Edição 328 | 10 Mai 2010

A tecnologia como alavanca para o Vale do Sinos

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Patricia Fachin

Para o diretor executivo do Valetec, Maurício Andrade, parques e polos tecnológicos representam, economicamente, um projeto "alavancador", pois diversificam a matriz produtiva da região e aceleram o processo de desenvolvimento de negócios

O Parque Tecnológico do Vale do Sinos - Valetec surgiu em 1998, e atinge oito, dos quatorze municípios do Vale do Sinos. Segundo Maurício Andrade, dois aspectos justificam o surgimento do empreendimento na região: “a necessidade de diversificação da matriz produtiva (...); e um olhar de futuro em função das novas profissões e dos novos negócios que estavam sendo desenvolvidos ao longo dos anos”. Na entrevista a seguir, concedida, por telefone, à IHU On-Line, Andrade explica que as 40 empresas integrantes do projeto são genuinamente regionais. “Entendemos que o empreendedorismo local é nossa fonte de negócios e que precisamos, de alguma maneira, fomentá-lo”. Na avaliação dele, os parques tecnológicos e científicos, instalados no Vale do Sinos, sinalizam uma mudança na economia local. “Hoje, temos diversificação de produção e segmentos de empresas que antes trabalhavam apenas para um setor. Mesmo quem fornecia para a cadeia do calçado, hoje já se deu conta de que é possível atender segmentos diferenciados”.

Formado em Administração de Empresas com habilitação em Comércio Exterior pela Unisinos, Maurício Andrade é mestre em Design e Tecnologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Como emergiu o Valetec na região do Vale do Sinos? Que aspectos favoreceram o surgimento do polo?

Maurício Andrade - O Valetec surgiu em 1998, e é um projeto de um polo, e não de um parque em um único município. Assim, ele atinge oito municípios da região do Vale do Sinos: Novo Hamburgo, Campo Bom, Estância Velha, Ivoti, Dois Irmãos, Araricá, Sapiranga e Nova Hartz. A intenção do projeto é que, em cada cidade, tenhamos uma unidade tecnológica funcionando.

Dois aspectos envolvem o surgimento do Valetec. Primeiro, a necessidade de diversificação da matriz produtiva. Sofridas as consequências das crises calçadistas ao longo dos anos, percebeu-se a necessidade de que era preciso investir em algo diferente. O segundo aspecto está relacionado “a um olhar de futuro” em função das novas profissões e dos novos negócios que estavam sendo desenvolvidos ao longo dos anos. Observando isso, identificou-se que existia uma oportunidade interessante do conhecimento tecnológico aplicado a novos negócios.

IHU On-Line - Qual é o ramo de atividades desenvolvidas no polo?

Maurício Andrade - Realizamos um estudo para ver qual é a demanda local, e, em função dela, é que tentamos fazer a alocação de uma unidade. Em alguns municípios, trabalhamos a questão industrial integrada com a questão de empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação – TI, e, em outros, trabalhamos sem a questão industrial propriamente dita, mas com núcleos de pesquisa em desenvolvimento que, talvez, um dia, venham a servir à indústria, além das empresas de TI e à chamada empresa criativa. Entendemos que o empreendedorismo local é nossa fonte de negócios e que precisamos, de alguma maneira, fomentá-lo. Respeitamos muito - e fazemos isso de alguma maneira - a atração de empresas grandes para a região, porém, entendemos que esse é um processo que merece cuidado no seu desenvolvimento porque, dependendo da maneira como essa empresa se estabelecer, ela conseguirá acabar com segmentos que talvez tenham uma potencialidade dentro de um determinado município. Hoje, nosso polo tecnológico só trabalha com empresas de origem local, mas que já atuam em países da Europa, dos EUA, da América Latina. Nós servimos de suporte para eles.

IHU On-Line - Como caracteriza a mão-de-obra do polo?

Maurício Andrade - Para alguns setores, ainda carecemos de mão-de-obra, especialmente na área de TI. Não consigo enxergar, num curto prazo, uma resolução para esse problema. Nessa área, percebo que temos uma grande quantidade de empresas que estão em desenvolvimento, principalmente no município de Novo Hamburgo.

Se, hoje, o polo trouxesse uma empresa grande de TI para a região, provocaria um grande problema de mão-de-obra para as instituições locais que estão em franco desenvolvimento. Temos conversado muito com os empresários para tentar entender suas necessidades.

Em outros setores, a demanda é atendida pela universidade nas áreas de metal-mecânica, automação, química, eletrônica. Hoje temos suprido a necessidade de demanda de mão-de-obra.

IHU On-Line – Que inovações o polo proporciona para a região?

Maurício Andrade – Uma das empresas mais inovadoras na região é a Artecola, uma instituição que tinha sua produção destinada apenas para o setor calçadista, no desenvolvimento de adesivos, colas. Hoje, a média de 30% da produção deles é destinada para a indústria do calçado. Eles são o maior exemplo de que já existem mudanças no Vale. No polo, nenhuma empresa trabalha exclusivamente com couro e calçado. Todos os nossos associados pertencem a outros setores da indústria, ou estão vinculadas ao setor de TI, ou à indústria criativa, que são os estúdios de design, fotógrafos etc. Sem dúvida, o cenário mudou bastante. Claro que não podemos desconsiderar toda a importância que o setor calçadista tem para a região, e as empresas que aí estão estabelecidas aprenderam a atuar muito bem. O suporte que podemos dar ao setor é oferecendo estudantes do curso de design, de engenharia, que pensam na melhoria de processos. De qualquer modo, esse é um setor maduro no Vale e que hoje, felizmente, está mais segmentado.

IHU On-Line - Como as empresas que fazem parte do polo se relacionam com a indústria tradicional?

Maurício Andrade – Temos muitas empresas do polo que são parceiras da indústria calçadista. Muitas delas fornecem componentes para o setor, mas elas não têm como atividade fim o calçado. Hoje, ocorre a diversificação de produção. Segmentos de empresas que antes trabalhavam apenas para um setor, hoje já atendem segmentos diferenciados.

IHU On-Line - O polo tem preocupação com a sustentabilidade e as questões ambientais? De que maneira isso ocorre?

Maurício Andrade – Sim, totalmente. Nós não trabalhamos com empresas que poluem, ou seja, que despejam dejetos ou poluentes diretamente no lençol freático dos municípios, e não queremos ter esse tipo de organização no polo. A relação de ter vinculação com a sustentabilidade é pré-requisito para as empresas ingressarem no polo. Essa é uma demanda de mercado; ele começa a cobrar isso das empresas. Ou a empresa é sustentável, ou ela está fora, principalmente em mercados desenvolvidos como na Europa, onde essa consciência já chegou ao consumidor, que não escolhe produtos que tenham procedência duvidosa.

IHU On-Line - O que o polo significa e sinaliza, economicamente e socialmente, para a região do Vale do Sinos?

Maurício Andrade – Entendo que economicamente é um projeto "alavancador". Por meio do polo, conseguimos acelerar o processo de desenvolvimento de negócios. Isso ocorre por intermédio da incubadora e com o suporte que o Valetec oferece para as empresas desincubadas. Toda vez que se mexe com o desenvolvimento local, se mexe diretamente na economia dos municípios presentes. A arrecadação de mais impostos significa mais retorno para a comunidade. Fazendo com que as empresas se desenvolvam regionalmente, consegue-se que os benefícios sejam percebidos diretamente pela sociedade.

IHU On-Line – Essas empresas regionais têm potencial para alavancar o desenvolvimento tecnológico do país?

Maurício Andrade – Algumas empresas têm potencial para ditar tendências e lançar produtos que podem ser copiados pelo mundo. Uma empresa de automação está modificando todo o sistema de abertura de portas de ônibus, substituindo a infraestrutura de ar comprimido, que gera aquele barulho nas portas, pela inserção de mecanismos microeletrônicos. Esse é um mecanismo mais inteligente e menos poluente. Isso representa uma evolução em todo o sistema viário do Brasil, da América Latina e quem sabe até do mundo, caso seja implementado. É um sistema que alguns países já estão desenvolvendo, e que também vem ganhando destaque na região Sul.

IHU On-Line - Existem outros projetos que visam à sustentabilidade?

Maurício Andrade – Das 40 empresas integrantes do polo, algumas conseguem investir na sustentabilidade. A indústria química consegue isso por meio da substituição de solventes pela água, na composição de tintas para diversos segmentos de aplicação como o setor coureiro-calcadista, automotivo, imobiliário. A retirada do solvente desse processo e a colocação de solventes à base de água é uma mudança, uma tendência. Quando se modifica totalmente o produto final, as consequências para o meio ambiente também mudam.
 
IHU On-Line – Quais são as perspectivas do polo para o futuro?

Maurício Andrade – Temos como perspectiva uma mudança de postura da nossa atividade. O Valitec está sediado em Campo Bom e já tem projetos em Estância Velha e Novo Hamburgo, além de negociações bem avançadas em Dois Irmãos e Sapiranga. Estamos conseguindo, nos últimos seis meses, efetivar o projeto dentro de municípios que até então não participavam da iniciativa. Temos 49 hectares em Estância Velha, adquiridos pela prefeitura e sendo negociados com empresas. Também há um projeto de recuperação do bairro Hamburgo Velho, em Novo Hamburgo, que irá trabalhar com empresas de TI e da indústria criativa. O projeto foi aprovado na Câmara de Vereadores e já tem recursos reservados para ele acontecer.

Tem um jargão que diz que os tempos são diferentes: o tempo de governo é diferente do tempo da universidade, que é diferente do tempo da empresa. Não podemos trabalhar com tempos diferentes. Temos de tentar diminuir os tempos para que eles sejam iguais. O tempo em que a empresa precisa de um apoio, tem de ser o tempo em que a prefeitura consiga disponibilizar esse apoio; o tempo que a empresa solicita um aporte em tecnologia tem de coincidir de alguma maneira com o tempo de pesquisa que se consiga desenvolver na universidade. Então, pôr essa equação para funcionar de maneira redonda é o nosso objetivo.

IHU On-Line – E quais são os desafios postos ao polo?

Maurício Andrade – Como esse é um projeto de longo prazo, sempre que se troca de governo, corre-se o risco de que as pessoas que venham a assumir os cargos não entendam o que está sendo feito. Às vezes, um prefeito não tem a mesma visão do seu antecessor, e aí perdemos muito tempo tendo de explicar todo o projeto. Então, esse é o maior desafio que temos em termos de apoio à execução das nossas atividades. Aliado a isso, precisamos de mais recursos financeiros oriundos do governo do estado, mas também de dinheiro federal. Seria interessante uma linha exclusiva para que esse tipo de experiência consiga ser mais efetivo em toda a região. Então, são dois desafios: fazer com que a governança local entenda de maneira rápida e que consigamos ter uma manutenção para nossas atividades; e em termos nacionais, um aporte de recursos para que consigamos efetivar essa experiência.

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