Edição | 18 Maio 2015

Dois anos de Pontificado de Francisco

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Ivone Gebara

“A grande maioria dos fiéis parece silenciosa e desconhece sua história, sua política e sua teologia, quando muito o acham simpático e não hesitariam, talvez, em comprar uma foto do Papa e guardá-la como lembrança”, comenta Ivone Gebara, filósofa e teóloga feminista/ecofeminista. Foi professora do Instituto de Teologia do Recife, fechado em 1989 por ordens do Vaticano.

Eis o depoimento.

A quem de fato interessa a avaliação dos dois anos de pontificado de Francisco? O que as múltiplas e diversas avaliações contribuem para o conjunto das comunidades católicas e para o mundo? O que as pessoas mais simples das paróquias, comunidades de base e movimentos eclesiais teriam para dizer sobre sua atuação? O que as outras Igrejas cristãs estão dizendo?

Sinto que os diferentes grupos da Igreja Católica querem, cada um de seu jeito, recuperar as posições do Papa como seu aliado ou mesmo seu refém. Alguns fazem dele adepto da teologia da libertação e até discípulo de célebres teólogos. Outros o descrevem como silencioso em relação à ditadura militar argentina. Outros falam de sua simplicidade, de suas posições políticas a favor dos pobres, de sua proximidade aos marginalizados e injustiçados de muitas partes do mundo. Alguns o temem e pensam que sua postura liberal poderá conduzir a Igreja Católica a uma desordem maior do que a existente. Entretanto, a grande maioria dos fiéis parece silenciosa e desconhece sua história, sua política e sua teologia, quando muito o acham simpático e não hesitariam, talvez, em comprar uma foto do Papa e guardá-la como lembrança. Com essas observações quero lembrar a complexidade das avaliações e análises publicadas pela imprensa em relação ao Papa Francisco. Muitas vezes os meios de comunicação social colecionam opiniões, polemizam, mas pouco ajudam no envolvimento e responsabilidade das pessoas em relação às grandes questões de nosso tempo.

Abertura

Creio que é constatação inegável a abertura de Francisco à situação dos povos em busca de sobrevivência, dos refugiados de todos os países, dos condenados ao desterro, dos mortos tragados pelo mar quando buscavam vida. Além disso, Francisco prepara uma encíclica sobre a gravíssima situação climática de nosso planeta como questão fundamental de nosso tempo. Ele tem sido capaz de ser sensível a muitos problemas vividos pela comunidade internacional, pelo 'planeta azul' exposto a graves riscos de destruição, sem esquecer as iniciativas em relação à reforma da cúria romana.

Entretanto, para além das opiniões, avaliações e previsões de tantos especialistas, pergunto: que diria Francisco de seu pontificado? Ousaria expressar as múltiplas pressões políticas internacionais e vaticanas a algumas de suas posições? Ousaria afirmar-se em oposição aos que o precederam, sobretudo os mais próximos? Que angústias o acometem quando se vê “aprisionado” por tantos interesses diferentes? Que sombras o envolvem quando quase octogenário se sente questionado por tantas visões diferentes de mundo?

As pequenas notas destoantes em relação aos seus predecessores e algumas atitudes de simplicidade não significam necessariamente a inauguração de um novo modelo de coordenação e governo da Igreja Católica. A tradição de um Papado vinculado a um Estado político, o Estado do Vaticano, perpassa todas as atitudes e boas intenções de Francisco e revelam a complexidade da História do Catolicismo Romano.

Mulheres

Sei que algumas leitoras e leitores dessa revista esperam que eu emita alguma opinião sobre a postura de Francisco em relação às mulheres. Em outras ocasiões já escrevi e falei sobre a dificuldade de uma Igreja patriarcal cujo poder de mando repousa sobre cabeças masculinas de se sentir aliada e solidária com os esforços de luta pela dignidade feminina neste século. Não conseguem nem pronunciar palavras como ‘feminismo’ de forma positiva, além de desconhecerem quase completamente as teses feministas. Podemos reconhecer a solidariedade hierárquica masculina quando se trata de situações-limite expressas em diversas formas de violência cultural e social contra as mulheres. Entretanto, muitas formas de exclusão, de desvalorização, de violência simbólica, de falta de autonomia, de linguagem excludente, mal chegam a ser percebidas, sobretudo quando acontecem no interior da própria instituição católica. Não percebem ‘nem traves e nem palhas em seus olhos’ e atitudes. Não querem ouvir os clamores femininos de coração aberto.

A antropologia teológica que preside a grande maioria das posturas da oficialidade da Igreja Católica Romana provém de uma visão hierárquica que privilegia o masculino como imagem primeira do divino. E privilegia o divino com imagem histórica masculina. Além disso, justifica essas posturas como sendo ‘revelação divina’, escondendo atrás dessa justificação limites imensos. Estes limites impedem o diálogo com os diferentes grupos que se sentem também parte da tradição de Jesus de Nazaré sempre de novo interpretada, não necessariamente através de referenciais filosóficos antigos e medievais. Acentua-se, por exemplo, a crucifixão de Jesus e muito pouco as lágrimas de Maria e da comunidade de crentes. Muito embora esta referência esteja presente, não é capaz de modificar a interpretação da "sagrada" masculina hierarquia dominante.

Pensar, desejar, esperar é sempre bom e necessário. Por isso espero que sejamos nós as/os pontífices de nossas comunidades, ou seja, que sejamos capazes de ser ‘pontes’ para nos articularmos, aprendermos e ajudar-nos uns aos outros orientados pelo difícil amor ao próximo como a nós mesmos. E que o irmão Francisco se torne cada vez mais um símbolo significativo do que somos e queremos ser uns para os outros. ■

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