Edição 248 | 17 Dezembro 2007

A unidade de Jesus com os seres humanos

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Peter Hünermann

O teólogo alemão Peter Hünermann apresenta, no artigo a seguir, alguns traços significativos da pessoa e da proposta de Jesus de Nazaré. Hünermann respondeu unicamente à primeira pergunta proposta pela IHU On-Line, “Quem é Jesus?”, a partir de passagens bíblicas do Antigo e do Novo Testamento. Peter Hünermann é professor emérito de Teologia Dogmática, na Universidade de Tübingen, na Alemanha. Estudou Filosofia e Teologia em Roma, Munique e Freiburg. Autor de uma vasta obra teológica, citamos a de cinco volumes intitulada Herders Theologischer Kommentar zum Zweiten Vatikanischen Konzil, Freiburg 2004/5.

Jesus de Nazaré encontrou-se com os homens de sua época e ele se encontra com os homens de hoje como alguém que é inteiramente preenchido por Deus, e é um com Deus, seu Pai. Ele se encontra com as pessoas como alguém que está totalmente aberto para os humanos, sendo um com eles. Os Evangelhos descrevem isto de maneira explícita. Sua unidade com Deus manifesta-se em sua oração (Lucas, o Evangelista, fala em cada capítulo de Jesus orando). Jesus vive do cumprimento da vontade de Deus: “Meu alimento é fazer a vontade de Deus” (João 4, 34). Ele busca sua honra (João 8, 49). Ele anuncia o seu Reino: “Completaram-se os tempos, está próximo o Reino de Deus, convertei-vos e crede no Evangelho” (Marcos 1, 15).

Jesus vive a unidade com os homens, principalmente com aqueles que estão ameaçados e em perigo em sua humanidade, vive com os pobres, os enfermos, os socialmente marginalizados, as crianças. Assim, Jesus pode dizer aos discípulos de João Batista: “Ide e anunciai a João o que vistes e ouvistes. Cegos vêem, coxos andam, leprosos são curados, surdos ouvem, mortos ressuscitam e aos pobres é anunciada a Boa Nova (Lucas 7, 22)”. Homens e mulheres fazem parte de seu círculo de discípulos. De sua unidade com Deus e de sua unidade com os homens, sua vida adquire uma inaudita firmeza e incondicionalidade. Ela o conduz a uma dura crítica também às autoridades religiosas, à sua inautenticidade e sua desfiguração da vontade de Deus: “Então Jesus falou às multidões e aos seus discípulos, dizendo: ‘Na cátedra de Moisés se assentaram os escribas e os fariseus. Fazei, pois, e observai tudo o que eles vos disserem, mas não os imiteis em suas ações’ (Mateus 23, 1ss.)”, seguindo, então, a longa lista dos aspectos críticos. Porém, da mesma forma Jesus criticou as falsas condutas do povo, que marcam amplamente o comportamento público da sociedade de sua época. O Sermão da Montanha de Jesus está repleto de tais pontos críticos (Mateus 5).

Mas Jesus não é apenas um pregador moral. Tal conduta, que ele denuncia, contradiz a vontade de Deus e traz consigo o julgamento de Deus. Ele não se coaduna com o Reino de Deus. Para ingressar no Reino de Deus, é necessária a conversão. E Deus perdoa o pecador, perdoa os pecados e se reconcilia com os homens. Em suas grandes parábolas, Jesus fala da alegria que há em Deus, quando um pecador se converte (Lucas 15). 

Esses conflitos levam à condenação de Jesus à morte na cruz. É a mais cruel forma de execução daquela época.

Esta admirável conduta de Jesus, seu anúncio, sua práxis, não são apenas sua condição privada, sua “manifestação ou aparecimento”. Com seu anúncio do domínio de Deus que está próximo, com sua mensagem de conversão e reconciliação com Deus, Jesus pretende cumprir as palavras dos profetas. Na primeira pregação pública em Nazaré, Jesus lê a palavra de Isaías 61, 1 s.: “’O espírito do Senhor está sobre mim, porque o Senhor me ungiu, para trazer aos pobres a Boa Nova’... Fechou então o livro... e começou a expor-lhes: ‘Hoje se cumpriu a palavra da Escritura que acabais de ouvir’” (Lucas 4, 18-22). Israel crê num único Deus, Criador do céu e da terra. Ele crê que Deus escolheu Abraão e seus antepassados para serem suas testemunhas em meio às crenças idolátricas pagãs. Israel crê que Deus libertou o povo do Egito, que ele foi seu Juiz e justiceiro, que conduziu o povo, por causa de seus pecados, ao exílio na Babilônia. Israel espera – segundo a palavra do Profeta - que neste mundo, marcado pela sombra da morte, brilhará Sua Luz, de modo que também os povos pagãos serão conduzidos junto com Israel (Isaías 2, 1-5), que será fundada uma nova aliança, na qual Deus dará sua “lei” no interior dos homens e a inscreverá em seu coração: “Ninguém mais terá que instruir seu próximo ou irmão, dizendo: ‘Reconhece o Senhor!’ porque todos me conhecerão, dos menores aos maiores – oráculo do Senhor – porque perdoarei sua culpa e não mais me lembrarei de seu pecado” (Jeremias 31, 31-34). Esta intervenção de Deus está conectada com o suscitar de um rebento da raiz de Davi (cf. Jr 23, 5-8); em Is 42, 1 ss.: 49, 1 ss., 50, 4 ss.; 52, 13 ss. Encontra-se o anúncio do Servo de Deus, no qual Deus depositou seu Espírito e que levará aos povos o direito (42, 1). Ele deverá renovara a Aliança com o povo, anunciar aos povos a salvação de Deus, porém ele encontrará rejeição. Ele será “maltratado e humilhado” (Is 53, 7), condenado e morto, “embora ele não tivesse praticado nenhuma injustiça nem houvesse falsidade em sua boca” (Is 53, 9). Porém, Deus não o mantém na morte: “Por isso, lhe darei sua participação entre os grandes e com os poderosos ele partilhará os despojos, porque ele entregou sua vida à morte e se deixou contar entre os malfeitores. Na realidade ele carregava os pecados de muitos e intervinha em favor dos culpados” (Isaías 53, 12).

Por causa de sua mensagem, por causa de sua obra, a seguinte pergunta acompanha Jesus: “És tu aquele que deve vir, ou devemos esperar por um outro?” (Mt 11, 3). Mas Jesus não se proclama simplesmente como o “Filho de Davi”, o “Messias”, o Ungido de Deus. Não deve o próprio Deus dar testemunho de seu Ungido que em seu nome e missão traz à história a salvação de Deus? No final de sua vida, na sessão do tribunal, ele, em todo o caso, responde publicamente à pergunta do Sumo Sacerdote: “És tu o Messias, o Filho de Deus bendito?” “Eu o sou” (Mc 14, 61 s.). Pilatos assume esta acusação, que Jesus se teria constituído rei de Israel e fixa esta acusação na inscrição da cruz: “Jesus de Nazaré, Rei dos Judeus”.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                     

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