Edição | 18 Maio 2015

Papa Francisco desde o olhar dos movimentos sociais

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João Pedro Stédile

“Espero que nos temas da Igreja, o Papa abra as portas para a participação igualitária das mulheres em todas as atividades religiosas, eclesiásticas e de instâncias da Igreja Católica”, afirma João Pedro Stédile, é graduado em Economia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS e pós-graduado pela Universidade Nacional Autônoma do México e membro da coordenação nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra – MST.

Eis o depoimento.

Acredito que o desenvolvimento das medidas que o Papa tomou, suas posições doutrinárias e politicas, seus exemplos de postura, tem sido uma grata surpresa a todos os militantes de movimentos populares, do Brasil, da América Latina e de todo mundo.  Essa é a impressão que tenho dos contatos que temos feito entre os movimentos populares e também no nosso diálogo com o Vaticano.

Acho que a surpresa gratificante também é resultado das frustações que tínhamos há praticamente duas gerações, desde os pontificados de Joao Paulo II e do Papa Bento XVI, que se caracterizaram por gestões conservadoras, anti-populares, levando a uma crise sem, precedentes da Igreja Católica.

Avaliação

Diante dos acontecimentos que estamos acompanhando nos dois anos do Pontificado de Francisco, a avaliação que fazemos é extremamente positiva e esperançosa. Esperançosa porque sabemos das influências que a figura do Papa tem em toda humanidade, inclusive, mais ampla que o próprio catolicismo. Seu exemplo, suas posturas claras a favor dos pobres e dos trabalhadores terão enorme consequências nas ideias da próxima década.

O fato de ter escolhido o nome de Francisco, com toda carga simbólica que tem São Francisco de Assis, seja para o comportamento das pessoas ou mesmo para dentro da Igreja, representa por si só um fato histórico e revolucionário. Nenhum outro pontífice em dois mil anos teve a coragem de homenagear a São Francisco de Assis.

Aspectos fundamentais

Não sou um especialista em Vaticano, falo enquanto um mero observador desde os movimentos populares do Brasil e da América Latina, com quem temos mais relações. Percebemos primeiro a postura pessoal de Francisco, do seu exemplo, de como se comporta.   De ter abandonado o apartamento individual e luxuoso para viver no convento Santa Marta, junto aos demais. Depois tem o fato de carregar sua própria mala, de não aceitar bajulações pessoais ao se comportar como Bispo de Roma e se portar como um ser humano como qualquer outro.

Segundo, suas posturas e pronunciamentos relacionados com as injustiças na humanidade.   Em todos os assuntos que se pronunciou, desde a guerra na Síria, a fome, a migração dos africanos para a Europa, o tema do desemprego, dos moradores de rua. Sempre teve uma postura clara, e firme, a favor dos mais pobres, dos trabalhadores, dos exploradores e sempre contra qualquer injustiça. Não tem medo de dizer quem são os culpados, abandonando, a postura diplomática anterior, que justificava a postura do Vaticano de sempre estar ao lado dos poderosos e organismos internacionais.

Terceiro, nos temas internos da Igreja, Francisco tem se comportado com transparência, mesmo em temas agudos, como o homossexualismo, o divorcio, etc. Também nos parece que suas mudanças levam a um processo de democracia interna dentro dos organismos do vaticano, que sempre se comportavam como verdadeiras monarquias centralizadoras, tendo a coragem de fazer punições contra aqueles membros da Igreja que cometeram crimes, mas que antes eram jogados para debaixo do tapete.

Expectativas

Não tenho a pretensão de dar sugestões ao Papa Francisco sobre que assuntos deveria se pronunciar.  Imagino a quantidade de problemas e a gravidade deles em que ele precisa refletir e se posicionar dentro do Vaticano, para tirar a Igreja dessa enorme crise politica, moral e ideológica a que está envolvida.

Mas como militante de movimento popular, e cristão, espero que ele tenha uma posição firme na próxima encíclica que vai tratar do meio ambiente, dos direitos da madre terra, condenando todos aqueles que a agridem a natureza, com seus agrotóxicos, suas sementes transgênicas, a propriedade privada sobre as minas, as águas, e agora até sobre o oxigênio das florestas que querem privatizar.

Um pronunciamento firme sobre os alimentos como direito fundamental, denunciando sua redução à mera condição de mercadoria, em que reduz o direito à alimentação àqueles que tiverem dinheiro.

Espero que o Papa tenha posições mais concretas, em relação a condenação das guerras. As guerras são uma barbárie do ser humano proporcionada pelos interesses econômicos e dos Estados. Não é uma condição humana. E por isso o Papa deveria usar seu poder moral e politico perante o mundo, e pressionar cada vez mais para que não haja mais guerras, não haja mais bases militares estrangeiros em qualquer pais do mundo.

E por último espero uma postura ainda mais firme contra a especulação financeira e o controle que os bancos exercem sobre a economia mundial e as pessoas.  Precisamos romper a dependência mundial em relação ao dólar, que é a forma como as empresas estadunidenses exploraram a todo mundo. Espero que nos temas da Igreja, o Papa abra as portas para a participação igualitária das mulheres em todas as atividades religiosas, eclesiásticas e de instâncias da Igreja Católica. 

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