porto Alegre: EDIPUCRS, 2000); Compreensão e finitude (Ijuí: Unijuí, 2001); Introdução ao pensamento de Martin Heidegger (Porto Alegre: EDIPUCRS, 2002); Mundo Vivido: Das vicissitudes e dos usos de um conceito da fenomenologia (Porto Alegre: EDIPUCRS, 2004) e Seis estudos sobre Ser e Tempo (3. ed. Petrópolis: Vozes, 2005).

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Quais são os principais aspectos da crítica de Heidegger  ao biologismo de Nietzsche?

Ernildo Stein - Como ponto de partida para responder a esta questão, comecemos por uma afirmação de Heidegger, comentando o seguinte aforismo de Nietzsche: “As categorias são ‘verdades’ que condicionam a vida para nós: exatamente como o espaço euclidiano é uma tal ‘verdade’ condicionante”.

“Dito de maneira grosseira: as categorias, o pensar com categorias, assim como a regulação e a articulação desse pensamento: a lógica – a vida arranja tudo isso para si, a fim de se conservar. Essa doutrina da proveniência do pensamento e das categorias não deve ser chamada de biologismo? Não queremos fechar os olhos para o fato de Nietzsche pensar aqui de maneira palpavelmente biológica e falar mesmo dessa maneira sem qualquer constrangimento” (HEIDEGGER).

O filósofo, continuando a análise de Nietzsche, que afirma que “ninguém sustentará a necessidade de que haja homens, a razão é uma mera idiossincrasia de determinadas espécies animais”, conclui: “Nietzsche constata: ‘A espécie animal particular homem, assim, é algo puramente subsistente’”.

Depois desse apanhado geral do flagrante biologismo nietzscheano, Heidegger apresenta o seu veredicto, citando Nietzsche: “A compulsão subjetiva, para não contradizer, aqui é uma compulsão biológica.” e comenta: “Essa sentença é formulada uma vez mais de maneira tão concisa, que poderia permanecer despercebida, se não tivéssemos aprendido com as manifestações anteriores”.

Heidegger, portanto, mostra que o biologismo nietzscheano não é apenas uma veleidade, mas pretende atingir o princípio ou axioma da não-contradição pela qual o ser humano se orienta em todas as manifestações. Se esse axioma é biológico, então, todo o manifestar-se do ser humano é apenas biológico. Nietzsche atingiu assim o coração da essência da razão, reduzindo-a a uma simples função da vida.

Não temos nessa manifestação do filósofo uma simples crítica de Heidegger. O que vem sintetizado é simplesmente a absoluta redução do homem ao bios, ao biológico, e talvez mesmo, à zoe, o raso do acontecer zoológico. Tem importância a discussão entre bios e zoe porque, como diz Heidegger, o bios é a zoe com “currículo” (elementos sucessivos que revelam um progresso para além do biológico), enquanto a zoe é o mero dar-se como coisa. “Vida”, em Nietzsche, não distingue entre bios e zoe, porque efetivamente o que o autor pretende é reduzir o ser humano à pura zoologia, através da eliminação da diferença que é garantida na definição aristotélica do zoón lógon echón. Justamente o lógos só é possível mediante o axioma da não-contradição, que já foi biologizado em Nietzsche, melhor diríamos, zoologizado.

Além de o autor de Assim falou Zaratustra dizer que a não-contradição não é uma necessidade, mas uma incapacidade do animal, ele termina sentenciando o fim (a destruição) da verdade: “Verdade, esse tipo de erro que um certo tipo de animal precisa para sobreviver”. Não é preciso ler mais de Nietzsche para nos convencermos de seu biologismo radical, introduzido estrategicamente para desenvolver toda a sua visão do ser humano. Quem se arrisca a minimizar esse biologismo, recusando-o como núcleo central do pensamento de Nietzsche, se desvia da intenção básica desse filósofo e está livre para qualquer interpretação que melhor lhe parecer.

IHU On-Line - Por que Heidegger fala num “pretenso biologismo” desse autor?

Ernildo Stein - Não encontrei nenhuma passagem em Heidegger que falasse, a propósito de Nietzsche, em “pretenso biologismo”. O atenuante que se esconderia na palavra “pretenso” certamente não pode ser encontrado no que foi dito acima. É claro que a multidão de intérpretes de Nietzsche, que se servem à vontade de seu biologismo, gostaria que fosse um biologismo especial, que permitisse focar Nietzsche como um filósofo protegido contra as consequências de seu próprio pensamento. Tal estratégia está presente em todas as interpretações que pretendem se guiar positivamente em Nietzsche para a construção de qualquer pensamento filosófico.

IHU On-Line - Qual é a interpretação de Foucault  sobre o biologismo nietzscheano?

Ernildo Stein - Foucault não é, em primeiro lugar, um intérprete de Nietzsche. Há, certamente, passagens em sua obra em que encontramos algum aspecto que poderia parecer indicar uma proximidade com Nietzsche. Foucault ultrapassou qualquer possibilidade de identificá-lo com o biologismo nietzscheano. É verdade que em Nietzsche, o biologismo tem uma função: subverter a metafísica da transcendência. Mas ele acabou se tornando o último grande metafísico, no sentido de que, com seu biologismo, instala um princípio epocal que realiza a tarefa de encobrir a questão do ser e do ente, que é aquilo que salva a diferença desde os pré-socráticos. É por isso que Nietzsche tem algo que jamais pode ser localizado em Foucault. Este é um além-nietzscheano: Nele não é negado o princípio da não-contradição, a questão da verdade, e a questão da diferença. Há uma secreta distinção que sustenta o edifício foucaultiano: a diferença entre bios e zoe. É isso que lhe permite desenvolver um tipo de filosofia que supera o essencialismo nietzscheano de maneira definitiva e o coloca entre os grandes filósofos da narrativa. A visão que esse filósofo nos apresenta com as análises que o levam até a biopolítica é uma caminhada através de sucessivas histórias que compõem a cultura ocidental, através de uma perspectiva arqueológica.

IHU On-Line - Em que sentido a biopolítica tem ressonâncias da grande saúde nietzscheana?

Ernildo Stein - Tentemos primeiro compreender algo da biopolítica de Foucault. O filósofo afirmou, no fim de sua vida, que o objetivo de suas investigações era aquilo que encontrara nas suas últimas grandes preleções: o novo modo de pensar o eu e a hermenêutica do sujeito. Desse modo, podemos dizer que só se compreende a biopolítica desde o ponto de vista da arqueologia do saber e dos diversos saberes que percorrem os livros que desenvolveu nas obras que cercam Vigiar e punir e sua Microfísica do poder. Não há dúvida que a leitura da introdução à biopolítica nos dá uma minuciosa ideia de que toda a evolução do liberalismo representou, basicamente, uma moldura para uma outra política, a política dos corpos, a biopolítica. Trata-se, portanto, em primeiro lugar, da descrição detalhada de como se constitui a administração do vivente humano em todas as suas formas de manifestação. Para tal foram desenvolvidos três níveis de análise em Foucault.

O primeiro nível trata propriamente da gestão da população, do ponto de vista demográfico e censitário mais amplo possível. Nesse nível, temos as múltiplas estratégias sobre os movimentos das populações da espécie humana, como nascimento e morte, grupos divididos por diversos critérios, migrações, todos os aspectos que entram em jogo para o capitalismo nascente ter uma visão global das questões coletivas que surgem em torno da distribuição da população.

O segundo nível aborda particularmente a questão das formas de confinamento e reclusão, como estabelecimentos penais, instituições de internamento psiquiátrico, outras formas de internação como institutos educacionais e outros, onde se desenvolve um tipo de segregação e vigilância sobre indivíduos já separados por critérios específicos.

Se, no primeiro nível, os critérios de distribuição eram os processos biológicos, como o controle dos nascimentos e da mortalidade, a saúde da população, a duração da vida - a longevidade, nesse segundo nível, se esboça um processo de defesa da sociedade que leva a mecanismos de criação de populações segregadas em instituições de punição ou de educação. Podemos dizer que, no segundo nível, começam a aparecer as tecnologias disciplinares em que os indivíduos são submetidos a controles dos diversos processos biológicos.

No terceiro nível, temos o surgimento das diversas formas de disciplina para a formação do mundo interior ou das consciências. É aí que se constituem os discursos que fazem o ser humano catalogar diversas formas de considerar uma parte de sua vida privada.

A breve referência a esses três níveis nos permite ver uma forma de administrar a vida humana através de disciplina, regulamento e autocontrole. Do orgânico ao biológico até o espiritual, a vida é construída para que alguém tenha sobre ela uma espécie de possibilidade de controle do homem espécie. Foucault fala, muitas vezes, em todos esses aparelhamentos como em instituições que servem ao controle geral ou dos corpos pela anatomo-política e do homem espécie pela biopolítica.

Biopolítica e grande saúde

Há um ponto central a acentuar em tudo isto, e que aparece, sobretudo, em sua obra de introdução à biopolítica, que se refere a duas lógicas. De um lado, a lógica da soberania, que consiste no “fazer morrer” e no “deixar morrer”. De outro lado, a lógica da biopolítica, que faz viver e deixa morrer. Podemos dizer que a biopolítica se refere a um poder que gere a vida.

Foi necessária essa pequena digressão para que se tornasse flagrante a diferença entre a biopolítica e a “grande saúde” nietzscheana. Temos a magistral passagem de A Gaia Ciência descrevendo a “grande saúde”:

“Nós, os novos, os sem-nome, os difíceis de entender, nós, os nascidos cedo de um futuro ainda indemonstrado - nós precisamos, para um novo fim, também de um novo meio, ou seja, de uma nova saúde, de uma saúde mais forte, mais engenhosa, mais tenaz, mais temerária, mais alegre do que todas as saúdes que houve até agora. Aquele cuja alma tem sede de viver o âmbito inteiro dos valores e anseios que prevaleceram até agora e de circunavegar todas as costas desse ‘mar mediterrâneo’ ideal, aquele que quer saber, pelas aventuras de sua experiência mais própria, o que se passa na alma de um conquistador e explorador do ideal, assim como de um artista, de um santo, de um sábio, de um legislador, de um erudito, de um devoto, de um adivinho, de um apóstata no velho estilo: este precisa, para isso, primeiro que tudo, de uma coisa, da grande saúde - de uma saúde tal, que não somente se tem, mas que também constantemente se conquista ainda, e se tem que conquistar, porque se abre mão ela outra vez, e se tem de abrir mão!...”

Vemos que a biopolítica representa um projeto inacabado que Foucault desenvolvera para realizar uma história profunda da modernidade enquanto moldura da administração da vida humana. O autor não faz nenhum tipo de avaliação positiva ou negativa da biopolítica. Importa-lhe um registro o mais detalhado possível daquilo que constitui não apenas a microfísica do poder, mas também a infiltração capilar de ideias e mentalidades no desenvolvimento da espécie na modernidade.

Nietzsche, ao contrário, desenha um quadro transfigurado para o homem que assumiu o niilismo radical e admitiu o desaparecimento do mundo suprassensível. Para isso, o autor recorre aos seus grandes princípios interpretativos da “vontade de poder”, do “eterno retorno”, do niilismo definitivo, da “morte de Deus” e do “super-homem”. Assim elabora a base para a transvaloração de todos os valores e o surgimento de uma nova espécie de homem, que é figurado na “grande saúde”.

IHU On-Line - Qual é a atualidade desses dois conceitos?

Ernildo Stein - Quando se pergunta pela atualidade de um conceito, tem-se quase sempre em mente uma espécie de função prática, quando não, ideológica. É claro que a biopolítica descreve uma história humana da modernidade nada positiva. Ela revela, no fundo, um olhar soturno de Foucault sobre a existência no planeta. Mas isso tudo deve ser visto como um genial registro, mas não como uma espécie de fórmula, ou com vocação para mudanças. O mundo para Foucault é assim, e a história será certamente o palco de um movimento em que irá se radicalizar a biopolítica.
Agamben  chama atenção para o fato notório de Foucault passar da biopolítica para uma hermenêutica do sujeito, baseada numa interpretação dos clássicos, do estoicismo e dos antigos ascetismos. E como que recrimina o autor por não ter estendido a sua biopolítica à política totalitária dos campos de extermínio, de segregação do estrangeiro e da vida nua. Nietzsche, com seu conceito de grande saúde, nos traça um vasto panorama do homem feliz, num mundo ideal com que talvez sonhava.

Não esperemos demais de uma aplicação desses dois conceitos no mundo contemporâneo nas áreas da psicologia, pedagogia, ou mesmo, da crítica do poder. Eles são panoramas muito amplos, um, tendo por base a realidade, e o outro, fazendo da literatura o pedestal para um grande sonho.
Se quisermos situar a biopolítica e a grande saúde num quadro de avaliação filosófica, temos de reconhecer que ambos são constituídos por uma grande ausência. Em Foucault, toda a transcendência é absorvida no panopticum com que observa o grande campo da humanidade fechada sobre si mesma. A grande saúde de Nietzsche não é nada mais do que o registro do que o filósofo pensa que o ser humano poderia ser sem a influência do mundo suprassensível. Certamente, adivinhamos, nesses dois quadros geniais de filósofos, a desolação, ou então, uma expectativa irrealizável que se implantou numa história que pergunta pelo seu próprio sentido.
 
Leia mais...

Ernildo Stein já concedeu outras entrevistas à IHU On-Line. Confira:

• A superação da metafísica e o fim das verdades eternas. Revista IHU On-Line, número 185, de 19-06-2006;

• Depois de Hegel: “o mais original diálogo entre Filosofia analítica e dialética”. Revista IHU On-Line, número 261, de 08-06-2008;

• O abismo entre a ética da psicanálise e o discurso ético universal. Revista IHU On-Line, número 303, de 10-08-2009.

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