Edição 248 | 17 Dezembro 2007

Jesus e as imagens sobre Deus: para além do masculino e do feminino

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IHU Online

A teóloga estadunidense Elizabeth Johnson aborda, na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line, alguns elementos para refletir a imagem de Jesus que historicamente fomos construindo e as relações de poder que derivam dela. “Nenhuma idéia ou imagem poderá jamais captar a plenitude deste mistério. Como totalmente além e acima do gênero, Deus não é nem homem nem mulher, mas Criador de ambos, igualmente, em sua divina imagem e semelhança. Por conseguinte, podemos falar sobre Deus em termos tanto masculinos como femininos, bem como em termos animais e cósmicos”, afirma Johnson. Entre a variedade de imagens bíblicas sobre Deus ela lembra do ruah, Espírito, a respiração feminina da vida impregnando o mundo, o fogo, o leão. “Nenhuma destas imagens é pensada literalmente. Todas elas são como dedos apontando para a lua, modos que temos para apontar para a plenitude do mistério divino”, explica a teóloga.

Elizabeth Johnson é teóloga feminista e atua como docente da Fordham Universitsy. De sua bibliografia, destacamos o livro She who is: the mystery of God in feminist theological discourse (New York: Crossroad, 1992).

IHU On-Line - Quem é Jesus Cristo? O que destacaria sobre ele a partir de sua reflexão teológica?
Elizabeth Johnson -
 No decurso dos séculos, as pessoas moldaram diversas maneiras de identificar Jesus. Ele é o Messias, o servo sofredor, o Caminho – a Verdade –, a Vida, o profeta, a esperança dos perdidos, o libertador, o filho de Maria, o filho de Deus, o profeta da Sabedoria, o Verbo feito carne, o guru, o bom Pastor, a Árvore da vida sob a qual encontramos sombra num dia quente, a face humana de Deus, a Luz do mundo, o Senhor. Na teologia cristã, ele é a ponte que conduz Deus e o mundo através da encarnação (Deus se torna um com a carne do mundo) e ressurreição (a carne do mundo é impregnada com a vida de Deus no Cristo ressuscitado). Sem a vida de Jesus, seu ministério, sua morte e ressurreição, não haveria religião cristã.

IHU On-Line - O que é peculiar na reflexão hermenêutica feminista sobre Jesus Cristo?
Elizabeth Johnson -
As mulheres começam com uma hermenêutica da suspeita sobre a maneira com que é usado o sexo masculino de Jesus no ensinamento da Igreja, para marginalizar a elas e a suas irmãs. Elas refletem que a masculinidade de Jesus foi usada contra elas de três maneiras: para assumir que Deus é macho, para argüir que os homens são mais amados por Deus do que as mulheres, e para ensinar que, por serem mulheres, elas não podem representar Cristo como sacerdotes ordenados na Igreja Católica. Em seguida, as mulheres se movem para uma hermenêutica da reminiscência. Elas estudam os Evangelhos e vêem como Jesus chamou mulheres para serem suas discípulas, como elas foram testemunhas fiéis junto de sua cruz e sepultamento, como ele apareceu primeiro a elas na manhã da Páscoa e lhes deu a missão de pregar a Boa Nova. Elas estudam como ele se associou com mulheres na dor, na doença e no perigo, levando-lhes cura e esperança. Elas vêem como ele usou o exemplo de uma mulher procurando a moeda perdida para representar Deus Redentor buscando os pecadores perdidos. E elas jamais encontram uma única palavra ou gesto em que Jesus rebaixaria mulheres. Elas concluem com uma hermenêutica da esperança. O problema não é que Jesus tenha sido um homem, mas que muitos homens não são como Jesus. Na luz de seu exemplo, a igreja e a sociedade devem ser transformadas para tratar as mulheres como pessoas humanas plenamente adultas.

IHU On-Line - É correto dizer que a teologia feminista favorece a possibilidade de experimentar outros modos de falar sobre Deus? Como isto poderia ser exemplificado?
Elizabeth Johnson -
Deus é o mistério incompreensível do Amor. Nenhuma idéia ou imagem poderá jamais captar a plenitude deste mistério. Como totalmente além e acima do gênero, Deus não é nem homem nem mulher, mas Criador de ambos, igualmente, em sua divina imagem e semelhança. Por conseguinte, podemos falar sobre Deus em termos tanto masculinos como femininos, bem como em termos animais e cósmicos. A Bíblia o faz: Deus é nosso Pai, Deus é ruah, Espírito, a respiração feminina da vida impregnando o mundo. Deus é um leão rugindo ou uma ave-mãe. Deus é línguas de fogo. Nenhuma destas imagens é pensada literalmente. Todas elas são como dedos apontando para a lua, modos que temos para apontar para a plenitude do mistério divino. Embora imagens masculinas tenham sido usadas com mais freqüência na tradição cristã, elas não são as únicas possíveis. A teologia das mulheres insiste para que a igreja também use em nossos dias imagens femininas.

IHU On-Line - É necessário, na época atual, elaborar uma noção do divino que possa registrar melhor a diversidade? Em que medida uma reflexão cristológica pode favorecer esta abertura?
Elizabeth Johnson -
A verdade sobre Deus é melhor servida usando uma ampla diversidade de imagens, mais do que apenas uma ou duas. Jesus deu aqui um excelente exemplo: suas parábolas mostram uma grande imaginação, nomeando e falando sobre Deus de múltiplas maneiras.

IHU On-Line - A crítica teológica feminista dirige uma grande atenção à questão do modo de funcionamento da linguagem teológica? Quais são alguns problemas diagnosticados nesta área que dificultam uma reflexão teológica mais clara?
Elizabeth Johnson -
O símbolo de Deus funciona. A teologia feminista tem análises de três problemas que resultam quando Deus é sempre apresentado somente como pessoa masculina: 1) Teologicamente, nós esquecemos que esta linguagem é simbólica: nós a tomamos literalmente: por isso acabamos tendo um ídolo, um deus inferior. 2) Sociologicamente, se Deus é sempre retratado como masculino, os humanos masculinos exercem poder em nome de Deus, como se fossem semelhantes a “Ele”. Isto conduz a uma grande desigualdade, como se vê em estruturas do patriarcado, onde o poder está sempre nas mãos do homem dominante. 3) Psicologicamente, as mulheres são privadas do poder espiritual e pessoal; elas só podem ver-se como criadas à imagem e semelhança de Deus, se elas se abstraem de seu próprio corpo que é feminino. Elas são levadas a depender da autoridade religiosa de homens para sua conexão com Deus.

IHU On-Line - Quais são as maiores dificuldades e os maiores discernimentos no diálogo entre a cristianismo e a modernidade?
Elizabeth Johnson -
Partindo do Iluminismo na Europa do século XVII, a modernidade preza a investigação racional científica, a liberdade individual e os procedimentos democráticos, entre outras coisas. Isso entra com freqüência em conflito com determinados tipos de cristianismo que preza o ensinamento tradicional, a comunidade e a autoridade hierárquica. O Concílio Vaticano II abriu um diálogo com o mundo moderno, convencido de que o cristianismo e a modernidade levavam ambos a peito o bem da raça humana. Algumas vezes o diálogo teve êxito, como nas áreas dos direitos humanos, e outras vezes ele fracassou. Aqui ainda há muito a ser feito.

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