Edição 465 | 18 Maio 2015

O Papa Francisco e a Teologia do Povo

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João Vitor Santos | Tradução: André Langer

Juan Carlos Scannone apresenta uma interpretação das ações do pontificado à luz dessa corrente teológica, que fundamenta conceitos e posturas do pontífice

Para críticos, o Papa Francisco se fragiliza quando a questão é o arcabouço teológico. De fato, Bergoglio não é teólogo. O que não quer dizer que não tenha profundidade teológica. É preciso que se reconheça que o Papa tem uma visão de Igreja e de mundo muito particular e que também se difere das perspectivas de seus antecessores. Talvez, seja essa visão que traz os ares de novidade para Santa Sé e surpreende muitos. Mas o que dá suporte, o que está na formação de Bergoglio? Há uma perspectiva teológica que comunga e que baseia sua própria teologia? Para o teólogo argentino Juan Carlos Scannone existe sim. E ela se chama Teologia do Povo.

Ao longo da entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, e baseada em artigo publicado na revista La Civiltà Cattolica,  Scannone analisa o pontificado de Francisco pela perspectiva da Teologia do Povo. Ela disseca essa linha teológica, relacionando-a com a Teologia da Libertação. A partir de conceitos empregados por Francisco, demonstra o quanto está impregnado por essa corrente e o quanto isso o faz constituir sua percepção de mundo e Igreja. Scannone também analisa a Exortação Apostólica Evangelii Gaudium  como documento orientador do pontificado, por onde também extravasa as ideias de teologia.

Juan Carlos Scannone é jesuíta, tem 83 anos de idade. Foi professor de diversas universidades latino-americanas e europeias, incluindo a Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. É ex-reitor da Faculdade de Filosofia e Teologia de San Miguel, da Universidade del Salvador. É considerado o maior teólogo argentino vivo, personagem de destaque no panorama intelectual católico do Cone Sul. Discípulo de Karl Rahner, participou como protagonista da evolução do intenso debate pós-conciliar na América Latina.

Confira a entrevista.

 

IHU On-Line - Qual é a origem da Teologia do Povo?

Juan Carlos Scannone - No seu retorno do Concílio Vaticano II,  o episcopado argentino criou, em 1966, a Comissão Episcopal de Pastoral - COEPAL  com a finalidade de montar um plano nacional de pastoral. Era formada por bispos, teólogos, pastoralistas, religiosos e religiosas, entre os quais se encontravam Gera  e Tello  — padres diocesanos professores da Faculdade de Teologia de Buenos Aires —, os outros diocesanos Justino O’Farrell (antes orionita) e Gerard Farrell (especialista em Doutrina Social da Igreja), o jesuíta Fernando Boasso (do Centro de Pesquisa e Ação Social), etc. Essa comissão foi o âmbito em que nasceu a Teologia do Povo, cuja marca já se fez notar na declaração do episcopado argentino em San Miguel (1969) — especialmente no documento VI, sobre Pastoral Popular —, que aplicava a Conferência de Medellín  ao país.

A COEPAL deixou de existir no começo de 1973. Mesmo assim, vários de seus integrantes continuaram se reunindo como grupo de reflexão teológica sob a liderança de Gera. Ele foi perito em Medellín e Puebla,  membro da Equipe Teológico-Pastoral do Conselho Episcopal Latino-Americano - CELAM  e, mais tarde, fez parte da Comissão Teológica Internacional. Sua teologia foi mais oral que escrita, embora também tenha importantes escritos e muitas de suas intervenções orais foram gravadas e depois transcritas.  Mais tarde, eu mesmo participei dessas reuniões, junto com Gera, Farrell, Boasso, o atual vigário-geral de Buenos Aires, mons. Joaquín Sucunza, Alberto Methol Ferré — que ia do Uruguai —, etc.

O contexto histórico

O contexto político argentino dos tempos da COEPAL incluía a ditadura militar de Onganía, a proscrição do peronismo desde 1955, a repressão do movimento operário peronista, o surgimento da futura guerrilha e um fenômeno novo, a saber, que não poucos intelectuais, professores e estudantes universitários progressistas apoiavam então o peronismo como resistência popular aos militares e movimento de protesto social, o que não havia acontecido durante as presidências de Perón. Nessa época nasceram, na Universidade de Buenos Aires, as assim chamadas Cátedras Nacionais de Sociologia, com figuras como o já mencionado O’Farrell.

Este foi o nexo entre as Cátedras Nacionais e a COEPAL, pois fazia parte de ambas. Assim é como, distanciando-se tanto do liberalismo como do marxismo, ambas as equipes de reflexão encontraram sua conceitualização na história latino-americana e argentina (real e escrita) com categorias como “povo” e “antipovo”, “povos” antagônicos a “impérios”, “cultura popular”, “religiosidade popular”, etc.

No caso de Gera e da COEPAL, tratou-se principalmente do Povo de Deus — categoria bíblica privilegiada pelo Concílio para designar a Igreja — e sua inter-relação com os povos, em especial o argentino. Note-se que uma das expressões características de Bergoglio é a de “povo fiel”, cuja fé e piedade populares valoriza fortemente.

Para a COEPAL, não estava em jogo apenas “a emergência do laicato dentro da Igreja, mas também a inserção da Igreja no transcurso histórico dos povos” enquanto sujeitos de história e cultura, receptores, mas também agentes de evangelização, graças à sua fé inculturada. Foram influenciados — assim como o resto da teologia latino-americana daquela época — pela teoria da dependência, mas entenderam-na não tanto a partir do econômico, mas prioritariamente a partir da dominação política (imperial), que inclui a econômica, enquadrando ambas na libertação integral do pecado, incluindo suas consequências estruturais.

 

IHU On-Line - Como essa teologia compreende o conceito de povo? 

Juan Carlos Scannone - A categoria “povo” é ambígua, não pela pobreza, mas pela riqueza. Pois, por um lado, pode designar o povo-nação — como nas expressões: povo argentino, povo coreano — e, por outro lado, as classes e setores sociais populares. A COEPAL o entendeu, sobretudo, na primeira acepção, a partir da unidade plural de uma cultura comum, enraizada em uma história comum e projetada para um bem comum compartilhado. Como se nota à primeira vista, a dimensão histórica é fundamental nesta concepção de “povo”, que implica também — por parte de pastores e políticos — um atento discernimento dos “sinais dos tempos” na vida do povo e dos povos, que — para os fiéis — são também indicadores da vontade providente de Deus.

Na América Latina, são os pobres que, ao menos de fato, conservam como estruturante de sua vida e convivência a cultura própria de seu povo (Puebla 414), assim como sua memória histórica, e cujos interesses coincidem com um projeto histórico comum de justiça e paz, sendo que vivem oprimidos por uma situação de injustiça estrutural e de violência institucionalizada. Por isso, na América Latina, ao menos de fato, a opção pelos pobres e pela cultura coincidem. E, provavelmente, também porque são eles que deixam transparecer melhor a cultura comum de seu povo. 

Certa vez perguntei a Boasso  por que a COEPAL havia privilegiado o tema da cultura, e ele me respondeu que o havia tomado do número 53 da Constituição Pastoral Gaudium et Spes  - GS. Contudo, a redação do número 386 do Documento de Puebla (um dos principais responsáveis fora Gera) mostra como a GS foi lida em perspectiva latino-americana, já que são inseridas as palavras “em um povo”. Assim se deslocou o sentido conciliar mais humanista de cultura de ambos os primeiros parágrafos, para aquele que o Concílio relaciona depois com seu “aspecto histórico e social” e denomina de “sentido sociológico e etnológico”, que a GS aborda somente depois, no terceiro parágrafo. 

Por conseguinte, Puebla relê GS e muda o ângulo do enfoque de sua compreensão da cultura. Em uma reunião dos professores das Faculdades de Filosofia e Teologia de San Miguel com os da Teologia da Universidade Católica Argentina - UCA, imediatamente depois de Puebla, perguntei a Gera se os redatores haviam se dado conta desse deslocamento de ótica, e ele me respondeu dizendo que não. Ou seja, tratou-se de um ato espontâneo, não reflexo, devido provavelmente ao novo lugar hermenêutico a partir de onde se interpretava o texto (a partir da América Latina), mudança de ponto de vista que também não foi percebida como tal pelos bispos, já que não houve objeção; e que se conserva na exortação Evangelii Gaudim – EG.

A Teologia do Povo não passa por alto os graves conflitos sociais vividos pela América Latina, mesmo que, em sua compreensão de “povo”, privilegie a unidade sobre o conflito (prioridade depois repetidamente afirmada por Bergoglio). Pois, embora não tome a luta de classes como “princípio hermenêutico determinante” da compreensão da sociedade e da história,  dá lugar histórico ao conflito — mesmo de classe —, concebendo-o a partir da unidade prévia do povo. Desse modo, a injustiça institucional e estrutural é compreendida como traição a este por uma parte do mesmo, que se converte assim em antipovo.

 

IHU On-Line - De que forma os conceitos de povo e religião se articulam?

Juan Carlos Scannone - O que foi dito até aqui incide na consideração da religiosidade popular. Pois, por um lado, considera-se a religião (ou, respectivamente, a atitude negativa diante do religioso) — seguindo Paul Tillich  — como núcleo da cultura de um povo e, por outro, faz-se referência, com Paulo VI,  à piedade “dos pobres e simples” (Evangelii Nuntiandi  - EN). Mas aqui também a oposição é apenas aparente se estimamos que, ao menos de fato na América Latina e provavelmente também de direito, são estes últimos que preservam melhor a cultura comum, seus valores e símbolos (inclusive religiosos), que tendem a ser compartilhados por todos, podendo ser em nossos países o germe — nos não pobres — de uma conversão ao pobre para obter sua libertação e, dessa maneira, a de todos. 

Por isso, a religião do povo, se está autenticamente evangelizada, longe de ser ópio, não tem um potencial apenas evangelizador, mas também de libertação humana, como na prática mostrou a leitura popular da Bíblia. É por isso que Puebla é considerado como autêntica continuação de Medellín, embora tenha tomado da exortação EN (1975) novas contribuições sobre a evangelização da cultura e da piedade popular. Pode-se provar que o Sínodo de 1974 os havia abordado sob o influxo da Teologia do Povo, tanto graças a bispos latino-americanos como por meio de quem depois seria o cardeal Eduardo Pironio.  Foi assim que Paulo VI recolheu essas contribuições em sua exortação pós-sinodal, a qual, por sua vez, foi aplicada por Puebla (1979) à América Latina e enriquecida com novas contribuições, por exemplo, a de Gera na “Evangelização da cultura” e a do chileno Joaquín Alliende, em “Religiosidade popular ”. 

América Latina próxima de Roma

Assim, produziu-se uma espiral virtuosa entre a América Latina e Roma. Pois, começada na Argentina, foi levada ao centro pelo Sínodo. Ali Paulo VI a aprofundou, sendo retomada em Puebla, onde foi novamente enriquecida, assim como em Aparecida. Agora retorna a Roma com o Papa Francisco, que volta a fazê-la frutificar e a oferece novamente à Igreja universal.

Uma importante novidade está na relevância que Puebla — na linha da Teologia do Povo — dá à “sabedoria popular”, nas duas seções citadas do documento, relacionando a religião do povo com o conhecimento sapiencial que não substitui o científico, mas o situa existencialmente, o complementa e o confirma. A Teologia do Povo a considera chave como mediação entre a fé do povo e uma teologia inculturada.  E o Papa Francisco reconhece sua importância ao falar do conhecimento por conaturalidade, seguindo Tomás de Aquino, mas também Puebla e o Pe. Gera.

O papel do encontro de Aparecida

Mais tarde, Aparecida soube discernir na piedade popular latino-americana momentos de verdadeira espiritualidade e mística populares (Aparecida  258-265, em especial 262). Já Jorge Seibold, pastoralista da Teologia do Povo, o havia assinalado ao introduzir a categoria “mística popular”.  Como veremos, na EG o Papa refere-se duas vezes a esta. Tê-la em conta é, hoje, um novo desafio na América Latina e fora dela.

 

IHU On-Line – A Teologia do Povo é uma corrente ou uma atualização da Teologia da Libertação?

Juan Carlos Scannone - Em 1982, distingui quatro correntes na Teologia da Libertação latino-americana.  Entre elas situei a Teologia do Povo, nome que lhe foi dado por Juan Luis Segundo  ao criticá-la. Gutiérrez  a caracteriza como “uma corrente com características próprias dentro da Teologia da Libertação”. Roberto Oliveros, reconhecendo-a como uma vertente desta, denomina-a pejorativamente de “teologia populista”. Depois, a mencionada classificação — que, certamente, não é a única possível — foi aceita por teólogos da libertação, como João Batista Libanio,  e por seus críticos ao apresentar a Instrução Libertatis Nuntius. 

Entre as “características próprias” mencionadas por Gutiérrez, há outras de índole metodológica: o uso da análise histórico-cultural, privilegiando-a sobre a socioestrutural, sem descartá-la; o emprego — como mediação para conhecer a realidade e para transformá-la — de ciências mais sintéticas e hermenêuticas, como da História, da Cultura e da Religião, completando assim o emprego de ciências mais analíticas e estruturais; o mencionado enraizamento destas mediações científicas em um conhecimento e discernimento sapienciais pela “conaturalidade afetiva que dá o amor”, que, por sua vez, as confirma; distanciamento crítico do método marxista de análise social e das categorias de compreensão e estratégias de ação que lhe correspondem. 

As duas Instruções da Congregação para a Doutrina da Fé  de 1984 e 1986 ajudaram a prevenir posições extremas. João Paulo II, por sua vez, em sua mensagem de 09 de abril de 1986 aos Bispos do Brasil, deu reconhecimento eclesial à Teologia da Libertação não apenas como “oportuna, mas útil e necessária”, e como “uma etapa nova” na reflexão teológico-social da Igreja, contanto que esteja em continuidade com esta. 

O segundo encontro de El Escorial (1992) — 20 anos após o primeiro, do qual também eu havia participado  — foi uma prova da fecundação mútua entre a vertente principal da Teologia da Libertação e a predominantemente argentina, pois no mesmo se deu um espaço importante às problemáticas da cultura, do novo imaginário sociocultural, da sabedoria popular, etc., por exemplo, em intervenções como as de Pedro Trigo,  Diego Irarrázabal, , Antonio González,  Víctor Codina,  entre outros.  Alguns anos mais tarde, em setembro de 1996, a cúpula do CELAM, com a participação das autoridades da Congregação para a Doutrina da Fé (entre elas o então cardeal Josef Ratzinger e o arcebispo Tarcisio Bertone), reuniu em Schönstatt (Alemanha) um grupo relativamente pequeno de teólogos e especialistas latino-americanos para refletir sobre “o futuro da teologia na América Latina”, pedindo-lhes o desenvolvimento de quatro temas, a saber: a Teologia da Libertação, a doutrina social da Igreja, o comunitarismo e a teologia da cultura. Eu, que também participei desse encontro, perguntei aos organizadores por que haviam escolhido estes temas; a resposta foi: porque eram considerados os temas mais relevantes para a teologia latino-americana do terceiro milênio. O primeiro deles foi encomendado a Gustavo Gutiérrez, e o quarto — por dificuldades de saúde de Gera —, ao seu discípulo Carlos Galli, com a consigna de apresentar a teologia de seu mestre. Ou seja, reconhecia-se um papel decisivo para o futuro teológico da América Latina tanto ao tronco principal da Teologia da Libertação como à corrente argentina.  Depois da brilhante exposição de Gutiérrez, Ratzinger louvou explicitamente seu cristocentrismo e seu sentido da gratuidade.

Nesse mesmo ano, em novembro, a Faculdade de Teologia da Universidade Católica de Lovaina, seção de língua flamenga, convocou outro encontro em torno da questão de uma eventual mudança de paradigma na Teologia da Libertação, “de um paradigma socioeconômico a outro cultural”.  Desse modo, pretendia-se colocar o dedo na ferida de uma eventual alteração de eixo entre os diferentes enfoques desta teologia. Por isso, aproveitei a ocasião do encontro com Gutiérrez em Schönstatt para lhe perguntar sua opinião sobre esse assunto. Respondeu-me dizendo que o tema da cultura esteve presente desde o começo e que não houve mudança de paradigma, mas de acento. Pois bem, essa foi a resposta da maioria dos participantes do encontro de Lovaina: a premente preocupação social e econômica com a libertação não apenas continuava, senão que havia piorado, mas se havia ampliado e aprofundado com a consideração da cultura.

 

IHU On-Line – Como a Teologia do Povo aparece no pontificado de Francisco?

Juan Carlos Scannone - Desde que apareceu na sacada de São Pedro, depois da sua eleição, o Papa Francisco realizou gestos simbólicos, deu entrevistas, falou como chefe da Igreja e publicou uma espécie de “roteiro” de seu pontificado na exortação Evangelii Gaudium, que, em não poucas características, recordam a Teologia do Povo argentina. Daí a pergunta sobre as prováveis convergências da sua perspectiva pastoral com esta teologia.

Povo fiel

Chamou a atenção o gesto do Papa de pedir a bênção ao povo quase imediatamente após apresentar-se em público. Não admirou aqueles que conhecíamos o seu apreço teológico pelo “povo fiel de Deus”, que implica ao mesmo tempo uma maneira específica de conceber a Igreja, o reconhecimento do “sentido da fé” do povo e do papel dos leigos no mesmo. Nisso reside a sua predileção pela expressão “povo fiel”, que também é repetida na EG e que explicitamente reconhece como “mistério que mergulha as raízes na Trindade, mas tem a sua concretização histórica num povo peregrino e evangelizador, que sempre transcende toda a necessária expressão institucional” (EG 101; cf 95).  É esse povo em seu conjunto que anuncia o Evangelho. 

Nesses textos podem-se ouvir ecos da Escritura e do Vaticano II, mas também da Teologia do Povo, sobretudo no que se refere aos povos, suas culturas e sua história. “Este Povo de Deus encarna-se nos povos da Terra,  cada um dos quais tem a sua cultura própria... Trata-se do estilo de vida que uma determinada sociedade possui, da forma peculiar de vida que têm os seus membros de se relacionar entre si, com as outras criaturas e com Deus... A graça supõe a cultura, e o dom de Deus encarna-se na cultura de quem o recebe” (EG 115). Destaco que Francisco adota a releitura feita por Puebla, seguindo a Teologia do Povo. Recordo também que, quando o padre Bergoglio era Reitor das Faculdades de San Miguel, organizou o primeiro Congresso sobre a evangelização da cultura e a inculturação do Evangelho que aconteceu na América Latina (1985). Na conferência de abertura, falou sobre a inculturação, citando o Pe. Arrupe,  pioneiro no uso desse neologismo. 

Por isso, o Papa Francisco, quando fala do Povo de Deus, refere-se ao seu “rosto pluriforme” (EG 116) e à sua “multiforme harmonia” (EG 117) graças à diversidade das culturas que o enriquecem. Além disso, na mesma linha da Teologia do Povo, acentua uma doutrina tradicional, quando reconhece que “Deus dota a totalidade dos fiéis com um instinto da fé — o sensus fidei — que os ajuda a discernir o que vem realmente de Deus. A presença do Espírito confere sabedoria que lhes permite captá-la intuitivamente, embora não possuam os meios adequados para expressá-las com precisão” (EG 119). Mais ainda, “o próprio rebanho possui o olfato para encontrar novas estradas” (EG 21) de evangelização.

As quatro prioridades bergoglianas levadas ao povo

O episcopado argentino — incluído o cardeal Bergoglio —, seguindo os enfoques da Teologia do Povo e enriquecendo-os, adotou a postura da Comissão Justiça e Paz argentina, sobre passar “de habitantes a cidadãos”. Isso ilumina o que o Papa Francisco escreve na EG sobre o povo-nação: “Em cada nação, os habitantes desenvolvem a dimensão social da sua vida, configurando-se como cidadãos responsáveis dentro de um povo e não como massa arrastada pelas forças dominantes... Mas tornar-se um povo é algo mais, exigindo um processo constante no qual cada nova geração está envolvida. É um trabalho lento e árduo que exige querer integrar-se e aprender a fazê-lo até se desenvolver uma cultura do encontro com uma harmonia pluriforme”. Notemos a expressão típica sua: “cultura do encontro”.

Já como Provincial dos jesuítas, Bergoglio anunciou e, depois, como arcebispo de Buenos Aires, explicou mais detalhadamente prioridades de governo conducentes ao bem comum,  a saber: 1) “superioridade” do todo sobre as partes, 2) a da realidade sobre a ideia, 3) a da unidade sobre o conflito, 4) a do tempo sobre o espaço. Segundo se diz, são tomadas da carta de Juan Manuel de Rosas (governador de Buenos Aires) a Facundo Quiroga (governador de La Rioja na Argentina) sobre a organização nacional argentina, escrita na fazenda de Figueroa em San Antonio de Areco (20 de dezembro, 1834),  onde Rosas não as explicita, embora as tenha em conta implicitamente. Mais tarde — já como Papa — Francisco introduziu as duas últimas prioridades na encíclica a quatro mãos Lumen Fidei.  Finalmente, as desenvolve e articula na EG, apresentando-as como uma contribuição a partir do pensamento social cristão “para a construção de um povo”.

Sentido teológico-pastoral de tempo

A exortação começa com a prioridade do tempo sobre o espaço, pois se trata mais de iniciar “processos que construam povo” (EG 224; 223) na história, que de ocupar espaços de poder e/ou posse (de territórios ou riquezas). Na minha opinião, o sentir espiritual do tempo propício para a acertada decisão, seja esta existencial, interpessoal, pastoral, social ou política, é parte do carisma inaciano, conectada intimamente com o discernimento dos espíritos. Em sua teologia, Gera reconhece sua importância para profetas, pastores e políticos, e Methol   é conhecido por suas análises geopolíticas e por sua interpretação cristã dos sinais atuais dos tempos e da Igreja latino-americana. Bergoglio, por sua vez, como jesuíta, participa desse carisma de discernimento e, provavelmente, conhecia as mencionadas contribuições teóricas desses pensadores. Apesar de tudo, não deixa fora o espaço, mas que o considera a partir do tempo, pois coroa suas considerações dizendo: “O tempo ordena os espaços, ilumina-os e transforma-os em elos de uma cadeia em constante crescimento, sem marcha atrás” (EG 223).

Unidade plural e conflito

A Teologia do Povo pensava este a partir da unidade, mas reconhecia a realidade do antipovo, do conflito e da luta pela justiça. Também neste ponto há no pensamento do Papa não só um influxo inteligentemente recebido, mas um aprofundamento evangélico e teológico. Pois afirma que não se pode ignorar os conflitos, mas também não se pode ficar preso a eles ou torná-los a chave do progresso. Pelo contrário, trata-se de “aceitar suportar o conflito, resolvê-lo e transformá-lo no elo de ligação de um novo processo. ‘Felizes os pacificadores’ (Mt 5, 9)” (EG 227), não a paz dos cemitérios, mas a paz da “comunhão nas diferenças”, “um âmbito vital onde os conflitos, as tensões e os opostos podem alcançar uma unidade multifacetada que gera nova vida” (ib. 228), “um pacto cultural”, “uma ‘diversidade reconciliada’” (ib. 230). Pois “não é apostar no sincretismo ou na absorção de um no outro, mas na resolução num plano superior que conserva em si as preciosas potencialidades das polaridades em contraste” (ib. 228). 

Recordo que Bergoglio desejava fazer sua tese de doutorado sobre Romano Guardini.  Consultou seus arquivos e dedicou-se à sua compreensão do dinamismo dialético (não no sentido hegeliano ou marxista!) dos contrários,  para aplicá-la à práxis e à história. Ali está o fundamento último de sua propiciada “cultura do encontro” na não ignorância da realidade do conflito.

A realidade superior à ideia

Também entre estas existe uma tensão bipolar, pois a segunda está em função da primeira, sem se separar dela; caso contrário, existe o perigo de manipulá-la. “É preciso passar do nominalismo formal à objetividade harmoniosa” (ib. 232), afirma o Papa. Segundo ele, esse “critério leva à encarnação da Palavra e à sua colocação em prática”, pois — acrescenta — “não colocar em prática, não levar à realidade a Palavra é construir sobre a areia, permanecer na pura ideia e degenerar em intimismos e gnosticismos que não dão fruto, que esterilizam o seu dinamismo” (ib. 233).

Não vejo uma conexão imediata entre esta prioridade e a Teologia do Povo — como nos casos anteriores — a não ser na crítica que esta faz das ideologias, tanto de cunho liberal como marxista, e em sua busca de categorias hermenêuticas a partir da realidade histórica latino-americana, sobretudo dos pobres.

A superioridade do todo sobre as partes e a soma das partes

O Papa conecta o princípio de superioridade do todo sobre as partes com a tensão entre globalização e localização. Quanto a esta última, ela converge com as raízes histórico-culturais da Teologia do Povo, situada social e hermeneuticamente na América Latina; e com sua ênfase na encarnação do Evangelho, inculturando-o no catolicismo popular.

Quanto à globalização, a COEPAL não a teve explicitamente em conta quando ainda era apenas emergente. Depois, fizeram-no seus continuadores, como Methol Ferré, Gerardo Farrell e os trabalhos interdisciplinares do Grupo de Pensamento Social da Igreja que tomou seu nome do último, depois de seu falecimento.  Farrell havia sido integrante e secretário da COEPAL, embora por sua idade seja considerado como pertencente à segunda geração da Teologia do Povo, e foi membro fundador do mencionado grupo.

Também nesse ponto, Bergoglio avança rumo a uma síntese superior que não apaga as tensões, mas que as compreende, vivifica, torna fecundas e as abre ao futuro. Para ele “o modelo não é a esfera, pois não é superior às partes e, nela, cada ponto é equidistante do centro, não havendo diferenças entre um ponto e o outro. O modelo é o poliedro, que reflete a confluência de todas as partes que nele mantêm a sua originalidade”. E, quase na sequência, acrescenta: “É a união dos povos, que, na ordem universal, conservam a sua própria peculiaridade; é a totalidade das pessoas em uma sociedade que procura um bem comum que verdadeiramente incorpore a todos” (EG 236). Sem empregar a palavra, o Papa aponta para a interculturalidade.

Anteriormente, o Papa Francisco havia oferecido a fundamentação trinitária do dito: “O próprio Espírito Santo é a harmonia, tal como é o vínculo de amor entre o Pai e o Filho. É Ele que suscita uma abundante e diversificada riqueza de dons e, ao mesmo tempo, constrói uma unidade que nunca é uniformidade, mas multiforme harmonia que atrai” (EG 117). Atração da beleza: outra característica do enfoque do Papa, que não deixa de convergir com enfoques de Methol.

 

IHU On-Line – A piedade é outro conceito que parece forte em Bergoglio. De que forma podemos compreender essa ideia de piedade?

Juan Carlos Scannone - Uma característica distintiva da Teologia do Povo é sua revalorização teológica e pastoral da religião do povo, de tal modo que chegou a reconhecer uma “mística popular”, como o faz também o encontro de Aparecida. Em duas ocasiões a EG refere-se a esta, por exemplo, quando exemplifica a superioridade do todo sobre as partes: “A mística popular acolhe, a seu modo, o Evangelho inteiro, e encarna-o em expressões de oração, de fraternidade, de justiça, de luta e de festa” (EG 237; cf. ib. 124).

Também converge com a Teologia do Povo quando a EG relaciona a piedade popular com outros temas-chave para ambas, como são os da inculturação do Evangelho (EG 68, 69, 70) e dos “mais necessitados” e sua “promoção social” (ib. 70). Distingue as duas claramente do “cristianismo de devoções, próprio de uma vivência individual e sentimental da fé”, sem negar, contudo, a necessidade de uma ulterior “purificação e amadurecimento” dessa religiosidade, para a qual “é precisamente a piedade popular o melhor ponto de partida”, de acordo com a mesma exortação. Quando se refere às “relações novas geradas por Jesus Cristo”, conecta-as espontaneamente com a religiosidade popular, reconhecendo suas “formas próprias”.

Uma das apreciações mais ricas e profundas do Papa Francisco sobre a religião do povo foi no Rio de Janeiro, no encontro com o CELAM. Na ocasião, apresentou como expressão de criatividade, sã autonomia e liberdade laicais, no contexto de sua crítica à tentação do clericalismo na Igreja. Pois a reconheceu como uma manifestação do “católico como povo”, em seu caráter comunitário e adulto da fé, ao mesmo tempo que recomendava então instâncias características da América Latina, como são os grupos bíblicos e as comunidades eclesiais de base. 

Um exemplo claro de convergência com a Teologia do Povo a EG oferece quando, citando Puebla (e Aparecida)  a conclui que, mediante sua piedade popular, “o povo se evangeliza continuamente a si mesmo”, quando se trata de povos “nos quais o Evangelho se inculturou” (EG 122; cf. 68), pois cada um deles “é o criador da sua cultura e o protagonista da sua história. A cultura é algo de dinâmico, que um povo recria constantemente, e cada geração transmite à seguinte um conjunto de atitudes relativas às diversas situações existenciais, que esta nova geração deve reelaborar em face dos próprios desafios”. Então, “no seu processo de transmissão cultural também transmite a fé de maneira sempre nova; daí a importância da evangelização entendida como inculturação. Cada porção do povo de Deus, ao traduzir na vida o dom de Deus segundo a sua própria índole, dá testemunho da fé recebida e enriquece-a com novas expressões que falam por si”. (ib) Notemos que não fala de uma mera transmissão cultural externa, mas de um testemunho coletivo vivo. Por isso acrescenta: “Trata-se de uma realidade em permanente desenvolvimento, cujo protagonista é o Espírito Santo” (ib).

Não vou citar in extenso esses importantes parágrafos da EG, mas observar apenas que então volta a falar de “mística popular”, como “espiritualidade encarnada na cultura dos simples”, e que, embora ela, “no ato de fé... acentua mais o credere in Deum que o credere Deum” — o que me faz recordar expressões de Tello —, contudo, “não é vazia de conteúdos, mas descobre-os e exprime-os mais pela via simbólica do que pelo uso da razão instrumental”. Mais ainda, “comporta a graça da missionariedade, do sair de si e do peregrinar” (EG 124).

Um pouco adiante, quase calcando Lucio Gera e Puebla, ensina que “só a partir da conaturalidade afetiva que dá o amor é que podemos apreciar a vida teologal presente na piedade dos povos cristãos, especialmente nos pobres” (ib. 125).

Mais ainda, a exortação culmina o tratamento da religiosidade popular, aceitando, com a Teologia do Povo, sua relevância não apenas pastoral, mas estritamente teológica, pois termina dizendo: “As expressões da piedade popular..., para quem as sabe ler, são um lugar teológico a que devemos prestar atenção particularmente na hora de pensar a nova evangelização” (EG 126). O Espírito sopra quando e onde quer. Pois bem, parece-me que hoje, em ambientes secularizados do Norte, onde “Deus brilha por sua ausência”,  oferece-se humildemente do Sul o testemunho vivido e sentido da piedade “dos pobres e simples” e de sua “mística popular”, como contribuição para a nova evangelização.

Mas o Papa não é ingênuo e não ignora “que nas últimas décadas houve uma ruptura na transmissão da fé cristã no povo católico”(EG 122). Ele já havia alertado para isso quando era arcebispo de Buenos Aires. Então não só ausculta suas causas (EG 70), mas aposta na pastoral urbana (EG71-75), já que “Deus vive na cidade” (DA 514), embora sua presença deva ser “descoberta, desvendada” (EG 71), não em último lugar, “nos ‘não-citadinos’, nos ‘meio-citadinos’ [e] nos ‘sobrantes urbanos’” (EG 72).

 

IHU On-Line – Bergoglio faz sua evangelização preferencial pelos pobres? O que significa e como entender essa sua opção?

Juan Carlos Scannone - Enfatizei a estreita conexão entre a opção preferencial pelos pobres e a piedade popular como é vivida na América Latina, sobretudo nos setores pobres. Pois bem, embora toda a Igreja, inclusive os Sumos Pontífices tenham feito essa opção, não há dúvida de que a Teologia da Libertação em todas as suas correntes, também a argentina, caracteriza-se por colocar nesta opção seu ponto de partida e seu lugar hermenêutico. O novo Papa, desde a escolha do seu nome, colocou de manifesto sua acentuação do amor preferencial pelo pobre, marginalizado, excluído, desempregado, doente, incapacitado, “descartado”, “sobrante”, tanto que alguns disseram que suas primeiras visitas fora de Roma, a Lampedusa  e Sardenha,  e seu encontro ali com os migrantes refugiados e com os desempregados, operaram simbolicamente como verdadeiras encíclicas.

Não somente declara que “a solidariedade é uma reação espontânea de quem reconhece a função social da propriedade e o destino universal dos bens como realidades anteriores à propriedade privada” (EG 189), de acordo com a doutrina católica, mas que depois afirma: “Para a Igreja, a opção pelos pobres é mais uma categoria teológica que cultural, sociológica, política ou filosófica” (EG 198). Daí que volte a expressar o que já havia dito em outras ocasiões: “Por isso, desejo uma Igreja pobre para os pobres. Estes têm muito para nos ensinar. Além de participar do sensus fidei, nas suas próprias dores conhecem Cristo sofredor. É necessário que todos nos deixemos evangelizar por eles” (ib).

Critica à financeirização

Francisco não deixa de ver o outro lado da mesma moeda. Por isso critica “uma economia [que] “mata” (EG 35),  o “fetichismo do dinheiro” e um “sistema social e econômico... injusto em sua própria raiz”, devido “às ideologias que defendem a autonomia absoluta dos mercados e [de]a especulação financeira”. Afirma que “Deus, em Cristo não redime somente a pessoa individual, mas também as relações sociais entre os homens”, de modo que os cristãos temos com que lutar, sem violência, mas com eficácia histórica, pela “inclusão social dos pobres” e contra “a economia de exclusão e iniquidade” e “o mal cristalizado em estruturas injustas”.

O tema dos pobres segundo o Papa Francisco é ponto essencial de convergência entre seu magistério, o ensino social da Igreja e a Teologia do Povo. Nesses três casos não se trata de uma mera teoria, mas de sua encarnação em práticas existenciais e sociais (inclusive estruturais), que fazem realidade a “encarnação do Evangelho” e a “revolução da ternura” (EG 88).

 

IHU On-Line – De que forma a “teologia latino-americana” pode contribuir para a Igreja de hoje, diante dos desafios da contemporaneidade? 

Juan Carlos Scannone - Karl Rahner,  embora não tenha conhecido pessoalmente a América Latina, tinha um fino sentido da atualidade teológica. Por isso, percebeu já naquela época como contribuições importantes da Igreja e da teologia latino-americanas à Igreja e teologia universais, dois âmbitos característicos de sua vida e reflexão: a teologia libertadora e a religião do povo.  Pois bem, ambas caracterizam a Teologia do Povo e fazem também parte do ar fresco do Sul, que irrompeu na Igreja graças ao Papa vindo “do fim do mundo”.

Como a realidade é superior à ideia, penso que, além das ideias novas que Francisco trouxe ao Papado, há algo ainda mais importante contribuído pela realidade de sua pessoa e seu carisma, a saber, uma radical transformação no estado de espírito na Igreja e também fora dela. Com Ricoeur  aceito que a história, inclusive a da Igreja e sua relação com o mundo, pode ser interpretada como um texto.  Faz parte do significado de um texto não apenas o que nele se diz, mas também o momento pragmático de como se diz, com que atitude existencial e ânimo espiritual, que tom afetivo e vivência o acompanham. Disso se encontram índices objetivos no estilo do texto ou na reiteração das palavras.

Pois bem, o último ano de Pontificado tomado como texto e o próprio texto da EG me parecem refletir um novo ânimo na Igreja, tanto nas intervenções do Papa, como na resposta criativa do Povo fiel. Tal estado de espírito transparece na reiteração textual, gestual e vivida de Leitmotiv como “gozo do Evangelho”, “revolução da ternura”, “cultura do encontro”, etc. Eles se opõem a atitudes de acedia, desencanto e isolamento individualista; e, sobretudo, testemunham e transparentam a alegria de evangelizar e ser discípulos-missionários, o despojo gozoso, o amor preferencial pelos pobres, a misericórdia de Jesus, a esperança do Reino e de “outro mundo possível”. Mas, não se trata de tonalidades separadas, mas que configuram um harmônico “sistema de atitudes” (EG 122) que transluzem e contagiam o gozo do Evangelho.■

Leia mais...

- A teologia e uma nova ótica evangélica a partir dos pobres. Entrevista com Juan Carlos Scannone, publicada na edição número 404, de 05-10-2012;

- Uma teologia atenta à contemporaneidade. Entrevista com Juan Carlos Scannone, publicada na edição número 446, de 16-06-2014;

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