Edição 248 | 17 Dezembro 2007

Jesus pertence ao conjunto da humanidade

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

IHU Online

“Para os hindus, que têm um panteão de 360 milhões de deuses, acrescentar Jesus ao seu panteão pode não ser algo difícil, mas o que é atraente e desafiador para eles é que em sua humanidade eles sejam capazes de experienciar o divino”, explica o teólogo professor e pesquisador da Universidade de Madras, Índia, Felix Wilfred. Para ele, a centelha do divino que o hinduísmo crê estar na alma de toda realidade humana, natural e cósmica é mais intensamente realizada e manifestada na humanidade de Jesus. Wilfred aborda diversos aspectos da teologia e espiritualidade hindu e as diferenças de algumas concepções teológicas ocidentais e orientais, a primeira fortemente influenciada pelo Iluminismo.


Felix Wilfred é professor no Departamento de Cristianismo da Universidade de Madras, em Chenai, na Índia. Escreve freqüentemente artigos para prestigiosos jornais de âmbito nacional e internacional, entre os quais citamos Pro Mundi Vita (da Bélgica), Pro Dialogo (da Itália), Seleccciones de Teologia (da Espanha), Communio e Concilium (da Holanda). Felix Wilfred também contribui com seus artigos para a New Catholic Encyclopedia, para Lexikon fuer Theologie und Kirche e para o Cambridge Dictionary of Theology.

IHU On-Line - Quem é Jesus Cristo? O que destacaria sobre ele a partir de sua reflexão teológica?
Felix Wilfred - Jesus
é alguém tão fascinantemente humano que não se pode deixar de amá-lo. Ele pertence a toda a humanidade. Ele não é o monopólio de algum grupo, comunidade ou religião. Nele aprendemos a gramática do que é ser humano. Sua vida e seus ensinamentos são também uma janela para o incompreensível mistério divino. Nele, temos um relance do que é inenarrável e inexplicável – o mistério que circunda nossa vida humana, o mundo e o universo inteiro. A luz de sua vida e de seu ensinamento incide sobre nossa falibilidade humana e dissipa a escuridão de dentro e de fora. Jesus também simboliza os sonhos e aspirações de uma vida humana plena e plenificada. A esperança que é difundida com sua chegada é que ninguém precisa resignar-se e conformar-se com a ordem existente. Ele mostra que um mundo diferente é possível, que alternativas não são simplesmente uma quimera, mas são possíveis para aqueles que têm coragem de sonhar, mesmo quando tudo parece desmoronar.

IHU On-Line - Qual foi a recepção da mensagem do Evangelho e da vida de Jesus para a população asiática?
Felix Wilfred -
Podemos distinguir duas correntes centrais na recepção da mensagem do Evangelho e da vida de Jesus entre os povos asiáticos. Como dizia Gandhi , para um homem faminto, Deus aparece na forma de alimento. Milhões de asiáticos marginalizados e vitimados encontraram na mensagem de Jesus nova dignidade, aceitação e uma fonte de libertação das forças opressivas, tanto tradicionais como modernas. Por exemplo, os 150 milhões de Dalits (os assim chamados “Intocáveis”) da Índia encontram a vida e a mensagem de Jesus vibrando com sua própria vida, embora nem todos se tornem cristãos. Nas casas de muitos cristãos intocáveis empobrecidos, a Bíblia é o único tesouro. Eles a tratam com carinho, a lêem e deixam suas vidas serem por ela iluminadas. De fato, como é bem conhecido da história missionária, por toda a Ásia são os segmentos mais pobres e marginalizados da sociedade que abraçaram a fé cristã. (Incidentalmente, Jesus é alguém que foi considerado significativo entre os mais pobres do mundo atual – algo claramente demonstrado pelo emergente eclipse do cristianismo dos países mais prósperos e de seu movimento em direção às partes mais pobres do mundo.) Isto foi um embaraço para os missionários que esperavam por uma rica safra de almas entre as castas e classes mais altas. Há, também, outra corrente de resposta a Jesus entre as classes e castas mais altas profundamente inseridas em suas tradições religiosas e culturais. Estes povos se apropriam de Jesus e da mensagem do Evangelho somente a partir de sua experiência e compreensão do mundo. É, por assim dizer, um metabolismo espiritual, pelo qual eles absorvem da pessoa e mensagem de Jesus, o que contribui para seu crescimento espiritual e os fortalece em sua vida diária. Isto explica porque, para muitos hindus, Jesus incorpora todos aqueles sublimes ideais que o hinduísmo defende. Em síntese, para eles, Jesus é um ideal hindu e, por isso, ele não é estranho a seu anseio espiritual. É aqui que precisamos entender uma falta de convergência entre a pregação missionária e o anseio espiritual do povo. Apresentando-o na forma de uma imagem: os missionários cavaram um túnel com todas as ferramentas disponíveis para chegarem ao povo, mas o povo tinha sua própria passagem e túnel e ambos e nenhum deles jamais atingiu ou simplesmente cruzou com o outro. Por isso, é importante que Jesus e a mensagem do Evangelho sejam inseridos nos anseios dos povos de outras tradições religiosas. Nesta apropriação, muitos hindus conseguiram entender, graças à mensagem do Evangelho, que a passagem ao divino se desenvolve através da humanidade. Para os hindus, que têm um panteão de 360 milhões de deuses, acrescentar Jesus ao seu panteão pode não ser algo difícil, mas o que é atraente  e desafiador para eles é que em sua humanidade eles sejam capazes de experienciar o divino. A centelha do divino que o hinduísmo crê estar na alma de toda realidade – humana, natural e cósmica – é mais intensamente realizada e manifestada na humanidade de Jesus. Não há oposição entre o humano e o divino. Podemos entender esta compreensão de Jesus pelos hindus, se nos dermos conta que a compreensão da verdade do divino e o crescimento do humano não estão, afinal, em proporção inversa. Eles fazem parte de um e mesmo movimento.

IHU On-Line - Em que sentido a experiência de Cristo, apresentada por alguns santos hindus, como Ramakrishna ou Gandhi, provoca, em seu ponto de vista, um impacto mais amplo do cristianismo na Índia do que a corrente pregação através da obra missionária durante os últimos cinco séculos?
Felix Wilfred -
Penso que a resposta a esta questão está básica e precisamente naquilo que eu disse. É desafiador que uma pessoa que mais contribuiu para modificar o mapa religioso da Índia tenha sido uma pessoa iletrada – Ramakrishna Paramhamsa, do século XIX. Ele foi um místico cuja experiência foi além de sua tradição hindu. Ele proclamou ter tido uma experiência mística de Jesus. Similarmente, Gandhi foi alguém que procurou praticar o “Sermão da Montanha”, que ele caracterizou como um cristianismo a ser ainda vivido. Posso nomear um bom número de tais pessoas. O fato de a interpretação de Jesus e de sua mensagem junto a estes povos ter tido uma influência mais profunda e duradoura em toda a Índia deve-se ao fato de eles terem feito esta interpretação no contexto e através de sua própria experiência. 500 anos de contínua pregação missionária resultou numericamente em exatos 2,5% de cristãos na Ásia. Se a obra missionária não produziu os resultados esperados, é porque, excluindo algumas exceções, a maioria dos missionários apresentou Jesus a partir de outros pressupostos, e o relacionamento com povos de outras crenças foi negativo e apologético. O que não deveríamos deixar de reconhecer é que Jesus é venerado e amado por milhões de asiáticos que não pertencem à Igreja ou ao cristianismo. Seu número está crescendo. Também preciso acrescentar o fato de que os asiáticos, em seu anseio espiritual, não são impressionados quando as religiões são apresentadas como sistemas de pensamento nos quais se deve crer. Uma concepção categorial que proclama que alguém ou é cristão (aderindo ao sistema de fé) ou não, não afina com o processo espiritual dos hindus e de outros povos que crêem numa concepção mais fragmentária, antes do que numa concepção sistemática da religião. Isso decorre do caráter irresistível e incompreensível do mistério divino, do qual eles são profundamente cônscios, desistindo, por isso, de qualquer idolatria de sistemas.

IHU On-Line - É preciso reconhecer a singularidade da dimensão interior como traço significativo da compreensão da revelação no contexto asiático. Em alguns artigos, o senhor sublinhou que esta dimensão interior está presente na mensagem de Jesus sobre o Reino de Deus, com uma repercussão na sólida tradição cristã. Quais são algumas vias para recuperar esta dimensão interior?
Felix Wilfred -
A concepção asiática da religião enfatiza o crescimento espiritual interior através de um processo que dura a vida toda. O mapa espiritual interior é moldado e cultivado continuamente. Há pouca insistência nos aspectos institucional e doutrinal da religião. Além disso, há bem maior fluidez nestas questões, como assistir uma pessoa em seu crescimento interior, que é sempre uma senda única. Cada pessoa tem sua caminhada singular em direção ao mistério divino e ao “Reino de Deus”, que não pode ser aplicada a outros. Não há, portanto, uma estandardização espiritual. Vemos isto refletido nas palavras de Jesus, quando diz: “O Reino de Deus está dentro de vós”. De modo semelhante, o Sermão da montanha, a vida e a morte de Jesus nos ajudam a expandir nosso espaço interior. Na teologia cristã clássica, a doutrina da graça é algo que é pensado precisamente para sublinhar a comunicação entre a livre autocomunicação divina, à qual uma pessoa está chamada a responder constantemente em paz e assim configurar seu próprio self e identidade. A Revelação também não é entendida como algo identificado exclusivamente com as Sagradas Escrituras, mas como algo revelado pelo Espírito no coração e na mente dos que crêem. Para recuperar esta dimensão interior, é importante que a religião seja antes entendida como uma experiência. Em segundo lugar, o despertar e a iluminação interior requerem certa preparação. Uma das coisas que a tradição indiana clássica enfatizou para esta experiência interior é a prática da moderação e da renúncia. Isto não pode ser entendido erroneamente como uma negação do mundo. A renúncia aqui concebida não envolve o desengajamento da situação histórica concreta e de seus desafios. Ela somente significa um engajamento sem apego aos frutos da própria ação (nishkamakarna). Ela também apela para a atitude de uma orientação espiritual que previna qualquer objetivação ou idolatria da religião. Ela implica, ainda, a prática da meditação e contemplação. No que se refere a Jesus, ela significa, para os que crêem, realizarem pessoalmente a experiência dele. 

IHU On-Line - Como caracterizar a peculiaridade teológica asiática no questionamento de uma linguagem racionalista que poderia reduzir a percepção mais ampla e mais enigmática do mistério divino?
Felix Wilfred -
O pensamento, a lógica, os argumentos e debates racionalistas não são algo novo para os povos asiáticos. Através dos séculos, a Índia desenvolveu sistemas e procedimentos lógicos bastante complicados. No entanto, isto nunca foi pensado como a parte mais importante na teologia hindu. É por isso que a mente indiana – e em geral a asiática – não sintoniza com uma teologia que explica as coisas muito lógica e coerentemente, dando por vezes a falsa impressão que elas devam ser identificadas com a verdade. A mente asiática aborrece qualquer coisa desse estilo. Isto não é somente por causa da teologia negativa (“teologia apofática” em termos cristãos), que reconhece a incompreensibilidade de Deus e a impossibilidade de definir o mistério divino, mas também devido a uma antropologia diversa.

A tradição asiática reconhece não somente um esquema binário de corpo e mente. Dentro da estrutura do ser humano há um terceiro elemento, indicado como espírito e este vai além da área da mente. A experiência do divino toma lugar nesta dimensão do espírito, que tem um efeito holístico na transformação da mente e do corpo humano. Os instrumentos da racionalidade (tais como a lógica e a coerência) aplicáveis ao estudo do mundo empírico (vyavakarika) tateiam e com freqüência fracassam no limiar do verdadeiramente Real (paramartika) ou do Último.

IHU On-Line - Falamos hoje em dia com grade ênfase sobre o pluralismo religioso como novo paradigma para a teologia. Quais são os traços que definem o modo de percepção do pluralismo no contexto asiático?
Felix Wilfred -
Eu sempre insisti na necessidade de distinguir a concepção ocidental do pluralismo religioso da experiência asiática do pluralismo religioso. Simplificando: o pluralismo ocidental é, de certa forma, o fruto da Tradição do Iluminismo ocidental. Aqui, os clamores dogmáticos de absolutismo religioso foram provocados (pensem, por exemplo, no anel de Nathan, de Lessing). O Iluminismo preparou o terreno para o reconhecimento e a legítima pluralidade das tradições religiosas. Ela produziu frutos em nossa época como a teologia do pluralismo. Enquanto a teologia ocidental do pluralismo é um meio de chegar a um nível conceitual com diversidade religiosa, na Ásia o pluralismo religioso é novamente matéria de experiência na vida cotidiana. Ela se origina de uma busca espiritual que deseja integrar o que os povos de outras crenças, diversas da nossa, têm, crêem, vivenciam e celebram. É uma espécie de fluidez e as margens entre as tradições religiosas são porosas. É por isso que, num de meus artigos, eu caracterizei isso como “cosmopolitismo religioso”. Penso que devemos, hoje em dia, falar antes de cosmopolitismo religioso do que de pluralismo religioso. Isto poderia apelar, da parte dos cristãos, para a prática do relativismo cristão. Há uma ampla evidência no Evangelho, que traz à nossa consciência a interconexão que existe em tudo, o que é uma garantia contra a esclerose e a atrofia espiritual.

Últimas edições

  • Edição 546

    Diálogo interconvicções. A multiplicidade no pano da vida

    Ver edição
  • Edição 545

    Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

    Ver edição
  • Edição 544

    Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

    Ver edição