Edição 465 | 18 Maio 2015

O pontificado e as reformas de Bergoglio. Um olhar teológico desde a Alemanha

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Por Patricia Fachin e João Vitor Santos | Tradução: Walter O. Schlupp

Hermann Häring mergulha nos conceitos e ações de Francisco para interpretar os ecos do pontificado

Muitos avaliam que um dos pontos positivos da eleição de Bergoglio como Papa é o fato de ter quebrado com a dinastia eurocêntrica no Vaticano. Desde uma perspectiva germânica, Hermann Häring, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, analisa como Francisco é encarado, quais os desafios e os avanços. De imediato, o que chama atenção é a boa receptividade do povo alemão. “Passado o primeiro choque provocado pela abdicação de Bento XVI, sentimentos de identificação nacional não estão muito presentes. Independentemente da posição de alguns bispos, a Conferência Episcopal Alemã se apresenta de modo surpreendentemente neutro. Por isso alguns grupos reformadores estão insistindo cada vez mais junto aos bispos alemães para que eles se solidarizem expressamente com os objetivos reformadores do Papa”, avalia.

Häring destaca que a corrente da Teologia da Libertação não é muito conhecida na Alemanha. Porém, destaca que graças a Francisco os princípios básicos desta vertente teológica voltam a ser debatidos. “A partir do seu pontificado, as ideias da Teologia da Libertação voltaram a ser propagadas abertamente por muitos grupos na Alemanha. Elas estão sendo bem recebidas entre membros de comunidades cristãs engajadas”, completa.

O Concílio Vaticano II  é outro tema que Francisco traz para o debate. “Para grupos reformadores católicos na Alemanha, no tocante ao Papa Francisco, são importantes três impulsos conciliares: A noção de povo de Deus, o fortalecimento da colegialidade e a descentralização das estruturas eclesiais”, destaca. Esses impulsos suscitam novas perspectivas. O teólogo destaca que o legado do Vaticano II já vinha sendo tratado pelos antecessores. Mas é em Francisco que as novas perspectivas se abrem. “Francisco pode enfatizar que está dando plena continuidade à posição dos seus antecessores. Mas na prática ele envereda por novos caminhos”.

Hermann Häring é teólogo do Instituto para Religião, Ciência e Cultura da Universidade de Nijmegen, Holanda. Estudou teologia em Munique e é diplomado em Teologia pela Universität Tübingen. Algumas de suas obras são Zum Problem des Bösen in der Theologie (Wissenschaftliche Buchgesellschaft, 1985), Hans Küng. Grenzen durchbrechen (Matthias-Grünewald-Verlag, 1998) e Theologie und Ideologie bei Joseph Ratzinger (Patmos Verlag, 2001).

Confira a entrevista.

 

IHU On-Line - Qual é a repercussão dos dois primeiros anos do pontificado de Francisco na Alemanha? Como a Igreja na Alemanha vê o pontificado?

Hermann Häring - O público alemão apresenta uma postura muito positiva para com o pontificado do novo Papa. Independentemente de posições religiosas (católicos, protestantes, agnósticos, ateus) o Papa goza de muita simpatia; 78% consideram positiva a forma como ele se apresenta, apenas 13% desejariam a volta do seu antecessor.

A grande maioria das católicas e dos católicos engajados na sua Igreja recebe bem o novo pontificado: 72% o apreciam como cabeça da sua Igreja, 59% percebem nele uma vontade resoluta de reforma. Dele se esperam vigorosos impulsos concretos visando renovação, nos quais as grandes ideias do Concílio Vaticano II poderão se efetivar. Entretanto, somente 32% acreditam que ele realmente consiga implementar a modernização da Igreja.

Grupos explicitamente conservadores menores, que já se manifestavam sob Bento XVI,  distanciam-se interiormente do pontificado de Francisco. Veem ameaçados os valores tradicionais e as estruturas eclesiásticas, que sob Bento XVI ainda eram impostos enfática e autoritariamente. Esses nostálgicos perfazem 12%.

Neutralidade do episcopado alemão

Passado o primeiro choque provocado pela abdicação de Bento XVI, sentimentos de identificação nacional (despedida de um Papa alemão) não estão muito presentes. Independentemente da posição de alguns bispos, a Conferência Episcopal Alemã se apresenta de modo surpreendentemente neutro. Pouco se percebe de entusiasmo ativo. Por isso alguns grupos reformadores católicos estão insistindo cada vez mais junto aos bispos alemães para que eles se solidarizem expressamente com os objetivos reformadores do Papa e que se posicionem contra as recentes manifestações de resistência da Cúria.

 

IHU On-Line - É possível saber que leituras Francisco faz do Concílio Vaticano II? Em que pontos a leitura do Papa se aproxima e se distancia da leitura feita pelos seus antecessores, Bento XVI e João Paulo II ?

Hermann Häring - Para grupos reformadores católicos na Alemanha, no tocante ao Papa Francisco, são importantes três impulsos conciliares: (1) A noção de povo de Deus, (2) o fortalecimento da colegialidade e (3) a descentralização das estruturas eclesiais. Todos os três impulsos não eram rejeitados por seus antecessores, porém foram interpretados de maneira restritiva de modo a preservar o poder de Roma. Por isso, formalmente, Francisco pode enfatizar que está dando plena continuidade à posição dos seus antecessores. Mas na prática ele envereda por novos caminhos.

A noção de povo de Deus

Para o Papa Francisco a ideia de “povo” se faz nas pessoas humildes, pobres, a viverem sob opressão social (mulheres, homens, crianças). São pessoas que ele encontrava diariamente como cura d’almas na Argentina. Esse conceito, para ele, tem forte componente sociopolítico. Nesse sentido, ele se situa no legado teológico e prático da Teologia da Libertação. A Igreja deve entender-se como “enfermaria” e voltar-se para a periferia da sociedade. Diante desse tratamento socioeconômico, as questões estruturais da Igreja em termos de leigos, sacerdotes e hierarquia passam para o segundo plano.

Já no caso de João Paulo II e Bento XVI (com seu conceito de Igreja fixado no sacramento) essas questões estruturais internas eram importantíssimas. Essa diferença de abordagem é percebida como enorme contraste positivo na sociedade altamente industrializada e também na Igreja, na Alemanha.

Fortalecimento da colegialidade

Algo semelhante ocorre no fortalecimento da colegialidade. Os dois antecessores sempre voltavam a tratar a noção de colegialidade. Só que a restringiram à colegialidade dos bispos e abusaram dela para o disciplinamento monopolista do episcopado mundial. Seu argumento era de que essa colegialidade pressuporia uma unidade rigorosa (monolítica, na prática) debaixo do Papado. Francisco inverte essa ideia e a amplia formidavelmente. Assim ele atua no sentido das forças reformadoras do Vaticano II.

Descentralização das estruturas eclesiais

Ele inverte a ideia ao entender a colegialidade não como conjunto dirigido autoritariamente, de cima para baixo, mas como processo orgânico que, de baixo para cima, constrói uma comunhão de participação transparente. Isso acaba animando as pessoas para iniciativas próprias e para liberdade de manifestação própria. É verdade que até agora ele não alterou as regras oficiais de colegialidade (e provavelmente não o fará), mas ele sempre volta a estimular os bispos, por exemplo, a manifestar abertamente sua opinião, propostas e críticas. Seus antecessores não faziam isso.

A colegialidade, que oficialmente só vale para os bispos, é ampliada para todos os integrantes da Igreja. Por exemplo, ele insistiu que as listas oficiais de questões para os sínodos episcopais de 2014 e 2015 também fossem respondidas por membros do povo da Igreja. Esse limite jamais tinha sido ultrapassado por seus antecessores. Pode-se imaginar que o Papa Francisco saiba que, com esse procedimento, ele desencadeia uma dinâmica que proporcionará cada vez mais direitos de voz para o povo da Igreja.

IHU On-line - O Papa geralmente cita os conceitos de fraternidade, colegialidade, cultura, espaço e tempo. Como interpreta esses conceitos que aparecem na fala do Papa?

Hermann Häring - O Papa se deu conta do significado da comunhão concreta e do fato de que a salvação cristã se dá não num além celestial, mas no convívio concreto das pessoas. Segundo a mensagem de Jesus, as pessoas sempre são “próximos/as”, são parte, em última análise, de uma família humana universal. Por isso ele enxerga as pessoas como irmãos e irmãs. A Igreja que queira implementar essa mensagem precisa, por isso, entender-se como comunhão de pessoas com a mesma mentalidade, a colaborarem solidariamente. E por isso ele fala em colegialidade.

Esse convívio concreto entre irmãos e irmãs se realiza em meio a contextos sociais, culturais e temporais muito diversos. Salvação, para Francisco, sempre é salvação contextual. A situação fundamental dos seres humanos implica processos, estamos a caminho. Essas condições básicas da vida humana sempre precisam ser levadas em consideração, caso contrário nossa proclamação e atuação perdem a orientação e ficam suscetíveis de ser dominadas por ideologias. Por exemplo: com quem estou falando ? Com uma mulher ou com um homem? Com um pescador humilde ou com uma filha de industrial rico? Com uma colona que trabalha duro ou com um cientista erudito? Com chineses ou nigerianos?

 

IHU On-Line - Que conceitos teológicos ele retoma em seus discursos? Por quê? É possível identificar quais teólogos influenciam a teologia de Bergoglio?  

Hermann Häring - Como conceitos teológicos centrais percebo (a) a Igreja e o evangelho, (b) o povo e os pobres, (c) a economia capitalista atual com suas consequências catastróficas.

A Igreja e o evangelho

Apesar de toda a crítica sobre a realidade da Igreja, o valor, a tarefa e a função efetiva da Igreja desempenham papel extremamente importante na teologia de Bergoglio. Somente dentro dela é que se pode realmente crer em Cristo, nela é entendido corretamente o evangelho como mensagem do reino de Deus. E ela nos proporciona a capacidade de fazer a salvação de Deus começar aqui e agora. Nesse sentido não se percebe em Francisco crítica alguma à teologia católica clássica. Nesse sentido ele também entende seu ministério segundo o primado Papal oficialmente definido.

Mas ele não trata essa Igreja de modo triunfalista, mas submete a Igreja e seus ministros (bispos e sacerdotes) aos mais rigorosos critérios. Ele admoesta (no sentido de advertir), critica e busca caminho para a renovação deles, a começar pela profunda reforma na Cúria. Esses critérios resultam do evangelho, essa mensagem de uma salvação (de libertação, solidariedade e paz) a acontecer concretamente no tempo presente entre os pobres e marginalizados. A Igreja somente adquire sua identidade ao corresponder efetivamente às expectativas do evangelho.

O povo e os pobres

Recebedor da salvação é preferencialmente o povo socialmente carente, principalmente os pobres que precisam batalhar por suas necessidades básicas (alimentação, roupa, moradia, assistência médica, formação, segurança jurídica). O desígnio da Igreja se cumpre no cuidado samaritano por eles e na presença entre eles. O coração desse homem se encontra junto a eles, ele consegue ir ao encontro dos pobres de modo franco para ficar junto a eles. De todos os cristãos ele espera que a sina dos pobres os ocupe mentalmente, atingindo seu coração emocionalmente, que chorem por eles e os ajudem. Sua viagem para Lampedusa  mostrou isso de modo comovente.

Economia capitalista atual com suas consequências catastróficas

O anúncio da mensagem cristã da salvação por Bergoglio inflama-se no atrito com a situação socialmente injusta, humilhante, que clama aos céus. Tal situação é produzida pelas condições econômicas mundiais, atingindo negativamente cerca de dois terços da humanidade. Sua frase “essa economia mata” foi objeto de intensa controvérsia na Alemanha. Para muitos, deixa em aberto se ele rejeita por princípio uma economia dirigida pelo capital ou se está querendo dizer que a forma atual da economia global — este capitalismo predador concreto, sem freios sociais — tem efeito injusto, mortal e catastrófico. E, por isso, cristãos não o podem aceitar de forma alguma.

O grande mérito do Papa é ter colocado essa questão no centro da sua mensagem, desafiando os cristãos da Alemanha a tomar conhecimento desse problema e enfrentá-lo. A partir do seu pontificado, as ideias da Teologia da Libertação voltaram a ser propagadas abertamente por muitos grupos na Alemanha. Elas estão sendo bem recebidas entre membros de comunidades cristãs engajadas.

Bergoglio é considerado adepto da Teologia da Libertação. Todos os insiders percebem nele os grandes impulsos que a Teologia da Libertação desenvolveu desde o final dos anos 1960 (muito conhecidos são os nomes Gustavo Gutiérrez,  Leonardo Boff,  Jon Sobrino,  os bispos Hélder Câmara  e o mártir Oscar Romero ). No meu entender ele também foi marcado pela imagem de Igreja de Henri de Lubac,  a qual ele sabe combinar com a Teologia da Libertação. Sabe-se também da grande influência do teólogo da libertação argentino Lucio Gera,  com sua “Teologia do Povo”. Lucio Gera praticamente não é conhecido na Alemanha.

 

IHU On-Line - Como interpreta os discursos do Papa Francisco referentes às consequências políticas dos processos de globalização industrial e econômica, especialmente quando ele se refere à “globalização da indiferença”? Qual o significado desses discursos?

Hermann Häring - Como entendo, não é preciso ter muito conhecimento teológico ou econômico para se compreender as declarações básicas do Papa sobre os mencionados processos de globalização. Ele simplesmente nos orienta a tomar conhecimento da realidade do jeito que ela é, fazer um julgamento à luz da mensagem cristã e atuar de modo correspondente.

Francisco enxerga que as vias financeiras e os meios de comunicação modernos envolvem cada vez mais o nosso globo, prendendo a humanidade inteira a um mecanismo que estruturalmente é igual por toda a parte, avançando segundo as mesmas leis. Ele ressalta que esses processos de globalização estão ficando cada vez mais anônimos, poderosos, atuais e injustos. O Papa está convicto de que todos tendemos a aceitar com apatia cada vez maior esses processos correspondentes de enriquecimento e depauperamento — uns, porque tiram proveito, os outros, por se sentirem impotentes. Ele quer que despertemos e transformemos este mundo ditado pela economia segundo as nossas capacidades. Para ele esse apelo é irrenunciável, por fazer parte da proclamação cristã e da prática do reino de Deus.

Os atuais problemas na União Econômica Europeia [sic] e o drama dos refugiados que diariamente vêm até nós pelo Mediterrâneo, em muitos casos se afogando, mostram a relevância atual da sua mensagem. Na Igreja alemã, Bergoglio já conseguiu agora que essa consciência social crítica seja discutida em público. E isso se dá principalmente em setores cristãos, com muito maior intensidade do que poucos anos atrás. Não significa que até agora se tenham encontrado soluções claras. Mas a disposição para ajudar e para a solidariedade aumentou de modo significativo.

 

IHU On-Line - Como a Evangelii gaudium  orienta, ilumina o pontificado de Francisco? Quais são as linhas mestras que aparecem e de que modo elas sinalizam como será o pontificado de Francisco? 

Hermann Häring - A exortação apostólica Evangelii Gaudium é o mais importante documento publicado até agora pelo Papa Francisco. Seu estilo linguístico simples, direto e rico em imagens elucida a pessoa de modo autêntico. Ela mostra que Bergoglio está marcado não primordialmente por ideias teológicas abstratas, mas pelo encontro vivo com pessoas simples e por uma profunda espiritualidade, ou seja, por uma inabalável confiança em Deus. Seu pontificado se nutre desses encontros e também dessa intensa experiência de fé.

Vertentes principais dessa exortação são: (1) o modelo de Igreja e Evangelho que, sem reservas, estão do lado dos pobres, (2) uma visão crítica, não distorcida, dos problemas das atuais condições econômicas e sociopolíticas e (3) a preocupação com uma pastoral que se encontre junto às pessoas, é por elas entendida e atua como exemplo.

Igreja e Evangelho ao lado dos pobres

A Igreja deve estar exclusivamente a serviço do Evangelho, portanto deve ir até as pessoas, viver com elas. O ponto crucial e teste desse amor da Igreja pelas pessoas são os pobres e marginalizados. No reino de Deus eles gozam de lugar privilegiado, têm valor teológico de primeira categoria. Por isso o Papa tem pavor de qualquer narcisismo ou triunfalismo eclesiásticos. Em primeiríssimo lugar precisamos ser uma Igreja dos pobres. Essa é a diretriz suprema da sua vontade reformadora.

Visão crítica dos problemas econômicos e sociopolíticos

A exortação critica as condições sociais não com as categorias tradicionais da moral individual (pecado, vícios pessoais, lamúria sobre o distanciamento de Deus e a secularização), mas com as categorias seculares da injustiça social (exclusão, poder do dinheiro, violência como consequência da situação associal). Exige uma renovação das condições sociais a partir da perspectiva das vítimas (ouvir os gritos, cuidar dos pobres, distribuir adequadamente a renda e os bens). Uma frase central dele é: “A realidade é mais importante que a ideia”.

Preocupação pastoral popular

Entretanto, o Papa não se compreende primordialmente como analista de economia e sociedade. Seu interesse principal é pastoral. Ele quer que os curas d’alma [Seelsorger], homens tanto quanto mulheres, entendam as pessoas a partir da sua situação concreta, sua cultura e espiritualidade. Por isso ele dedica à proclamação, à homilia e à pregação um capítulo inteiro, que reflete sua própria experiência pastoral extensa.

A encíclica como programa de pontificado

Em resumo, entendo essa encíclica como base programática de todos os programas de renovação que esperamos de Francisco. A reforma da Cúria, para ele, é mero ponto de partida inicial. Mas ele se vincula ao mesmo tempo com a cooperação colegial dos bispos, pois não entende a Igreja como corporação autoritária. Esperamos que os bispos do mundo finalmente acordem e tomem conhecimento da autoridade espiritual do bispo de Roma e a acolham com o coração e com a mente.

 

IHU On-Line - Como o Sínodo para a Família  repercutiu na Igreja alemã? Quais foram os pontos mais discutidos entre os padres e leigos alemães?

Hermann Häring - Os sínodos de 2014 e 2015 suscitaram acaloradas discussões em todos os níveis da Igreja Católica da Alemanha, as quais ainda não terminaram. Começaram na primavera de 2014, com grande entusiasmo e elevadas expectativas. O grande número de respostas ao questionário de 2014 mostra que as noções de moral do povo católico na Alemanha são maciçamente diferentes das ideias oficiais, principalmente entre jovens. Ao longo do sínodo em outubro de 2014, porém, muitos se decepcionaram. O questionário 2015 só foi respondido por poucos católicos e católicas. Isso, por três razões, que caracterizam o trabalho romano, o qual pouco tinha aprendido com Francisco:

- O linguajar das questões era abstrato, de difícil entendimento.

- A formulação de muitas perguntas já sugeria a resposta.

- Muitas questões não levavam a sério as ideias de moral do povo.

Tirando, então, “o cavalo da chuva”, as pessoas começaram a questionar o papel do Papa:

- Quanta influência direta o Papa pode exercer sobre o andamento do sínodo? Quanta liberdade ele concede, por exemplo, ao conservador prefeito da Congregação de Fé,  cardeal Müller ?

- Qual a posição teológica do Papa? Ele acredita que pode implementar seu moderno programa de renovação sem revisar certos pontos da doutrina de fé oficial? (Concretamente, a rigorosa e restritiva moral sexual e matrimonial.)

Destaques da Igreja na Alemanha

Os seguintes pontos foram os mais discutidos na Igreja católica da Alemanha:

- a readmissão dos novamente casados aos sacramentos. A resposta nesta questão é considerada teste da proximidade e misericórdia da Igreja para com as pessoas.

- a licença para novo casamento em determinados casos: por que se ignora a cláusula de Mt 5,32 nos documentos da Igreja?

- a aceitação de casais homossexuais a conviverem, homens como mulheres.

- Cada vez mais se discutem importantes questões de fundo:

Uma concepção moderna de sexualidade;

Neste contexto, sexo antes do casamento e a questão: que quer dizer “indissolubilidade”?

A medieval concepção de ser humano, que continua dominando na doutrina oficial;

O fato de serem homens celibatários que decidem essas questões, enquanto todos os casados são excluídos das votações.

 

IHU On-Line - O que significa “conduzir a Igreja para dentro do século XXI”? Francisco está fazendo isso? Como e em que aspectos?

Hermann Häring - De uma Igreja cristã mundial deve-se esperar o seguinte no séc. XXI:

1) Pluralidade cultural;

2) Abertura interconfessional e inter-religiosa;

3) Competência no diálogo com as ciências naturais e humanas modernas;

4) Competência no tratamento dos problemas globais (sociais, econômicos e políticos);

5) Tudo isso a serviço da sua mensagem de justiça, conciliação e paz entre os povos.

Quanto ao item 5: não há dúvida de que Francisco coloca todas as atividades a serviço da justiça. Em princípio, portanto, ele está bem encaminhado e deveria ser apoiado sem reservas nesse sentido. Ele não se limita a teorias e segue na frente dando bom exemplo. Isso tem valor imenso para toda a Igreja mundial.

Quanto ao item 4: no tratamento dos problemas sociais, econômicos e políticos Francisco apresenta grande interesse e elevada competência. Com razão ele dá a maior importância a esses problemas. Concretamente, ele atua no sentido de a Igreja realmente estar entre os pobres. Isso também é reconhecido em alto grau fora das Igrejas. Mas o que isso significa concretamente nos diferentes lugares? Cada região geográfica (por ex. Europa, África Central, América Latina etc.) precisa formular suas próprias respostas concretas. Em colaboração com as Igrejas de outros países da União Europeia, a Igreja Alemã é chamada a formular suas próprias respostas em função do programa do Papa, tirando consequências para sua própria conduta. Até agora isso ainda não aconteceu.

Quanto ao item 3: que eu saiba, Francisco ainda não agiu nessa área. Muito mais importante é que ele, dado o caso, não impeça contatos entre teologia e ciências e afaste influências evangelicais.

Quanto ao item 2: quanto a outras religiões, Francisco não tem problemas de contato. Sua profunda espiritualidade lhe dá a convicção de que Deus está presente em todas as pessoas e religiões. Em aberto está a questão de como ele se posiciona em questões rigorosamente dogmáticas que, no lado católico, se opõem à igualdade de valor da religião [sic; talvez a intenção do entrevistado seja dizer: das diferentes religiões]. Dificilmente se poderá esperar que ele revise as posições excludentes de Dominus Iesus “sobre a singularidade e universalidade de Jesus Cristo e da Igreja para a salvação“ (2000). Mas, para começar, basta conseguir uma cooperação sem reservas com todas as religiões universais em relação aos grandes problemas globais (cf. item 4). Também nesse ponto o Papa dependerá de iniciativas locais. Quanto ao “Projeto Ética Mundial“ e programas similares ele parece demonstrar receptividade.

Parece não haver, ainda, posicionamentos expressos sobre outras Igrejas ou denominações cristãs. Também nesse ponto está na hora de os bispos das regiões fortemente envolvidas começarem a agir. Por exemplo, da Igreja Católica da Alemanha se espera que, para o jubileu da Reforma em 2017 (início da Reforma 500 anos atrás) ela elabore uma iniciativa e a proponha ao Papa.

Quanto ao item 1: o respeito pela pluralidade cultural dentro e fora da Igreja católica é algo muito natural para o Papa.

Ao que se ouve, esse aspecto está sendo levado em consideração no preparo da reforma da Cúria. Necessário seria que um novo ordenamento básico da Igreja como um todo atribua amplos direitos às conferências episcopais continentais, como nos antigos patriarcados. É difícil dizer se Francisco, para tanto, permitirá uma revisão do atual ordenamento da Igreja (revisão da ideia de primado).

Dentro dessa pluralidade, algumas regiões de cultura específica precisam receber o direito de desenvolver competências próprias e colocá-las a serviço da Igreja como um todo. Atualmente Francisco está mostrando o que uma determinada competência latino-americana (adquirida em cooperação com a teologia da libertação) pode representar para a Igreja como um todo. Igrejas asiáticas poderiam desenvolver grande competência na forma de lidar com outras religiões; Igrejas da África central, para a forma de lidar com a natureza e os ancestrais. Igrejas europeias agora já reuniram muita experiência para como viver numa sociedade secularizada. Elas precisam ser libertadas do estigma da “mundanização” [Verweltlichung]. Elas poderiam fazer trabalho pioneiro para um ambiente [secularizado] que ainda vai desafiar outras regiões.

Deficiência do Sínodo

Quanto aos sínodos episcopais de 2014 e 2015, perdeu-se infelizmente a oportunidade de descentralização e pluralização cultural. Teria sido muito melhor que regiões de cultura específica tivessem elaborado primeiro suas próprias ideias ao longo de um período mais longo. Numa segunda fase, então, se poderia inter-relacioná-las e elaborar um documento que conceda uma autonomia necessária para cada região.

Resumindo: em muitos aspectos o Papa está pondo a Igreja Católica em forma para o séc. XXI. Ele sabe que nem tudo pode acontecer de uma vez e sem ampla anuência eclesial. Nesse ponto ele é realista. Ele não pensa em termos de resoluções revolucionárias, mas de processos dirigidos com prudência, que por força de sua lógica interna podem levar a consequências revolucionárias.

 

IHU On-Line - Que respostas a Igreja tem a oferecer para os valores da modernidade? Como a Igreja deve se relacionar com a modernidade? 

Hermann Häring - A Igreja Católica mundial, que é um global player com cerca de 1,2 bilhão de membros, deve implementar a imitação de Jesus e sua visão do reino de Deus em nossa época e em todos os lugares em que ela possa estar presente. Isso implica contínuo trabalho de tradução em termos de teoria e de prática de vida (João XXIII  falava de aggiornamento), ou seja, interpretação atualizada e vida exemplar.

Disso fazem parte:

- engajamento existencial de indivíduos e grupos em sinceridade e coerência sem reservas. Nesse ponto Francisco lidera a Igreja como exemplo inspirador;

- solidariedade incondicional e ativa com os marginalizados, empenhando-se pelo seu bem-estar concreto e na luta por estruturas justas em termos sociais, econômicos e políticos. Nessa área o Papa apresenta uma competência muito especial;

- a promoção e oferta de uma espiritualidade fundada na confiança no Deus de todos os seres humanos, ou seja, que não acaba na porta da Igreja. Todas as atividades do Papa são acompanhadas de uma espiritualidade tão autêntica a ponto de convencer as pessoas;

- a lembrança contínua dos grandes valores do convívio humano: regra de ouro, humanitarismo, amor ao próximo, principalmente a não violência e a reverência perante a vida, justiça e equidade, sinceridade e tolerância, direitos iguais e fidelidade, cuidado da conciliação e paz. Esses valores devem ser apresentados não como doutrina superior, mas como lembrança fraterna, porque são conhecidos por todos os seres humanos, baseados em sua própria experiência, porém muitas vezes são esquecidos ou reprimidos;

- protesto e resistência proféticas quando esses valores são flagrantemente desconsiderados em atos ou estruturas. Aqui entra o apoio a todos que (dentro ou fora de Igrejas e religiões) arriscam a própria vida nesse empenho e que, para interromper correntes de violência, radicalizam seu amor ao próximo em forma de amor ao inimigo.

Igreja

A Igreja precisa ser aquele lugar onde essa prática possa começar e ser testada como exemplo. A Igreja se integra na modernidade vivendo a imitação de Cristo na modernidade de forma tão atualizada quanto o fez em épocas anteriores. Importante é que ela não tema uma sociedade secularizada. Então descobriremos que a prática cristã de vida também é possível dentro da categoria secularizada, isto é, como atuação secular e com linguagem secular.

 

IHU On-Line - Para onde Francisco quer levar e está levando a Igreja?

Hermann Häring - Francisco deseja renovar a Igreja Católica, transformá-la numa comunidade em prontidão. Tal comunidade precisa reagir de forma objetiva ajudando nas angústias da atualidade, nos abismos apocalípticos de injustiça, violência e miséria. Para ele isso é possível dentro da imitação de Cristo. Ele quer mostrar que o Evangelho é algo totalmente moderno, que deixa a pessoa feliz também nos dias de hoje. Ele deseja fazer com que a Igreja não bloqueie essa missão por causa de narcisismo, triunfalismo e perfeccionismo. Nessa questão ele visa principalmente os bispos e os párocos [amtliche Seelsorger].

Agora, as Igrejas do mundo realmente o seguem? Quanto à Alemanha, a questão ainda não pode ser respondida. A maioria dos bispos hesita bastante ao reagir aos impulsos do Papa, porque até agora se portaram como cumpridores de ordens. Só que agora teriam que desenvolver iniciativas próprias e renunciar a alguns privilégios. Mas por enquanto é difícil avaliar isso.

 

IHU On-Line - Deseja acrescentar algo?

Hermann Häring - Ao avaliar o novo pontificado geralmente a gente se esquece de que a vida da Igreja se desenrola em vários níveis; e que é importante pô-los em sintonia. São constituídos de:

Espiritualidade

De grande importância para a Igreja como um todo me parece ser a profunda e madura espiritualidade do Papa (a qual é de cunho jesuítico). Ela é contagiante, impressiona a muitos dentro e fora da Igreja, sendo inspiradora para o “povo da Igreja“ alemão. Muitas paróquias perderam o medo que tinham. Anseios, expectativas e críticas são manifestados abertamente. Esse efeito sobre a atitude e a mentalidade das pessoas é de grande significado e, a longo prazo, muito eficiente para uma renovação da Igreja.

Comunhão

A fé cristã, por princípio, vive em comunhão, a qual lhe serve de alimento. Por isso é muito importante que Francisco, em numerosos gestos e palavras, valorize a comunhão/comunidade, sua participação e a abertura em relação a ela. No longo prazo, essa inversão deverá ter efeito revolucionário. Será que as comunidades de base serão valorizadas também teologicamente a médio prazo? Caso isso não aconteça, impulsos renovadores jamais terão efeito abrangente.

Estruturas jurídicas

Como toda e qualquer comunidade, também a Igreja não conseguiria viver sem estruturas e regulamentação jurídica. Acontece que elas estão demasiado dominantes e rígidas. Francisco tenta configurar as estruturas existentes de forma a mais aberta possível. Mas ele (ainda) se sente muito preso ao arcabouço jurídico e dogmático. Será que ele vai libertar disso a si e a Igreja?

Para realmente avançar em nível estrutural, é preciso revisar não só a Cúria, mas todo o Direito Canônico com sua concepção monocrática de hierarquia e pontificado. Nesse importante quesito ainda não se lançaram dados. A biografia jesuíta do Papa não permite esperar alterações profundas aqui, porque também seria necessário discutir sobre o Papado como ministério. No longo prazo fica, pois, a pergunta se a atual estrutura realmente admite reformas fundamentais no sentido da Evangelii Gaudium. Precisaríamos de bispos corajosos e desassombrados para conversar com o Papa sobre isso.

Interpretações teológicas e outras

A reflexão tem papel central na Igreja católica. Ou seja, a doutrina da fé, o dogma e a teologia. Em muitos aspectos Francisco tem convicções teológicas claras que eu chamaria de conservadoras. Mas ele tem evitado fazer declarações teológicas; na teologia ele quer permanecer ouvinte. Mas cedo ou tarde isso levará a tensões com processos de renovação fundamentais (primado do Papa, papel da mulher, moral sexual...). Ainda não se pode dizer qual a solução desse problema, se é que tem solução.

Sua relação com a sociedade e o mundo

Por mais que uma Igreja se entenda como comunidade sobrenatural, como comunhão fundada por Cristo, ela não deixa de ser uma comunidade situada no mundo, que faz parte deste mundo. O grande mérito da Teologia da Libertação é que ela submeteu essa relação com o mundo a uma nova reflexão; e para a Igreja como um todo é um lance muito feliz que Francisco a desafie a reorganizar sua relação com o mundo. Talvez esse impulso seja o maior peso que Francisco coloca na bandeja das renovações.

Resumindo, pode-se dizer: além da sua espiritualidade, grandes selos de qualidade deste pontificado são a vontade resoluta de reformar e a solidariedade com o mundo atual e suas pessoas. Em todos os casos, a Igreja pode considerar-se feliz por ter esse Papa. Tomara que ele fique muito tempo no cargo.■

Leia mais...

- De "autoritário" a "fraternal": os desafios do papado no século XXI. Entrevista com Hermann Häring, publicada nas Notícias do Dia, em 18-01-2010;

- Paulo, o universalismo e a Ética Mundial. Entrevista com Hermann Häring, publicada na edição 289, de 22-12-2008;

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