Edição 248 | 17 Dezembro 2007

Jesus para além de relativismos e fundamentalismos

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IHU Online

“O centro do cristianismo não é a religião cristã, porém Cristo como representante de Deus”, destaca Reinhold Bernhardt, catedrático de Teologia Dogmática na Basiléia, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line.  Isso torna os cristãos humildes. A certeza da fé pode ser firme, sem precisar rejeitar e excluir outras certezas de verdade religiosa. Bernhardt aceitou o desafio de falar sobre Jesus e o diálogo possível entre as diversas visões teológicas sobre Ele.



Reinhold Bernhardt é, desde 2001, professor de Teologia dogmática e sistemática na Universidade da Basiléia, na Suíça, onde atualmente é decano da faculdade de teologia, bem como editor de Theologischen Zeitschrift. Em 1989, obteve seu doutorado na faculdade de teologia, em Heidelberg. O foco principal de seu trabalho é a teologia das religiões. É autor de, entre outros,  Metapher und Wirklichkeit e Ende des Dialogs? Die Begegnung der Religionen und ihre theologische Reflexion, TVZ Zürich 2006. Em espanhol, pode ser lido o seu livro La pretensión de absolutez del cristianismo. Desde la Ilustración hasta la teología pluralista de la religión (Bilbao: Desclée de Brouwer, 2000). Confira a entrevista.

IHU On-Line - Quem é Jesus? O que pode afirmar sobre Ele a partir de sua reflexão teológica?
Reinhold Bernhardt -
Jesus é o “Representante” de Deus. Ele esteve tão perpassado pela força da presença de Deus, que se podia e se pode dizer: ele é a “imagem do Deus invisível” (Colossenses 1,15). Mas isto não se deve entender fisicamente, como se Jesus fosse Deus transformado num homem. Ele é plenamente homem, mas, como tal, ele está totalmente entregue a Deus, totalmente locupletado do Espírito de Deus, do incondicional amor humano de Deus, da vontade e da graça de Deus. Ele é “unido” (união espiritual) com Deus, porém não “um só” (unicidade física). Porque ele representou o universal e incondicional voltar-se de Deus para sua criação (re-presentar = tornar presente), em seu anúncio e em sua práxis ele ultrapassou limites étnicos, sociais e também religiosos. Por isso, ele também apreciava não-judeus como escolhidos por Deus (Lucas 4,26s) e os destacou como modelos de fé (Mateus 8,5-13; 15, 21-28) – sem incitá-los a segui-lo. No exemplo do bom samaritano, Jesus não colocou antes os olhos dos judeus o sacerdote, que ia apressadamente ao serviço divino em Jerusalém, nem o levita, porém um homem da Samaria, por eles considerado como descrente, como desinteressado prestador de socorro. (Lucas 10, 29-37). Para Jesus, não era decisiva a confissão religiosa, também não o reconhecimento dele pela fé (Mateus 7,21), porém fazer aquilo que Deus quer: solidariedade ativa para com famintos, enfermos, estrangeiros, prisioneiros (Mateust 25,31ss.). E assim ele dizia: “Quem faz a vontade de Deus, é meu irmão e minha irmã e minha mãe” (Marcos 3,35). Por isso, “virão do Oriente e do Ocidente, do Norte e do Sul, os que sentarão à minha mesa no Reino de Deus” (Lucas 13,39).

IHU On-Line - Em suas obras o senhor defendeu a singularidade de uma inclusão não exagerada para obter uma reflexão correta sobre a relação do cristianismo com as outras religiões. O senhor sublinha a validade da pretensão cristã pela verdade, enquanto ela é entendida como expressão lingüística e doxológica. O senhor sublinha corretamente que ela consiste numa proposição confessional com caráter existencial. Como desenvolve esta posição?
Reinhold Bernhardt -
Jesus Cristo representa a verdade de Deus, no modo como ela é transmitida no Novo Testamento. Segundo Paulo, ser cristão significa: estar-em-Cristo, e isto novamente significa: estar-na-verdade-de-Deus. Isto, primariamente, não é uma verdade proposicional, que se pode “ter” e “afirmar” como soma de convicções, mas é uma afirmativa confiável. Ela soa: “Nada nos pode separar do amor de Deus”. Trata-se de uma verdade existencial, a partir da qual o ser humano pode viver. Ela renovadamente transforma sua vida. Quando, na Bíblia, as pessoas se declaram partidárias de Cristo, elas não falam a linguagem dos fatos, e também não a linguagem da reflexão teológica, porém a linguagem da confissão e reconhecimento pessoal. Assim, eu também entendo a palavra de Cristo: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai senão por mim” (João 14,6) como sentença experiencial de um cristão que crê em Cristo e que quer testemunhar ao outros humanos que em Cristo realmente está aberto o caminho para Deus. Confissão de adesão é louvor a Deus. E este louvor se articula na linguagem da louvação (doxologia). Deve-se considerar conjuntamente a espécie de linguagem na exposição das tradições bíblicas.

IHU On-Line - Como, em tempos de pluralismo religioso, pode ser justificada a pretensão de absolutez do cristianismo?
Reinhold Bernhardt -
O cristianismo não pode impor para si mesmo, como religião, nenhuma pretensão de absolutez. Triunfalismo religioso é expressão de pecado como separação de Deus. O centro do cristianismo não é a religião cristã, porém Cristo como representante de Deus. Karl Barth , meu predecessor na Cátedra de Dogmática na Basiléia, distinguiu nitidamente entre religião e revelação. O autocentrismo da religião ele denominou de “descrença”. A religião autêntica é reconhecida no fato de que ela se autotranscende e relativiza, ou seja, que ela aponta para a inesgotável verdade de Deus que a precede. Esta verdade é absoluta. Todas as tentativas religiosas de entendê-la permanecem como historicamente relativas. Isto deveria tornar humildes os cristãos. A certeza da fé pode ser firme, sem precisar rejeitar e excluir outras certezas de verdade religiosa.

IHU On-Line - Que aspectos de um pensar e agir plural podem ser apontados na vida e na missão de Jesus?
Reinhold Bernhardt -
De um lado, Jesus sabia ser enviado aos judeus (Mateus 15,24), e ele também enviou seus discípulos aos judeus (Mateus 10,5s). Assim, ele não teve nenhum motivo para polemizar com os cultos não-judaicos e com seus deuses enquanto tais. Ele não utiliza sua palavra para falar sobre a atividade multi-religiosa na cidade helenista de Sepphoris, que só distava 8 km de sua cidade natal Nazaré. E também não nos é transmitida nenhuma sentença contra outros povos ou cultos, mas simplesmente admoestações aos destinatários de seu anúncio, isto é, aos seus próprios adeptos. A eles se diz que Deus convida outros quando eles não seguem ao seu convite (Mateus 8,11s; Lucas 14,16-24). De outra parte, Jesus transgrediu soberanamente limites religiosos, quando se tratava do advento do Reino de Deus. Ele estava convencido que Deus busca a salvação de todos e que ele, como bom Pai e bom Pastor vai em busca daqueles que se perderam (Lucas 15) e que ele não retira o convite para sua grande ceia, quando os primeiros convidados não a aceitam, porém estende o convite tanto mais longe (Lucas 14,16-23). Quando, segundo João 4, ele se sentou com a mulher samaritana junto ao poço e até ainda permaneceu dois dias em sua aldeia, ele quebrou um tabu: era proibido aos judeus ter contato com os desprezados samaritanos. Segundo Atos dos Apóstolos 10,34s, Pedro também reconheceu “que Deus não olha para a pessoa, porém que em qualquer povo lhe é bem-vindo quem o teme e faz o que é reto”.

IHU On-Line - Em que aspectos da vida de Jesus podemos refletir sobre uma posição situada além do relativismo e do fundamentalismo?
Reinhold Bernhardt -
Jesus esteve plenamente direcionado para Deus e para o advento do Reino de Deus. Nesta relação com Deus ele viveu, pregou e agiu. Nisto ele foi tudo menos um relativista que tivesse deixado ficarem lado a lado todas as pretensões de verdade religiosa. O que contradizia à incondicional vontade amorosa de Deus, ele criticava duramente: “A lei existe para o homem, e não o homem para a lei”!  Assim, ele entrava renovadamente em conflito com os guias de sua própria religião, os sacerdotes e doutores da lei. Mas isto não é nenhuma expressão de fundamentalismo religioso. Jesus repetidamente desviava a atenção de si, apontando para Deus, como p.ex. em Marcos 10,18 e 13,32, ou em Mateus 20,23. Ele não queria nada em seu favor e não procurava sua própria glória (João 8,50). A distinção entre a verdade de Deus e a verdade da religião é um remédio contra a doença do fundamentalismo.

IHU On-Line - Que desafios comuns podemos encontrar no presente diálogo inter-religioso e no diálogo da religião com a ciência?
Reinhold Bernhardt -
Nós nos encontramos em face de enormes problemas globais e locais, que exigem esforços comuns das religiões. O “diálogo da vida” é cada vez mais importante. Recentemente, 138 líderes religiosos muçulmanos  se dirigiram em carta aberta aos responsáveis das igrejas cristãs e convidaram para um diálogo na base do comum mandamento do amor a Deus e ao próximo. Este é um sinal importante para uma aproximação – precisamente em vista das atualmente tensas relações entre o cristianismo e o islã. Para o Brasil, também o diálogo intra-cristão com as igrejas carismáticas livres desempenhará importante papel. No colóquio com os cientistas da natureza, trata-se, no momento, sobretudo de um conflito entre o criacionismo, a narração bíblica da criação, a cosmologia natural científica e a teoria da evolução. Aqui, a teologia acadêmica deve realizar amplo trabalho de esclarecimento, para mostrar que a narração bíblica originária não pode ser entendida como teoria sobre a origem do mundo e que por isso também não pode entrar em concorrência com modelos das ciências naturais.

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