Edição 248 | 17 Dezembro 2007

A secreta cumplicidade entre o humanismo de Jesus e o humanismo secular

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IHU Online

“As relações do cristianismo e da modernidade foram relações de exclusão recíproca. Isto é principalmente verdade para o cristianismo sob a forma do catolicismo romano”, defende o teólogo francês Claude Geffré que fala, nesta entrevista sobre as complexas de diálogo, sejam elas entre cristianismo e modernidade ou entre as diversas denominações religiosas. “Muitos historiadores se perguntam se o cristianismo não foi ele mesmo um vetor de modernidade, mesmo que ele, finalmente, tenha sido sua vítima”. Mas, segundo o teólogo, o fim da função social do cristianismo não origina necessariamente o fim do cristianismo como experiência vivida e como crença pessoal.



Claude Geffré, juntamente com Régis Debray, é autor do livro Avec ou sans Dieu?  - Le philosophe et le théologien (Paris: Bayard, 2006). Além disso, ainda no ano passado, publicou o livro De Babel à Pentecôte  - Essais de théologie interreligieuse (Paris: Cerf, 2006). Em português, a Editora Vozes traduziu o livro Crer e interpretar, em 2004. Confira as entrevistas exclusivas que Claude Geffré concedeu à revista IHU On-Line, na edição número 207, de 04-12-2006, e ao site do Instituto Humanitas Unisinos – IHU, www.unisinos.br/ihu, intitulada “Religião com ou sem Deus? Um diálogo de Régis Debray com um teólogo”.

IHU On-Line - Quem é Jesus? O que destacaria dele a partir de sua reflexão teológica?
Claude Geffré -
Jesus de Nazaré é proclamado o próprio Filho de Deus pela primeira comunidade cristã, a partir de sua vida, sua morte e sua ressurreição. Em função de minha reflexão teológica, eu realçaria, sobretudo, dois aspectos: o realismo da encarnação e a morte de Jesus como manifestação do amor de Deus. Em Jesus, Deus não se faz somente corpo, mas carne: “O Verbo se fez carne” (João 1,14) significa que ele assumiu um corpo de carne, um corpo terrestre, “nascido de uma mulher” (Gálatasl 4,4), enquanto ele permanece sendo Deus em sua Alteridade transcendente. A maior lição da encarnação é, ao mesmo tempo, a afirmação da infinita vulnerabilidade de Deus e da eminente dignidade do corpo humano. Não se pode dissociar encarnação e ressurreição. A “descida” na carne não tem outra finalidade senão transformá-la, transfigurá-la para dar-lhe o poder de fazer explodir a vida das próprias profundezas da morte. De outra parte, a morte de Jesus é menos o sacrifício do Filho único pela redenção do pecado dos homens do que a manifestação do amor infinito de Deus, que se faz solidário do sofrimento e da morte de todo ser humano. Neste sentido, a cruz é a Boa Nova de um Deus diferente do Deus “bem conhecido” do teísmo filosófico e teológico.

IHU On-Line - Em que sentido a modernidade e a contemporaneidade podem ter ajudado para uma melhor compreensão de Jesus e de sua proposta?
Claude Geffré -
As relações do cristianismo e da modernidade foram relações de exclusão recíproca. Isto é principalmente verdade para o cristianismo sob a forma do catolicismo romano. O catolicismo se quis resolutamente antimoderno, na medida em que a razão das Luzes solapava a autoridade da revelação e da tradição e na qual o acontecimento das sociedades democráticas contestava diretamente o princípio hierárquico da sociedade-Igreja. Atualmente, parece que o cristianismo está maduro para uma nova negociação com a modernidade, quando, durante mais de dois séculos, se tratava de duas irmãs inimigas. Muitos historiadores se perguntam se o cristianismo não foi ele mesmo um vetor de modernidade, mesmo que, finalmente, tenha sido sua vítima. Seria o desenvolvimento das virtualidades próprias ao cristianismo, em particular a emergência do sujeito humano como autônomo e como agente da história que estaria na origem do mundo moderno. Após o crescente sucesso da modernidade, a religião cristã não é mais fator de coesão social e se pode interpretar seu destino como o de seu desaparecimento progressivo. Mas o fim da função social do cristianismo não origina necessariamente o fim do cristianismo como experiência vivida e como crença pessoal. Pode-se pensar que, entre as religiões do mundo, o cristianismo continua sendo uma religião plena de futuro, pois há uma secreta cumplicidade entre o humanismo evangélico, de que dá testemunho a mensagem de Jesus, e o humanismo secular, que constitui o objeto do consenso da consciência humana universal.

IHU On-Line - É possível manter a centralidade constitutiva de Jesus Cristo e a sensibilidade inter-religiosa? Esta idéia parece ser uma tese defendida pelo senhor, como também por Jacques Dupuis, em favor de um inclusivismo pluralista, não é verdade?
Claude Geffré -
A tarefa de uma teologia das religiões é de manter unidas a vontade divina universal de salvação e a unicidade da mediação do Cristo para a salvação. Na linha de Jacques Dupuis , eu defendo, pois, ao mesmo tempo, um cristocentrismo constitutivo e um pluralismo inclusivo, a saber, os valores salutares de que as outras religiões podem ser portadoras. Para favorecer o diálogo inter-religioso, não penso que seja necessário adotar uma postura pluralista que sacrifique a centralidade do Cristo a um teísmo indeterminado. No cristianismo não se pode, com efeito, opor o teocentrismo e o cristocentrismo. Nós só conhecemos o Deus da revelação cristã em Jesus Cristo. É antes aprofundando o mistério da encarnação, isto é, o Verbo feito carne, que podemos fundamentar teologicamente o diálogo inter-religioso.

IHU On-Line - É correto dizer, na sua visão, que o cristocentrismo não é recusado, mas que é aprofundando o mistério da encarnação que se garante, assim, o caráter dialogal do cristianismo?
Claude Geffré -
Após a era apostólica, a Igreja confessa Jesus como Filho de Deus. Mas a teologia deve evitar identificar o elemento histórico e contingente de Jesus e seu elemento crístico e divino. A manifestação do absoluto de Deus na particularidade histórica de Jesus de Nazaré ajuda-nos a compreender que a unicidade do Cristo não é excludente de outras manifestações de Deus na história. É insistindo na própria palavra da encarnação, ou seja, da união do absolutamente universal e do absolutamente concreto (cf. Paul Tillich ) que se está em condições de des-absolutizar o cristianismo como religião histórica e de verificar seu caráter dialogal. Após vinte séculos, nenhum dos cristianismos históricos pode ter a pretensão de encarnar a essência do cristianismo como religião da revelação final sobre o mistério de Deus. Não se pode, pois, confundir a universalidade do Cristo como Verbo encarnado e a universalidade do cristianismo como religião histórica. Tem-se, assim, o direito de dizer que a verdade de que dá testemunho o cristianismo não é nem exclusiva, nem mesmo inclusiva de toda outra verdade de ordem religiosa.

IHU On-Line - Como repensar, nestes tempos de pluralismo religioso, a noção de que no Cristo se cumpriram todos os valores das outras religiões? Em que medida tal tese respeita o que existe de irredutível e irrevocável nas outras tradições religiosas?
Claude Geffré -
A noção de cumprimento deve ser mantida, mas é preciso reinterpretá-la num sentido não totalitário. Falando de pluralismo religioso inclusivo, se quer significar que os germes de verdade e de bondade disseminados nas outras tradições religiosas podem ser a expressão do Espírito do Cristo, sempre em ação na história. Mas é preciso respeitar sua diferença própria em relação ao cristianismo. Por isso, parece-me abusivo falar de valores implicitamente cristãos segundo a simples lógica do implícito e do explícito, ou da preparação e do cumprimento. É preferível falar de valores crísticos. Entendo, com isso, germes de verdade, de bondade e mesmo de santidade que têm um lugar secreto na cristianidade de todo ser humano, criado não somente à imagem de Deus, mas à imagem do Cristo como novo Adão. E é em sua própria diferença que eles encontrarão seu cumprimento em Jesus Cristo no além da própria história, se eles não encontrarem sua explicitação visível no cristianismo. O pensamento cristão deve suportar o enigma de uma pluralidade de tradições religiosas em sua diferença irredutível. Elas não se deixam harmonizar facilmente com o cristianismo e seria desconhecer o privilégio da revelação cristã querer procurar completá-la a partir das verdades incompletas das outras religiões. Mas quanto melhor conhecermos as riquezas das outras religiões tanto melhor estaremos na condição de proceder a uma reinterpretação criadora das verdades que realçam a singularidade cristã.

IHU On-Line - O cristianismo, como o demonstrou E. Schillebeeckx , “não é, em primeiro lugar, uma mensagem, mas uma experiência que se tornou uma mensagem”. Em que medida o trabalho hermenêutico que procura evocar esta experiência seria atualmente fundamental para o diálogo inter-religioso?
Claude Geffré -
A fórmula de Schillebeeckx tem a vantagem de sublinhar que nós só atingimos a experiência cristã fundamental dos primeiros cristãos a partir de um texto que já é uma interpretação. O texto do Novo Testamento só é Palavra de Deus, para nós hoje em dia, se engendrar uma experiência que seja contemporânea da experiência dos primeiros discípulos em presença de Jesus, como evento de salvação. Isto só é possível entregando-nos a uma reinterpretação de nossos textos fundadores e de sua tradição na história a partir de nossa própria experiência histórica na Igreja do século XXI. O diálogo com as outras religiões pertence a esta experiência com uma acuidade nova e, como eu já disse, ele nos permite explicitar certas virtualidades da mensagem cristã. As exigências do diálogo inter-religioso sublinham a importância de uma aproximação hermenêutica, em oposição a uma leitura fundamentalista dos textos. Trata-se de visar o alcance religioso de um texto, além de sua expressão literal ligada a uma época histórica. E, mais em geral, a prática do diálogo inter-religioso nos convida a comungar numa plenitude de verdade que está sempre além da particularidade histórica e textual de tal ou tal tradição religiosa.

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