Edição 465 | 18 Maio 2015

A lufada de ar do Concílio Vaticano II na Igreja

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João Vitor Santos e Ricardo Machado | Tradução: André Langer

Gilles Routhier observa os gestos de Francisco como janelas abertas à renovação de ares no catolicismo

Ao optar pelo diálogo, Papa Francisco parece interpretar o Concílio Vaticano II não somente com exortações e homilias, mas, sobretudo, com gestos significativos. “Isso está claro, especialmente no nível da sua opção pelo diálogo, na Igreja, com os outros cristãos e com os crentes de outras religiões”, avalia o teólogo e pesquisador Gilles Routhier em entrevista por e-mail à IHU On-Line. “Este é apenas um exemplo. Sua determinação pela liturgia renovada pelo Concílio é outro exemplo, assim como sua opção pelas Conferências Episcopais, às quais será preciso conceder um magistério doutrinal (Evangelii Gaudium)”, complementa.

De acordo com Routhier, este modo de ser de Francisco é sensível a muitas pessoas, inclusive fora dos círculos católicos, funcionando como uma espécie de “lufada de ar fresco” na Igreja com ares do último Concílio. “No Vaticano II, a Igreja católica torna-se ‘extrovertida’. Ela se volta para Deus (liturgia e revelação) e para os outros”, esclarece. “Ela (a Igreja) quer enfrentar o desafio de se dirigir ao mundo contemporâneo, como convidava o discurso inaugural de João XXIII”, pontua o entrevistado.

Pensar o Papa Francisco em termos puramente conceituais, teóricos, é sempre um exercício difícil de ser feito, isso porque sua teologia se evidencia de forma mais clara nas relações que o pontífice estabelece. “Para ele, a relação conta muito. É um conceito ou uma realidade: relação com Deus e com Cristo, relações com os outros, aqueles que estão longe e os pobres, em particular. Podemos também tomar outros conceitos, mas é preciso conceituar o que é sempre concreto para ele e que realça a vida: despojamento, humildade e simplicidade, serviço, saída para os outros etc.”, descreve.

Gilles Routhier, nascido em Quebec, no Canadá, é padre e teólogo católico. Obteve o título de doutor em Teologia pelo Instituto Católico de Paris e em História das Religiões e da Antropologia Religiosa pela Universidade Paris-Sorbonne. Especializado na recepção do Concílio Vaticano II, foi professor de Teologia Prática e Eclesiologia no Instituto Católico de Paris e atualmente ensina na Université Laval, do Canadá.

Confira a entrevista.

 

IHU On-Line - Qual é a leitura que o Papa Francisco faz do Concílio Vaticano II e como as linhas gerais do Concílio aparecem no pontificado dele? Quais os principais pontos que distinguem sua leitura das de Bento XVI e João Paulo II?

Gilles Routhier - Francisco não está interessado nos debates teóricos sobre a interpretação do Vaticano II. Ele não vai relançar o debate sobre esse tema, discussão que teve o efeito de dividir os católicos. Ele vai interpretar o Concílio por meio das suas ações. Isso está claro, especialmente no nível da sua opção pelo diálogo, na Igreja, com os outros cristãos e com os crentes de outras religiões. Este é apenas um exemplo. Sua determinação pela liturgia renovada pelo Concílio é outro exemplo, assim como sua opção pelas Conferências Episcopais, às quais será preciso conceder um magistério doutrinal (Evangelii Gaudium ), etc. Ele interpreta o Vaticano II acolhendo-o e colocando-o em prática. Ele interpreta também o Vaticano II através da sua atitude pastoral. Ele reconhece que a pastoralidade deve passar ao primeiro plano, assim como a busca da dignidade das pessoas, sobretudo dos pobres. Reencontramo-nos com a Gaudium et Spes,  ou seus esforços pela paz.

 

IHU On-Line - Como é recebida pela Igreja a leitura do Papa Francisco acerca do Concílio Vaticano II?

Gilles Routhier - Sua opção de fundo pela volta ao Evangelho certamente incomoda alguns grupos, porque questiona os costumes, maneiras de viver, etc. Além disso, isso é sentido por muitos, inclusive fora dos círculos católicos, como uma lufada de ar fresco. Era o que muita gente estava esperando.

 

IHU On-Line - À luz do Concílio Vaticano II, como o pontificado de Francisco encara os desafios do mundo atual?

Gilles Routhier - No Vaticano II, a Igreja Católica torna-se “extrovertida”. Ela se volta para Deus (liturgia e revelação) e para os outros: Gaudium et Spes, Unitatis Redintegratio, Nostra Aetate. Ela quer enfrentar o desafio de se dirigir ao mundo contemporâneo, como convidava o discurso inaugural de João XXIII. Francisco deseja também uma Igreja em saída, que não seja simplesmente autorreferencial. Ele retoma os grandes temas abertos pelo Vaticano II, mas que precisam de um novo empenho: a paz, a convivência entre as pessoas com convicções religiosas diferentes, a atenção aos pobres e aos mais fragilizados (crianças e idosos), a ecologia, tema que não foi abordado pelo Vaticano II.

Ele não retoma apenas temas do Vaticano II, mas também suas atitudes: solidariedade, serviço e diálogo com o mundo contemporâneo; anúncio do Evangelho em termos compreensíveis para o mundo de hoje, para além dos católicos, etc.

 

IHU On-Line - Papa Francisco é visto por muitos como um reformador. O senhor concorda? E o que é uma reforma hoje no mundo católico, o que ela permitiria e como Francisco articula essa reforma?

Gilles Routhier - Ele é, sem dúvida, um reformador, mas se quisermos compreendê-lo, precisamos ir às fontes da sua inspiração. Sua reforma é, acima de tudo, de natureza evangélica. Certamente, ele vai tocar em práticas, formas institucionais, mas seu fundamento é evangélico. Ele convida, além disso, à conversão pastoral da Igreja, de seus modos de pensar e de agir, etc. Esta conversão pastoral de natureza evangélica milita a favor da simplicidade evangélica (despojamento, kenosis), do ministério mais do que do magistério. Nesse sentido, ela é cristológica. Ela é descentramento da Igreja para os outros, em particular dos mais pequeninos. Também nisso ela é fundamentalmente cristológica e, nessa linha, desemboca no Vaticano II. Ele coloca no centro a pessoa e não os sistemas, as estruturas, etc. É a partir deste impulso evangélico que é preciso considerar sua reforma.

 

IHU On-Line - De que forma Francisco conduz a Igreja rumo ao terceiro milênio?

Gilles Routhier - Provavelmente seja muito ambicioso falar do milênio. Ele, pelo menos, vai indicar um caminho possível para a Igreja no presente século. É preciso ver se esse aceitará seguir por esse caminho, essa maneira de estar no mundo. Isso não está dado.

 

IHU On-Line - Como Francisco articula a ideia de colegialidade através dos sínodos? Qual o significado da escolha do tema “Família” para o Sínodo?

Gilles Routhier - Ao escolher esse tema ele aborda uma questão que afeta quase todas as pessoas. Essa não é uma questão interna à Igreja, mas uma realidade que toca todas as pessoas, a vida de todos os dias, a vida comum. Nesse sentido, essa escolha descentra a Igreja.

No Sínodo, ele quer que os bispos se expressem livremente. Não há questão tabu ou opinião que não possa ser manifestada. Ele convida a uma grande liberdade interior e exterior.

 

IHU On-Line - Que repercussões Francisco gera quando dessacraliza a figura do Papa? Qual o significado desses atos não solenes em seu pontificado?

Gilles Routhier - A renúncia de Bento XVI, em certo sentido, já dessacralizou a figura do Papa. Francisco persegue esse trabalho de outra maneira insistindo na simplicidade, na maneira de se vestir, de viver, de encontrar o outro, etc. Mais uma vez, ele quer ser servidor e romper de maneira definitiva com esta Igreja de corte — da qual ainda restam elementos, mesmo que Paulo VI tenha eliminado muitos — herdada da Renascença.

 

IHU On-Line - Como define a “teologia de Francisco”?

Gilles Routhier - A teologia não é, provavelmente, sua maior preocupação ou seu maior interesse. Dito isso, não devemos pensar que ele não tem uma reflexão profunda. Sem dúvida, ele apreende as coisas a partir de um ponto de vista pastoral (atenção à pessoa concreta) e de um ponto de vista espiritual, espiritualidade muito cristocêntrica.

 

IHU On-Line - Como detectar os principais conceitos que norteiam a “teologia de Francisco”? Quais são eles e como compreendê-los?

Gilles Routhier - Eu não sei se se trata de conceitos teológicos ou se podemos falar de “teologia de Francisco”. Para ele, a relação conta muito. É um conceito ou uma realidade: relação com Deus e com Cristo, relações com os outros, aqueles que estão longe e os pobres, em particular. Podemos também tomar outros conceitos, mas é preciso conceituar o que é sempre concreto para ele e que realça a vida: despojamento, humildade e simplicidade, serviço, saída para os outros, etc.

 

IHU On-Line - Que postura o Papa assume diante de temas polêmicos como o sacerdócio exercido por mulheres, as relações homoafetivas, o uso de métodos contraceptivos, o celibato, o divórcio e a união de casais divorciados, entre outros? Que aberturas ele propõe e aonde ele quer chegar com essa postura?

Gilles Routhier - Ele conseguiu devolver a sua dignidade a essas pessoas, não encerrá-las em categorias, mas reencontrar as pessoas concretas que são dignas. Ele não aborda as coisas a partir de categorias ou problemas, mas a partir de pessoas a encontrar, com quem dialogar, pessoas a animar, pessoas feridas e que podem ser tocadas pela misericórdia. Depois os debates se afastam da sua perspectiva, porque eles transformam os homossexuais ou as mulheres em categorias gerais, “seres de razões”, abstrações. Para Francisco, não é isso. Ele parte da misericórdia de Deus dirigida às pessoas concretas. É nesta perspectiva que ele nos convida a situar as coisas, uma perspectiva relacional, e não no contexto de um debate teórico onde se fala de leis, do que é permitido e proibido e debates nos quais as pessoas e a misericórdia estão ausentes.

Leia mais...

- Vaticano II: bússola confiável para conduzir a Igreja rumo ao terceiro milênio. Entrevista com Gilles Routhier publicada na IHU On-Line 401, de 03-09-2012. 

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