Edição 465 | 18 Mai 2015

Os novos ares de Francisco na Igreja

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Francisco de Assis da Silva

“Reafirmar a preocupação com os pobres do mundo é uma recuperação do papel moral da Igreja quando se defronta com a exploração econômica”, comenta Francisco de Assis da Silva, Bispo Anglicano na Diocese Sul-Ocidental, em Santa Maria, e Bispo Primaz da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil.

Avaliação

Eu entendo que o pontificado de Francisco trouxe ares novos para a Igreja Católica Romana. Sua experiência pastoral na periferia (como ele mesmo disse em sua primeira fala) torna-o um homem livre da "cultura da Cúria". Ele foi forjado nos embates dos anos de chumbo na Argentina e aprendeu a ter a sensibilidade com os pobres. Penso que seu papel tem sido o de aproximar a Igreja do povo, do laicato que vive o dia a dia da fé. Talvez seus eleitores tenham tido o secreto desejo de ver um novo vetor da Igreja, depois de tantos escândalos de conotação sexual e financeira. Não tem sido fácil a sua trajetória nestes dois primeiros anos, mas penso que ele tem a intuição do semeador: lança a semente e espera pacientemente pelos frutos.

Aspectos fundamentais

Primeiro, a abertura para os excluídos espirituais da Igreja. Suas falas em relação aos divorciados e homoafetivos representam as primeiras falas pastorais de acolhimento sem estigmatização. Mesmo sabendo que em termos ético-doutrinários ainda exista muita rigidez, é importante a voz do Papa eivada de respeito pastoral pelas pessoas que carregam consigo a culpa de, sendo sinceramente católicas, viverem uma exclusão pastoral. 

Segundo, o discurso contra a faceta do moderno capitalismo. Reafirmar a preocupação com os pobres do mundo é uma recuperação do papel moral da Igreja quando se defronta com a exploração econômica. Anos e anos depois da Teologia da Libertação, e mesmo considerando que as leituras agora são outras, a lógica é a mesma. Francisco tem a coragem de condenar os mecanismos de exploração, mesmo sabendo que isso o coloca em oposição aos segmentos católicos que vivem as benesses de um sistema que explora outros irmãos.

Terceiro, a abertura ecumênica. Seus gestos são muito fortes. Parece que o espírito do Vaticano II está sendo despertado de novo, mesmo envelhecido por 50 anos. E o mais interessante é que suas iniciativas se dão exatamente onde o ecumenismo é mais fértil: na ação em favor dos excluídos. 

Crítica à economia hegemônica

Eu entendo que a Igreja como um todo no mundo precisa levar mais a sério a crítica ao modelo econômico hegemônico. Um Capitalismo cada vez mais baseado no financismo, no acúmulo de riqueza, no liberalismo econômico que não aponta para nenhuma mudança no quadro de pobreza mundial. Enquanto as Igrejas ignorarem o pecado estrutural do acúmulo, nada será mudado. A cabeça da serpente precisa ser atingida. Não falo aqui em buscar modelos totalitários de cunho político ou de um Estado que tudo controla. O mundo precisa viver uma mudança de paradigmas econômicos, de forma a evitar que a exploração do recursos naturais e o acúmulo do capital condenem eternamente 2/3 do globo à uma vergonhosa pobreza. Um outro aspecto, e me permito falar do meu lugar eclesial anglicano, é uma abertura ao ministério da mulher na Igreja Católica. Isso pode levar anos e mesmo décadas, mas penso que Francisco poderia começar a provocar uma reflexão sobre isso. ■

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