Edição 248 | 17 Dezembro 2007

Desacordos entre a pregação de Jesus e a da Igreja

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IHU Online

O jesuíta francês Joseph Moingt é autor da obra Dieu qui vient à l'homme (Paris, Éditions du Cerf, 2002). Já foram publicados quatro vastos volumes e a obra ainda não está pronta. O autor, de 91 anos, atendeu solicitamente, por e-mail, ao pedido da IHU On-Line e surpreendeu-nos com sua resposta em forma de carta dirigida à comunidade universitária da Unisinos. Na carta, o teólogo vai respondendo às perguntas que lhe propomos.



Joseph Moingt estudou Filosofia e Teologia no Institut Catholique de Paris. Atuou como docente do curso de Teologia sucessivamente na Faculdade Jésuite de Lião-Fourvière, no Institut Catholique de Paris e nas Faculdades de Filosofia e Teologia da Companhia de Jésus em Paris (Centre Sèvres). De sua produção bibliográfica, destacamos Plusieurs contributions dans des ouvrages collectifs, notamment - Le Dieu des chrétiens - dans La Plus belle histoire de Dieu (Paris: Le Seuil, 1997) e Les Trois visiteurs (Paris: DDB, 1999).

À comunidade universitária da Universidade do Vale do Rio dos Sinos -Unisinos em São Leopoldo – Brasil

Caros amigos. Eu uso o estilo epistolar para responder às questões que me foram propostas pela revista IHU On-Line, e eu me explico imediatamente.

Estas questões são de grande pertinência e de grande interesse. Mas elas traçam o programa de uma cristologia completa e seriam necessárias centenas e centenas de páginas para responder a elas seriamente. Eu fiz trabalhos deste gênero e desta importância, mas não seria sério de minha parte querer extrair um resumo de algumas páginas, mesmo de algumas dezenas de páginas que minhas ocupações presentes não me permitiriam escrever, nem mesmo na prorrogação de prazo que a IHU On-Line me concede com benevolência. A reflexão teológica necessita desenvolver-se num longo discurso, da mesma forma como a reflexão filosófica: ela não pode ser posta em fórmulas. Por isso, hesitei longamente em responder a este questionário. Se finalmente aceito fazê-lo, será simplesmente para deixar claro como eu recebo e sinto essas questões, como me situo em relação a elas, mas absolutamente não para lhes dar respostas explícitas e bem argumentadas.

Eu renuncio, pois, formalmente a inscrever minhas reflexões no quadro da “pesquisa científica contemporânea sobre Jesus Cristo”, como vocês desejam fazê-lo, e por isso eu uso o estilo familiar de uma carta, de uma conversação por carta, e também me permitiria reformular, reagrupar, deslocar vossas questões e eventualmente excluir uma ou outra. Queiram perdoar-me antecipadamente por colocar tal distância entre esse questionário e minha resposta. Mas o tom deliberadamente pessoal de minha carta deveria afirmar melhor o interesse que tenho pelas pesquisas.

Jesus na experiência de um jesuíta

Minha reflexão teológica é a de um europeu educado na fé cristã e, portanto, nutrido muito cedo e progressivamente pela grande tradição doutrinal do cristianismo. Ela foi certamente influenciada por minha formação na Companhia de Jesus, pela contemplação da humanidade de Jesus à qual habituam os Exercícios espirituais de Santo Inácio , por uma ligação à pessoa de Jesus que impede separar a fé nele da fé em Deus e que convida a sempre re-situar a teologia no contexto da narrativa evangélica. Mas a espiritualidade inaciana, de orientação apostólica, inclina igualmente a reflexão teológica do lado da cultura contemporânea dos europeus, à qual ela deve ambicionar anunciar hoje em dia Jesus Cristo; tal abertura para a filosofia da “modernidade” não permite à teologia confinar-se no terreno das Escrituras bíblicas.

No final de tantos anos de estudos, sou perguntado sobre quem é Jesus. Jesus. Eu não arriscaria dizer “que ele esteve” no seu passado. Deixo este cuidado aos historiadores e remeto às milhares de páginas de John P. Meier  (A marginal Jew), que responderão com extrema prudência e modéstia. No máximo, eu diria o “que ele é para mim”: o homem (pois trata-se de Jesus) nas pegadas de quem eu oriento minha vida para Deus e em quem eu procuro a revelação de Deus.

Eu, quando muito, tentei no ano passado traçar “uma imagem teológica de Jesus”, a pedido da revista de Lisboa Didaskalia, que publicou meu artigo em francês no volume XXXVI/2 de 2006, sob o título “O dossier Jesus”; este artigo foi resumido e traduzido ao espanhol por Joaquim Pons Zanotti, sob o título “La imagen de Jesus”, mas eu não sei se esta tradução foi publicada, nem onde.

A desconstrução da cristologia: de Jesus às primeiras comunidades

Eu naturalmente, me defrontei, no decurso de meus anos de ensino, com o problema do “Jesus histórico”, que revela o desacordo entre a pregação de Jesus e aquela da Igreja primitiva. Hoje em dia, este problema não é mais colocado nos termos brutais de fins do século XIX, porque sabe-se atualmente que a pregação da Igreja apostólica, voltada para a pessoa de Jesus, se mescla com as narrações evangélicas, centradas no anúncio do Reino. Não há, pois, contradição entre uma e a outra; a prova é que Paulo  diz ser ele enviado para anunciar – indiferentemente – Jesus Cristo morto e ressuscitado, ou o Evangelho, ou o Reino de Deus, ou a ressurreição dos mortos.

No entanto, tive que dar-me conta da invasão da questão histórica na cristologia, que já não permitia ater-se, como no passado, ao ensinamento do “tratado do Verbo encarnado”; eu narrei a “desconstrução” deste tratado no século XX na minha obra O homem que vinha de Deus. O teólogo já não pode mais ignorar os dados da história: mas disso não é necessário concluir que a teologia dogmática perdeu irremediavelmente toda legitimidade: os teólogos protestantes alemães, que foram os primeiros a dar atenção a esses dados, como Pannenberg , Moltmann , Jüngel , não desertaram, em função disso, da via especulativa.

A hermenêutica narrativa para chegar a Jesus

Quais são, com efeito, os caminhos hoje abertos à cristologia? Há aquele da exegese histórica, mas esta não conduzirá, como parece que vocês crêem, à “experiência de Jesus”: o historiador sabe muito bem que não há acesso direto à consciência de Jesus. Na verdade, se ele é sério, nem sequer pretenderá fazer cristologia, que pertence à teologia, e sim fará história; isto é tudo. Meditemos atentamente sobre este “paradoxo”, inscrito por J. P. Meier no cabeçalho de seu primeiro volume: “O Jesus histórico não é o Jesus real. O Jesus real não é o Jesus histórico”. Eu subscrevo isto plenamente (salvo que os historiadores franceses falem um pouco diferentemente da ciência histórica).

Outro caminho é o da “hermenêutica narrativa”, com base na exegese escriturária, o que vocês chamam de “cristologia neo-testamentária”, a qual me parece bastante prática em nossos dias. Há exegetas bastante desconfiados em relação à “teologia bíblica”; eles chamam atenção que a cristologia de Marcos não é a mesma de João etc.; a análise literária das parábolas, ou a análise narrativa dos relatos de curas chegam, no entanto, a resultados interessantes, embora tenham talvez limites metodológicos para permanecer no quadro da “história” de Jesus. Eu não diria mais do que isso, porque, por preconceito metodológico, eu não pratico pessoalmente este gênero de cristologia, enquanto ele apela às ciências exegéticas que não são da competência do teólogo (em todo o caso, não da minha).

Haveria uma terceira via para uma cristologia, que seria capaz, como dizeis, de “recuperar o terreno da narrativa evangélica” e de “centrar-se novamente na história de Jesus”?

De minha parte, eu pretendi fazer teologia, mas não exegese, “narrativa”, baseada, mas não “centrada”, na história de Jesus. Não há teologia cristã que não esteja fundada sobre a revelação e sobre a fé no Cristo, e a fé no Cristo parte da ressurreição de Jesus, a qual, a meu ver, pertence antes à história de Jesus, mas não é considerada pelos historiadores (nem por mim) como um dado “histórico”, verificável pelos procedimentos historiográficos.

O teólogo deverá questionar-se sobre a confiabilidade dos testemunhos dados pelos evangelistas sobre a ressurreição de Jesus, examinar de que modo eles próprios chegaram à fé nele, procurar em que a ressurreição é um evento de revelação, e depois refletir à luz da revelação sobre toda a história de Jesus, como o fizeram os evangelistas, para reconhecer Jesus como verdadeiro revelador de Deus, desvendando-se o pleno significado do evento Jesus percebido como evento de revelação e de salvação.

Haverá, então, bem outra coisa do que “a estrutura de seu ser”, na qual, é verdade, a antiga teologia se enclausurara exclusivamente, mas trata-se também de algo mais do que de contar a história do homem Jesus: nele, se concentra a história inteira da revelação e da salvação, o inteiro significado da relação de Deus com os homens e da fé dos homens em Deus.

É neste deslocamento que a teologia entra em diálogo com a filosofia sobre as questões do sentido; e, é através destas questões que ela pode novamente fazer entender o “rumor de Jesus”, que ressoa nos apelos messiânicos dos povos, apelos diferentes segundo a cultura e a história de cada um.

Cristianismo e Modernidade se encontram no terreno da Teologia

O encontro do cristianismo com a modernidade, se vocês entendem por “modernidade” o movimento das idéias após o século XVII, deu-se, evidentemente, no terreno da teologia; mas também sobre o da exegese e da história bíblica, se vocês estendem a modernidade às ciências constitutivas da “cultura contemporânea”.

No segundo plano, é muito importante que todas as “ciências eclesiásticas” trabalhem com os mesmos instrumentos e segundo os mesmos procedimentos adotados pelo conjunto das “ciências humanas” e em contato umas com as outras. Isto é necessário para que a fé cristã seja respeitada nos ambientes sábios, freqüentemente descrentes, e este é também o meio para fazer penetrar nos mesmos um pouco do pensamento cristão.

No primeiro plano, o pensamento cristão contribuiu fortemente para a formação do pensamento moderno, enquanto desenvolveu poderosamente a consciência de si do indivíduo, o sentimento da responsabilidade pessoal, a emergência do sujeito, a reivindicação da liberdade e dos direitos da pessoa humana. A autoridade católica combateu, infelizmente, essas idéias, quando via nelas um perigo para a instituição eclesiástica; seguiu-se a laicização da sociedade ocidental e o abandono da fé por muitos europeus imbuídos das “novas idéias”. O Vaticano II abriu caminho para uma reconciliação. A cristologia pode aí trabalhar mostrando como o humanismo, ao qual aspira à sociedade moderna, tem sua fonte no Evangelho; ela ajudará, desta forma, o pensamento filosófico a novamente abrir-se para o “pólo infinito” do espírito humano, que ela corre risco de perder, segundo o diagnóstico de Husserl .

O diálogo possível é sobre o humanismo evangélico

Convém, igualmente, que a teologia trinitária entre em “diálogo com as grandes tradições monoteístas”?, perguntam vocês ainda. Caso se trate de velar o aspecto trinitário da revelação cristã para facilitar um acordo sobre a unicidade de Deus, não, eu não vejo interesse nisso, malgrado as tímidas tendências de alguns teólogos cristãos contemporâneos. Eu não vejo, sobretudo, a que isso seria verdadeiramente útil, pois o conceito trinitário depende do conceito da encarnação, e jamais a idéia de uma encarnação de Deus será aceita pelos outros monoteísmos.

Eu sublinhei, ao contrário, como vocês justamente observaram, que a fé trinitária não consiste em nomear as Pessoas divinas e a mantê-las afastadas umas das outras, mas, ao contrário, em contemplar e adorar esse élan imóvel do amor divino, que é o próprio ser de Deus, a circulação do amor doado, recebido e entregue, dom de si ao outro e acolhimento da alteridade na intimidade do mesmo.

A teologia deve, sobretudo, mostrar que o amor trinitário é aquele pelo qual Deus em si é essencialmente Deus-para-nós, e é este o ponto no qual a teologia trinitária está ligada ao mistério do Cristo. Se este ponto é inaceitável para as outras religiões, então não é sobre o ser uno de Deus, nem sobre o ser do Verbo encarnado que o diálogo poderá conectar-se, porém sobre o humanismo evangélico, o mais apropriado para desarmar as violências das quais as grandes religiões são portadoras. O Evangelho traz à fé trinitária este testemunho de que Deus é acolhido pelo outro: é desta verdade que o mundo mais necessita.

Eu deixo nesta mensagem, caros amigos estudantes brasileiros, agradecendo por acolhê-la.

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